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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2006
Paruola-undae
Uma das concepções mais erradas que se pode ter acerca da Ciência é aquela em que se questiona a validade de determinada linha de investigação quando há outros problemas mais prementes a resolver (na concepção de quem profere a frase).
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Uma das concepções mais erradas que se pode ter acerca da Ciência é aquela em que se questiona a validade de determinada linha de investigação quando há outros problemas mais prementes a resolver (na concepção de quem profere a frase).
<img alt="Bastão de Asclépio/Esculápio" " src="http://cognoscomm.com/mm/MoAsc.jpg" width="36" height="140" align="right" border="0" />
<i>«Porque andam a investigar o ciclo de vida das minhocas quando ainda não há cura para o cancro, para a sida ou mesmo para a constipação?»
«Porque estudar Matemática para além de saber fazer contas?»
«Porque se gastam milhões em projectos espaciais com tantos pobres que há no Mundo?»
«Porque andar a estudar as estrelas quando há tantos problemas na Terra a resolver?»</i>

Este tipo de perguntas, mesmo quando feitas com um espírito de altruísmo e preocupação genuína com os problemas que o Mundo enfrenta, revela ignorância e uma visão limitada e redutora que só por si prolonga, quando não agrava, os problemas que deseja valorizar.

Várias foram as ocasiões em que, na História da Ciência, resultados e investigações num campo aparentemente de pouca utilidade são usadas para grandes progressos técnicos de melhoria da vida das pessoas. Uma delas prende-se com um electrodoméstico que é, hoje em dia, tão natural numa cozinha que poucas são as pessoas que não têm um.

<img alt="Dr. Percy Spencer" src="http://cognoscomm.com/mm/MoSpencer.jpg" width="60" height="100" align="left" border="0" />Em 1946, durante experiências relacionadas com um projecto sobre <u>radares</u>, o Dr. Percy Spencer estava a estudar um novo tubo de vácuo chamado <i>magnetrão</i>.
Após as experiências que realizou e em que activou o tubo (concebido para criar um campo magnético que geraria micro-ondas), reparou que a barra de chocolate que tinha no bolso tinha derretido.
Intrigado por esse derretimento, O Dr. Spencer colocou, no tubo, alguns grãos de milho. Afastou-se um pouco e ficou a observar. Num instante os grãos de milho começaram a estalar e o laboratório encheu-se de pipocas acabadas de fazer.
<i>(Para mais sobre micro-ondas ver:
&#8226 <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/624092.html" target="_blank"><font color="blue">Está frio aqui</font></a> em que se fala da temperatura;
&#8226 <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/693886.html" target="_blank"><font color="blue">Lux mundi</font></a> em que se fala do espectro electromagnético;
&#8226 <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/925125.html" target="_blank"><font color="blue">Loqui longinquitate</font></a> sobre as micro-ondas emitidas pelo telemóvel;)</i>

No dia seguinte, colocou um ovo ao pé do <i>magnetrão</i>. Em breve o ovo começou a tremer e a agitar-se. Pouco depois o ovo rebentou, espalhando gema e clara muito quentes pela sala. Ligando estes 3 acontecimentos, o Dr. Spencer conjecturou que, se as micro-ondas emitidas pelo <i>magnetrão</i> tinha aquecido tão rapidamente o ovo, também deveria fazer o mesmo a outro tipo de alimentos.

As experiências começaram. Construiu uma caixa de metal com uma abertura através da qual emitia micro-ondas. A energia que entrava na caixa não conseguia sair, o que aumentava o campo electro-magnético dentro da caixa. Quando colocava comida dentro da caixa e activava o emissor de micro-ondas, a temperatura da comida aumentava rapidamente e era cozinhada.

Nasceu o conceito do <b>forno micro-ondas</b>.

