Domingo, 30 de Outubro de 2005
Quotidianus calor

Todos os dias os cidadãos dos chamados «países ocidentais» preocupam-se com a sua linha, com o seu peso, com o seu volume corporal. Os ditames da moda (o 5º poder, não eleito e inimputável da modernidade, logo a seguir à «comunicação» social, o 4º) assim o exigem e a vida sedentária que a maioria dos seus cidadãos leva mais agrava a preocupação.
Para conseguir esse feito perde-se imenso tempo com tabelas, com dietas milagrosas, com idas ao ginásio, tudo para «
para queimar calorias!»
Este é o grande inimigo das sociedades «ocidentais». Passados os perigos dos animais selvagens (há muito extintos por essas paragens), controladas e quase eliminadas as doenças virais e bacterianas (mesmo a preocupação sobre a SIDA não é já a mesma, apesar de a doença e o seu alastrar ser), feitas as guerras somente em solo estrangeiro, as atenções do mundo «civilizado» centram-se nas
calorias.
No entanto, pergunte-se à maioria das pessoas o que é exactamente «uma caloria» e não saberão o que responder exactamente.
~
Essa é fácil, as calorias são... aquelas coisas que há na comida que fazem engordar.
A maioria das pessoas provavelmente responderá com uma definição dúbia, algo como «aquelas coisas na comida que fazem engordar.»
Um pouco como se as calorias fossem algo que o organismo «queima», uma estrutura física, como as proteínas ou as gorduras, que fazem parte da estrutura dos alimentos orgânicos.
A verdade é que
não é exactamente assim.
Uma caloria é uma
unidade de medida térmica, da mesma forma que os metros são unidades de medida de comprimento ou os litros de volume.
Geralmente associa-se
calorias à comida, mas tudo quanto seja usado para produzir energia pode ser medido em calorias. Por exemplo, 5 litros de gasolina têm aproximadamente 40 milhões, 950 mil calorias. Se os seres humanos pudessem funcionar ingerindo gasolina (que é tóxica), esta seria a quantidade de calorias que estariam a ingerir.
Há três definições internacionalmente aceites para
caloria:
.:. é a energia necessária para fazer subir dos 14,5 para os 15,5
graus Celsius a temperatura de 1 grama de água (à pressão de 1 atmosfera). Corresponde a 4,1855 Joules (O Joule é a unidade de medida internacional de energia)
.:. é exactamente 4,1868 J (ou 1,163 kWh), como definido pela
Fifth International Conference on Properties of Steam (5ª Conferência Internacional sobre As Propiedade do Vapor) em Julho de 1956;
.:. é exactamente 4,184 J (sendo conhecida como caloria termoquímica);

Em nutrição, chama-se geralmente
1 caloria a 1 000 calorias
(
1 quilocaloria). As indicações nos produtos alimentares poderão conter as indicações «caloria», «cal» ou «Kcal. As três designações são equivalentes na comida, e em todas 1 só correponde a uma energia suficiente para fazer subir 1 ºC 1 quilograma de água (supondo que toda a energia era usada somente para aquecer).
Tudo quanto se relaciona com as calorias alimentares é referente a esta medida em particular. Se um produto
light tem 80 calorias, tem energia suficiente para aquecer 1º oitenta quilogramas de água. Equivalentemente se, num exercício, é referido que o mesmo consome 800 calorias, estas equivalem à energia necessária para elevar 1ºC uma 800 Kg de água.
Não são só as gorduras ou os açúcares que têm calorias. Tudo quando é digerível pelo organismo tem calorias, pois todas elas podem ser aplicadas ao desgaste de calorias. O organismo tem, como fonte de energia imediata, os açúcares que possui diluídos no sangue. Quando esses se esgotam (ou, por não serem usados, são armazenados na forma de gordura) as reservas lipídicas são usadas.

Após esta reserva ser esgotada o organismo inicia o consumo das proteínas que compõem os músculos (e todo o corpo). Por isso as pessoas que se exercitam sem consumir a quantidade suficiente de alimentos para equilibrar (ou as pessoas anoréticas) perdem massa muscular e definham fisicamente. Perante a falta de reservas, o organismo recorre aos tecidos dos músculos. Os nutrientes são levados para as mitocôndias, onde são «queimados» com o oxigénio inspirado e a sua energia é libertada e transportada pelo corpo sob a forma de ATP.
