Últimas atualizações
Novo endereço do Cognosco: http://www.cognoscomm.com
Diário das pequenas descobertas da vida.
Sábado, 14 de Janeiro de 2006
Nex terrae
Corria o século XII DC.
Na Europa, Portugal torna-se independente e são lançadas as 2ª e 3ª Cruzadas para libertar a Terra Santa.
Na Ásia, Gengis Khan controla o maior império terrestre da História.
No Médio Oriente Saladino resiste aos cruzados e ao Rei Ricardo Coração de Leão.

Na América Central, um grupo de nómadas percorre a paisagem alimentando-se de vermes e cobras ou roubando comida aos povos com que se cruzava.
Eram um grupo rejeitado pelos demais, pelos seus hábitos bárbaros, incivilizados e que percorria terra alheia sem local para chamar lar.

Dois séculos depois, no início do século XIV DC:
Na Europa é o início da Guerra dos 100 anos entre a França e a Inglaterra, o poeta Petrarca cria o termo Idade das Trevas para descrever o período que vai da queda do Império Romano do Ocidente em 410 DC até ao presente século, começa a Renascença em Itália e, na China, pela primeira vez usa-se o ábaco.

Na América Central, em 1325, o chefe do bando nómada recebe uma mensagem directamente da maior das suas divindades, o Deus da Guerra e do Sol, dizendo-lhe que deveriam dirigir-se a umas ilhas pantanosas no meio de um lago próximo. Lá encontrariam o refúgio que procuravam, a Terra Prometida que há muito a divindade lhes prometera. Deveriam lá procurar por uma águia, pousada sobre um cacto, a comer uma cobra. Onde a encontrassem construiriam a sua cidade e honrariam o Deus da Guerra e do Sol com sacrifícios humanos.

Ao chegarem ao lago Texcoco, viram uma série de ilhas pantanosas. Numa delas havia um cacto, com uma águia a devorar uma cobra. Tinham chegado à sua Terra Prometida. Na ilha fundaram uma cidade, a que deram o nome do seu chefe Tenoch. A cidade tornou-se Tenochtitlán («a cidade de Tenoch»).
O deus da Guerra e do Sol por quem matariam pessoas chamava-se Huitzilopochtli
O povo era os Aztecas (que deriva do nome do local de onde partiram para a sua busca da Terra Prometida, a ilha de Aztlam «Local Branco»).

A cidade teve um início humilde, perdida no meio de uma ilha pantanosa no meio de um lago. Os Aztecas trabalharam arduamente, adoptaram as técnicas agrícolas dos seus vizinhos Maias (a construção de terraços sobre as águas, cobertas por terra e em seguida cultivadas) e cresceram militarmente.

No século XV DC, Portugal conquistou Ceuta aos Mouros, iniciando o seu período de expansão naval que viria a ser conhecido como Descobrimentos.
Constantinopla, a última cidade do Império Bizantino (anteriormente designado Império Romano do Oriente) cai, às mãos dos Otomanos.
Granada, a última possessão moura na Península Ibérica é conquistada pelos espanhóis.

Na América Central, os Aztecas já se tornaram uma potência militar na região e, sob a chefia de Moctezuma I (geralmente referido como Montezuma I) firmaram alianças com os seus poderosos vizinhos, os Texcoco e os Tacuba. Formou-se a Tríplice Aliança.
Os Aztecas recebiam agora tributos das nações que conquistavam e os prisioneiros de guerra eram usados nos seus rituais de sangue em honra de Huitzilopochtli.

De um bando nómada e incivilizado, os Aztecas cresceram para se tornarem uma potência militar, um centro de cultura e civilização. As suas realizações culturais foram imensas:
• Em termos matemáticos usavam um sistema numérico de base 20, sem 0.
Os algarismos (de 1 a 9) representavam-se pelo número de pontos respectivos, 20 por uma bandeira, 400 (20x20) por uma pena e 8 000 (20x20x20) por um saco (que representava um saco contendo 8 000 grãos de cacau).
(sobre bases matemáticas ver Bases para a leveza do ser)
• Em termos mitológicos os Aztecas acreditavam que os Deuses tinham criado a Humanidade a partir do milho. Após várias tentativas infrutíferas (que resultaram nos macacos) os Deuses finalmente conseguiram criar o Homem.
(sobre este assunto ver também Ah, a foto de família)
• As suas proezas arquitectónicas são lendárias, como as suas famosas pirâmides. O facto de serem pirâmides em nada os liga aos Egípcios: a pirâmide é simplesmente a forma mais lógica de erigir grandes construcções sem os alicerces de betão armado modernos.
Pirâmide de Uxma

Era este o aspecto da América Central quando os espanhóis lá chegaram.
A 21 de Abril de 1519 (2ª feira) 11 galeões espanhóis, sob o comando de Hernán Cortés, chegaram à costa marítima do império azteca com 550 homens e 16 cavalos.
Estes poucos homens viriam a conquistar o formidável império dos Aztecas.

