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Diário das pequenas descobertas da vida.
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2006
La nourriture des dieux
Theobroma cacaoA Theobroma cacao é uma das árvores mais simpáticas do mundo:
~ não é excessivamente alta, com os seus entre 4 e 8 metros de altura com folhagem perene (isto é, no Inverno não perde as folhas e estas são sempre verdes).
~ surgiu inicialmente na América do Sul mas é agora plantada em qualquer zona tropical do mundo. Tornou-se mundialmente conhecida após a sua introdução na América Central pelos povos pré-colombianos e os Espanhóis a terem levado para a Europa sequiosa de novidades de outros Mundos.
~ produz grandes frutos, com em média 25 centímetros de comprimento e 10 centímetros de largura, laranja quando maduros e com meio quilo de peso. No seu interior há sensivelmente 50 sementes, cada uma contendo uma elevada quantidade de gordura vegetal e contendo Teobromina (o mesmo nome que a árvore que a produz).

Já anteriormente se falou na Teobromina (no artigo Cafea est optima amica).
A Teobromina é uma metilxantina, da mesma família que a Cafeína.
A etimologia da palavra é grega, sendo composta por duas palavras:
~ Theo «Deus» e Broma «Comida». A Teobromina, e mais especificamente o fruto que a produz, é a Comida dos deuses e assim era conhecida e apreciada pelos Maias e pelos Aztecas (para mais sobre os Aztecas ver Nex terrae)

É claro que a ninguém escapou de que se fala do Cacau e do produto por excelência feito dele, o Chocolate.
São as propriedades químicas da Teobromina e da sua família química que conferem ao chocolate as suas muito apreciadas qualidades estimulantes e elevadoras do espírito (claro que, para quem consome muito chocolate este efeito não é sentido, da mesma forma que quem bebe muito café não sente os efeitos estimulantes da cafeína). Mas, apesar de pertencerem à mesma família e terem algumas propriedades comuns, a Teobromina e a Cafeína são diferentes no modo de actuação: a Teobromina é um estimulante suave com efeitos prolongados enquanto a Cafeína é um estimulante forte com efeitos breves.

TeobrominaA Cafeína é uma trimetilxantina, enquanto a Teobromina é uma dimetilxantina. Isto significa que, em vez de ter 3 grupos metilos na sua composição química, só tem 2. O grupo metilo é um composto químico formado por um carbono e 3 hidrogénios que só existe ligado a uma molécula (só por si o CH3 não é estável, apenas o CH4, o metano). A diferença num grupo metilo explica algumas das diferenças entre as duas. No organismo a Cafeína (trimetilxantina) é inicialmente decomposta, pelo fígado, em 3 dimetilxantinas (sendo uma delas a teobromina).

Um dos seus efeitos menos conhecido mas mais importante prende-se com a sua toxicidade para animais como os cavalos, cães, papagaios, roedores e gatos (em especial os gatinhos). Há quem, num gesto com boas intenções, dê, aos seus animais, chocolates. Fazem-no correndo o sério mas inconsciente risco de os matarem. Estes animais não conseguem metabolizar a Teobromina, pelo que esta permanece no seu organismo por quase um dia inteiro podendo provocar ataques cardíacos, hemorragia interna e morte.
Por exemplo, para um cão com 20 quilogramas de peso:
~ com 250 gramas de chocolate de leite têm distúrbios intestinais;
~ com 500 gramas de chocolate de leite têm taquicardia (batimentos irregulares do coração);
O chocolate negro tem 50% mais teobromina do que o chocolate de leite, pelo que é mais perigoso para os animais de estimação.


Mas também têm benefícios para a saúde humana: o chocolate contém anti-oxidantes que ajudam a prevenir o envelhecimento prematuro e o cancro e a contribuir para o bom funcionamento do coração. Tem-se falado das propriedades benéficas para o coração do vinho tinto, devido ao seu teor de flavonóides (os anti-oxidantes) mas o chocolate tem mais flavonóides do que o vinho tinto. Conclusão?
Se conduzir não beba, coma um chocolate.