(para algo interessante sobre as mitocôndrias ver
Sinto saudades da minha avó)
Assim:
~ 1 grama de gordura tem 9 calorias alimentares,
~ 1 grama de álcool tem 7 calorias alimentares,
~ 1 grama de hidratos de carbono tem 4 calorias alimentares,
~ 1 grama de proteínas tem 4 calorias alimentares.
. Assim, para avaliar a quantidade de calorias alimentares basta adicionar as calorias de todos os seus constituintes.
Por exemplo, peguei num iogurte que tinha as seguintes indicações:
- valor energético: 77 kcal;
- proteínas: 3,9 g;
- hidratos de carbono (incluindo açúcares): 12,6 g;
- lípidos (gorduras): 1,2 g;
Vejamos as contas das calorias: 3,9x4 + 12,6x4 + 1,2x9 = 15,6 + 50,4 + 10,8 = 76,8 kcal.
São os 77 que referem (76,8 arredondados às unidades).
Um ser humano adulto necessita de 2 mil e 500 kcal por dia (homens) e 2 mil kcal por dia (mulher). No endereço
Emagreça com saúde - necessidades calóricas diárias pode-se calcular um valor aproximado das necessidades calóricas do nosso organismo por dia (eu já experimentei e necessito de, mais ou menos, 2 937 calorias (alimentares) por dia tendo em conta minha altura e o meu peso).
O endereço
Emagreça com saúde tem uma série de informações em português e calculadoras on-line para ajudar a controlar o peso corporal e as gorduras ingeridas.
A quantidade de calorias (alimentares) que determinado produto alimentar contém é medido consumindo uma amostra num aparelho chamado
calorímetro e verificando a temperatura produzida e multiplicando-a por uma constante.
A energia libertada por uma tonelada de TNT é superior a 1 mil milhões de calorias.
Uma tonelada de TNT é assim capaz de elevar 1 grau a temperatura de 1 mil milhões de kg de água ou alternativamente 1 mil milhões de graus 1 grama de água.
No título «Calor quotidiano»
Sábado, 29 de Outubro de 2005
Lusitanae linguae


Quem viva em Portugal, tem há muito constatado a «colonização» linguística brasileira.
Não há agressividade, nem intenção mais dúbia nem declarado interesse em o fazer por parte dos brasileiros. Compando os dois países numa série de itens (desde a geografia, à população, às realizações artísticas e científicas, entre outras) facilmente se verifica que não passamos de uma pequena gota de água perante o vasto oceano brasileiro.
Essa «colonização» linguística é realizada através de dois vectores primordiais: as telenovelas e a música. É inegável a experiência brasileira na produção de telenovelas bem como o é a qualidade musical de muitos dos seus intérpretes.
Geralmente essa colonização é apercebida (quando o é) através do uso do gerúndio (and
ando, com
endo, nad
ando,...), tão comum no português brasileiro. Mas o gerúndio
não é uma construção verbal brasileira nem uma marca distintiva do português americano, por oposição ao português europeu.
O gerúndio é português europeu de origem e está presente na vertente europeia sem que se considerem influências brasileiras. «Vou
indo para o café», «Vai
andando que eu já lá vou ter», são exemplos tão corriqueiros do uso gerúndico que nem deles damos conta.
A diferença prende-se com o facto de nem sempre se usar por cá o gerúndio quando os brasileiros o fazem.
Se, do outro lado do oceano, se dirá «Estou
comendo feijão», cá diremos «Estou
a comer feijão». O gerúndio é, nesta frase, tranformado num infinitivo antecedido do artigo «a». «Estou
a andar de bicicleta» por oposição a «Estou
andando de bicicleta».
Não, não é o uso do gerúndio que distingue o português europeu do português americano. Há uma outra forma gramatical (ou melhor, a sua ausência) que tem, aos poucos, dominado a cultura linguística portuguesa. Tem-no feito de uma forma que tem passado desapercebida à maioria da população que, no entanto, a usa abundantemente (nada mau como paradoxo, uma ausência usada abundantemente...).
Falo da
pronominalização.
Cada vez mais se ouvem frases do tipo «Eu dei
a ela o livro» ou então «Ele disse
a mim que ia embora». Os brasileiros há muito eliminaram (do uso quotidiano, não das suas gramáticas) os pronomes nas suas construções verbais, pelo que os exemplos acima transcritos soam correctos pronunciados por um brasileiro.
Mas a norma em Portugal ainda é o uso dos pronomes nas construções verbais, na
conjungação pronomial.