Pelos menos três variáveis foram imprescindíveis para essa derrota de uma civilização de cariz militarista com milhares de guerreiros habituados à luta às mãos de tão poucos homens:

• a questão religiosa: um dos deuses mitológicos dos Aztecas era Quetzalcoatl «Serpente Alada» que tinha partido para o oeste e prometido um dia voltar para reclamar de novo as suas terras. Quetzalcoatl era associado ao sol e como tal era associado à cor amarela. Quando o líder dos Aztecas, o glorioso guerreiro Montezuma II, recebeu notícias da chegada destes estrangeiros, vindos do oeste em «torres que flutuam na água», temeu que estivessem ligados à divindade. Apesar de os espanhóis terem pele morena e cabelos escuros, um deles, Pedro de Alvarado, tinha cabelos e barba louros («como se a cara irradiasse raios de sol» foi a descrição que dele fizeram os Aztecas). A convicção então que estavam ligados à divindade assentuou-se de tal forma que diminui a resistência azteca.
• A questão médica: os espanhóis trouxeram consigo a varíola, doença desconhecida para os Aztecas. Após uma primeira tentativa falhada de conquistarem a cidade de Tenochtitlán os Espanhóis voltaram a tentar. Desta vez foram bem sucedidos, pois tinham sucumbido à doença milhares de Aztecas e os sobreviventes poucas forças tinham para lutar.
• A questão do desconhecimento: os Aztecas nunca tinham visto cavalos e a imagem de um homem montado era-lhes assustadora. Imaginavam que se tratava de uma única besta gigante, com 4 patas e corpo de homem. A pólvora e os cavalos eram desconhecidos dos Aztecas e ajudaram à derrota dos Aztecas. O terror infligido pelos «homens-besta» e pelo barulho da pólvora e a capacidade de matar «à distância» apavoraram os guerreiros aztecas.

A colónia espanhola viria mais tarde a conquistar a sua independência e usaria na sua bandeira a mesma imagem que conduziu os Aztecas até ao lago Texcoco. O império azteca tornar-se-ia o México e a cidade de Tenochtitlán foi destruída e sobre ela os espanhóis erigiram a Cidade do México.

O mais curioso neste desconhecimento sobre os cavalos, por partes dos «naturais» da América, é que o ser humano conviveu com cavalos quando primeiro chegou à América. Os cavalos surgiram na América e só depois colonizaram outros continentes.
O choque dos Aztecas ao verem um animal que desconheciam, tendo os cavalos sido tão abundantes no continente prende-se com a sua extinção, juntamente com outros animais, antes de surgirem civilizações nas Américas.

Eohippus, o antepassado dos cavalosHá 60 milhões de anos, nas Grandes Planícies americanas evoluiu o pequeno Eohippus, antepassado de todos os cavalos modernos, com uns modestos 20 centímetros de altura.

Há entre 17 mil e 11 mil anos, quando o homo sapiens chegou ao Norte da Ásia, encontrou uma faixa de terra. Na altura vivia-se uma Glaciação e o nível do mar era mais baixo do que o actual (havia muita água congelada). O ser humano atravessou essa ponte (ou terá partido de jangada atravessando o Pacífico) e encontrou uma nova terra.
Foram esses primeiros povos que descobriram a América.
(para a origem dos nomes do continentes ver Magnus tellus)

Tigre dentes-de-sabreO continente que descobriram era rico em fauna e flora.
Existiam mamutes, bisontes, preguiças terrestres, 5 espécies de cavalos (incluindo uma de zebras), 2 tipos de camelos (também os camelos surgiram primeiro na América), o conhecido tigre dentes-de-sabre e o maior mamífero carnívoro terrestre que alguma vez existiu, o urso de focinho curto.
Os camelos surgiram na América e, há 3 milhões de anos migraram para a Ásia e para a África. Os camelos norte-americanos eram mais altos do que os actuais camelos, medindo mais de 2 metros de altura e tendo um peso de 600 kg. Apenas uns parentes seus, as lamas, subsistiram na América do Sul, onde eram e ainda são usados como animais de carga.

