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Diário das pequenas descobertas da vida.
Terça-feira, 25 de Abril de 2006
O ninja das casas
Há, por vezes, infelizmente notícias de vítimas dos esquentadores a gás.
Quando ocorrem fala-se no gás que as vítimas inalaram e que as asfixiou. Não tendo outra ideia do que poderia ter provocado as mortes, muitas pessoas acabam por considerar que o gás a que os bombeiros se referem é o gás que alimenta os esquentadores. Mas qualquer um sabe que o gás doméstico tem um cheiro característico e difícil de ignorar, quer o metano (CH4) do gás natural quer o butano (C4H10) das botijas. O gás usado em casa, quer nos esquentadores quer nos fogões não tem um cheiro característico no seu estado puro, mas no processo de extracção e engarrafamento são misturados com compostos sulfurosos de cheiro intenso.

O metano não é de forma alguma tóxico e não se morre por se o respirar. No entanto é um poderoso agente de efeito de estufa, 23 vezes mais poderoso do que o dióxido de carbono (CO2). Já o butano comercial é tóxico quando respirado (os sintomas incluem sonolência, batimentos irregulares do coração e asfixia).

Mas então, se o metano não é tóxico e o butano tem um cheiro tão característico que qualquer um sente facilmente a sua presença e escapa para um local mais ventilado, que gás é esse que provoca essas mortes?
O gás em causa é o monóxido de carbono (CO) e este não é um gás que se liberte das botijas ou dos canos de gás natural. O monóxido de carbono é um gás que se forma quando há combustões de qualquer tipo em que o fornecimento de oxigénio é reduzido. Todos(?) sabemos que os animais inspiram oxigénio e expiram dióxido de carbono. O dióxido de carbono é constituído por um átomo de oxigénio e dois de carbono.

Como já visto brevemente no artigo Adipi carbo, uma vez que o carbono tem geralmente 4 átomos de valência e o oxigénio tem geralmente 6 átomos de valência (e como a forma estável de qualquer átomo é ter 8 átomos de valência) numa combustão normal os 4 electrões do carbono são divididos, dois para um átomo de oxigénio (ficando este com oito) e os outros dois para o outro átomo de oxigénio (assim o carbono recebe dois electrões de um oxigénio e outros dois do outro oxigénio). Forma-se assim o dióxido de carbono (CO2).

Isso em condições normais. Em combustões com pouco oxigénio presente (ou muito carbono presente), um átomo de carbono liga-se a apenas um átomo de oxigénio, formando assim o monóxido de carbono. Mas como pode a ausência de um simples átomo tornar uma molécula que o nosso próprio corpo produz numa substância tão tóxica?

Para responder a isso é necessário compreender como o sangue transporta oxigénio e dióxido de carbono para e das células.

O sangue é composto de vários tipos de células, genericamente englobadas em 3 categorias:

~ os glóbulos brancos (que incluem os monócitos, neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos, monócitos, entre outros) conhecidos também como leucócitos (do grego «leukos» branco), encarregues de proteger o corpo de agentes perigosos;
Há cerca de 7 biliões, 7x1012 (entre 4 biliões e 11 biliões) de glóbulos brancos por litro de sangue.

~ as plaquetas sanguíneas ou trombócitos, responsáveis pela coagulação do sangue;
Há cerca de 300 biliões, 3x1014 (entre 150 biliões e 400 biliões) de plaquetas sanguínea por litro de sangue.

~ os glóbulos vermelhos ou eritrócitos (do grego «erythros» vermelho) responsáveis pelo transporte do oxigénio dos pulmões para as células e do dióxido de carbono produzido pelas células para os pulmões;
Há cerca de 5 mil biliões, 5x1015, de glóbulos vermelhos por litro de sangue;

Uma chamada de atenção para o facto de os biliões aqui usados serem os biliões europeus (1012) e não os biliões estado-unidenses (109).
5 000 000 000 000 é 5 biliões na Europa mas 5 triliões nos EUA.
(ver o artigo
Cardinando sobre a questão dos biliões-Europa e dos biliões-EUA)

E são os eritrócitos a razão pela qual o monóxido de carbono é venenoso.
Cada glóbulo vermelho é principalmente constituído por hemoglobina, uma substância que contém átomos de ferro (no total de todos os eritrócitos do corpo humano, há aproximadamente 4 gramas de ferro dos 5 gramas que tem todo o corpo). São esses átomos que conseguem capturar os átomos de oxigénio e libertá-los depois nas células e conseguem em seguida capturar o dióxido de carbono e libertá-lo nos pulmões. As ligações que prendem quer o oxigénio quer o dióxido de carbono aos átomos de ferro são fracas, permitindo a sua fácil libertação.