<img alt="Um dos primeiros micro-ondas" src="http://cognoscomm.com/mm/MoPrim.jpg" width="80" height="100" align="right" border="0" />Em 1947 a empresa para a qual tinha feito investigações no campo dos radares comercializou o primeiro forno micro-ondas. Eram máquinas enormes e caras. Um dos primeiros que foi comercializado tinha perto de 1,70 m de altura, pesava 340 quilogramas e custava $5000 (o que, à taxa actual de conversão dólar<->euro, é mais de 6000€ ou seja é mais de 1 200 contos). Além disso, como o <i>magnetrão</i> tinha de ser arrefecido, era necessário instalar tubos de água para que esta o arrefecesse.
<i>(Estranho conceito para as mentes actuais, ser necessário ligar um tubo de água ao micro-ondas...)</i>

A recepção inicial foi desapontadora. Mas depressa o frio inicial dos consumidores foi aquecido por avanços tecnológicos que diminuiram o tamanho, o peso e o custo do micro-ondas. Além disso, foi criado um <i>magnetrão</i> que era arrefecido com ar, pelo que deixou de ser necessário a instalação das tubagens para a água.
(<i>É por isso tão importante deixar as saídas de ar do micro-ondas livres e que o micro-ondas esteja minimamente afastado de fontes de calor.</i>)

<img src="http://cognoscomm.com/mm/MoPrimCom.jpg" width="80" height="100" align="left" border="0" />A procura era a de tornar o <b>forno micro-ondas</b> apetecível e acessível ao grande público. Uma primeira demonstração, ainda de 1947, era a de um que custava entre $2 000 e $3 000 e ocupava o mesmo espaço que um frigorífico. Em 1952 um modelo de uso doméstico foi comercializado com o custo de $1 295. Em 1967 foi criado o primeiro forno de uso doméstico, com um preço inferior a $500 e mais pequeno e seguro do que os anteriores modelos.

À medida que as vendas de <b>fornos micro-ondas</b> aumentavam também subiam as preocupações infundadas e as crendices associadas ao uso de micro-ondas. O conceito de um forno que funcionava emitindo radiação assustava as pessoas, que erroneamente associavam a palavra a «nuclear» (convém lembrar que a luz visível também é uma radiação, as ondas de rádio também). As micro-ondas, como visto em <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/925125.html" target="_blank"><font color="blue">Loqui longinquitate</font></a> são não-ionizáveis: não têm energia suficiente para alterar a estrutura genética, apenas agitam os corpos com que chocam, aquecendo-os.

Uma das dúvidas que se pode ter sobre os <b>fornos micro-ondas</b> é a razão pela qual, sendo a porta dos mesmos revestida com buracos circulares, as micro-ondas não saem e a luz projectada pela lâmpada no interior do forno sai. Se ambas são radiações, porque saem umas e não saem as outras?

<img src="http://cognoscomm.com/mm/MoComp.jpg" width="150" height="80" align="right" border="0" />Isto tem a ver com duas características das micro-ondas: estas são reflectidas por superfícies condutoras (ou seja, pelas quais a electricidade é facilmente transportada, como os metais), da mesma forma que a luz é reflectida por objectos polidos (como os espelhos). Além disso, o comprimento de onda das micro-ondas é maior do que o diâmetro desses buracos redondos na porta do micro-ondas.

As <b>micro-ondas</b> do forno homónimo têm um comprimento de onda de mais de 30 centímetros. <small>(O comprimento de onda é a distância entre duas ondas consecutivas)</small>.
Os orifícios na porta dos <b>fornos micro-ondas</b> têm um diâmetro inferior a 2 milímetros (como pude pessoalmente verificar). Dessa forma, as micro-ondas não passam: são maiores do que o diâmetro dos orifícios.
Mas a luz visível tem um comprimento de onda entre os os 400 nanómetros (luz violeta) e os 700 nanómetros (luz vermelha). Assim a luz passa: é bem menor do que os mesmos.
(<i>Como visto em <a href="http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/695830.html" target="_blank"><font color="blue">Luz mundi</font></a>, o nanómetro é 1 milhão de vezes menor do que um milímetro. Assim as micro-ondas dos fornos são 150 vezes maiores do que os orifícios dos fornos, logo não saem. Mas os orifícios das portas são entre 200 milhões de vezes e 350 milhões de vezes maiores do que a luz visível, logo esta sai.)