Alto relevo maia no museu de PalenqueAs primeiras evidências históricas do consumo de chocolate vêm de antes de 500 AC na América Central. Os Maias (esse meu homónimo povo há muito merecedor de um artigo do Cognosco), inventores do zero, astrónomos, construtores exímios com apenas ferramentas de pedra, descobriram o cacau na cordilheira dos Andes, na América do Sul, e levaram-no para a América Central. Como descrito em Nex terrae</i>, os Aztecas não eram originários da América Central. A grande potência meso-americana eram os Maias, mas a sua civilização decresceu de importância e desapareceu antes do ano 1000 DC, antes da chegada dos Espanhóis em 1519. Os Aztecas assumiram algumas das tradições maias, sendo uma delas o consumo de uma bebida feita com sementes de cacau (sementes de cacau dissolvidos em água). Os Aztecas chamavam a essa bebida xocolatl, das palavras aztecas xocolli «amargo» e atl «água». O chocolate não era adoçado com açúcar (como se faz modernamente) e era dissolvido em água (daí o seu nome de «água amarga»). Esta bebida era muito apreciada pelas suas propriedades estimulantes (fornecidas pela teobromina) quer pelos Maias quer depois pelos Aztecas, que a tomavam ritualmente antes de uma guerra. Ao xocolatl eram, por vezes, adicionados pimentos picantes.
(Ora aqui algo que choca com a noção moderna de chocolate: não só não era doce como era picante!)

Quando Colombo chegou à América levou, aos reis espanhóis, algumas sementes de cacau mas a bebida de que era feito não ficou conhecida na Europa imediatamente. Só mais tarde chegou ao «velho» continente, porque a bebida azteca era amarga e diferente dos gostos adocicados dos europeus. Só aos poucos começou a ser apreciada, da mesma forma que na América Central. Era um «gosto adquirido», um pouco como a cerveja, que só ao fim de provar algumas se aprecia e gosta. Somente em 1585 foi enviado o primeiro carregamento de chocolate para a Europa. Os Europeus também a bebiam como «chá de café» (água quente com grãos de cacau muito dissolvidos) mas substituíram o pimento picante por baunilha e acrescentaram açúcar e leite para disfarçar o sabor amargo da bebida.

No século XVII Turinby Doret criou o primeiro chocolate sólido, em 1819 Cailler criou a primeira fábrica de chocolate suíço e em 1828 Van Houten inventou um processo pelo qual o sabor amargo era retirado ao chocolate.
Mas foi o inglês Joseph Fry que, em 1847, criou a primeira barra de chocolate e pouco depois o mesmo fizeram os irmãos Cadbury (cujo nome dispensa apresentações). Finalmente, em 1867, os suíços Daniel Peter e Henri Nestlé criaram o primeiro chocolate de leite.

Curiosamente, tendo em conta a sua origem sul-americana, a Theobroma cacao é agora principalmente plantada em África. 40 % da produção mundial vem da Costa do Marfim (este país africano tem muitas ligações ao passado dourado de Portugal. A ver, num artigo próximo...), o Gana (também em África) produz 15 %, a Indonésia (entre a Ásia e a Austrália) produz outros 15 % e os restantes 30 % dividem-se por alguns outros países (Brasil, Nigéria, Camarões,...).

No título a minha periclitante tentativa de recordar o francês liceal:
«A comida dos deuses»

Obrigado à Pauxana pela correcção ao francês inicial do título.
Está já correcto e mais uma vez os teus olhos de lince ajudaram o Cognosco.

Dedicado a quem Sabe Onde Fica o Intenso Amor...


Publicado por Mauro Maia às 10:18
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Sábado, 18 de Fevereiro de 2006
Svefn-G-englar
Eis então que o Cognosco chega à bonita idade de 1 ano. Há blogs com menos idade e há muitos blogs com mais idade.
É talvez tempo de fazer uma (mais outra?!) reflexão sobre o que se foi passando por aqui ao longo deste ano.

