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Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 5 de Fevereiro de 2006
Composição
Já foram abordadas, no Cognosco, algumas questões prementes que se relacionam com a bela língua com que tivémos o prazer de nascer e crescer: o Português.

E falo de prazer e honra plenamente consciente que muitos são os que a tratam com desdém e com sobranceria ignorante.



A par dos clamorosos erros no uso do Português há também uma categoria de divulgadores de erros cuja intenção poderá ser positiva mas que tem consequências nefastas.

Falo das «correcções» incorrectas ao Português falado feitas sem a correcta percepção do que se está a querer corrigir.



Falo de situações que levantam tanto dúvidas como esclarecimentos incorrectos do tipo:

«E se te oferecem flores? Teria aceitado.»

Por provavelmente repetição, muitas pessoas teriam corrigido para «Teria aceite.»

Parece soar melhor (por repetição da incorrecção. Mentiras repetidas muitas vezes tornam-se verdades, numa curiosa transformação intelectualmente difícil de compreender - a transformação de algo no seu completo oposto.



Este tipo de construções verbais, em que dois verbos se combinam harmoniosamente como dois amantes separados que após anos se reencontram, chama-se tempo verbal composto.



Geralmente os verbos são usados com um tempo simples (Eu vou à loja e comprarei fósforos). Mas há ocasiões em que é necessário articular dois verbos para compor correctamente uma frase.

Usa-se, nestes casos, verbos auxiliares associados a um verbo principal no particípio passado.



Como exemplos de verbos auxiliares há ter, haver, ser, estar, ficar

~ Eu tenho escapado à tristeza;
~ Ele havia aberto a compota;

~ Se quiser, sou expulso do clube;

~ Tu estás liberto;

~ Ela ficou magoada;




Há duas formas de particípios passados para um dado verbo: a forma regular e a forma irregular.

O Particípio passado regular é formado pela junção do sufixo «ado» ou «ido» (Matar - matado; limpar - limpado);
O Particípio passado irregular não tem, claro está, regra de formação (Matar - morto; limpar - limpo);



Quando o verbo auxiliar é ter ou haver o verbo principal assume o particípio passsado regular (Eu tenho passado pela loja; Ele havia libertado os prisioneiros quando cheguei)



Quando o verbo auxiliar é ser ou ficar ou estar o verbo principal assume o particípio passado irregular (Eu sou afligido por preocupações; Ela ficou acesa; Tu estás completo)



Ora o Particípio passado do verbo aceitar é aceitado na forma regular e é aceite na forma irregular.

Portanto, na frase «Eu teria aceitado» o verbo auxiliar é «ter» e como tal o verbo principal assume a forma irregular.

Dizer «Eu teria aceite» é incorrecto face a esta regra.



Mas há verbos que têm apenas o particípio passado irregular, verbos como:

~ Abrir (aberto) ; Cobrir (coberto); Dizer (dito); Escrever (escrito); Fazer (feito); Pagar (pago); Pôr (posto); Ver (visto); Vir (vindo);...



Estes verbos, independentemente do verbo auxiliar, são sempre usados no partícípio passado irregular (uma vez que não há a forma regular).

Como exemplos da aplicação desta regra:

~ Eu tenho aberto as minhas perspectivas de vida; (ter+p.p. irregular)

~ O meu treino está completo e tenho completado o meu horário (estar+pp irregular; ter+pp regular)

~ Ela haveria apreciado as flores; (haver+pp regular)



Outro problema que surge às vezes com os tempos verbais compostos é a conjugação do verbo auxiliar Haver.





É por este desconhecimento que, por vezes, surgem verdadeiros atentados como «eles hadem vir.» Como facilmente se pode constatar, a forma correcta é «Eles hão-de vir.»



Fazendo então um resumo breve,

Ter e Haver - verbo principal no particípio passado na forma regular (ado, ido);

Ser, Ficar e Estar - verbo principal no particípio passado na forma irregular;



Para mais sobre estas questões do Português, consulte-se o didáctico e interessante blog Em Bom Português, onde, entre outras questões, se encontra abordada a questão dos tempos verbais composto no seguinte artigo.



Um outro verbo, utilizado noutros tipos de conjugações verbais compostas, é o verbo «Poder». Saber quando é «poder» e quando é «puder», quando se usa «o» ou «u» é um problema diário para muitas pessoas. A regra geral é que se deve usar o «o» excepto nestes 4 tempos verbais:




Assim, correctamente escrever-se-á: «Eu vou poder ir à festa» e «Quando eu puder ir à festa".

Em caso de dúvida opta-se pelo «o», excepto nos tempos verbais, do Modo Indicativo : Pretérito-perfeito (pude) e Mais-que-perfeito (pudera), e nos tempo do Modo Conjuntivo: Pretérito Imperfeito (se eu pudesse) e Futuro (se eu puder, quando eu puder).
É sempre relevante sublinhas a diferença entre «pode» - Presente, 3ª pessoa - e «pôde» - Pretérito Perfeito, 3ª pessoa. Mais um caso em que a acentuação faz toda a diferença...
E, claro está, «Poder» como substantivo é sempre com «o»...


Publicado por Mauro Maia às 20:11
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10 comentários:
De deprofundis a 9 de Fevereiro de 2006 às 21:35
O panorama actual é assustador. E o pior é que na televisão se ouvem as asneiras mais disparatadas. Ainda há dias ouvi um comentador que disse "experienciar" em vez de experimentar. Depois, é o esfarrapado "há meses atrás", como se pudesse existir "há meses à frente". Enfim, uma desgraça.


