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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quinta-feira, 6 de Abril de 2006
Caminho
Encontro-me, neste momento, ausente de onde normalmente estou presente. E foi com choque que verifiquei que, em alguma altura há muito passada, um conto que escrevi no Cognosco se perdeu. Foi há tanto tempo que até nem consta de listas de artigos publicados que comecei a coligir talvez desde Abril do ano passado. Tentarei neste momento refazer esse conto. Naturalmente que muito será diferente, à excepção do núcleo básico da história. Todo o eu que fui ao longo deste ano se imiscuirá nele. Mas, se encontrar uma cópia do artigo original, talvez ainda o complemente. Talvez não. Talvez respeite a sua reencarnação actual como merecedora de individual sobrevivência. Recordo-me de ter criado uma imagem para o conto, lembro-me até de alguns comentários a ele deixado. Enfim, é tempo de espremer o pano e limpar as janelas...

Caminho por entre os campos da vida. Há muitos por arar, alguns já arados, alguns prontos para a colheita, outros para a sementeira, alguns (poucos) já abandonados.
Por entre todos esses campos que me compõem uma única estrada serpenteia sem fim à vista mas com a partida a pouca distância. Caminho por essa estrada de mente absorta.

À minha volta circulam muitos e coloridos sonhos. Alguns correm velozes, na inocente impaciência da juventude, alguns arrastam-se vagarosos, incertos do seu destino. Alguns são brilhantes, de cores garridas e chamativas. Outros são mais pardos mas de cores mais estáveis e tranquilizadoras. Alguns ultrapassam-me afoitos, esquecendo-me na pressa de se concretizarem. Outros andam tão chegados às minhas pernas que me atrapalham o andar.

Estando eu então absorto descubro, ao virar de mais uma reviravolta do meu caminho, um sonho parado no meio da estrada. Tem a atitude firme e resoluta de quem nem pondera poder ser ignorado e deixado para trás.

Páro então à sua frente, fascinado pelo iriscidente brilho com que me prende o olhar.
É um sonho como nenhum outro que já tinha visto, uma rosa despontada no meu caminho, um pássaro trinando pela minha atenção. Não parece ter só agora chegado, parece há muito me aguardar, sereno e confiante de que assim que o visse pararia.

E parei. E olhei. E finalmente agachei-me para o sentir entre as palmas da mão. Segurei-o com ternura mas firmemente entre as mãos...
Era tão agradável ao toque, tão inebriante nas emoções que me despertava que fechei as mãos e encostei-as ao peito. Quis tê-lo junto ao coração, quis vestir o calor confortável que libertava, quis fundir-me com o âmago que éramos em conjunto.

Mas assim que fechei as mãos o sonho, até então calmo e paciente, agitou-se, vibrou, protestou. Apertei mais as mãos, encostei-o mais ao peito com medo que fugisse. Mas mais o sonho se agitou, mais vibrou, mais protestou. Tal era a sua ânsia claustrofóbica que começava a magoar-me.

Foi então que me apercebi de que não podia mais ter as mãos fechadas, não podia mais prendê-lo a mim com medo de que fugisse. Não que a dor fosse demasiado grande para suportar (por um sonho até das mãos prescindiria). Era por temer o seu sofrimento que não podia mais suportar ter as mãos fechadas.

Vagarosa mas firmemente estendi os braços.
Vagarosa mas firmemente abri as mãos.
Lá estava o sonho, novamente calmo e resoluto. Levantou os olhos para os cruzar com os meus. Abriu as asas, não sei se para voar para longe se para me abraçar.

Sei é que só posso amar esse sonho se o tiver em liberdade.

Graças mais uma vez à ajuda atenta de «.», o mini-conto (lido em voz alta até rima...) perdido foi encontrado em Amo ergo liberto.


Publicado por Mauro Maia às 14:29
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19 comentários:
De . a 6 de Abril de 2006 às 17:20
Não querendo imiscuir-me em assuntos que não me dizem respeito, parece-me no entanto que o conto perdido se encontra disponível em:
http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/662963.html


De deprofundis a 6 de Abril de 2006 às 21:40
Li as duas versões. Ambas oníricas e algo poéticas. O mesmo cérebro, a mesma mensagem, mas duas codificações diferentes. Muito interessante!


De Mauro a 7 de Abril de 2006 às 15:13
Mais uma vez, «.», os teus olhos de «raposa flamejante» (é uma das poucas pessoas que me visitam que usam o firefox) ajudaram o Cognosco. Sem dúvida que o conto «perdido» é o «Amo ergo liberto» que referes. Essa é uma atenção que muito prezo e te agradeço. Procurei nos meses errados. Mas agrada-me igualmente esta nova versão, «deprofundis»... Se calhar seria de cogitar escrever novas versões dos (pocuos) mini-contos que aqui tenho deixado.


De intemporal a 18 de Abril de 2006 às 16:49
Pois continua aonde estás presente....e com alegria às resmas!


De . a 19 de Abril de 2006 às 18:27
Com efeito, o firefox deve ser o browser que uso com maior frequência. Mas por vezes também recorro a outros :-)


De PN a 20 de Abril de 2006 às 21:22
Espero que as férias tenham sido boas. Estou à espera dos novos artigos...


De Maria Papoila a 22 de Abril de 2006 às 16:51
Os sonhos querem-se livres Mauro, mas os nossos sonhos nunca nos deixam porque fazem parte de nós. Gostei muito do conto. Beijo


De ligia a 25 de Maio de 2006 às 12:28
Olá. Sou brasileira, passeando na net cheguei no seu blog. Bela surpresa, muita sensibilidade ao descrever. Me encantou. Parabéns. Ligia


De Mauro a 25 de Maio de 2006 às 19:20
Obrigado pelo apreço, «Lígia», e pela visita do outro lado do Atlântico. És sempre bem vinda no Cognosco.


De VR a 25 de Fevereiro de 2007 às 12:55
«Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca da nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.» (Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego')


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