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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006
Ante mortem vivetes

Já todos (?) ouviram falar de «verdades lapalissianas» ou lapalissiadas. É referida como a «lapalissiada» original «Quinze minutos depois de morrer estava morto» (ou alternativamente «Quinze minutos antes de morrer estava vivo»). São afirmações cuja evidência é tão óbvia que se tornam ridículas quando afirmadas («o contrário de estar morto é estar vivo» seria um outro, contemporâneo, exemplo).

 

Sabe-se que as verdades «lapalissianas» estão ligadas a um senhor de nome «La Palisse» (ou «La Palice»), mas poucos saberão quem foi esse dito senhor, se sequer foi fisicamente alguém ou se foi alguma personagem literária e de existência meramente artística e ilustrativa de algum argumento. Município de Pavia, região da Lombardia Mas Jacques de la Palisse existiu realmente, tendo nascido em 1470 na França e morrido em Pavia (município da região italiana da Lombardia), em 1525.

 

La Palisse foi um nobre francês, fazendo parte do exército francês como Marechal. O seu nome completo era Jacques II de Chabannes, Senhor de La Palisse, de Pacy, de Chauverothe, de Bort-le-Comte e de Héron, títulos que dão uma ideia sobre a importância de La Palisse na corte francesa da altura.

 

Em 1470, quando nasceu, a Guerra dos Cem anos já tinha terminado (este é o nome colectivo dado pelos historiadores a um conjunto de conflitos intermitentes entre a Inglaterra e a França ao longo de 116 anos, entre 1337 e 1453), D. Afonso V tinha conquistado a cidade africana de Arzila (abandonada depois por D. João III, em 1549, devido a uma crise económica) e o Império Bizantino foi finalmente derrotado e conquistado pelos Otomanos, um povo de religião muçulmana, que fundaram o Império Otomano (de que a Turquia moderna é o diminuído sobrevivente).

Para mais sobre o Império Otomano ver os artigos:

~ Parténon sobre os Otomanos e a quase destruição deste monumento grego;

~ Míngua sobre a origem otomana do Quarto Crescente muçulmano;

~ Croissant sobre a sua ligação indirecta aos Otomanos;

~ Capuccino sobre a introdução do café e do capuccino na Europa;

~ Um século sobre as ligações indirectas do Império Otomano ao terrorismo árabe;

 

Quando La Palisse tinha 17 anos (1487), Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas (passando então a ser designado Cabo da Boa Esperança), quando tinha 28 anos (1498) Vasco da Gama chegou à Índia e tinha 30 anos (1500) quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. La Palisse cresceu durante a expansão marítima portuguesa e morreu quando Portugal era uma das maiores potências europeias.

 

Mas, na altura, apenas Portugal (e a Espanha) tinha os seus olhos virados para o oceano e para as riquezas que, para além dele, os aguardava. Nessa altura, a Europa vivia mergulhada em agitação e todos os seus recursos económicos e humanos eram delapidados pelas sucessivas guerras e pela Peste Negra que então grassava pelo continente.

 

Na altura, o Papa era o governante dos Estados Papais, que englobavam bem mais do que é hoje o Vaticano, no centro de Roma, e bem mais do que a própria cidade de Roma. Os Estados Pontifícios foram criados em 756 DC e só terminaram em 1870. Em 756 DC, era Papa Estêvão II e o rei dos francos (a actual França), Pepino o Breve, doou à Igreja Católica os territórios no norte da Itália (por ter sido ludibriado pela Igreja com um documento falso que afirmava que os territórios tinham sido há muito concedidos à Igreja Católica por Constantino, imperador romano).

 

A doação incluía terrenos que iam da costa ocidental (com a cidade de Roma, a capital) até à costa oriental, com a cidade de Ravena. Na altura existiam vários estados independentes na península itálica, que constantemente se guerreavam. Os Estados Papais, por estranho que aos olhos modernos o conceito possa parecer, envolviam-se também nas lutas de poder e domínio militares.

 

Papa Clemente VIIEm 1525, o Papa Clemente VII (de nome Giulio di Giuliano de Medici) entrou em conflito com o Imperador Carlos V. Este era duplamente imperador do Sacro Império Romano Germânico (Império que durou do século X até ao inicío do século XIX e formado por vários reinos, cada um governado por um príncipe autónomo do Imperador) e também Rei de Espanha (e as terras do sul da Itália e ainda os Países Baixos), onde era conhecido como Carlos I. A discórdia surgiu por causa das possessões que este tinha na península (que incluíam Nápoles e a Lombardia). Aliaram-se então os Estados Papais e a França de Francisco I. Contra essa aliança, combatiam a Espanha e o Sacro Império Romano Germânico (apesar de terem um imperador comum, Carlos V, este só governava sem limites a Espanha, pois tinha o seu poder limitado pelos príncipes germânicos). Pode-se, dessa forma, fazer a destrinça entre a Espanha de Carlos V e o Sacro Império Romano Germânico de Carlos V. 

