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Diário das pequenas descobertas da vida.
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2006
La nourriture des dieux
Theobroma cacaoA Theobroma cacao é uma das árvores mais simpáticas do mundo:
~ não é excessivamente alta, com os seus entre 4 e 8 metros de altura com folhagem perene (isto é, no Inverno não perde as folhas e estas são sempre verdes).
~ surgiu inicialmente na América do Sul mas é agora plantada em qualquer zona tropical do mundo. Tornou-se mundialmente conhecida após a sua introdução na América Central pelos povos pré-colombianos e os Espanhóis a terem levado para a Europa sequiosa de novidades de outros Mundos.
~ produz grandes frutos, com em média 25 centímetros de comprimento e 10 centímetros de largura, laranja quando maduros e com meio quilo de peso. No seu interior há sensivelmente 50 sementes, cada uma contendo uma elevada quantidade de gordura vegetal e contendo Teobromina (o mesmo nome que a árvore que a produz).

Já anteriormente se falou na Teobromina (no artigo Cafea est optima amica).
A Teobromina é uma metilxantina, da mesma família que a Cafeína.
A etimologia da palavra é grega, sendo composta por duas palavras:
~ Theo «Deus» e Broma «Comida». A Teobromina, e mais especificamente o fruto que a produz, é a Comida dos deuses e assim era conhecida e apreciada pelos Maias e pelos Aztecas (para mais sobre os Aztecas ver Nex terrae)

É claro que a ninguém escapou de que se fala do Cacau e do produto por excelência feito dele, o Chocolate.
São as propriedades químicas da Teobromina e da sua família química que conferem ao chocolate as suas muito apreciadas qualidades estimulantes e elevadoras do espírito (claro que, para quem consome muito chocolate este efeito não é sentido, da mesma forma que quem bebe muito café não sente os efeitos estimulantes da cafeína). Mas, apesar de pertencerem à mesma família e terem algumas propriedades comuns, a Teobromina e a Cafeína são diferentes no modo de actuação: a Teobromina é um estimulante suave com efeitos prolongados enquanto a Cafeína é um estimulante forte com efeitos breves.

TeobrominaA Cafeína é uma trimetilxantina, enquanto a Teobromina é uma dimetilxantina. Isto significa que, em vez de ter 3 grupos metilos na sua composição química, só tem 2. O grupo metilo é um composto químico formado por um carbono e 3 hidrogénios que só existe ligado a uma molécula (só por si o CH3 não é estável, apenas o CH4, o metano). A diferença num grupo metilo explica algumas das diferenças entre as duas. No organismo a Cafeína (trimetilxantina) é inicialmente decomposta, pelo fígado, em 3 dimetilxantinas (sendo uma delas a teobromina).

Um dos seus efeitos menos conhecido mas mais importante prende-se com a sua toxicidade para animais como os cavalos, cães, papagaios, roedores e gatos (em especial os gatinhos). Há quem, num gesto com boas intenções, dê, aos seus animais, chocolates. Fazem-no correndo o sério mas inconsciente risco de os matarem. Estes animais não conseguem metabolizar a Teobromina, pelo que esta permanece no seu organismo por quase um dia inteiro podendo provocar ataques cardíacos, hemorragia interna e morte.
Por exemplo, para um cão com 20 quilogramas de peso:
~ com 250 gramas de chocolate de leite têm distúrbios intestinais;
~ com 500 gramas de chocolate de leite têm taquicardia (batimentos irregulares do coração);
O chocolate negro tem 50% mais teobromina do que o chocolate de leite, pelo que é mais perigoso para os animais de estimação.


Mas também têm benefícios para a saúde humana: o chocolate contém anti-oxidantes que ajudam a prevenir o envelhecimento prematuro e o cancro e a contribuir para o bom funcionamento do coração. Tem-se falado das propriedades benéficas para o coração do vinho tinto, devido ao seu teor de flavonóides (os anti-oxidantes) mas o chocolate tem mais flavonóides do que o vinho tinto. Conclusão?
Se conduzir não beba, coma um chocolate.

Alto relevo maia no museu de PalenqueAs primeiras evidências históricas do consumo de chocolate vêm de antes de 500 AC na América Central. Os Maias (esse meu homónimo povo há muito merecedor de um artigo do Cognosco), inventores do zero, astrónomos, construtores exímios com apenas ferramentas de pedra, descobriram o cacau na cordilheira dos Andes, na América do Sul, e levaram-no para a América Central. Como descrito em Nex terrae</i>, os Aztecas não eram originários da América Central. A grande potência meso-americana eram os Maias, mas a sua civilização decresceu de importância e desapareceu antes do ano 1000 DC, antes da chegada dos Espanhóis em 1519. Os Aztecas assumiram algumas das tradições maias, sendo uma delas o consumo de uma bebida feita com sementes de cacau (sementes de cacau dissolvidos em água). Os Aztecas chamavam a essa bebida xocolatl, das palavras aztecas xocolli «amargo» e atl «água». O chocolate não era adoçado com açúcar (como se faz modernamente) e era dissolvido em água (daí o seu nome de «água amarga»). Esta bebida era muito apreciada pelas suas propriedades estimulantes (fornecidas pela teobromina) quer pelos Maias quer depois pelos Aztecas, que a tomavam ritualmente antes de uma guerra. Ao xocolatl eram, por vezes, adicionados pimentos picantes.
(Ora aqui algo que choca com a noção moderna de chocolate: não só não era doce como era picante!)