«Eu dei
-lhe o livro», «Ele disse-
me que ia para casa», «Ela viu
-o na cidade». Cada vez mais esta bela estrutura gramatical portuguesa se perde na boca de quem devia mais fazer por a manter: os portugueses.
A conjugação pronomial tem algumas características que a falta de uso faz cada vez mais esquecer. Em primeiro lugar, os
pronomes (que significa «em vez do nome») são palavras usadas para evitar a repetição de um nome numa frase ou num texto quando surgem próximos.
O pronome, em alguns casos, também substitui adjectivos ou expressões. Há os pronomes
pessoais («eu, nós, me, nos,...»), os
possessivos («meu, teus, suas,...»), os
demonstrativos («este, aquela, isso,...»), os
interrogativos («qual, quantas, quem,...»), os
indefinidos («algum, nenhum, todos, tantos, nada,...»), os
relativos («qual, quantos, onde, ...»).
Os relevantes para a questão de pronominalização de que falo (e que se encontra numa séria ameaça de extinção) é a relativa aos
pronomes pessoais que substituem os complementos.

Sempre que se quer substituir um nome (ou uma expressão) para que não se repita usa-se um pronome.
«- Contaste
à Marta?»
«- O Filipe
contou-lhe.»
O Filipe contou a ela.Mas há situações em que os pronomes pessoais são alterados para se ajustarem ao verbo que pronominalizam ou em que não vêm depois do verbo. Por vezes vêm antes ou mesmo no meio (e é no desconhecimento dessa alteração, desse reposicionamento ou da combinação das duas que surge outra classe de erros ligados à pronominalização).
.:. Quando a frase está na
negativa o pronome pessoal vem
antes do verbo.
•
Eu vi-a. → Eu não a vi.
•
Ela penteou-se. → Ela nem se penteou.
.:. Quando a frase expressa uma possibilidade (usando «se») o pronome pessoal vem
antes do verbo.
•
Sabe-se a verdade. → Se se sabe a verdade.
.:. Quando adiciona a uma frase um pronome antes de um verbo pronominalizado, o verbo passa a estar antecedido do pronome pessoal que tinha</b>.
•
Ela vai-me dar um livro. → Ela disse que me vai dar um livro.
•
Custa-me muito o andar. → Quanto me custa o andar?
•
Alguém quer-me mal. → Quem me quer mal»?•
Fazem-me companhia. → Todos me fazem companhia.
•
Fazem-me companhia. → Ninguém me faz companhia.
•
Vais-te embora? → Quando te vais embora?
•
Tanto me faz.
.:. Quando o verbo que se quer pronominalizar está numa forma verbal terminada em
r (futuro, condicional, infinitivo,...) o pronome pessoal vem
entre a raíz do verbo e a terminação verbal. Se for a 3ª pessoa, os pronomes pessoais o, a, os, as tornam-se lo, la, los, las e a letra final do verbo é transformada num acento (agudo ou circunflexo).
•
Saberia bem jantar. → Saber-me-ia bem jantar.
•
Beijaria a tua face. → Beijar-te-ia a face.
•
Consolaria um aumento. → Consolá-lo-ia um aumento.
•
Comeria uma manada inteira. → Comê-la-ia inteira.
•
Farei um bom trabalho. → Fá-lo-ei bem.
•
Contruirei uma casa. → Contruí-la-ei.
.:. Quando o verbo que se quer pronominalizar está numa forma verbal terminada em
m ou num ditongo nasal (ão, aõs, ãe, ães, õe, ões) o pronome pessoal vem
no final do verbo e fica antecedidos de «n» (no, na, nos nas).
•
Comeram toda a comida? → Comeram-na toda.
•
Eles dão pães a todos. → Eles dão-nos a todos.
.:. Algumas palavras também forçam a inversão do pronome e do verbo:
•
Para se saber mais deve-se estudar.•
Por se poder é que eu o faço.•
Quanto mais se insiste mais nos foge.•
Tens razão em não gostar mas também me deste a provar.Esta é uma forma gramatical de extrema beleza, uma forma verbal ausente do Inglês (e por ventura por essa razão cada vez menos em uso no Brasil): «I told Maria → I told her» é sempre construído desta forma, nós dizemos «Eu disse à Maria → Eu disse-lhe».
Também parte do desuso e fonte de um clamoroso erro é a confusão que por vezes uma pronominalização pode originar se mal utilizada.