 

Como manobra militar, Francisco I (da França) dirigiu-se para a península itálica, com um exército de 25 mil homens, para a conquista dos territórios germânicos. Inicialmente, os franceses conquistaram a cidade de Milão e avançaram para Pavia, a 30 Km de distância a sul (ambas pertencentes ao Sacro Império Romano, i.e., os germânicos). Lá chegados montaram cerco à cidade, protegida por 6 mil homens. Foi durante o cerco que chegaram os exércitos da Espanha e do Sacro Império, com um total de perto de 23 mil homens, que atacaram na noite de 23 de Fevereiro. Apesar de inicialmente vitoriosas, as forças francesas foram aniquiladas e o rei francês foi feito prisioneiro. Morreram 12 mil soldados franceses e apenas 500 entre os aliados Espanha e Sacro Império.

 

Uma das vítimas francesas da Batalha de Pavia foi o marechal La Palisse.

 

As suas tropas, após a sua morte, composeram um música em sua honra.

 letra da música incluía a frase «S'il n'était pas mort, il ferait encore envie»

(Se ele não estivese morto faria ainda inveja)

 

Mais tarde esta linha da música foi erradamente transcrita como:

«S'il n'était pas mort, il serait encore en vie»

(Se ele não estivesse morto estaria ainda vivo)

 

Bernard de la Monnoye viria a adaptar mais tarde a música incluindo a frase distorcida. Foi dessa forma que a frase se celebrizou.

 

O que foi criado para homenagear La Palisse agora ridiculariza-o.

 

Carlos V abdicou em 1556 e dividiu o seu Império por duas pessoas: as possessões espanholas ficaram para o seu filho, Filipe II (o famoso Filipe I de Portugal, fundador da dinastia filipina de 60 anos em Portugal) e o Sacro Império Romano Germânico para o seu outro filho, Fernando I. Castelo de La Palisse O Castelo de La Palisse ainda existe e pode ser visitado. Para mais informações sobre o castelo, horários e preçários ver (em inglês) Château de La Palice No título «Antes de morrer estava vivo»



Publicado por Mauro Maia às 18:16
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14 comentários:
De marius70 a 17 de Fevereiro de 2006 às 00:20
Olá Mauro. Depois de ler este teu artigo sobre La Palisse lembrei-me de um teste que se fazia que era o passa palavra. Passava-se palavra ao ouvido do parceiro que estava ao lado e este ao outro parceiro e assim sucessivamente. Quando a palavra chegava ao fim e voltava a quem a primeiro tinha dito já nada tinha a haver,somos todos Bernard de la Monnoye e, como diria La Palisse, se fosse hoje vivo, de Sofhia Loren nos seus bons belos tempos: 10' antes de entrar... já estava entrando! :) Um abraço e desculpa este devaneio.


De Mauro a 17 de Fevereiro de 2006 às 22:43
Entendo bem o devaneio que referes... Lembrome também desse jogo (que penso nunca ter jogado, mas não posso afiançar). Mas deve ser curioso escutar o que o acumular de interpretações de palavras proferidas em surdina pode criar. Obrigado, «marius70», por por cá teres passado e deixado um «olá». Eu peço desculpa não ter visitado nos últimos dias o teu (na verdade não tenho visitado nenhum para além do meu). Este semana, além das questões pessoais, das questões informáticas, juntaram-se questões profissionais que retiraram muita da minha disponibilidade. Além disso perdi a lista dos blogs que visitava. Tenho, este fim-de-semana, de a refazer e redimir-me perante os seus autores. Um abraço.


De deprofundis a 19 de Fevereiro de 2006 às 00:09
... Ou como diria o Antigo Presidente Américo Thomaz: "esta é a primeira vez que aqui venho depois da última vez em que cá estive"
Só um pequeno reparo. É de uso corrente chamar "nobres" aos fidalgos, mas nobreza e fidalguia são coisas bem diferentes. Nobre é aquele que não se deixa corromper, tal como o ouro. E a História tem mostrado que de nobres os fidalgos (quase todos) tinham pouco. A bon entendeur...


De Mauro a 19 de Fevereiro de 2006 às 00:19
Sem dúvida, «deprofundis», nem todos os fidalgos seriam nobres. Mas provavelmente, tendo em conta que as suas tropas lhe fizeram um música de homenagem quando morreu, alguma nobreza de carácter teria...


De Inka a 27 de Junho de 2007 às 10:33
Olá!
Apareci por acaso. Hoje de manhã ouvia rádio e alguém dizia "uma verdade de La Palisse". Já tinha ouvido imensas vezes a expressão e não sabia o sentido. Hoje disse basta! vou saber quem é este senhor. Obrigada pela explanação, está muito interessante.

Inka


De Mauro a 28 de Junho de 2007 às 08:24
Foi, «Inka», exactamente por essa razão que escrevi o artigo: também eu, por várias vezes, ouvi a expressão «verdade de La Palisse», sem que quem a usava soubesse exactamente quem este senhor tinha sido. Investiguei então e eis o que encontrei: um marechal amado pelas suas tropas, que o homenagearam com uma canção de louvor que foi distorçida depois. Um honra tornada uma desonra...