O Cognosco começou pequeno, mero chapinhar no charco virtual português. Apesar da intenção inicial ser o do registo (pessoal) de saber, muitos artigos iniciais não o foram. Foi a fase do gatinhar, em que a descoberta de como fazer uma página na internet, como gerir um blog, como colocar imagens, como criar hiperligações por vezes superou a qualidade dos textos exibidos. Foi a infância do Cognosco, em que tudo era uma nova e excitante descoberta.

Veio em seguida a colocação de um contador de visitas no blog, a 26 de Abril de 2005 (decisão que levou algum tempo a ser tomada e efectivada, por receio de um nível de visitas tão baixo que poderia pôr em causa o tempo dispendido a gerir o blog).
O nível crescente de visitas confirmou e reforçou a intenção original de divulgação cognoscente. Foi a adolescência do Cognosco, em que a consciência do papel que ocupa e do lugar que nele ocupa determina a sua evolução.

Não sei se alguma vez o Cognosco chegará à idade adulta.
É até um exercício curioso de fazer, o de cogitar qual seria o próximo passo da evolução do blog. Talvez fosse tornar-se profissional, com equipas de redactores a substituir-me como único pesquisador/redactor/editor/censor, talvez o aparecimento de publicidade paga no Cognosco, tornando um hobbie num emprego a tempo inteiro...

Desconfio que o Cognosco viverá felizmente para sempre com acne facial...

Mas falta a reflexão. Já houve outros momentos em que o Cognosco se virou para o seu umbigo. A evolução dessas reflexões constitui, em si mesma, a adequada reflexão neste primeiro aniversário:

~ Cognosco primo a 18/02/2005 o primeiro artigo, em que é exposto o objectivo da criação do blog

~ Ponto da situação a 18/07/2005 Passados 5 meses, a caminho das férias do Verão

~ Bonus natal et felix novus annus a 18/12/2005 Passados 10 meses, na entrada para as férias do Natal

Dois acontecimentos fizeram parar por algum tempo o Cognosco, ambos vividos com bastante angústia e receio pelo futuro do blog:

~ entre 20 de Junho de 2005 e 5 de Julho de 2005 um qualquer problema informático, que nunca pude esclarecer, impediu a escrita de novos artigos. No artigo de regresso das trevas informáticas, He's alive!, há um relato das desventuras na altura ocorridas;

~ a 4 de Feveiro de 2006, uma ida ao médico informático para a colocação de uns apêndices de RAM eliminou todos os documentos guardados no computador, incluindo artigos a publicar, ideias para novos artigos, todas as imagens e artigos guardados, estatísticas detalhadas referentes ao Cognosco desde que foi criado e hiperligações de pesquisa importantes como fontes para novos artigos. O choque foi grande e por alguns dias a tarefa de reconstruir todo o blog parecia demasiado grande para ser suportada pelos meus ombros. Um ano e mais de 250 artigos e respectivas imagens e sinopses para recuperar a meio de complicações laborais era muito pesado. Mas o Cognosco encolheu os ombros, lambeu as feridas e prosseguiu. Algumas das imagens perdidas foram as imagens que compõem o logótipo do Cognosco... No artigo de penso-rápido-sobre-as-feridas, Agradecimento, há um relato dos pensamentos que por mim fluíam (e fluem) sobre esta situação;

Mas o ano que passou foi também feito de momentos agradáveis.


A 16 de Novembro de 2005 o Sapo destacou o Cognosco e fez uma pequena resenha do que interpretou ser o Cognosco. Foi agradável, durante os dois dias em que aconteceu, encontrar o Cognosco na lista de destaques na página de edição de blogs.


Em Janeiro de 2005 a página Ouvi dizer. Esta é uma página que se descreve como «um sistema de divulgação de notícias (...) Permite: - Ler notícias: Últimas notícias - Pesquisar notícias Ouvir mais - Votar nas notícias mais interessantes».
Descobrir o Cognosco entre a míriade de notícias referidas foi uma muito agradável surpresa.