Mas o monóxido de carbono interage de forma diferente com a hemoglobina do sangue: liga-se de forma permanente (graças ao comentário de «Nox», é na verdade 220 vezes superior à ligação do oxigénio). Quando os glóbulos vermelhos entram em contacto com monóxido de carbono nos pulmões, não conseguem libertá-lo. Enquanto esses glóbulos vermelhos existirem não têm mais a capacidade de transportar oxigénio às células e cada glóbulo vermelho vive aproximadamente 120 dias (cerca de 4 meses)...

As principais fontes de monóxido de carbono na vida diária das pessoas são os veículos automóveis de combustãos interna (os movidos a gasolina, gasóleo, diesel,...); os esquentadores das casas (quando há uma insuficiente ventilação interna do aparelho) e também do fumo do cigarros (ver Fumare salutem para mais sobre esta peste social).

Uma única molécula de monóxido de carbono não é perigosa (apenas incapacita um glóbulo vermelho); 100 moléculas de monóxido de carbono não são perigosas (apenas incapacitam 100 glóbulos vermelhos). Mas cada eritrócito incapacitado é menos um transportador do oxigénio vital para as células e a quantidade de eritrócitos que podem estar bloqueados na corrente sanguínea sem risco de saúde é bastante pequena.

Se o ar que alguém respirar tiver uma percentagem de monóxio de carbono de:
~ 0,0035% - dores de cabeça e tonturas após 6 a 8 horas de exposição continuada;
~ 0,01% - dores de cabeça e tonturas após 2 a 3 horas de exposição continuada;
~ 0,04% - dores de cabeça mais fortes após 1 a 2 horas de exposição continuada;
~ 0,08% - tonturas, náuseas e convulsões em 45 minutos e perda de consciência em 2 horas;
~ 0,16% - tonturas, náuseas e convulsões em 20 minutos e morte em 2 horas contínuas;
~ 0,32% - tonturas, náuseas e dores de cabeça entre 5 e 10 minutos e morte em 30 minutos;
~ 0,64% - tonturas e dores de cabeça entre 1 e 2 minutos e morte em 20 minutos;
~ 1,28% - morte em menos de 3 minutos;

Além disso estudos recentes apontam para que a exposição ao monóxido de carbono reduza a esperança média de vida, por destruir o músculo cardíaco.
(Mais más notícias para quem é fumador, mas também para os mecânicos...)

Um adulto inspira, em média e em cada respiração, meio litro de ar (500 cm3), apesar dos pulmões conseguirem conter perto de 5 litros (500 cm3) de ar.
Bastam 1,28% x 0,5 = 0,0128 x 0,5 = 0,0064 litros (6,4 cm3) de monóxido de carbono para nos matar em menos de 3 minutos!

Ora o monóxido de carbono tem outras características que, a par com a sua extrema toxicidade, o tornam um terrível assassino doméstico.
(a palavra assassino surgiu primeiramente associado a um grupo muçulmano que, na altura das cruzadas, jurou expulsar os invasores cristãos. Para adquirirem uma coragem cega e uma violência suicida consomiam grandes quantidades de haxixe. Eram por isso conhecidos como os «hashashin», os consumidores de haxixe. A palavra foi depois incorporada na Inglaterra do século XVII como «assassin», significando alguém que mata outra pessoa, por qualquer razão).

A razão porque as pessoas morrem nas suas casas devido ao monóxido de carbono, ou dentro de veículos com as janelas fechadas, não é porque estejam desatentas e não sintam o cheiro a gás. É simplesmente porque:
O monóxido de carbono não tem cheiro e não tem cor!

