Hoje é dia 1 de Janeiro. Lá fora, ainda há os ecos do fogo de artifício. E começou um novo ano, 9 anos desde que o novo milénio iniciou (nunca esquecer que não houve ano 0, houve o ano 1 AC seguido pelo ano 1 DC).
E agora, como na segunda metade do século passado, o ser humano vive imerso num mundo dominado por computadores e máquinas sofisticadas. De uma forma tão profunda e intensa que as gerações mais novas nem conhecem nem imaginam como era a vida anterior ao surgimento dos computadores...
É algo tão presente na nossa vida moderna, que muitas vezes nem se questiona exactamente de onde vieram os computadores. A começar pela própria palavra que, em português, usamos para estas ubíquas máquinas sem as quais o Cognosco não existiria.
Os computadores fazem cálculos, a enorme velocidade. Porque não são chamados «Calculadores»? Porquê «Computadores»? Computar é bastante fácil de entender:
é... aquilo que os computadores fazem...
Cômputo é, assim o dizem os dicionários,
Daqui veio a palavra «computar» e «computador». O nome destas máquinas que tanto moldaram a segunda metade do passado século e prometem moldar a primeira deste (pelo menos) está ligada à Páscoa...
Mas o que tem o cálculo da Páscoa assim de tão complicado que precisa da sua própria palavra (e até a criação de uma classe profissional chamada «Computadores», que eram as pessoas responsáveis por esse cálculo na Idade Média)?
Bem, «Páscoa» vem do hebraico Pesach que significa «Passagem» e é a data na qual os Judeus celebram a Fuga do Egipto liderados por Moisés. A Passagem refere-se à passagem de Jeová (e não do Anjo da Morte como erradamente se pensa) pelo Egipto, matando todos os primogénitos nas casas que não tivessem sangue de cordeiro na porta como sinal de pertencerem a uma família hebraica. Foi, de acordo com a Bíblia, a última das 10 pragas e matou todos os primogénitos egípcios, incluindo o filho do Faraó.
Foi isto que celebravam os Apóstolos na Última Ceia, pois todos os 14 comensais eram Judeus.

Desde o Primeiro Conselho de Niceia (em 325 DC), a Páscoa é celebrada no primeiro domingo após o equinócio de Março (equinócio vem do Latim equi «igual» + nox «noite», que são os dois dias em que a duração do dia e da noite são aproximadamente iguais, marcando o início da Primavera e o Outono). Esta é a Lua Cheia Pascal, importante em muitos calendáros. Um mês lunar é o tempo que medeia entre duas luas cheias e corresponde a 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 2,8 segundos (29,53059 dias). Ora esta disparidade entre o mês lunar e o mês civil que usamos (do Calendário Gregoriano) leva a que o mês lunar não corresponda ao mês habitual. Pode-se estar permanentemente a olhar o céu, para verificar quando ocorre o Equinócio e a primeira lua cheia é complicado e sujeito a erros de observação (basta que esteja mau tempo, a lua esteja encoberta por nuvens, ou imprecisão no cálculo da duração do dia...) para que a precisão requerida se perca.
Por meio de alguns cálculos complexos (dai o «computadores» humanos), era possível calcular quando esse primeira lua cheia após o equinócio se dava. Assim, em vez do que poderíamos esperar se as línguas humanas fossem definidas e criadas conscientemente, os computadores assim se chamaram em vez de calculadores, ainda que sejam basicamente sinónimos. A palavra cálculo em si mesma, vem do latim Calx (pedra de cal), da qual Calcis é o diminutivo. Daqui obtiveram-se várias palavras como calcar, calcanhar, cálculos (as pedras dos rins),... O diminutivo de calx é calculi, como as pedras que eram usadas originalmente nos ábacos e a a palavra acabou por deseignar a actuividade de fazer operações matemáticas. Antigamente, antes de haver computadores, usavam-se instrumentos como o Ábaco para auxiliar as contagens.