E além disso o grande conjuntos de outros blogs que directa ou indirectamente referem o Cognosco, quer por referência a um artigo em particular
~ Ja me tinha tell
http://jametinhastell.blogspot.com/

~ Apenas mais um
~ Costinhas

quer por referirem a existência do Cognosco:
~ Provérbios e adivinhas
~ Utilidades
~ Google directory
~ Tol
~ All web directory

quer por colocarem o Cognosco na lista dos «links a visitar».
Não terei certamente conhecimento de todos os blogs que o fazem, mas alguns deles são:
~ Nox;
~ O império romano;
~ deprofundis;
~ Política TSF
~ Impressões digitais
~ Já me tinhas tell

Caso eu tenha cometido a injustiça de não referir algum blog que refira o Cognosco e que não coloquei na lista peço que me diga para que a situação seja rectificada


A tudo isto junta-se a lista de visitas internacionais que o Cognosco tem recebido neste curto ano de existência. A lista é já extensa (e este é apenas um exemplo retirado de um dia normal) mas gostaria de salientar que um terço das visitas (mais de 30%) têm sido dos nossos irmãos de além-mar, o Brasil


Ao longo deste ano que passou, os aspectos do Cognosco que suscitavam curiosidade e procura foram mudando ao ritmo dos novos artigos que eram publicados. Mas posso, sem margem de erro, referir que o artigo mais visitado do Cognosco foi:

~ Typi sanguinis sobre os tipos de sangue, como se distinguem, o que são, que consequências têm,...
(por vezes mais visitado do que a própria página principal do blog)

e que a imagem mais procurada e vista (e a principal razão para a visita de pessoas de países de língua oficial não-portuguesa) foi esta, a famosa «foto» do monstro do Lago Ness na Escócia. Esta fotografia foi recentemente exposta como uma grosseira falsificação, um pescoço montado sobre um barco de brincar, como relatado por um dos autores da fotografia no seu leito de morte. Mas a vontade de acreditar em falsidades é grande no ser humano...

Até ao momento em que escrevo este artigo, os 263 artigos do Cognosco mereceram 845 comentários. Muitos deles são meus, em resposta às indagações e cogitações dos leitores interessados. Este artigo é o produto do que eu pude salvar da recente perda. Caso falte ou alguém ache que falta alguma coisa que eu possa complementar não se coíba de dizer. Dentro dos possíveis, procurarei responder.

O balanço geral que faço é que o Cognosco acabou de dar o braço à primeira namorada e o casamento perspectiva-se para breve e para longo tempo...

Obrigado a todos quantos visitam e/ou comentam este pequeno cantinho da minha alma. Levam uma pequena mas importante parte do meu ser.

Desconheço o que significa o título.
As últimas notícias do meu irmão é que o título é um jogo sonoro de palavras: «Svefn» significa dormir, «englar» significa os que falam mas, com o G antes significa os que perseguem (com más intenções). Assim o título é um misto entre «os que falam durante o sono» e «os que nos perseguem durante o sono». É um misto da candura da infância (uma criança que fala durante o sono) e do terror da infância (os monstros que enchem os pesadelos).
A banda é islandesa e canta com uma língua falada inventada chamada(?) «hopelandic». Agradeço ao meu irmão, Rui pelas informações adicionadas sobre a banda.
Mas não tenho dúvidas de que esta música dos «Sigur Ros» é o perfeito espelho dos meus sentimentos...


Publicado por Mauro Maia às 13:21
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006
Ante mortem vivetes

Já todos (?) ouviram falar de «verdades lapalissianas» ou lapalissiadas. É referida como a «lapalissiada» original «Quinze minutos depois de morrer estava morto» (ou alternativamente «Quinze minutos antes de morrer estava vivo»). São afirmações cuja evidência é tão óbvia que se tornam ridículas quando afirmadas («o contrário de estar morto é estar vivo» seria um outro, contemporâneo, exemplo).

 

Sabe-se que as verdades «lapalissianas» estão ligadas a um senhor de nome «La Palisse» (ou «La Palice»), mas poucos saberão quem foi esse dito senhor, se sequer foi fisicamente alguém ou se foi alguma personagem literária e de existência meramente artística e ilustrativa de algum argumento. Município de Pavia, região da Lombardia Mas Jacques de la Palisse existiu realmente, tendo nascido em 1470 na França e morrido em Pavia (município da região italiana da Lombardia), em 1525.