Não se vê, nem se sente. A única coisa que se pode fazer é, quando se sente alguma tontura ou dor de cabeça, num carro a trabalhar parado dentro de um espaço fechado ou dentro de casa (onde, como bem lembrado por «Maria Papoila», há também «as lareiras e os fogões a lenha em cozinhas fechadas») imediatamente abrir uma janela ou a porta da rua e em seguida verificar se alguma fonte de combustão em casa que possa estar a originar a libertação de monóxido de carbono. Essa simples cautela pode salvar a vida a quem morre vítima deste assassino silencioso, um verdadeiro ninja na «arte» da invisibilidade e mortalidade.
Segundo a Direcção-Geral de Geologia e Energia, «em Portugal, entre 1995 e 2003, ocorreram 268 mortes por efeito tóxico do monóxido de carbono, o que corresponde a quase 30 mortes por ano

Em baixo, a fotografia da concentração de monóxido de carbono na atmosfera terrestre, tirada pelo satélite da NASA Terra, em dois momentos do ano 2000.
Chama-se a atenção para o facto de que, nas imagens, o azul é a ausência de monóxido de carbono detectável de órbita, vermelho é valores intermédios e quanto mais claro maior a concentração de monóxido de carbono.



Publicado por Mauro Maia às 16:28
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Sábado, 22 de Abril de 2006
Grandes asas
Graças ao comentário de Nox no artigo Ao contrário da crença popular (Biblus), tive ocasião de recordar algo que fiz há anos. Procurei e eis parte do que encontrei perdido num ficheiro compactado...

OrcaUm dos grupos animais que mais me fascina (e desde pequeno me fascina) é o grupo das baleias (cientificamente correcto é a ordem das baleias, os cetáceos).
De todas, as minhas favoritas são as orcas, parentes dos golfinhos (não são baleias assassinas: os primeiros europeus que as viram a caçar outras baleias (que caçam para comerem a mandíbula inferior e a língua) chamaram-lhes «assassinas de baleias», nome que foi corrompido para «baleia assassina» muito injustamente. Não há um único caso de ataque de orcas a seres humanos no mundo inteiro, quer as que estão em aquários quer as selvagens. São inteligentes e sabem distinguir-nos dos restantes animais...)

Um outro animal que faz parte da nobre ordem dos cetáceos é a baleia corcunda.
Sobre ela há uma variedade de factos curiosos e interessantes (pleonasmo...)

~ O que devia ser do conhecimento geral de todos (mas não é) é as baleias são mamíferos, como os seres humanos, como os cães, como os gatos, como as girafas, como os elefantes, ... Para se perceber bem esta questão, veja-se a seguinte representação dos orgãos internos da baleia:
Orgãos internos de uma baleia corcunda
As baleias são mamíferos porque: ~ amamentam as suas crias; respiram ar; têm pêlos (apesar de poucos); têm sangue quente.

Orca~ Na sua qualidade de mamíferos, as baleias corcundas possuem vestígios dos seus outrora membros inferiores (as suas ancestrais pernas, agora pequenos ossos que servem nenhum propósito para as baleias modernas). São um resquício da evolução das baleias, desde carnívoros terrestres a pacíficos gigantes marinhos (a baleia corcunda e outras baleias «sem dentes»).

~ Um dos factos mais curiosos sobre as baleias corcunda é o facto de serem conhecidas como as cantoras do oceano.
Isso deve-se às vocalizações com que os machos fazem a corte às fêmeas, canções que podem durar até 20 horas seguidas. Mas a sua complexidade leva a pensar que servem propósitos ainda desconhecidos (transmissão de histórias passadas de geração em geração?). Apesar de as canções das diversas baleias dentro do mesmo grupo serem semelhantes, todos os anos a canção é ligeiramente diferente e há claras diferenças entre as canções de grupos diferentes. Nem todas as baleias cantam (outra espécie que o faz é a baleia azul);

Canto de uma baleia corcunda (1:50)

~ têm uma barbatana dornal pequena e espessa, localizada sobre uma saliência nas costas, de onde nome pelo qual são mais conhecidas (são também conhecidas como jubartes);

~ são os animais que fazem as maiores migrações anuais. Existem 2 grupos importantes de baleias Corcunda no mundo: o do hemisfério norte o do hemisfério sul. Ambos migram cerca de 5 000 Km todos os anos. Ambos se alimentam nas águas mais frias dos pólos e dão à luz em águas mais temperadas junto ao equador. Uma vez que o Inverno e o Verão são em alturas diferentes do ano no Norte e no Sul, os dois grupos não se encontram e não acasalam entre si.
Apesar de se alimentarem nas mesmas águas equatoriais um espaço temporal de 6 meses separam-nos.
As do Norte deslocam-se para o equador nos meses de Junho, Agosto e regressam a águas mais frias e ricas em alimento no Árctico em Abril.
As do Sul migram para o equador em Novembro e regressam em Maio.
As Jubartes não migram todas de um só vez. Em vez disso, migram ao longo de um período de 5 meses. As águas polares (árcticas ou antárcticas) são demasiado frias para as crias e no Verão o alimento escasseia nesses locais. Por isso as Baleias Corcunda migram para dar à luz;