Por exemplo, numa conversa surge o seguinte diálogo:
«O Manuel foi-se embora. Eu dou-lhe a caneta depois.»
Quem pronuncia a frase tanto pode estar a dizer que a caneta será dada à pessoa a quem se dirige (de uma forma formal) ou que se dará a caneta ao Manuel.
Para esclarecer, costuma-se então acrescentar «Eu dou-lhe (a ele) a caneta depois.»
Mas a consciência da existência e necessidade dos parêntesis não é percebida por todos.
Facilmente se torna a frase «Eu dou-lhe a ele a caneta depois».
Como soa mal a repetição do «lhe» com o «ele», e tendo em conta o exemplo brasileiro, passaram os portugueses a omitir o «lhe» preservando o «a ele».
Mas isto não passa de uma teoria pessoal carecida de fundamento, se o houver.
Infelizmente a alguns não soa agressiva a repetição do complemento, pelo que a partícula não é omitida. Lembro-me bem de uma frase que existia pintada num prédio vizinho a um que habitei por 3 anos: «Sereia, eu te amo você.» Palavras para quê?!Não pretendo, de forma
alguma (este vício da dupla negativa...), desprestigiar o português americano.
Desde 1822 (em Setembro o «Grito do Ipiranga» e em Dezembro a proclamação de D. Pedro como Imperador) que o Brasil e Portugal assumiram destinos e evoluções independentes. A língua, a cultura, a mentalidade tomaram rumos diferentes. A evolução linguística brasileira assume direcções divergentes da portuguesa. Se isso é bom ou mau cabe aos brasileiros, como nação independente e soberana, decidir. A experiência da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), meritória e desejável como é, peca pelo seu atraso e indecisão. A língua portuguesa continua a evoluir por caminhos diferentes nos países em que é falada. Provavelmente assistiremos, no futuro, à emergência de línguas diferentes com a mesma raíz portuguesa. Quem sabe se não teremos no futuro línguas lusitanas como temos hoje línguas latinas...
No título «Línguas lusitanas»
Terça-feira, 25 de Outubro de 2005
Duplex negatio
Usa-se correntemente expressões como estas: «Não vi nada», «Não vi ninguém».

São expressões formuladas com a intenção de serem negativas.
No entanto usa-se uma dupla negativa na expressão, situação que, em termos lógicos, anula a negativa e a torna afirmativa.
Se alguém diz «Não vi tudo», sabe-se que ficou algo por ver.
Então se se diz «Não vi nada», é porque algo foi visto
(teria de se dizer «Vi nada», tal como se diz «Vi tudo»).
Costumava pensar que esta situação se devia à crónica iletracia matemática portuguesa.
Mas a prudência em referir essa hipótese sem bases de sustentação compensou.
Este paradoxo de se pretender falar na negativa, formando uma dupla negativa (que é equivalente a uma afirmativa) permeia as línguas de origem latina.
Há no Espanhol («No quiero nada»), há no Francês (o inesquecível «Je ne regrette rien» de Edith Piaf), no Italiano («No fato niente»), há no nosso Português,...
No entanto tal construção de dupla negativa é inexistente nas línguas germânicas.
O equivalente inglês do «Não vi nada» é «I didn't see anything», que é literalmente «Não vi coisa alguma». Se alguém disser «I didn't see
nothing» será alvo de chacota.
No alemão a situação é igual.
Numa gramática latina que por acaso tinha à mão, procurando no índice, eis que me surge a construção gramatical «dupla negativa».
Folheei (atenção que não se diz desfolhei, isso é retirar as folhas e não percorrê-las) então a dita gramática
(«Gramática Latina», das publicações da Faculdade de Filosofia e Livraria A.I., edição de 1987) para as páginas que referiam.
Continha alguns exemplos do uso da dupla negativa em Latim.
Mas os Romanos usavam-na como «
equivalente a uma afirmação e dá-lhe maior ênfase».
Ou seja em Latim tinham a consciência das regras da lógica na construção de frases.
Como exemplos:
«Non indignus» - muito digno;
«Non nescius» - muito competente;
«Nemo non videt» - todos vêem.
Referiam ainda como a
posição da partícula
non na frase afectava o significado e poder ter assim dois significados (ambos graus diferentes de
afirmação).
.:
Non antes de uma palavra negativa significa
algum;
(
Non nemo vidit - Vi
alguns)
.:
Non depois de uma palavra negativa significa
todo;
(
Nemo non vidit - Vi
todos)
Assim, a frase
Nemo non mortalis est é «Todos (os Homens) são mortais»;
Non nemo pauper est é «Alguns (Homens) são pobres».