Quando Colombo chegou à América levou, aos reis espanhóis, algumas sementes de cacau mas a bebida de que era feito não ficou conhecida na Europa imediatamente. Só mais tarde chegou ao «velho» continente, porque a bebida azteca era amarga e diferente dos gostos adocicados dos europeus. Só aos poucos começou a ser apreciada, da mesma forma que na América Central. Era um «gosto adquirido», um pouco como a cerveja, que só ao fim de provar algumas se aprecia e gosta. Somente em 1585 foi enviado o primeiro carregamento de chocolate para a Europa. Os Europeus também a bebiam como «chá de café» (água quente com grãos de cacau muito dissolvidos) mas substituíram o pimento picante por baunilha e acrescentaram açúcar e leite para disfarçar o sabor amargo da bebida.

No século XVII Turinby Doret criou o primeiro chocolate sólido, em 1819 Cailler criou a primeira fábrica de chocolate suíço e em 1828 Van Houten inventou um processo pelo qual o sabor amargo era retirado ao chocolate.
Mas foi o inglês Joseph Fry que, em 1847, criou a primeira barra de chocolate e pouco depois o mesmo fizeram os irmãos Cadbury (cujo nome dispensa apresentações). Finalmente, em 1867, os suíços Daniel Peter e Henri Nestlé criaram o primeiro chocolate de leite.

Curiosamente, tendo em conta a sua origem sul-americana, a Theobroma cacao é agora principalmente plantada em África. 40 % da produção mundial vem da Costa do Marfim (este país africano tem muitas ligações ao passado dourado de Portugal. A ver, num artigo próximo...), o Gana (também em África) produz 15 %, a Indonésia (entre a Ásia e a Austrália) produz outros 15 % e os restantes 30 % dividem-se por alguns outros países (Brasil, Nigéria, Camarões,...).

No título a minha periclitante tentativa de recordar o francês liceal:
«A comida dos deuses»

Obrigado à Pauxana pela correcção ao francês inicial do título.
Está já correcto e mais uma vez os teus olhos de lince ajudaram o Cognosco.

Dedicado a quem Sabe Onde Fica o Intenso Amor...


Publicado por Mauro Maia às 10:18
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16 comentários:
De Nox a 28 de Fevereiro de 2006 às 20:18
Um artigo... hmm... saboroso...! Dá vontade de comer uma grande tablete de chocolate e acompanhar com um café quente, forte e sem açúcar. E que dedicatória enigmática... ;-)


De Mauro a 28 de Fevereiro de 2006 às 22:06
E aquele conjunto de rectângulos de chocolate negro, branco, de leite, com cereais, ... Dá contade de provar um por um...


De Nox a 28 de Fevereiro de 2006 às 22:57
Às custas do artigo já tive que ir comer chocolate...! E ainda fiquei com vontade de mais... :-)


De Mauro a 28 de Fevereiro de 2006 às 23:02
Ai essa teobromina... ;) Se os deuses gregos castigaram Prometeu por ter dado aos homens o fogo divino, pelos vistos os deuses aztecas, apesar de sanguinários, eram mais tolerantes e não se importaram de partilhar a sua comida, num estranho Jantar de acção de graças que decorreu muito antes de este ser inventado nos EUA...


De Nox a 1 de Março de 2006 às 01:10
Teobromina e cafeína são mesmo comigo... :-) Chocolate e café são duas das minhas perdições. Gostei de saber, finalmente, porque é "contra-indicado" dar chocolate a animais de estimação, como já me tinham dito tantas vezes e nunca mo sabiam justificar. E também é bom saber que o chocolate tem anti-oxidantes - assim o remorso é um pouco menor quando se come uma tablete inteira de seguida... ;-)


De Mauro a 1 de Março de 2006 às 09:30
Agora já se pode aconselhar «Se cogitar não beba, coma um chocolate» Preserva a saúde de forma dupla: não provoca acidentes rodoviários e protege o coração e do cancro...


De Maria Papoila a 2 de Março de 2006 às 19:30
Mauro, que artigo tão doce... Fiquei a perceber porque gosto mais de chocolate negro...( e eu devia sabê-lo). Gostei da recomendação... que deveria ser utilizada nas campanhas de prevenção rodoviária... Pensei noutra..."Se conduzir, coma ou beba um chocolate". Beijo


De Mauro a 2 de Março de 2006 às 20:51
«Se cogitar coma um chocolate», o Cognosco agradece ;) Pela doçura que os cogitadores por aqui deixam, a teobromina anda por aí...


De PN a 2 de Março de 2006 às 22:19
"La nourriture des dieux", em francês correcto, la nourriture du peuple... Au le merveilleux et mauvais chocolat!


De Mauro a 3 de Março de 2006 às 10:15
Obrigado, «PxN», pela correcção ao título e o artigo já está corrigido nesse ponto. «la nourriture du peuple... Au le merveilleux et mauvais chocolat!» A comida do povo... Ou o maravilhoso e o terrível chocolate! Espero que o meu Francês do 9º ano não me tenha deixado mal...


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