~ têm em média um comprimento de 15 metros e um peso de 15 toneladas (ver o artigo Mega sobre uma possível razão para o enorme tamanho das baleias), mas as crias só (?) nascem com 5 metros de comprimento e 2 toneladas de peso. As crias são amamentadas (as suas mães produzem 600 litros de leite por dia) até fazerem um ano e terem 8 metros de comprimento com um leite extremamente rico em gordura (35% de gordura, enquanto o leito humano só tem 2%). Aumentam dessa forma de peso entre 45 kg e 60 kg dia. Na viagem a caminho de climas mais frios as crias, para não se cansarem, usam um efeito de «hidro-vácuo»: colocam-se ao longo do maior diâmetro da mãe e directamente por baixo e ao lado da barbatana dorsal. A água ao fluir por entre os corpos das duas aumenta a velocidade e diminui a pressão na área circundante, permitindo à jovem cria acompanhar a velocidade dum adulto com apenas 75% do esforço.
Quando atingem os 10 anos de idade ficam sexualmente activas, a gravidez dura 12 meses (um ano inteiro) e têm crias de 2 em 2 anos (um ano para a primeira cria ser desmamada e um ano para a segunda nascer);

~ Possuem nas suas caudas manchas brancas distintas de indivíduo para indivíduo (as suas impressões «digitais»). Quando a baleia mergulha é a cauda a última a submergir. Isso dá aos observadores a hipótese de as fotografarem e assim distinguirem os diversos indivíduos duma população. As baleias Corcunda são quase pretas, com a zona da barriga, a parte interior da cauda e das barbatanas peitorais em padrões de branco e preto distintas entre indivíduos. Não possuem orgãos genitais externos para assim aumentarem a sua hidrodinâmica. O pénis dos machos bem como os seios das fêmeas situam-se em dobras na pele do animal e só são “exibidos” quando necessários, o pénis dos machos durante a cópula e os seios da fêmea durante a amamentação. Exteriormente não se distinguem os machos das fêmeas por qualquer característica corporal. Contudo geralmente os machos são mais corpulentos do que as fêmeas. Têm os olhos situados lateralmente na cabeça e um respiráculo no seu topo. Ao contrário das baleias com dentes (que só possuem um respiráculo, como os golfinhos, os cachalotes, as orcas,...), todas as baleias “barbadas” (na qual se incluem as Baleias Corcunda) possuem dois orifícios no seu respiráculo. O ar é expirado por essas cavidades a uma velocidade de 400 Km/hora. As Jubartes esvaziam e enchem os dois pulmões do tamanho dum pequeno carro em menos de 2 segundos. O ar sai por isso a grande pressão e o jorro característico das baleias que chega aos 3 metros de altura produz-se por condensação do vapor de água contido no ar exalado.

~ As Baleias Corcundas alimentam-se de krill, um nome colectivo para o conjunto de animais aquáticos, semelhantes a camarões em miniatura, com apenas milímetros de comprimento. Os animais que existem no krill incluem várias espécies diferentes, pertencentes à ordem Euphausiacea, com comprimentos que variam entre os 8 e os 75 milímetros. A maior dessas espécies é a Euphausiacea soberba, que é também a mais comum no Ártico (Estes animais emitem uma forte luz verde-azulada fluorescente, possivelmente para ajudá-los a reunirem-se em cardumes e reproduzirem-se). Apesar de poderem abrir as suas mandíbulas num ângulo de 90º, as Baleias Corcunda têm uma garganta pouco maior do que uma bola de ténis. As Baleias Corcunda «filtram» a água para capturarem o krill e usam depois as línguas para recolherem o krill filtrado. Há 2 tipos de subordens nas baleias: as baleias com dentes (os golfinhos, orcas, cachalotes,...) e as com barbelas (estruturas feitas de queratina semelhantes a pêlos ou “barbas” no topo das suas bocas desprovidas de dentes). São as mysticetes (do grego «mystax» bigode) que inclui as Baleias Corcunda (estas possuem entre 270 e 400 pares de relativamente espessas barbelas que podem chegar a ter 80 centímetros de comprimento). Após filtrarem o krill com as barbelas, expelem pelos respiráculos os perto de 200 litros de água do mar que filtraram.
No hemisfério sul cada baleia alimenta-se isoladamente mas, no hemisfério norte, fazem-no em grupo: uma baleia nada em círculo por baixo de um cardume de krill, soltando bolhas de ar que rodeiam o cardume e desnorteiam-no. O cardume, em vez de se dispersar, como o faz quando não há rede de bolhas, permanece junto. Desconhece-se ao certo as razões pelas quais o Krill é afectado pela rede de bolhas e se condensa em vez de dispersar. Pode ser pelos padrões de cor da luz que nelas incide ou pelo som que elas contêm, muitas são as explicações. Mas afecta-os e as baleias emergem do fundo abocanhando o Krill assim reunido;