Nesta reconstrução de um Ábaco romano, é possível ver várias filas com esferas. Há 3 conjuntos principais de filas, uma superior com apenas uma esfera, uma fila maior em baixo com quatro esferas cada uma (excepto a última com cinco) e uma fila mais à direita com uma ou duas esferas. Lembrando a numeração romana:
I representa 1, V representa 5, X representa 10, L representa 50, C representa 100, D representa 500, M representa 1000. Combinando os símbolos, é possível representar uma grande gama de números (ainda que números maiores ou mais complexos resultem em arranjos difíceis (
Olho pela minha janela e, lá fora, vejo uma bandeira
portuguesa drapejando ao vento. O seu verde imaculado
reflectia-se nos extensos campos à sua volta e o seu ígneo
vermelho no sol que se punha ao longe.
Mas de onde vieram estas cores? Porque foram estas as escolhidas para a bandeira? Ao longo dos seus, feitos em 2009, 881 anos de vida (870 anos se se contar a partir da aprovação papal), Portugal teve várias bandeiras. Pelo menos 15 bandeiras representaram este pequeno grande rectângulo plantado à beira-mar (podem ser vistas no final do artigo). Desde as bandeiras quadradas brancas com a cruz a azul dos primeiros Reis, à mesma mas com um rebordo vermelho com castelos, rectangulares com fundo totalmente branco ou com o fundo dividido numa parte azul e outra branca, até à actual vermelha e verde, várias bandeiras representaram este pequeno território que deu novos mundos ao Mundo.
A História de Portugal começa, paradoxalmente, no meio da actual França, algures no século IV. Durante as invasões hunas do Império Romano, no século IV, várias tribos germânicas, fugindo aos hunos, espalharam-se pelo Império Romano do Ocidente: os Francos no que viria a tornar-se a moderna França, Visigodos, Vândalos, Alanos na península ibérica. Outros povos se lhes juntaram como os Suevos e os Burgúndios. Os primeiros dirigiram-se para a Península Ibérica. Os últimos, vindos da Escandinávia, instalaram-se na região onde é a actual Dijon, perto dos Francos. Aí fundaram o seu reino, a Burgúndia, que existiu até ser anexada pelos reis francos da dinastia merovíngia (sim, a mesma que é referida no livro como tendo sido fundada pelos descendentes de Jesus).
A Burgúndia, que ocupava sensivelmente a região da Borgonha actual, manteve alguma da sua autonomia dentro do reino franco e tornou-se mesmo um ducado influente dentro do reino, tendo um dos Duques da Borgonha se tornado Rei dos Francos em 923. Da família real burgúndia viria a nascer, em 1035, Henrique, Duque da Burgúndia. Teve um total de 7 filhos, tendo o mais novo, nascido em 1066, recebido o nome do pai, Henrique. Como filho mais novo, nunca herdaria o Reino da Burgúndia, pelo que abandonou a sua casa, em 1090, para acompanhar o seu primo, Raimundo da Burgúndia, que se vinha casar com a filha mais velha do Rei de Leão e Castela de nome Urraca, com 12 anos. Tendo-se juntado a Afonso VI de Castela e Leão na Reconquista Cristã na Península Ibérica, Henrique destacou-se na luta contra os Mouros, a grande maioria não era Árabe. Árabes são os oriundos da Arábia e a maioria dos conquistadores muçulmanos, i.e., que professavam o Islão, eram oriundos de Norte de África, da região conhecida pelos Romanos como Mauritânia. Daí o nome do país e também o de Mauros, que se tornou em Mouros. Camões, nos Lusíadas, refere-se aos Mouros como Mauros e eis o porquê). Pelos seus feitos, Afonso VI deu-lhe a mão da sua filha bastarda Teresa (Tareja em Português arcaico) em casamento. O primo de Henrique, Raimundo da Burgúndia, casado com Urraca de Castela, tinha-se tornado Conde da Galiza, Conde de Portugal (Condado portucalense) e Conde de Coimbra. Afonso VI, como recompensa pelo valor de Henrique na Reconquista, separou, em 1093, a Galiza em duas: o norte ficou para Raimundo e o sul, o Condado Portucalense e o Condado de Coimbra, para Henrique. Desde essa altura que as duas regiões, o Norte de Portugal e a Galiza, partilham uma herança comum, reforçada pelo sangue de dois primos divididos.
Raimundo morreu em 1107 e Urraca tornou-se, em 1109, Rainha da Galiza, Leão e Castela, (a primeira mulher a tornar-se Rainha de um país ocidental) após a morte do príncipe herdeiro, Sancho, que morreu na infância, e do pai, em 1179. Ao longo do seu reinado, enfrentou problemas internos, com o ex-marido Afonso I de Aragão e com o cunhado, conde D. Henrique. Em 1125, a Rainha Urraca morreu, treze anos antes do seu sobrinho, D. Afonso Henriques, se ter proclamado Rei de Portugal.