<img alt="Símbolo da WHO «World Health Organization»" src="http://cognoscomm.com/mm/MoWHO.jpg" width="128" height="126" align="right" border="0" />O símbolo que inicia o artigo é o <b>Bastão de Asclépio/Esculápio</b>, um antigo símbolo grego associado à cura de doenças através da medicina.
Asclépio (que foi adoptado pelos romanos como Esculápio) era o Deus da Cura e da Medicina que foi ensinado pelo centauro Chiron («chiron» significa mão em grego. Daí o termo «quiromância», a suposta capacidade de ler o futuro nas mãos de alguém).
O símbolo é constituido por uma serpente (desde sempre associado à cura e ao rejuvenescimento por mudar de pele todos os anos) enrolada à volta de um bastão (símbolo de autoridade e portanto digna de um Deus).
Há também quem sugira que não se tratava originalmente de uma serpente mas de uma sanguessuga, que eram usadas para extrair sangue a um paciente em tempos antigos e era em seguida retiradas usando um bastão.
Uma das 3 filhas de Asclépio chamava-se Panaceia «tudo-cura»...

No título «Micro-ondas»</i>


Publicado por Mauro Maia às 19:02
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4 comentários:
De deprofundis a 20 de Janeiro de 2006 às 16:33
Aqueles que questionam as prioridades da investigação científica, se conseguissem levar avante as suas propostas, paralizariam toda a ciência. Essa corrente de opinbião uma tremenda falácia.


De Mauro a 20 de Janeiro de 2006 às 18:45
«deprofundis, é uma opinião que amiúdas vezes se ouve proferido por uma sem-número de pessoas. E concordo contigo, é uma opinião-repetida/ideia-batida/nocão-esbatida que tem provocado mais mal do que bem, tem promovido a ignorância e tem alargado as crendices e os logros no mundo.


De PN a 21 de Janeiro de 2006 às 15:26
Concordo que a ciência é um vasto mundo e que não se devem excluir novas tentativas de conhecimento das coisas do mundo, mas também acho que se podem estabelecer prioridades e às vezes são anunciadas como grandes descobertas científicas, que gastaram recursos financeiros, coisas que qualquer miúdo de seis anos descobriria. Como em tudo, que se saiba ter bom-senso, mas que a ciência não deixe de evoluir.


De Mauro a 21 de Janeiro de 2006 às 17:20
Obriagado, «PxN», pelo comentário. Penso que a História tem mostrado que «estabelecer prioridades» na Ciência limita o desenvolvimento da mesma. É impossível (numa sociedade democrática) impor prioridades a investigadores independentes (os investigadores militares, a soldo do exército, os investigados médicos, a soldo das farmacêuticas, fazem-no rotineiramente). As ditaduras procuram-no sempre fazer e, por essa consequência, as suas investigações e descobertas são sempre limitadas em alcance e importância. Ter os olhos na meta e não no terreno leva geralmente a muitos tropeções e atrasos. Olhar para o terreno que se pisa, absorvido pelas formas das pedras com que se cruza, conduz mais rapidamente a campos verdejantes, por maior que possa parecer o contra-senso. Mas dou-te razão quanto ao facto de ser necessário haver pessoas que tenham como prioridade resolver os problemas da Humanidade. Sempre os houve e graças à sua persistência muito foi feito. A questão que refiro é a «censura» que a sociedade costuma advogar quanto ao que deve ou não ser investigado. Por vezes as mais gloriosas descobertas caem como maçãs das menos prováveis árvores... ;)


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