~ Uma das características facilmente identificáveis nas Baleias Corcunda são as pequenas estruturas, semelhantes a «verrugas», que cobrem as suas mandíbulas inferior e superior. Cada «verruga» tem, pelo menos, um pêlo. A função das «verrugas» é desconhecida, mas aventa-se a possibilidade de servirem para detectar movimento nas águas mais próximas.

~ A caça à baleia começou logo nos primeiros milénios da nossa era. As Baleias Corcunda, porque têm o hábito de se alimentarem junto a zonas costeiras, foram das espécies mais afectadas (antes de começarem a ser caçadas, em 1800, eram 120 000 e são presentemente menos de 9 000, 3 000 no norte e 6 000 no sul). Continuam a ser a terceira espécie de baleias mais perto da extinção, apesar das leis de protecção actuais lhes terem permitido um ritmo de recuperação entre 10% e 13%. Fiz, na altura, uma pequena folha de cálculo que me permitiu constatar que, se a caça à Baleia Corcunda nunca tivesse começado sua população seria:
~ em 2006, de 85 milhões, 578 mil e 808 baleias;
~ em 2008, de 139 milhões, 873 mil e 346 baleias;
(pressupus que, das 100 mil existentes em 1800, 60 mil eram fêmeas e 60 mil machos -50% cada sexo. Além disso que, das 60 000 fêmeas, 40 mil seriam adultas e 20 mil crias. Cada fêmea torna-se fértil a partir dos 10 anos e vivem 20 anos. O número de machos é igual ao das fêmeas e o total de baleias em cada é o de fêmeas multiplicando por 2);
A tabela original pode ser encontrada aqui.

~ As Baleias Corcunda são animais fascinantes, com comportamentos ainda por decifrar, linguagens(?) por traduzir. Uma medida da inteligência média duma dada espécie é a
sua relação massa corporal/massa cerebral (ver o artigo Centesim est circa Sapientia sobre a relação entre inteligência, massa cerebral e massa corporal). Animais grandes necessitam de um cérebro maior para poderem controlar o seu corpo maciço. Os dinossáurios, por exemplo, eram relativamente estúpidos. Os seus cérebros eram reduzidos e a sua massa corporal grande. O seu Índice Médio de Inteligência era baixo. Os seres humanos são a espécie animal com maior Índice Médio de Inteligência no reino animal. Atrás dele seguem-se os cetáceos. Com a massa cerebral de 1 500 centímetros cúbicos médios que uma Baleia Corcunda tem, pergunta-se:
” Que fazem as Baleias com tão grandes cérebros?”. Não são destinados só a tarefas de subsistência. Os dinossáurios sobreviveram 60 milhões de anos com cérebros minúsculos. Que sonhos terão as Baleias? Em que pensam? Como e porquê comunicam? Eis algumas das perguntas de que nunca saberemos a resposta se as baleias vierem a extinguir-se. E tal cenário não está ainda completamente descartado, com a ameaça da retoma da caça comercial por vários países. Apesar do número de cetáceos ter vindo a aumentar nos últimos anos e a caça comercial de baleias não ter extinguido nenhuma espécie, isso deveu-se a circunstâncias alheias aos projectos baleeiros. A caça comercial (até qualquer tipo de caça) devia ser completamente proibida indefinidamente.
Temos no horizonte a possibilidade da existência de inteligência extra-humana no nosso próprio planeta. Quando tanto interesse é revelado na procura de inteligência extra-terrestre, porque não começarmos a procurar no nosso próprio quintal?