 

La Palisse foi um nobre francês, fazendo parte do exército francês como Marechal. O seu nome completo era Jacques II de Chabannes, Senhor de La Palisse, de Pacy, de Chauverothe, de Bort-le-Comte e de Héron, títulos que dão uma ideia sobre a importância de La Palisse na corte francesa da altura.

 

Em 1470, quando nasceu, a Guerra dos Cem anos já tinha terminado (este é o nome colectivo dado pelos historiadores a um conjunto de conflitos intermitentes entre a Inglaterra e a França ao longo de 116 anos, entre 1337 e 1453), D. Afonso V tinha conquistado a cidade africana de Arzila (abandonada depois por D. João III, em 1549, devido a uma crise económica) e o Império Bizantino foi finalmente derrotado e conquistado pelos Otomanos, um povo de religião muçulmana, que fundaram o Império Otomano (de que a Turquia moderna é o diminuído sobrevivente).

Para mais sobre o Império Otomano ver os artigos:

~ Parténon sobre os Otomanos e a quase destruição deste monumento grego;

~ Míngua sobre a origem otomana do Quarto Crescente muçulmano;

~ Croissant sobre a sua ligação indirecta aos Otomanos;

~ Capuccino sobre a introdução do café e do capuccino na Europa;

~ Um século sobre as ligações indirectas do Império Otomano ao terrorismo árabe;

 

Quando La Palisse tinha 17 anos (1487), Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas (passando então a ser designado Cabo da Boa Esperança), quando tinha 28 anos (1498) Vasco da Gama chegou à Índia e tinha 30 anos (1500) quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. La Palisse cresceu durante a expansão marítima portuguesa e morreu quando Portugal era uma das maiores potências europeias.

 

Mas, na altura, apenas Portugal (e a Espanha) tinha os seus olhos virados para o oceano e para as riquezas que, para além dele, os aguardava. Nessa altura, a Europa vivia mergulhada em agitação e todos os seus recursos económicos e humanos eram delapidados pelas sucessivas guerras e pela Peste Negra que então grassava pelo continente.

 

Na altura, o Papa era o governante dos Estados Papais, que englobavam bem mais do que é hoje o Vaticano, no centro de Roma, e bem mais do que a própria cidade de Roma. Os Estados Pontifícios foram criados em 756 DC e só terminaram em 1870. Em 756 DC, era Papa Estêvão II e o rei dos francos (a actual França), Pepino o Breve, doou à Igreja Católica os territórios no norte da Itália (por ter sido ludibriado pela Igreja com um documento falso que afirmava que os territórios tinham sido há muito concedidos à Igreja Católica por Constantino, imperador romano).

 

A doação incluía terrenos que iam da costa ocidental (com a cidade de Roma, a capital) até à costa oriental, com a cidade de Ravena. Na altura existiam vários estados independentes na península itálica, que constantemente se guerreavam. Os Estados Papais, por estranho que aos olhos modernos o conceito possa parecer, envolviam-se também nas lutas de poder e domínio militares.

 

Papa Clemente VIIEm 1525, o Papa Clemente VII (de nome Giulio di Giuliano de Medici) entrou em conflito com o Imperador Carlos V. Este era duplamente imperador do Sacro Império Romano Germânico (Império que durou do século X até ao inicío do século XIX e formado por vários reinos, cada um governado por um príncipe autónomo do Imperador) e também Rei de Espanha (e as terras do sul da Itália e ainda os Países Baixos), onde era conhecido como Carlos I. A discórdia surgiu por causa das possessões que este tinha na península (que incluíam Nápoles e a Lombardia). Aliaram-se então os Estados Papais e a França de Francisco I. Contra essa aliança, combatiam a Espanha e o Sacro Império Romano Germânico (apesar de terem um imperador comum, Carlos V, este só governava sem limites a Espanha, pois tinha o seu poder limitado pelos príncipes germânicos). Pode-se, dessa forma, fazer a destrinça entre a Espanha de Carlos V e o Sacro Império Romano Germânico de Carlos V. 