De PN (Pauxana) a 9 de Fevereiro de 2006 às 22:25
Obrigada, mais uma vez, pela referência que fazes ao meu blog. Tento fazer o meu melhor por lá, até porque eu também não escapo aos vícios da língua... Gostei muito deste artigo. Assim que a vaga de testes o permitir colocarei novos artigos sobre a polémica dos particípios passados e sobre o verbo haver. Espero que os problemas informáticos se solucionem e que a perda não tenha sido grande, infelizmente sei bem o transtorno que essas coisas causam.


De Mauro a 10 de Fevereiro de 2006 às 11:07
É cerdade, «deprofundis», o nosso Português anda muito mal-tratado pelos seus filhos: é a pronominalização que não se faz, os verbos compostos mal articulados, a insidiosa «linguagem da internet» (que fica bastante aquém do estatuto de uma e que tem um aspecto perfeitamente horripilante ao cheiro e ao toque)... Resta-nos, como já anteriormente referido, a nós que amamos o nosso Português, interpôr o nosso braço entre ele e as incessantes balas de maus-tratos que sofre.
A referência, «PxN», é absolutamente merecida e justa. Tendo conhecimento de que existe no teu blog uma dissertação sobre o mesmo assunto estranho seria não o fazer (já que o espírito do Cognosco é informar). Nenhum de nós escapa aos vícios da linguagem mas a questão é termos consciência do facto de sermos imperfeitos e fazermos por crescer. E esta é uma lição que transcende a questão linguística...


De Rui a 10 de Fevereiro de 2006 às 12:29
Esse verbo "haver" liquefaz-me com as suas múltiplas conjugações! >_< De qualquer maneira, acredito que, apesar de não a utilizar, há pequenas lições que podem ser retiradas da linguagem utilizada na Internet e nos SMS: http://bloquito.blogs.sapo.pt/arquivo/402270.html


De Mauro a 11 de Fevereiro de 2006 às 19:32
Obrigado, «Rui», pela perspectiva sobre esta questão. Eu penso que já referi noutros artigos (relacionados com questões sobre a Língua Portuguesa) que uma língua humana não necessita de leis para evoluir nem de laxismos para se diversificar. A evolução linguística é imparável (e eu já tive oportunidade de fazer futurologia ao referir a possibilidade de virem a surgir «línguas lusitanas» tal como há hoje «línguas latinas»). Não posso de todo concordar com a tua classificação da nosso bela língua como fria e rígida. Pelo contrário, acho que uma das tremendas belezas que tem é a sua universalidade e flexibilidade. Não é por poder conduzir um jipe pelo deserto que acho que eles não devem seguir o código da estrada. Eu acho bem mais belo e criativo alguém fazer habilidades automobilísticas respeitando o código do que conduzir destravadamente por um descampado. Qualquer um conduz um carro à toa (e pode achar isso a verdadeira condução) mas quantos conseguirão conduzir criativamente respeitando os limites? Esta questão da «linguagem da internet» parece-me, desculpa a minha franqueza, vazia de significado: se para ti é mais flexível e aprazível e expressiva para mim é uma monstruosidade que esconde mais o que pretendo dizer do que o que revela e é simplesmente feia. Talvez haja a necessidade de ler alguma boa poesia em português para mudares a tua opinião de que é uma língua fria... A limitação não está na Língua, estará em quem a usa (mal)... (Já agora, a título de curiosidade, retirei esta lista exaustiva da conjugação do verbo haver de um site brasileiro...)


De Maria Papoila a 12 de Fevereiro de 2006 às 23:15
Muito pertinente e é lamentável que muitas vezes na comunicação social, nomeadamente na rádio, se ouçam algumas formas de mau portugês. A conjugação do verbo haver é simplesmente atropelada no dia a dia. Beijo


De Nox a 12 de Fevereiro de 2006 às 23:42
Irrita-me bastante ser corrigida sem motivo... ainda bem que não sou a única.


De Mauro a 13 de Fevereiro de 2006 às 11:37
Obrigado pela visita, «Maria Papoila». Os atropelos à nossa língua são tantos que eu gostaria de ver o governo instituir uma «Tolerância zero» aos erros cometidos por quem tem a obrigação de transmitir bom português (políticos, comunicação social, professores,...) Sabes, «LadyNox», eu nada tenho contra ser bem e justamente corrigido (como tu também não terás sem dúvida). O Cognosco tem dado mostras disso: não é se não pela noção da nossa finitude que podemos sonhar com o infinito. Concordo contigo é que ser «corrigido» sem razão, mal, sem que seja no espírito da melhoria mútua e de ajuda também me irrita. Mas irrita sobretudo ser corrigido por quem não admite correcção. Eu sou o primeiro a admitir as minhas inúmeras falhas e não aprecio quem, também as tendo, se recusa a admiti-las e a ultrapassá-las.


De Andreia a 1 de Abril de 2009 às 21:41
Ah, finalmente alguém que fala em bom Português! Já estou farta de ouvir as pessoas a confundirem os particípios passados dos verbos ou mesmo a inventar novos (!) e o "tu fizestes/tivestes" também já me tira do sério!

Boa cogitação :)


De Mauro a 2 de Abril de 2009 às 23:44
Não tenho, «Andreia», o dom de falar bom português verdadeiramente, apenas gosto de saber e perceber o porquê das coisas. E procuro evitar cometer erros, em especial uma segunda vez. Há sempre que dar o benefício da dúvida, por vezes as essoas não têm ideia que estão a cometer um erro. Obrigado pela visita.


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