(O adjectivo latino
pauper é usado no superlativo absoluto sintético português de pobre «
paupérrimo»)
Como se passou de «uma dupla negativa reforça a
afirmativa» para
«uma dupla negativa reforça a
negativa» é mais um desses mistérios com que a evolução das línguas humanas nos brinda.
Suspeito, no entanto, de uma possível origem. Na altura em que o Latim era a língua mais viva da Europa, havia duas classes de Latim, uma para cada classe dentro da sociedade romana.
Havia o Alto Latim, falado pelos oradores, pelos políticos, pelos pensadores.
Havia o Baixo Latim, falado pelos membros da classe mais humilde e, no sistema sem educação obrigatória romano, sem instrução.
Quem falava o Alto Latim preocupava-se com a forma como se expressava, com a preservação da correcta construção gramatical e pelo adequado uso semântico.
Quem falava o Baixo Latim preocupava-se meramente em que outros o entendessem, sem preocupação pela pureza da língua.

As línguas românicas (Português, Espanhol, Francês, Italiano) derivam todas do Baixo Latim. Pode entender-se assim facilmente como uma distorção no uso da dupla negação se pode ter dessiminado pelas línguas românicas modernas. De reforço da afirmativa (numa construção de inegável valor lógico) passou-se para o reforço da negativa (numa construção que ignorava subtilezas e apenas se preocupava com o significado imediato).
Tenho verdadeiramente pena que a evolução das línguas siga o sentido da sobre-simplificação, por tal destruir formas gramaticais e semânticas de claro valor estético e lógico. Para quem já tenha entrado em contacto com o Grego clássico e o compare com o moderno, ou quem tenha visto o Latim e o compare com as línguas românicas actuais não pode deixar de notar a maior pobreza das últimas.
Estou absolutamente consciente da necessidade e do valor da evolução como processo que formou o Universo em que habitamos e dotou a Terra de toda a variedade que conhecemos.
Mas não posso deixar de sentir pena pela evolução da linguagem humana tender para a simplificação e não para a complexidade, tender para o empobrecimento e não para o enriquecimento.
(Já no artigo
Evolução e princípios fiz uma reflexão semelhante, num outro contexto.)
O uso da dupla negativa em Português é evitável facilmente («Não vi coisa alguma», «Nada fiz», «Não fiz coisa alguma», «Nada sei», «Sei coisa nenhuma»,...), pelo que eu faço o esforço consciente de banir o seu uso no meu discurso oral e escrito. Por vezes falho (tal é a força do hábito) mas faço por banir. Mas é difícil de sustentar essa luta perante a avalanche do seu uso quotidiano em Portugal.
Não tenciono modificar a forma como as pessoas se expressam, esta é uma questão a meu ver pessoal e o uso legitimou a dupla negativa como negativa (e não como afirmativa) em Português. Aceito isso, mas não me entrego. É por esta luta pessoal ser difícil de manter que redobro ainda mais o esforço de me auto-corrigir.
A inconsciência dos processos lógicos da estruturação do pensamento humano pode conduzir a aparentes paradoxos, fruto apenas da incorrecta utilização da lógica:
«Penso logo existo» -> «As batatas não pensam logo não existem»
A negação de implicações inverte o sentido das implicações.
«Penso, logo existo» -> «As batatas não existem logo não pensam», frase que é assim lógica: o que não existe não pensa.
Assim se vai no caminho da Lógica na Europa latina, a Lógica que moldou o espírito humano, seguindo a sua dupla progenitora, a Matemática, que moldou o Universo e a Lógica. (Como visto em Omnia factus mathematica).
No título «A dupla negativa»
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005
Mathematicus demidius cor

A 21 de Outubro de 1833 nasceu em Estocolmo, Suécia, um menino a quem foi dado o nome de Alfredo. O seu pai era um engenheiro de pontes chamado Immanuel que também se interessava pela investigação sobre explosivos. Mas as coisas correram mal e Immanuel ficou na miséria. Deixou por isso a família em 1837 para procurar trabalho na Finlândia e na Rússia. As coisas melhoraram e, em 1842, a sua família juntou-se-lhe em São Petersburgo. Lá o pequeno Alfredo recebeu uma excelente educação.