D. Henrique usava, como estandarte na sua luta contra os Mouros, um escudo com uma cruz azul e fundo branco. D. Afonso Henriques, o Conquistador, que se proclamou Rei de Portugal em 1139 (após a Batalha de Ourique, na qual venceu um exército mouro numericamente superior) usou o estandarte do pai como o seu, acrescentando à cruz 5 escudetes (chamados também quinas) com 11 pontos cada. É difundida a ideia de que as 5 quinas representavam as «chagas de Cristo», que D. Afonso Henriques terá visto antes da Batalha, mas esta lenda foi criada muitos séculos após os acontecimentos. O mais provável, é que fossem apenas pregos adicionados aos escudos para os reforçarem deixados visíveis para evidenciarem o facto de D. Afonso Henriques, ao tornar-se Rei, passava a cunhar moeda própria (Escudetes num brasão indicam, em heráldica, que quem o enverga pode cunhar moeda, tendo dinheiro e independência política para tal).
Quando D. Sancho I, o Povoador, sucedeu a seu pai, tomou como sua a bandeira do pai, eliminando a cruz azul e deixando as 5 quinas. Foi esta a bandeira usada pelos reis seguintes, o seu filho D. Afonso II, o Gordo e o seu neto D. Sancho II, o Capelo.
D. Afonso II também é conhecido pelo cognome «o Gafa». Na Idade Média, as pessoas com Lepra eram chamadas de «leprosos», «lázaros» e «gafos». A Gafa da Oliveira (ver a página Gafa da Azeitona) é uma doença que atinge as oliveiras e em especial as azeitonas nas árvores e que lentamente destrói a azeitona a partir de uma depressão inicial provocada pela picada da mosca que transmite o vírus pela sua saliva, que é também o meio de transmissão de uma pessoa para outra. O aspecto acastanhado e rugoso que a azeitona ganha levou a que fosse aplicada aos doentes com Lepra e os hospitais para leprosos eram conhecidos como «Gafarias». D. Afonso II seria provavelmente leproso.
Em 1245, o Papa Inocêncio IV, através da bula Inter alia desiderabilia e Grandi non emmerito excomungou e depôs D. Sancho II, considerando-o um «rex innutilis» (governante incapaz) devido a conflitos com os interesses da igreja em Portugal. Então D. Afonso III, o Bolonhês, irmão mais novo de D. Sancho II, deixou o Condado de Bolonha, no norte de França (onde era conde por casamento), foi coroado Rei de Portugal. D. Afonso III subiu então ao trono e, não sendo o filho mais velho o anterior monarca, teve de utilizar a bandeira do pai com alterações (regras da heráldica). Incorporou então uma borda vermelha com castelos dourados. O significado dos castelos não é claro. Vários cronistas indicam que se trata da representação dos castelos mouros que Afonso III conquistou (sendo que o número referido é variável). Há também quem veja nos castelos dourados sobre fundo vermelho a alusão ao brasão do Reino de Castela: um castelo dourado sobre um fundo vermelho. Ou porque a sua mãe Urraca era de Castela ou porque casou (depois de se separar da Condessa de Borgonha) com uma infanta castelana, D. Beatriz. O número de 7 castelos foi apenas definitivamente estabelecido no século XVI.