 

Como manobra militar, Francisco I (da França) dirigiu-se para a península itálica, com um exército de 25 mil homens, para a conquista dos territórios germânicos. Inicialmente, os franceses conquistaram a cidade de Milão e avançaram para Pavia, a 30 Km de distância a sul (ambas pertencentes ao Sacro Império Romano, i.e., os germânicos). Lá chegados montaram cerco à cidade, protegida por 6 mil homens. Foi durante o cerco que chegaram os exércitos da Espanha e do Sacro Império, com um total de perto de 23 mil homens, que atacaram na noite de 23 de Fevereiro. Apesar de inicialmente vitoriosas, as forças francesas foram aniquiladas e o rei francês foi feito prisioneiro. Morreram 12 mil soldados franceses e apenas 500 entre os aliados Espanha e Sacro Império.

 

Uma das vítimas francesas da Batalha de Pavia foi o marechal La Palisse.

 

As suas tropas, após a sua morte, composeram um música em sua honra.

 letra da música incluía a frase «S'il n'était pas mort, il ferait encore envie»

(Se ele não estivese morto faria ainda inveja)

 

Mais tarde esta linha da música foi erradamente transcrita como:

«S'il n'était pas mort, il serait encore en vie»

(Se ele não estivesse morto estaria ainda vivo)

 

Bernard de la Monnoye viria a adaptar mais tarde a música incluindo a frase distorcida. Foi dessa forma que a frase se celebrizou.

 

O que foi criado para homenagear La Palisse agora ridiculariza-o.

 

Carlos V abdicou em 1556 e dividiu o seu Império por duas pessoas: as possessões espanholas ficaram para o seu filho, Filipe II (o famoso Filipe I de Portugal, fundador da dinastia filipina de 60 anos em Portugal) e o Sacro Império Romano Germânico para o seu outro filho, Fernando I. Castelo de La Palisse O Castelo de La Palisse ainda existe e pode ser visitado. Para mais informações sobre o castelo, horários e preçários ver (em inglês) Château de La Palice No título «Antes de morrer estava vivo»



Publicado por Mauro Maia às 18:16
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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2006
Agradecimento
Nos últimos dias o Cognosco tem andado parado devido a uma série de complicações que surgiram nas duas últimas semanas: na primeira semana poblemas do foro pessoal e este semana problemas do foro informático (adicionados aos pessoais anteriores).

No entanto o nível de visitas ao blog manteve-se nas aproximadamente 250 diárias.
Agradeço a todos quanto não esqueceram este pedacinho de terra no seio do continente virtual português.

Os problemas ainda não se dissiparam e algumas coisas importantes já foram irremediavelmente perdidas. Terão de ser, quando o tempo o permitir, reconstruídas do ponto zero. O Cognosco não acabou nem tão cedo acabará e as dificuldades, longe de o esmorecerem, servirão eventualmente para o reforçar.

A nove dias do seu primeiro aniversário, o Cognosco agradece a todos quanto não o esqueceram.


Publicado por Mauro Maia às 19:09
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2006
Composição
Já foram abordadas, no Cognosco, algumas questões prementes que se relacionam com a bela língua com que tivémos o prazer de nascer e crescer: o Português.

E falo de prazer e honra plenamente consciente que muitos são os que a tratam com desdém e com sobranceria ignorante.



A par dos clamorosos erros no uso do Português há também uma categoria de divulgadores de erros cuja intenção poderá ser positiva mas que tem consequências nefastas.

Falo das «correcções» incorrectas ao Português falado feitas sem a correcta percepção do que se está a querer corrigir.



Falo de situações que levantam tanto dúvidas como esclarecimentos incorrectos do tipo:

«E se te oferecem flores? Teria aceitado.»

Por provavelmente repetição, muitas pessoas teriam corrigido para «Teria aceite.»

Parece soar melhor (por repetição da incorrecção. Mentiras repetidas muitas vezes tornam-se verdades, numa curiosa transformação intelectualmente difícil de compreender - a transformação de algo no seu completo oposto.



