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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sábado, 21 de Janeiro de 2006
Kara victoria
Ruínas das muralhas de TróiaUma das batalhas mais míticas da História registada é a «Guerra de Tróia», relatada por Homero na obra Ilíada (que recebeu esse nome por causa de uma cidade situada perto da localização da desaparecida Tróia, a cidade de Ilium).
A vitória grega e a destruição da cidade (após 10 anos de cerco) motivaram a criação de muitos mitos:

• Um deles liga a fundação de Roma à destruição de Tróia. Após esta, refugiados da cidade destruída abrigaram-se na costa ocidental da Itália. O seu líder era Eneias, filho de um mortal e da deusa Afrodite. São famosos dois filhos de Eneias, Rómulo e Remo, que fundaram a cidade (tudo isto é relatado na «Eneida» do romano Vergílio, que assim deu uma origem de ascendência divina, ligada à Deusa Afrodite, à majestosa capital ).

• Outro mito ligado à incendiada Tróia refere o destino de um dos vitoriosos gregos.
Uma antiga profecia relatava que o herói grego Aquiles morreria numa batalha em Tróia (o que de facto aconteceu na mitologia grega).
Para procurar fugir a esse destino, Aquiles refugiou-se, anos antes da guerra ter começado, na ilha grega de Scyros, na corte do rei da ilha, disfarçado de mulher, com o nome Pirra. Na altura que lá passou teve um romance com a princesa Deidameia. Desse romance nasceu um filho a quem foi dado o nome de Neoptolemeu, chamado de Pirro (devido ao nome feminino que o seu pai Aquiles tinha usado), que viria também a entrar na guerra de Tróia. Após a vitória grega, Neoptolemeu matou o rei troiano Príamo e escravizou Andrómaca (a ex-mulher do herói troiano Heitor, filho de Príamo e morto por Aquiles) e Heleno (irmão de Heitor). Partiu então para a Grécia e tornou-se rei de Epiro, um reino na costa ocidental grega com capital na cidade de Árta. Andrómaca e Neoptlomeu tiveram um filho de nome Alexandre Molosso que viria depois também a ser rei de Epiro (em 370 AC), com o nome Alexandre I de Épiro (350BC - 331 BC).
Entretanto, no reino vizinho da Macedónia, governava Alexandre II da Macedónia (370BC-368BC).
Uma das irmãs de Alexandre II chamava-se Olímpia (nascida em 376 AC) , princesa de Epiro, que casou com Filipe da Macedónia (irmão mais novo de Alexandre I da Macedónia) e foi mãe de Alexandre o Grande (nascido em 356 AC). (Para mais sobre Alexandre Magno ver o artigo Magna bybliotheca).

Assim, a ilustre família de Alexandre Magno é a seguinte:
? - ? Aquiles (Pirra) - bisavô + Deidameia - bisavó
? - ? Neoptolomeu (Pirro) - avô
(350-331AC) Alexandre I (Molosso) de Épiro - tio materno
(370-368AC) Alexandre II da Macedónia - tio paterno
(382-336AC) Filipe II da Macedónia (pai) + Olímpia de Épiro (mãe)
(356-323AC) Alexandre III (Magno) da Macedónia + Roxana da Báctria
(323-310AC) Alexandre IV (Aigus) - filho
De facto, Alexandre deixou um herdeiro ao seu trono, nascido poucos meses antes da morte de Alexandre Magno, mas o império foi divido pelos generais de Alexandre e Alexandre IV foi morto, enquanto co-regente da Macedónia.




PirroUm neto de Molosso (e, por isso, também bisneto do grande guerreiro Aquiles) chamava-se Pirro (318-272BC). Na altura Roma era ainda uma república, ocupada em unificar a península itálica.
Pirro era sobrinho de Olímpia (e portanto primo materno de Alexandre) e teve uma vida muito atribulada (mas menos do que a do seu famoso primo...):
~ quando tinha 2 anos o seu pai foi destronado;
~ mais tarde Pirro foi chamado de volta para se tornar rei de Epiro mas foi destronado quando tinha 17 anos;
~ numa série de reviravoltas, Pirro foi feito refém de Ptolomeu (o general macedónico de Alexandre que se tornou governante do Egipto e cuja dinastia teria como última representante a última </i>faraó do Egipto, a amante de César Cleopátra), casou com a filha adoptiva deste de nome Antígona e restaurou o reino de Epiro em 297 AC. Entrou em seguida em guerra com o seu cunhado Demétrio, rei da Macedónia que derrotou em 286 AC. Conquistou assim a Macedónia até ser expulso do reino por Lisímaco em 284 AC.