Ponta da lança ClovisApesar de tamanho e ferocidade enormes, estes animais enfrentavam agora o mais poderoso de todos os caçadores, o ser humano, armado com as sua lanças de pedra (as primeiras foram desenterradas perto da cidade de Clovis no Novo México. Esses primeiros povos passaram a ser designados por Clovis por essa razão).

A inovadora arma dos Clovis permitia-lhe caçar todos os tipos de animais, desde os gigantescos Mamutes aos velozes cavalos (que os Clovis caçavam para comer).
Pouco tempo após a chegada dos seres humanos os grandes mamíferos do continente extinguiram-se (pensa-se que em parte devido às caçadas humanas) e com eles morreram os seus predadores.

Algumas gerações após a chegada do Homem à América, tudo o que restava dos fantásticos animais que os seus antepassados caçavam não passavam de histórias e pinturas. Aperceberam-se do terrível papel que desempenharam nesse desaparecimento e alteraram a sua forma de se relacionarem com a Natureza.

Caçada aos bisontesDurante os 12 mil anos seguintes não houve mais extinções em massa na América. Até à chegada dos europeus.
Após a colonização europeia da América em apenas 60 anos mataram-se milhões de bisontes. A espécie (o único herbívoro de grandes dimensões que sobreviveu à chegada do Homem à América) era extremamente abundante e, no entanto, foi levado até perto da extinção por caçadores europeus. Se alguns rancheiros, mais conscienciosos, não tivessem mantido, nas suas terras, alguns grupos de bisontes, a espécie teria desaparecido. Em 1853 só existiam 500 búfalos selvagens.

Apesar da tradicional imagem dos índios norte-americanos a lutar montados a cavalo, esses cavalos são os descendentes dos animais deixados ou fugidos aos espanhóis.
O cavalo, como espécie, não existiu na América durante milhares de anos, até que os Europeus inadvertidamente os trouxeram de novo para casa.


Os índios (que devem a sua designação colectiva ao engano cometido por Colombo ao achar que tinha chegado à Índia) devem ser admirados pelo facto de terem aprendido a lição dos seus antepassados e não só por respeitarem a natureza.
Afinal foram os seus antepassados que causaram a maior extinção em massa desde o fim dos dinossáurios…

A maior façanha dos índios norte-americanos foi fazer algo que a maioria das pessoas actualmente parece-se recusar fazer: aprender com os erros da sua História e não os voltar a cometer.

No título «A morte da terra»


Publicado por Mauro Maia às 12:58
Atalho para o Artigo | Cogitar | Adicionar aos favoritos

9 comentários:
De PN a 15 de Janeiro de 2006 às 18:57
Realmente é pena que a nossa memória seja tão curta e os erros do passado continuem a ser repetidos continuamente...


De Mauro a 16 de Janeiro de 2006 às 00:00
Infelizmente uma das características (a meu ver uma das principais) que distinue o Homem dos restantes animais é o facto de registarmos a história da nossa espécie. Mais nenhuma espécie o faz. Há formigas que criam gado (criam pulgões e defendem-nos para se alimentar de um líquido que estes segregam), outras são agricultoras (cultivam fungos nas folhas das árvores que cortam), os chimpazés criam e usam instrumentos, os polvos resolvem problemas lógicos, todos os primatas superiores têm auto-consciência (que se expressa pelo facto de se reconheceram ao espelho),... Mas nenhum tem um registo do seu passado. Só nós. E no entanto geralmente ignoramos as lições que a História nos dá e repetimos continuamente o mesmo erro. Mas os índios americanos (e os aborígenes australianos, cujos antepassados também massacraram a mega-fauna existente no continente-ilha) vivem agora em harmonia com o que os seus antepassados lhes (e nos) deixaram. Houve outros povos que não tiveram tanta sorte mas cujo exemplo devia alertar todos nós quanto ao que estamos a fazer neste pequeno planeta. Uma das que considero mais significativas é a História da Ilha da Páscoa, como relatada em «Destinos»
(http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/604457.html). Obrigado, PxN, pela visita e por mais um tijolo adicionado a este edifício que é o Cognosco.