A bandeira portuguesa não sofreu grandes alterações durante os aproximadamente 200 anos seguintes (cerca de 12 monarcas), desde D. Afonso III, o Bolonhês; passando por D. Dinis, o Lavrador (que mandou plantar o pinhal de Leiria e foi grande poeta); D. Pedro I, o Justiceiro (que mandou vingar a morte da sua amante D. Inês de Castro); D. João I, o da Boa Memória (por a ter deixado na mente dos seus súbditos, foi pai da Ínclita Geração e iniciou os Descobrimentos portugueses); D. João II, o Príncipe Perfeito (no seu reinado os Descobrimentos começavam a trazer prosperidadee felicidade a Portugal). A primeira alteração de vulto deu-se com D. Manuel I, o Venturoso (por ter tido a ventura/sorte de usufruir de todos os feitos do seu primo e predecessor D. João II), quando ascendeu ao trono, em 1495 (80 anos após o início da expansão portuguesa, com a conquista de Ceuta em 1415 por D. João I). A forma quadrada passou a uma forma rectangular com proporção 2:3 (ou seja, a cada 2 centímetros de altura da bandeira correspondem 3 centímetros de comprimento). Por comparação, as proporções dos ecrãs de televisão são 4:3 ou então 16:9; além disso, a borda vermelha com castelos dourados passou para o brasão central, tendo no centro as 5 quinas. Coroando o brasão, uma coroa representativa do facto de esta ser a bandeira de um reino. Quando o seu bisneto, D. Sebastião, o Desejado, morreu na Batalha de Alcácer-Quibir (ver mais pormenores em Um por todos e Ceuta aeterna dolor), Portugal teve, como bandeira, a bandeira espanhola.
Durante 60 anos, Portugal foi governado por representantes dos Reis espanhóis. Até que, a 1 de Dezembro de 1640, D. João IV, o Restaurador liderou uma revolta nacional e restaurou a independência (com algumas perdas territoriais, como Ceuta e o Império Português do Oriente, como visto em Nova e demónios), a bandeira portuguesa voltou a ser a que ea antes da perda da independência: fundo branco com um brasão central encimado por uma coroa. Em 1807, a família real portuguesa foge das invasões francsas, mudando radicalmente os destinos de Portugal (ver Jardins cor-de-rosa).
Um dessas alterações foi na bandeira portuguesa.
Residindo o rei no Brasil, o seu estatuto passou de colónia para reino e assim D. João VI passou a ser Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves. A esfera armilar, representativa dos descobrimentos portugueses e do Brasil e a cor azul foram inseridos pela primeira vez na bandeira nacional (desde D. Manuel I que a esfera armilar fazia parte do estandarte real ma não da bandeira nacional). Mas, na enorme reviravolta na história de Portugal que foi a Independência do Brasil e a subsequente Guerra Civil, duas facções lutaram pelo poder político: os Absolutistas, partidários de D. Miguel, e os Liberais, partidários de D. Pedro. Tendo-se exilado nos Açores, os Liberais não adoptaram a bandeira existente, introduzindo alterações: a esfera armilar desapareceu, a cor azul passou a ser metade do fundo de toda a bandeira, com o brasão central no meio das duas cores. Eventualmente o Liberais ganharam a Guerra Civil e a bandeira nacional passou a ser a bandeira liberal de fundo branco e azul, sem esfera armilar. D. Maria II assumiu a governação e a bandeira sofreria mais uma alteração: a cor azul passou a ocupar um terço (1/3) da bandeira e a cor branca dois terços (2/3), reflectindo o estandarte da marinha portuguesa.
E foi esta bandeira liberal a de Portugal durante os 76 anos seguintes, ao longo dos 6 últimos monarcas portugueses. A 5 de Outubro de 1910 foi instaurada a República em Portugal, depondo D. Manuel II, o Desventurdo (por ter tido o azar de ser o último Rei de Portugal e governar apenas 2 anos). Houve muitos debates sobre como deveria ser a nova bandeira nacional, já que a anterior tinha vários símbolos da Monarquia e o azul era a cor da Santa Padroeira de Portugal. Como os Republicanos eram laicos (defendiam a separação entre Estado e Igreja), foi nomeada uma Comissão para decidir como deveria ser a nova bandeira. Entre outros, faziam parte Columbano Bordalo Pinheiro (pintor e irmão de Rafel Bordalo Pinheiro, o criador da figura do «Zé Povinho»), João Chagas (jornalista), Abel Botelho (escritor) e Ladislau Pereira e Afonso Palla (líderes militares da Revolução).
Foi esta comissão que aprovou a bandeira nacional actual como a bandeira de Portugal. O azul e branco monárquico foi substituido pelo vermelho e verde republicano, a esfera armilar foi reintroduzida, a coroa desapareceu e mas as proporções 1/3 e 2/3 das cores da bandeira foram preservadas. O vermelho e verde (que eram simplesmente as cores do Partido Republicano que tinha feito a Revolução) foram justificados porque o vermelho foi considerado uma cor de conquista e alegria, a cor do sangue e representativa de vitória. O verde foi mais difícil de justificar, já que nunca tinha feito parte da bandeira nacional, tendo a comissão acabado por a justificar dizendo que, durante a revolução republicana de 1881, reprimida brutalmente pelas tropas monárquicas, era esta a cor da bandeira dos revoltosos republicanos, vencidos e exilados quando a tentativa de revolução falhou (29 anos depois é que a Revolução foi bem sucedidda). A esfera armilar é o símbolo dos Descobrimentos Portugueses, a época de ouro de Portugal e a época de maior orgulho na nossa História.