O pequeno Alfredo gostava de Química e Física, apesar das suas paixões serem a Literatura e a Poesia (quando morreu deixou escritos 1 500 livros de Literatura, Poesia e Filosofia). Mas o seu pragmático pai considerava semelhantes coisas uma perda de tempo e decidiu que o seu filho receberia formação como Engenheiro Químico. Como o seu pai, Alfredo desenvolveu um gosto por explosivos, em particular pela nitroglicerina. Esta tinha sido descoberta pouco tempo antes (em 1847) por
Ascanio Sobrero. Era um líquido pastoso, incolor, muito explosivo e acima de tudo muito instável e sensível ao mais pequeno choque. Alfredo decidiu experimentar várias combinações de nitroclicerina com outros compostos para a tornar mais estável e manejável.

Em 1867 Alfredo patenteou um composto de nitroglicerina a que deu o nome de
dinamite. E nos anos seguintes viajou pelo mundo vendendo a sua invenção e tornando-se cada vez mais rico. Pelo caminho ia patenteando outras descobertas (num total de 355, como a seda artificial, a borracha sintéctica, entre outras).
Quando morreu, a 10 de Dezembro de 1896 em São Remo, Itália, Alfredo doou 9 milhões de dólares para a criação de uma instituição que deveria premiar anualmente as personalidades que «mais contribuiram, no ano anterior, para o maior benefício da Humanidade» numa de 6 áreas: Paz, Literatura, Física, Química, Medicina (ou Fisiologia). O da Economia surgiu mais tarde, instituido por um banco.
Nasciam os
Prémios Nobel(que, respeitando as convenções da língua portuguesa, deve ser lido como «Nobél», por terminar em L e não ter acento na penúltima sílaba).Mas uma área do conhecimento humano, uma que tem acompanhado o Homem desde que ele surgiu na face do planeta, foi misteriosamente deixada de lado:
não há Prémio Nobel da Matemática!
~ Cá para mim ele também não gostava de Matemática! Era cá dos meus!Os mais néscios poderão pensar que isto se deveu a alguma aversão de Nobel pela Matemática.
Tendo sido Nobel engenheiro e inventor, os conhecimentos e as aplicações matemáticas ter-lhe-ão sido muito importantes.
Por isso a razão desta ausência tem sido objecto de muitas especulações.

.:. Uma das especulações mais comuns (se bem que inteiramente infundada) é a de que Nobel terá decidido não atribuir um prémio à Matemática por causa uma mulher que não o quis (ou trocou-o ou atraiçoou-o) por um eminente Matemático sueco da altura,
Gosta Mittag-Leffler. Ela tê-lo-ia recusado em detrimento de um Matemático famoso (ou tê-lo-ia traído com um).
Mas
não há evidências históricas que apoiem tal afirmação.
Em primeiro lugar, Nobel (o nosso pequeno Alfredo) nunca casou. Por isso não podia ter sido traído ou trocado por
Gosta. Ele teve realmente uma amante, uma vienense chamada Sophie Hess mas não há registo de qualquer separação ou traição.
Depois, apesar de
Gosta Mittag-Leffler ser um matemático importante na Suécia nos finais do século XIX, princípios do século XX e fundador do jornal
Acta Mathematica, além de ter tido um papel importante no estabelecimento da Universidade de Estocolmo enquanto director da Stockholm Hogskola, precursora da Universidade, parece altamente improvável que ele tivesse sido um grande candidato para um Prémio Nobel da Matemática.
Na mesma época viveram grandes Matemáticos como Poincaré e Hilbert.Acresce que não há evidências de que
Gosta Mittag-Leffler tivesse muito contacto com Nobel (que morou em Paris nos últimos tempos da sua vida) e muito menos que houvesse inimizade entre eles por qualquer razão.
Pelo contrário, perto do final da vida de Nobel,
Gosta Mittag-Leffler esteve envolvido em negociações diplomáticas para tentar persuadi-lo a legar parte da sua fortuna à Hogskola.
É difícil de acreditar que ele o tivesse tentado se existissem problemas entre eles.
Até porque inicialmente Nobel teve mesmo a intenção de fazer esse legado à Hogskola.
Só depois lhe ocorreu a ideia do Prémio Nobel, para grande desgosto da Hogskola (para não falar no dos parentes de Nobel e da "senhorita" Hess, claro).