Mas, poderão os leitores do Cognosco interrogar, porque se chama o artigo «Grandes asas» se o artigo é sobre um mamífero aquático?
Há uma última característica das baleias corcundas que não referi: têm enormes barbatanas dorsais, que chegam a ter um terço do tamanho do corpo, ou seja, a terem até 5 metros de comprimento. Graças a essas enormes barbatanas ganharam o seu nome científico: Megaptera, do grego «mega» grande e «ptera» asa (daí também o nome do répril contemporâneo do dinossáurios, o pterodáctilo, do grego «ptero» asas e «dáctilo» dedo. Ver Cave savrie! sobre o que era e o que não era dinossáurio).


Publicado por Mauro Maia às 17:33
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Quinta-feira, 6 de Abril de 2006
Caminho
Encontro-me, neste momento, ausente de onde normalmente estou presente. E foi com choque que verifiquei que, em alguma altura há muito passada, um conto que escrevi no Cognosco se perdeu. Foi há tanto tempo que até nem consta de listas de artigos publicados que comecei a coligir talvez desde Abril do ano passado. Tentarei neste momento refazer esse conto. Naturalmente que muito será diferente, à excepção do núcleo básico da história. Todo o eu que fui ao longo deste ano se imiscuirá nele. Mas, se encontrar uma cópia do artigo original, talvez ainda o complemente. Talvez não. Talvez respeite a sua reencarnação actual como merecedora de individual sobrevivência. Recordo-me de ter criado uma imagem para o conto, lembro-me até de alguns comentários a ele deixado. Enfim, é tempo de espremer o pano e limpar as janelas...

Caminho por entre os campos da vida. Há muitos por arar, alguns já arados, alguns prontos para a colheita, outros para a sementeira, alguns (poucos) já abandonados.
Por entre todos esses campos que me compõem uma única estrada serpenteia sem fim à vista mas com a partida a pouca distância. Caminho por essa estrada de mente absorta.

À minha volta circulam muitos e coloridos sonhos. Alguns correm velozes, na inocente impaciência da juventude, alguns arrastam-se vagarosos, incertos do seu destino. Alguns são brilhantes, de cores garridas e chamativas. Outros são mais pardos mas de cores mais estáveis e tranquilizadoras. Alguns ultrapassam-me afoitos, esquecendo-me na pressa de se concretizarem. Outros andam tão chegados às minhas pernas que me atrapalham o andar.

Estando eu então absorto descubro, ao virar de mais uma reviravolta do meu caminho, um sonho parado no meio da estrada. Tem a atitude firme e resoluta de quem nem pondera poder ser ignorado e deixado para trás.

Páro então à sua frente, fascinado pelo iriscidente brilho com que me prende o olhar.
É um sonho como nenhum outro que já tinha visto, uma rosa despontada no meu caminho, um pássaro trinando pela minha atenção. Não parece ter só agora chegado, parece há muito me aguardar, sereno e confiante de que assim que o visse pararia.

E parei. E olhei. E finalmente agachei-me para o sentir entre as palmas da mão. Segurei-o com ternura mas firmemente entre as mãos...
Era tão agradável ao toque, tão inebriante nas emoções que me despertava que fechei as mãos e encostei-as ao peito. Quis tê-lo junto ao coração, quis vestir o calor confortável que libertava, quis fundir-me com o âmago que éramos em conjunto.

Mas assim que fechei as mãos o sonho, até então calmo e paciente, agitou-se, vibrou, protestou. Apertei mais as mãos, encostei-o mais ao peito com medo que fugisse. Mas mais o sonho se agitou, mais vibrou, mais protestou. Tal era a sua ânsia claustrofóbica que começava a magoar-me.

Foi então que me apercebi de que não podia mais ter as mãos fechadas, não podia mais prendê-lo a mim com medo de que fugisse. Não que a dor fosse demasiado grande para suportar (por um sonho até das mãos prescindiria). Era por temer o seu sofrimento que não podia mais suportar ter as mãos fechadas.

Vagarosa mas firmemente estendi os braços.
Vagarosa mas firmemente abri as mãos.
Lá estava o sonho, novamente calmo e resoluto. Levantou os olhos para os cruzar com os meus. Abriu as asas, não sei se para voar para longe se para me abraçar.

Sei é que só posso amar esse sonho se o tiver em liberdade.

Graças mais uma vez à ajuda atenta de «.», o mini-conto (lido em voz alta até rima...) perdido foi encontrado em Amo ergo liberto.