As cores da bandeira derivam da do Partido Republicano Português: o vermelho é uma das cores tradicionais do Federalismo Ibérico, uma ideologia Socialista-Republicana muito comum no início do século XX e que defendia a união política entre Portugal e Espanha; o verde era a cor que, segundo Augusto Comte, teórico do positivismo (doutrina filosófica muito cara aos mentores do PRP, designadamente Teófilo Braga), convinha aos homens do futuro, isto é, aos positivistas.
Em 1928, a Primeira República foi deposta, uma ditadura militar foi imposta e Salazar tornou-se ministro das Finanças. Em 1933, a Constituição foi alterada e o Estado Novo foi criado. Como qualquer outra Ditadura, como forma de se auto-justificar, auto-glorificar e desviar as atenções da população oprimida para símbolos exteriores à miséria da sua vida, a Censura foi implementada, a Religião e o Futebol foram manejados para limitar as vistas nacionais e o passado histórico foi subvertido. Algumas dessas manipulações sociais são abordadas em Cadeira Negra. Uma das pequenas subversões da realidade histórica deu-se com a justificação das cores nacionais: tendo a Primeira República sido o Regime extinguido pelo Estado Novo, as cores nacionais não poderiam ser associadas às do Partido do Regime anterior. Pelo que as explicações, que a maioria dos Portugueses ouviu na Escola Primária, passou a ser a de que o verde é a cor da esperança (para passar a mensagem subliminar que as dificuldades que as pessoas sentiam passariam) e de que o vermelho é a cor do sangue dos que e sacrificaram por Portugal (justificação para o carácter nacionalista do regime e incentivo para os jovens portugueses se disporem morrer na Guerra Colonial a exemplo dos heróis portugueses do passado).
E eis a História do símbolo nacional por excelência mas que se alterou ao sabor dos ventos da História e da Política que sopraram neste pequeno e velho jardim europeu...

Bandeiras de Portugal
Quando se fala na História recente de Portugal, o 25 de Abril de 1974 é incontornável. Quando ocorreu, terminou com um regime autoritário que vigorava desde 1933 (o mesmo ano em que os Nazis subiram ao poder na Alemanha). Como todos os regimes autoritários (sejam de inspiração de Esquerda ou Direita), manteve-se no poder limitando as liberdades das pessoas, censura, auto-promoção (geralmente falsa ou exagerada), xenofobia e intolerância para com opiniões discordantes ou simplesmente diferentes.
Um argumento que, muitas vezes, surge em conversas sobre esse período é o de que esse «senhor» nos «livrou da Grande Guerra» (referência à II.ª Guerra Mundial). Claro que não nos livrou de 13 anos de Guerra Colonial (1961-1974), em que o papel de Portugal no Mundo foi ridicularizado, em que uma geração inteira de jovens foi morta, mutilada e psicologicamente marcada, com os custos pessoais e sociais decorrentes. Também uma História de 900 anos foi denegrida e transformada em propaganda de Estado. Mas terá Portugal «sofrido» menos com a Guerra Colonial (13 anos) do que teria sofrido se tivesse entrado na II.ª Guerra Mundial (6 anos)?Fonte pormenorizada sobre os mortos e deficientes militares portugueses no conflito:
Guerra colonial - Estatística de feridos
Guerra colonial - Estatística de mortos
A ligação entre Portugal e o Reino Unido é curiosa, dado o laço histórico que os liga desde que D. João I casou com a princesa inglesa D. Filipa de Lencastre. Tal como Portugal na Guerra Colonial, o Reino Unido também não foi invadido (ainda que muitos civis tenham morrido nos bombardeamentos sofridos), tendo os seus soldados combatido fora do país (nas colónias ultra-marinhas que tinha e no continente europeu). Curiosamente até, Portugal iniciou a Guerra Colonial com armamento antiquado da II.ª Guerra Mundial. O Reino Unido foi um actor importante em todo o teatro da guerra (durante algum tempo esteve «orgulhosamente só» na oposição ao regime nazi que engolia sofregamente uma Europa continental cansada ainda da barbárie da I.ª Guerra Mundial. Uma grande diferença é o facto de Portugal não ter nem 9 milhões de habitantes durante a Guerra do Ultramar, enquanto o Reino Unido tinha menos mas perto de 48 milhões, o que torna os nossos números bem mais dramáticos, se compararmos o número de mortos e feridos com o total da população. Mas a propaganda salazarista só «lembrava» que Portugal não entrou na II.ª Guerra Mundial, «esquecendo» a barbaridade da Guerra Colonial, que dizimou uma geração de jovens portugueses, marcando-os para toda a vida, sem contar com a população africama que sofreu directamente o impacto da guerra. A única coisa «boa» de tudo poderá ter sido o facto de essa ser a semente que levou, em 1974, à queda deste regime cego ao sofrimento nacional, aos custos da sua teimosia e às consequências.