~ Em 281 AC a cidade de grega de Tarentum (actual Taranto), na costa oriental de Itália, ficou sob ameaça dos exércitos romanos, que procuravam unificar toda a península. Preocupados os Tarentinos pediram ajuda aos seus irmãos gregos. Suplicaram a Pirro que os ajudasse a defenderem-se dos ameaçantes romanos.
Pensando em conquistas militares e territoriais na Itália, Pirro concordou em combater ao lado de Tarentum. Aliando-se ao rei da Macedónia desembarcou na Itália em 280 AC, à frente de um exército de 25 500 homens e 19 elefantes de guerra.
(Foi com Pirro que pela primeira vez a Itália Romana foi atacada por elefantes de guerra. Foi inspirado em Pirro que Aníbal, na 2ª Guerra Púnica, levou elefantes das colónias cartaginenses na Hispânia até à Itália, atravessando os Alpes.
Para Aníbal, Pirro era o 2º maior general da História (que ele conhecia), sendo o maior o famoso primo de Pirro, Alexandre o Grande.
)

Falange gregaPela primeira vez as legiões romanas enfrentariam as falanges gregas.
Nesse mesmo ano derrotou os Romanos na Batalha de Heracleia devido à sua superior cavalaria e aos seus elefantes de guerra. Morreram 7 mil soldados romanos e 4 mil soldados de Pirro. Após a vitória, ofereceu aos romanos um tratado de paz, rejeitado por estes.
Pirro acampou para passar o Inverno e, no ano seguinte (279 AC), avançou para a região da Apúlia. Enfrentou então o exército romano perto de Asculum (actual Ascoli Satriano, a 30 quilómetros a sul de Foggia). Os exércitos eram numericamente semelhantes (40 mil em cada lado) e os Epirenses tinham os seus 19 elefantes de guerra e os Romanos 300 dispositivos anti-elefantes (carros equipados com longas pontas afiadas e puxados por bois para ferirem os elefantes, potes inflamáveis para os assustarem e tropas especiais para atingirem os elefantes na tromba com lanças para os afastarem).
A Batalha de Apulum durou 2 dias, durante os quais os dois exércitos se defrontaram. No fim, tinham morrido 6 mil soldados romanos e 3 500 soldados de Pirro (incluindo muitos dos seus aliados e amigos). Foi uma vitória grega a muito custo.
Foi após esta batalha que Pirro declarou
«Mais uma vitória destas e estamos perdidos!»

Pirro tentou mais uma vez uma invasão à Itália romana em 275 AC, mas foi derrotado na Batalha de Beneventum. Derrotado voltou à Grécia, conquistou militarmente a Macedónia e depois atacou Esparta a pedido de um pretendente ao trono espartano. Enfrentou grande resistência e, ao entrar na cidade de Argos, foi morto nas estreitas ruas da cidade.

Epiro existe ainda, como região da Grécia, e a histórica Epiro de Pirro encontra-se entre a Albânia (a sul do país) e a Grécia.

Máscara de AgaménonFoi o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann que descobriu as ruínas da cidade de Tróia na década de 1870. Até então considerava-se que Tróia era apenas uma fábula, um mito.
Mas
Schliemann sempre acreditou na sua existência. Seguindo algumas descrições geográficas contidas na Ilíada sobre os terrenos envolventes da cidade e, contra a opinião de todos, partiu para a Turquia (na altura parte do Império Otomano).
Foi lá que encontrou as ruínas de uma cidade que identificou como a Tróia de Homero e um tesouro, em ouro, a que chamou o «tesouro de Príamo» e levou para a Alemanha.
Este tesouro encontra-se agora em Moscovo: foi levado pelas tropas soviéticas após a 2ª Guerra Mundial.
Mas no local onde existiu de facto Tróia há ruínas de 7 cidades, cada uma construída sobre a anterior.
Schliemann descobriu o «seu» tesouro em Tróia II, uma cidade que investigadores posteriores identificaram como sendo da idade do bronze e portanto muito anterior à cidade homérica.
A Tróia relatada na Ilíada será no nível VI ou VIIa, entre 1 300 AC e 1 200 AC.
Um outro dos mais famosos equívocos de
Schliemann é a máscara de ouro a que deu o nome de «Máscara de Agaménon». Descobriu-a em Micenas em 1876 e erradamente pensou tratar-se da máscara funerária do rei grego que conduziu os gregos na Batalha de Tróia. Mas, de acordo com modernos investigadores, a máscara data de entre 1550 AC e 1500 AC, antes sequer do nascimento do famoso rei. Mas o nome ficou, apesar de incorrecto e poder conduzir a ilações erróneas...