De Elsita a 16 de Janeiro de 2006 às 15:29
Brincando, brincando posso dizer que o início do post faz todo o sentido: a águia...o SLB e a conquista neste caso da terra prometida... rsssss!
Quanto aos Azetecas e Incas...simplesmente me fascinam. A América do sul é o meu próximo destino alem oceanos...quando??Não sei, quando der e poder!Boa semanita, thanks pela viagem e pelo conhecimento


De Elsita a 16 de Janeiro de 2006 às 15:30
Claro que terminaste com chave de ouro! Acho que morreremos e nunca iremos aprender! Não é defeito nosso; é feitio!Uma pena!


De Mauro a 16 de Janeiro de 2006 às 15:41
Desejo-te então uma futura (quando é a questão) boa viagem à América do Sul. Se puderes visita as Pirâmides Aztecas. Deve ser fenomenal subir ao topo de uma e ver a História passar em frente dos nossos olhos...


De Maria Papoila a 16 de Janeiro de 2006 às 18:58
A civilização Azteca fascina-me! Este artigo interessou-me e o seu final causou-me uma ainda maior(será possível?) admiração pela tua escrita. Mas há os resistentes Mauro! O que será de nós, não sei, mas este é o caminho! Beijo


De Mauro a 17 de Janeiro de 2006 às 00:23
Penso que o que temos a fazer é assumirmos a nossa componente mais humana: a nossa memória histórica. Esquecer a História é tornar-mo-nos irracionais. Ler, escrever, falar, ouvir, História, Cultura, Ciência,... é o caminho da salvação. Se bem que me recordo de uma lição amarga da História sobre este caminho: no início do século XX o mundo ocidental vivia animado pela perspectiva de que a Ciência curaria os males do mundo e que seria o caminho da salvação. Em 1914 rebenta a Grande Guerra (de que já se falou várias vezes no Cognosco) e a Ciência é usada para o mal. A Ciência é a culpada? Não, o nosso livre-arbítrio é que permite usar uma rosa ou para perfumar o nosso dia ou para ferirmos o rosto de alguém com os espinhos. Eu acredito na Ciência como caminho de salvação, espero é que o Homem se permita ser salvo...


De humberto a 24 de Janeiro de 2006 às 23:02
Gostaria de saber se um casal de mesmo tipo sanguíneo A+, podem ter filhos sem nenhum risco. Onde posso encontrar livros sobre o assunto..

atenciosamente

Humberto Prazeres


De Mauro a 25 de Janeiro de 2006 às 20:13
Obrigado pela visita, «humberto». Novamente reitero que o tipo sanguíneo dos pais nada tem a ver com possíveis mal-formações dos filhos. O grupo sanguíneo dos pais é irrelevante na formação do feto. Não receiem uma gravidez por essa questão: estejam atentos e despistem outras. Infelizmente é um mito moderno (e perigoso, por pôr casamentos em causa) em Portugal essa questão da «incompatibilidade» sanguínea dos pais. Os problemas de malformações fetais prendem-se com questões que passam muito longe dos tipos sanguíneos parternos. O sangue dos dois não entra em qualquer ocasião em contacto durante a fecundação. A única ajuda que posso dar nesta situação é sossegar futuros (ou pretendentes futuros) pais quanto a esta questão. Em nada resulta a questão dos tipos sanguíneos paternos.


Comentar artigo

Cognosco ergo sum

Conheço logo sou

Estatísticas

Nº de dias:
Artigos: 336
Comentários: 2358
Comentários/artigo: 7,02

Visitas:
(desde 26 de Abril de 2005)
no Cognosco
 
Cogitações recentes
Obrigado, João, pela contribuição. Não está no art...
Estive lendo sua cogitação à respeito do cálculo d...
Obrigado, Aleff, pelo apreço pelo artigo. Exatamen...
achei muito interessante essa sua forma de ver a l...
Obrigado, Desejo um bom 2014 também.
Artigos mais cogitados
282 comentários
74 comentários
66 comentários
62 comentários
44 comentários
Artigos

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Julho 2016

Março 2015

Dezembro 2014

Outubro 2013

Maio 2013

Fevereiro 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Janeiro 2012

Setembro 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Maio 2010

Janeiro 2010

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Novembro 2007

Outubro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005