.:. Uma outra especulação é do foro psicológico: será que Nobel, ao escrever o seu Testamento, presumivelmente repleto de grande benevolência para com a Humanidade, se teria permitido a este acto de má vontade, só para distorcer os seus planos idealistas para o monumento que ele iria deixar? Parece demasiado rebuscado e irrealista que alguém tenha doado toda a sua fortuna para uma instituição que propositadamente teria «maculado».

.:. A explicação mais plausível é a de que Nobel, inventor e industrial, não criou um prémio para a Matemática simplesmente porque não se interessava por ciências teóricas. O seu testamento falava de prémios para aquelas "invenções e descobertas" de grande benefício prático para a Humanidade. Esta não ser considerada uma ciência prática da qual a Humanidade pudesse beneficiar (o principal motivo da criação da Fundação Nobel).
A isto só posso conter um brado de exclamação por uma tão veneranda instituição prolongar um preconceito desactualizado do século XIX.
(Para não ficarem fora da festa dos Grandes Prémios, os matemáticos domundo decidiram lutar. Em 1924, no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM) realizado em Toronto, Canadá, foi decidido que em cada nova sessão do Congresso seriam atribuídas duas medalhas de ouro para reconhecer grandes feitos Matemáticos.)
Contudo a versão das rivalidades por causa de uma mulher é muito mais apelativa às (in)sensiblidades das massas e por isso irá continuar a transmitir-se erradamente a ideia do
«Amor atraiçoado logo não há Prémio Nobel da Matemática.»
Os membros da família Nobel ficaram chocados quando viram que a fortuna que esperavam receber tinha sido dada por Nobel para criar os Prémios Nobel.
Contestaram em tribunal o testamento mas perderam.
Os desejos de Nobel foram concretizados e os primeiros foram atribuídos em 1901, cinco anos após a sua morte (acho sempre estranho quando vejo a expressão «aniversário da sua morte». O paradoxo da frase é por demais evidente).
Foram atribuídos nesse primeiro ano de 1901 o Nobel da Química a Jacobus H. van 't Hoff; da Literatura a Sully Prudhomme; de Medicina a Emil von Behring; da Paz a Henry Dunant e Frédéric Passy; da Física a Wilhelm Conrad Röntgen
O Prémio Nobel da Economia foi apenas estabelecido em 1968 pelo Riksbank (Banco Sueco) por altura do seu tricentésimo aniversário.
A Academia Real de Ciências de Estocolmo administra os prémios de Física e de Qúímica, o Instituto Real Médico Caroline atribui o de Medicina, a Academia Sueca atribui o da Literatura e o Parlamento Norueguês atribui o da Paz.
Alfred Nobel faria hoje, 21 de Outubro de 2005, 172 anos e ainda hoje o seu nome é snónimo de prestígio. Mas concerteza ele também teria gostado de ser conhecido pela sua vasta obra literária. Destinos...
No título «Coração partido matemático»
Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005
Libera cafea
Na sequência da dúvida levantada pelo
Rui em relação ao processo de descafeinação do café segue-se a descrição dos vários métodos pelos quais a descafeinação é feita.
Geralmente ouvem-se opiniões sobre os descafeinados, nomeadamente quanto à segurança do processo pela qual a extracção é feita ou sobre a qualidade do produto final, sem que se saiba como é o processo. É novamente a velha tendência que se tem de repetir o que se ouve sem primeiro verificar a sua veracidade. A oficiosa perrogativa do Cognosco é verificar noções que são repetidas como sendo verdades sem que no entanto haja uma confimação. Por vezes são falaciosas, por vezes não. Mas há que verificar

A
descafeinação é o processo pelo qual se remove a maioria da cafeína dos grãos de café (ou das folhas de chá). Um café é considerado descafeinado na UE quando a percentagem de cafeína presente na bebida é
inferior a 0,1%.