Este artigo surgiu por sugestão (e curiosidade) de meus frater àcerca da agora famosa (e de proveniência geralmente desconhecida) citação de Pirro.
Usa-se modernamente a expressão «Vitória de Pirro» ao descrever-se algo que foi conquistado a muito custo.
Pirro tinha um número limitado de soldados e os dois embates com os romanos custaram-lhe muitas tropas. Os Romanos tinham uma incomparável capacidade de recrutamento de tropas, o que lhe permitia recuperar rapidamente de qualquer derrota militar (basta ver que, na duas batalhas com Pirro, perderam 13 000 homens e puderam restabelecer prontamente o seu exército).
Mas a vitória de Pirro levou a que tivesse de abandonar a Itália...


Publicado por Mauro Maia às 11:16
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6 comentários:
De Rui a 22 de Janeiro de 2006 às 20:33
Ah, sim, a vitória - é "vitória" ou "victória"? Este acordo ortográfico... >_< - de Pirro. Desconhecia por completo esses pequenos grandes pormenores, de como era primo de Alexandre, ou de como Aníbal o considerava o "segundo maior estratega". Já agora, aqui ficam mais algumas sugestões de momentos de guerra tornados famosos e mediatizados - e também às vezes distorcidos - por filmes e televisões: a retirada de Dunkerke, a derrota de Waterloo, a batalha de Mount Badon, os trezentos de Esparta, a última grande vitória de Little Bighorn, o cerco do Alamo, "os canhões" da Guerra da Crimeia, a tomada de Lisboa, além dos clássicos desembarques na Normandia ou o bombardeamentos atómicos do Japão. P.S.: já agora, ainda que o título em latim seja fácil de deduzir, não falta acrescentrar a tradução no final do artigo?


De Mauro a 22 de Janeiro de 2006 às 23:54
É de facto «vitória». Foi por lapso que entrou o «c» onde não devia. Obrigado pela chamada de atenção, «Rui», o artigo já está corrigido nesse ponto. Eu não coloquei a tradução por ser tão óbvio o significado. É certo que poderia parecer uma coisa e ser outra (já foi focado aqui no Cognosco o caso «exquisite», que em Latim significa refinado mas em Português é o oposto...) Mas se fosse algo diferente a tradução lá estaria. Não estando...
São boas sugestões para novos artigos. Mas algumas questões foram já aqui abordadas: falou-se dos 300 de Esparta em http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/880293.html (Magna Bybliotheca) e dos bombardeamentos nucleares no Japão em http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/708172.html (Longa peninsulae) mas poderão vir a ser alvo de artigos mais profundos ou de nonvas menções em outros. Os restantes é uma questão de procurar o ângulo correcto para serem abordados. O Cognosco procura abordar assuntos de forma a conseguir dar uma noção abrangente sobre alguns pormenores que geralmente são tratados (quando o são) muito superficialmente ao serem abordados os temas. Há assuntos em lista de espera para que surja um ângulo favorável para «bolinar» o artigo. Por vezes nascem como artigos, por vezes como menções em artigos sobre assuntos próximos, por vezes aguardam na longa lista de espera que é o Sistema de Saúde do Cognosco...


De deprofundis a 23 de Janeiro de 2006 às 20:44
Embora não haja uma definição para a expressão, na verdade, "vitória de Pirro" tem sido mais usada no sentido de "vitória inútil" e não tanto como "vitória difícil" (o que acontece em quase todas as vitórias). É o caso muito comum do segundo jogo de uma eliminatória: ganha-se o jogo (vitória de Pirro) mas perde-se a eliminatória.


De Mauro a 23 de Janeiro de 2006 às 21:40
Obrigado, «deprofundis». Sim, percebo que é uma outra forma de usar metaforicamente a «Vitória de Pirro»: ganha-se a batalha mas perde-se a guerra. Enquadra-se bem na vivência de Pirro com os romanos: ou que é uma vitória que soube a derrota (pelos custos que teve) ou uma vitória que acaba por de nada servir (porque de qualquer forma se perde).


De Luiz Juliano a 3 de Setembro de 2007 às 20:49
Oi Mauro, só uma sugestão. Ao montar o esquema familiar de Alexandre Magno, poderia ter sido melhor uma árvore genealógica. Abraço, Luiz Juliano.


De Mauro a 3 de Setembro de 2007 às 21:20
Tens razão, «Luiz Juliano», teria sido mais claro uma esquema em árvore. Não foi assim porque 1) a família de Alexandre Magno surgiu como complemento incluído muito depois de o artigo ser escrito 2) a informação familiar não é fundamental no todo do artigo 3) o fundamental está claro 4) Daria o seu trabalho pôr a mesma informação num esquema. Talvez mas não para agora. Mas agradeço-te a visita e a atenção da sugestão. Ponderarei sobre ela, obrigado.


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