Indevidamente, depois de cobardemente brincar com Aliados (tendo em mente o tratado de Windsor que nos ligava ao RU) e com as Potências do Eixo (esse «senhor» era admirador dos regimes totalitários Nazi alemão e Fascista italiano), recebeu dinheiro dos EUA, no final da guerra, para ajudar na reconstrução pós-guerra. Portugal, que foi apenas ligeiramente beliscado pela ocupação da colónia de Timor Leste pelos Japoneses em 1942. Poderão dizer os mais afoitos admiradores desse «senhor» que receber indevidamente dinheiro que poderia ter sido usado para ajudar verdadeiras vítimas da barbárie nazi e do conflito militar na Europa foi uma jogada inteligente. Não foi inteligente, foi jogada de esperto saloio sem moral. E ainda fez de conta que recusou (e ainda há quem pense erradamente que recusou), para receber depois a fatia toda em 1951...
fonte: Wikipedia - Marshall Plan
Além disso, Portugal usufruía, no altura, das riquezas minerais do territórios que colonizou em África (Petróleo, Ouro, Diamantes,...). Dirão talvez, os que cegamente poderão advogar favoravelmente essa Idade das Trevas portuguesa que foi o Estado Novo: «Então foi para conservar essas riquezas em mãos portuguesas que fomos para a Guerra». Na verdade, tivesse Portugal dado progressivas autonomias às suas colónias, fomentado a educação e o desenvolvimento das populações sobre o seu jugo e teria continuado a usufruir, em níveis de progressiva maior igualdade, das riquezas das colónias (e eventualmente países irmãos) sem ter sacrificado uma geração inteira de valentes jovens portugueses (e gerações de valentes angolanos, moçambicanos, guineenses, cabo-verdianos). Em termos de Despesas Financeiras da Guerra (as Humanas são impossíveis de contabilizar), remeto novamente para a mesma excelente página virtual sobre a Guerra Colonial, desta vez para as despesas financeiras da Guerra Colonial (não lhe chamo «Guerra do Ultramar», porque essa é uma denominação do Estado Novo destinada a fomentar a ideia errada que os territórios em África eram Portugal, quando na verdade foram apenas terras que expropriámos aos seus habitantes).
De que nos «salvou» esse dito «senhor»? Estou para saber. Aproveitando a desordem social e económica do país após o regicídio de 1908, a instabilidade económica da desastrosa participação de Portugal na I.ª Guerra Mundial (ver Portugal de Primeira), transformou-se de Ministro das Finanças em 1928 em ditador português em 1933. Pelo caminho, isolou Portugal do Mundo, coarctou a inteligência nacional com efeitos que ainda hoje se sentem, pactuou com outros regimes ditatoriais para a expropriação de inocentes (o «ouro» que meteu ao bolso roubado às vítimas do Nazismo), militarizou e mutilou psicologicamente crianças com a sua Mocidade Portuguesa, meteu-nos numa sanguinária guerra contra povos que apenas queriam ter direito de estabelecerem o seu próprio rumo, matou dessa forma milhares de pessoas, roubou aos pobres para dar a uns poucos ricos, semeou desconfiança, xenofobismo e racismo, transformou a fantástica História de Portugal num mero fantoche para auto-promoção.