Concentremo-nos nos métodos de extracção de cafeína dos grãos de café, uma vez que este é o cerne da dúvida e porque é de certeza a dúvida mais pertinente para a maioria das pessoas. Há vários processos pelos quais a cafeína é extraída. Envolvem habitualmente passar os grãos de café por jactos de vapor a grande temperatura, em seguida por algum agente (químico ou físico) para remover a cafeína, evitando retirar os outros componentes do grão (que dão ao café o aroma e o paladar). Este processo pode ser repetido várias vezes até que o produto final obedeça às exigências. Os diferentes métodos usados correntemente são:
~ Processo de Roselius: este foi o primeiro processo para a extracção da cafeína do café. Foi inventado em 1905 por Ludwig Roselius e Karl Wimmer na cidade de Bremen na Alemanha. Envolvia passar os grãos verdes de café por um vapor de água com sal e em seguida passar os grãos por benzeno, uma vez que a cafeína se dissolve nesse líquido. Mas o benzeno é uma substância tóxica e há vários problemas de saúde relacionados com a exposição prolongada a este líquido incolor e de sabor adocicado. O maior problema relacionado com uma exposição prolongada é ao nível dos constituintes do sangue. A medula óssea é afectada e pode haver uma diminuição do número de glóbulos vermelhos no sangue (anemia), problemas ao nível das plaquetas (hemorragias difíceis de estancar) ou os glóbulos brancos serem afectados, com aumento do risco de infecções ou mesmo de leucemia. O benzeno é uma substância muito usada pela indústria química e encontra-se nos cigarros e nos vapores da gasolina. O exército americano usava o benzeno como componente do
napalm até à década de 90 do século passado. Retiraram-no por causa da sua toxicidade...
A ideia que muitas pessoas têm sobre a toxicidade do descafeinado é devida ao uso que se fazia do benzeno para retirar cafeína.
Mas o benzeno já não é usado para descafeinar grãos de café, pelo que esse ideia já
não tem fundamento. O método foi abandonado.
~ Método directo: com este método os grãos são passados por um jacto de vapor de água a grande temperatura durante 30 minutos. Depois são, durante 10 horas, mergulhados em
acetato de etilo ou por
clorometano, substâncias que dissolvem a cafeína. Como qualquer uma delas é também tóxica, os grãos passam novamente 10 horas sob um jacto de vapor escaldante para remover qualquer vestígio do solvente usado.
(Método europeu directo)~ Método indirecto: os grãos de café são mergulhados em água quente por vários horas. A água quente extrai os componentes do café dos grãos (basicamente é uma grande chávena de café). Os grãos são retirados e é usado
acetato de etilo ou
clorometano para remover a cafeína do líquido. Este é então fervido para remover o solvente usado. Os grãos de café são reintroduzidos no líquido (os grãos já não têm cafeína e o líquido também não). Obtem-se assim uma bebida de café descafeinado.
(Método europeu indirecto)
~ Método de filtragem: é similar ao método indirecto, só que em vez de se usar
acetato de etilo ou
clorometano para remover a cafeína, passa-se a solução por um filtro de carvão. O filtro é previamente mergulhado nalgum hidrato de carbono, como a sacarose, para que remova o mínimo de moléculas da solução para além da cafeína.
(Método suíço)~ Processo Dióxido de Carbono-Oxigénio: os grãos de café são passados pelo vapor de água a grande temperatura. São depois mergulhados num banho líquido de dióxido de carbono a grande pressão (entre 73 e 300 atmosferas. Todos os gases, a altas pressões ou baixas temperaturas, tornam-se líquidos. Para valores maiores de pressão ou menores de temperatura tornam-se sólidos.) Após algum tempo a pressão é diminuida para que o gás evapore. A cafeína é removida juntamente com o dióxido de carbono. Oxigénio pode também ser usado da mesma forma para extrair a cafeína dos grãos.
~ Processo Contacto Directo: os grãos de café ainda verdes são mergulhados em água quente (ou mesmo café líquido) para atrair as moléculas de cafeína para a superfície do grão. Em seguida os grãos são transferidos para um contentor que contém óleos de café. Após várias horas a altas temperaturas, os triglicerídeos dos óleos de café removem a cafeína (mas não os componentes que dão o aroma e o paladar do café). Os grãos são então retirados dos óleos de café (que contêm a cafeína retirada) e são secos. Os grãos podem então ser usados para fazer descafeinado.
Não há consenso sobre qual destes métodos é o melhor (em termos de segurança e de preço final do produto). Diferentes fabricantes usam diferentes métodos.
Há um novo método que promete vir a ser o futuro do café descafeinado. Recentemente descobriram-se plantas de café que produzem muito pouca cafeína. A quantidade presente varia conforme a espécie, podendo ir dos 40 mg aos 125 mg por 100 militros. Como já referido, a espécie Robusta
contém mais cafeína do que a Arábica
(mais ou menos o dobro). Foi descoberta uma variedade de Arábica
que contém um décimo da quantidade de cafeína do que as variedades mais comuns. Há a esperança de que uma variedade que não contenha caféína venha ainda a ser encontrada...
No título «Café livre»