De Thiago a 25 de Agosto de 2007 às 16:16
Olá. Cheguei até este site porque procurava um mapa dos Estados Papais. Embora não tenhamos esta expressão aqui no Brasil, achei muito interessante o seu trabalho de pesquisa. Está de parabéns. Vou mostrar a confusão que uma tradução mal feita pode ocasionar aos meus colegas de francês. Abraço!


De Mauro a 25 de Agosto de 2007 às 17:19
Ainda bem, «Thiago», que achaste o artigo útil. A expressão tem origem francesa (de onde era originário La Palisse) e penso que será comum a muitas línguas. Certamente, no Brasil, mesmo não sendo muito usada em termos populares (tal como, aqui, em Portugal, não é muito) não deixa de existir e ter relevância. Certamente que agora, caso surja, não há dúvida do que significa e da deturpação que esse sentido tem. É que há duas realidades contrastantes aqui: quem a usa e quem sabe a sua origem. A intenção de quem a usa é transmitir a ideia de que se trata de uma frase/idei óbvia demais para ser relevante. Mesmom tendo em conta que não corresponde à verdade e que contém uma injustiça, numa conversa/texto é a intenção que deve prevalecer. Claro que, havendo a possibilidade e o interlocutor for alguém disponível para ouvir e alargar os seus conhecimentos. Ao longo da minha curta vida, já percebi que, muitas vezes, mais vale calar do que esclarecer. Só a algumas pessoas, que têm uma personalidade suficientemente segura e curiosa, é que compartilho o que vou sabendo. Não é uma má-vontade minha nem sou eu armado em grande mestre que vê os outros como ignorantes, simplesmente fazê-lo sistematicamente geralmente só traz dissabores, pelo menos aqui em Portugal. Espero que aí, no Brasil, as coisas sejam diferentes e que o conhecimento seja considerado um elemento de boa-educação tanto como dizer «Bom dia». Aliás, o Cognosco eu criei (e mantenho) porque só lê quem quer ler, eu não forço nada. Quem cá chega chega porque quer chegar e saber. Obrigado pelas palavras, sempre dão mais alento para continuar.


De PALAVROSSAVRVS REX a 9 de Setembro de 2007 às 03:50
It's so nice for me to have found this blog of yours, it's so interesting. I sure hope and wish that you take courage enough to pay me a visit in my PALAVROSSAVRVS REX!, and plus get some surprise. My blog is also so cool! Don't think for a minute that my invitation is spam and I'm a spammer. I'm only searching for a public that may like or love what I write.

Feel free off course to comment as you wish and remember: don't take it wrong, don't think that this visitation I make is a matter of more audiences for my own blogg. No. It's a matter of making universal, realy universal, all this question of bloggs, all the essential causes that bring us all together by visiting and loving one another. However...

Some feel invaded and ofended that I present myself this way in their blogs and rudely insult me back.
Some think I'm playing the smart guy who wants to profit, in my miserable and ridiculous gain with Adsense (go figure!), from and with others curiosity and benevolence.
Some simply ignore me.
Some aknowledge that It's most important we all take notion that there's milions of us bloguing arownd the world and thus vital any kind of awareness such as I believe this my self-introduction card and insert apeal brings in.

May you be one of those open and friendly spirits.

You must not feel obliged to come and visit me. An invitation is not an intimation. Also know that if you click on one of my ads I'm promised to earn a couple of cents for that: I would feel happy and rewarded (because I realy need it!!!) if you did click it, but once again you're totaly free to do what ever you want. I, for instance, choose immediatly to click on one of your ads, in case you have them. To do so or not, that's the whole beauty of it all, however, blogocitizens must unite also by clicking-helping eachother when we know cybermegacorporations profit from our own selfishness regarding to that simple click.

About this I must say, by my own experience, that no one realy cares (maybe a few) about this apeal I make, still I believe in my Work and Dreams and thus I'll keep on apealing and searching so strong is my will.

I think it's to UNITE MANKIND that we became bloggers! Don't see language as an obstacle but as a challenge (though you can use the translater BabelFish at the bottom of my page!) and think for a minute if I and the rest of the world are not expecting something like a broad cumplicity. Remenber that pictures talk also. Open your heart and come along!!!!!


De Mauro a 9 de Setembro de 2007 às 11:36
Well, «Palavrossavrvs Rex», I must say that I've visited your blog. This does, as you refer, look like a publicity action. But I try, in life, to be fair and give most people the benefit of the doubt. It did strike me as odd that you write a portuguese based blog and have put a comment on my own in english. Best of luke to you and your blog. From my experience, the only way a blog can strive and grow is if it's author has something too say (not just to write a few gags) and if he's true with it's readers. Have interesting things to say and respect those who read you and you'll do fine.


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