Este tipo de construções verbais, em que dois verbos se combinam harmoniosamente como dois amantes separados que após anos se reencontram, chama-se tempo verbal composto.



Geralmente os verbos são usados com um tempo simples (Eu vou à loja e comprarei fósforos). Mas há ocasiões em que é necessário articular dois verbos para compor correctamente uma frase.

Usa-se, nestes casos, verbos auxiliares associados a um verbo principal no particípio passado.



Como exemplos de verbos auxiliares há ter, haver, ser, estar, ficar

~ Eu tenho escapado à tristeza;
~ Ele havia aberto a compota;

~ Se quiser, sou expulso do clube;

~ Tu estás liberto;

~ Ela ficou magoada;




Há duas formas de particípios passados para um dado verbo: a forma regular e a forma irregular.

O Particípio passado regular é formado pela junção do sufixo «ado» ou «ido» (Matar - matado; limpar - limpado);
O Particípio passado irregular não tem, claro está, regra de formação (Matar - morto; limpar - limpo);



Quando o verbo auxiliar é ter ou haver o verbo principal assume o particípio passsado regular (Eu tenho passado pela loja; Ele havia libertado os prisioneiros quando cheguei)



Quando o verbo auxiliar é ser ou ficar ou estar o verbo principal assume o particípio passado irregular (Eu sou afligido por preocupações; Ela ficou acesa; Tu estás completo)



Ora o Particípio passado do verbo aceitar é aceitado na forma regular e é aceite na forma irregular.

Portanto, na frase «Eu teria aceitado» o verbo auxiliar é «ter» e como tal o verbo principal assume a forma irregular.

Dizer «Eu teria aceite» é incorrecto face a esta regra.



Mas há verbos que têm apenas o particípio passado irregular, verbos como:

~ Abrir (aberto) ; Cobrir (coberto); Dizer (dito); Escrever (escrito); Fazer (feito); Pagar (pago); Pôr (posto); Ver (visto); Vir (vindo);...



Estes verbos, independentemente do verbo auxiliar, são sempre usados no partícípio passado irregular (uma vez que não há a forma regular).

Como exemplos da aplicação desta regra:

~ Eu tenho aberto as minhas perspectivas de vida; (ter+p.p. irregular)

~ O meu treino está completo e tenho completado o meu horário (estar+pp irregular; ter+pp regular)

~ Ela haveria apreciado as flores; (haver+pp regular)



Outro problema que surge às vezes com os tempos verbais compostos é a conjugação do verbo auxiliar Haver.





É por este desconhecimento que, por vezes, surgem verdadeiros atentados como «eles hadem vir.» Como facilmente se pode constatar, a forma correcta é «Eles hão-de vir.»



Fazendo então um resumo breve,

Ter e Haver - verbo principal no particípio passado na forma regular (ado, ido);

Ser, Ficar e Estar - verbo principal no particípio passado na forma irregular;



Para mais sobre estas questões do Português, consulte-se o didáctico e interessante blog Em Bom Português, onde, entre outras questões, se encontra abordada a questão dos tempos verbais composto no seguinte artigo.



Um outro verbo, utilizado noutros tipos de conjugações verbais compostas, é o verbo «Poder». Saber quando é «poder» e quando é «puder», quando se usa «o» ou «u» é um problema diário para muitas pessoas. A regra geral é que se deve usar o «o» excepto nestes 4 tempos verbais:




Assim, correctamente escrever-se-á: «Eu vou poder ir à festa» e «Quando eu puder ir à festa".

Em caso de dúvida opta-se pelo «o», excepto nos tempos verbais, do Modo Indicativo : Pretérito-perfeito (pude) e Mais-que-perfeito (pudera), e nos tempo do Modo Conjuntivo: Pretérito Imperfeito (se eu pudesse) e Futuro (se eu puder, quando eu puder).
É sempre relevante sublinhas a diferença entre «pode» - Presente, 3ª pessoa - e «pôde» - Pretérito Perfeito, 3ª pessoa. Mais um caso em que a acentuação faz toda a diferença...
E, claro está, «Poder» como substantivo é sempre com «o»...


Publicado por Mauro Maia às 20:11
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