Publicado por Mauro Maia às 14:29
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Sábado, 1 de Abril de 2006
Peixes de Abril

Hoje é um dos mais estranhos dias do ano: um dia que se comemora mas para o qual não há comemoração, um dia que alguns calendários referem mas que não é feriado, um dia que outros calendários não referem mas que todos sabem que dia é, um dia em que a verdade é vista como mentira e que a mentira se torna a verdade do dia, um dia em que as mais sérias pessoas são sujeitas a tentativas mais ou menos pueris de enganos e falsificações, um dia que é a incorporada antítese do Cognosco mas que simultaneamente tem um lugar no seu único coração.

Falo, claro está, do Dia das Mentiras.

As origens deste dia são incertas mas, como se calhar não podia deixar de ser, a mais divulgada história sobre ela (a origem) ou sobre ele (o dia) poderá não passar de um elaborado-mas-curioso-de-ouvir embuste. Essa provavelmente falsa origem do dia das mentiras liga peixes franceses à mudança do calendário juliano para o gregoriano (ver Um quarto para quarto sobre esta transição e o aparecimento dos anos bissextos):Charles IX da França

No início do século XVI o primeiro dia do ano era comemorado a 25 de Março, aquando dos primeiros sinais da Primavera. Esta altura era comemorada com troca de presentes e jantares durante a semana que acabava nesse dia. Em 1564, aquando das alterações introduzidas pelo novo calendário gregoriano (aqui começará o embuste, o calendário gregoriano foi adoptado em 1582), o rei francês Charles IX (1550-1574), filho de Henri II da França e da famosíssima Catarina de Médicis, decretou a mudança do primeiro dia do ano para o dia 1 de Janeiro. A França tornou-se assim o primeiro país a adoptar o novo calendário, só depois seguido pelos outros países europeus.Charles IX era avô de Marguerite de Valois, a quase-rainha-de-Portugal-se-tivese-casado-com-D.Sebastião, e de que se falou em Fumare salutem pela sua indirecta ligação à introdução do tabaco na Europa vindo de Portugal.

Mas muitos franceses ou não apreciaram a mudança ou estavam com o hábito muito enraizado de festejarem a 1 de Abril o início do ano. Dessa forma continuaram a celebrar o primeiro dia do ano nesta data, tornando-se o alvo fácil da gozação dos compatriotas mais ajustados. Nesta data estes franceses de espírito mais leve enviavam aos distraídos-ou-relutantes-a-aceitar-o-novo-calendário franceses falsas prendas, como por exemplo peixes.Esta oferta piscícola pode ter ligações ao facto de haver, nessa altura primaveril, peixes ainda jovens e inexperientes (e como tal facilmente ludibriados e capturados). Parece-me, a título meramente pessoal, que oferecer um embrulho com um peixe fresco, nessa altura em que não havia frigoríficos, era uma prenda desagradavelmente odorífera e como tal apropriada a partidas de mau gosto (equivalente às bombas de mau cheiro que agora se usam no Canaval). Eram os poisson d'avril «peixes de Abril» (ainda hoje é usual, em França e também na Itália, procurar colocar um peixe de papel nas costas de insuspeitas pessoas). Uma história curiosa, talvez até demasiado curiosa. Até porque há registos de anedotas relacionadas com o Dia das Mentiras a 1 de Abril em 1508 (perto de 60 anos antes desta «história» e perto de 50 anos antes da mudança de calendário) e, além disso, a tradição dos Dia das Mentiras era comum a toda a Europa nessa altura já.Filipe II de EspanhaPor exemplo, para os Holandeses, o dia 1 de Abril é celebrado como um dia de vitória e de ridicularização dos vencidos: em 1572 a Holanda estava sob domínio espanhol, às mãos de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal, por ser tio do desaparecido-em-Alcácer-Quibir-mas-ainda-aguardado(?)-D.Sebastião). A Guerra dos 80 anos (1568-1648) tinha começado há 4 anos, em que os Holandeses procuravam libertar-se de Filipe II e apoiar William of Orange. Havia um grupo de resistentes ao domínio espanhol, de nome Watergeuzen. No dia 1 de Abril desse ano tomaram uma pequena povoação costeira de nome Den Briel. Este acto foi o início de uma revolta generalizada pelo país e o General Alva, do exército espanhol, nada pode fazer. Em parte devido à semelhança fonética entre Briel e a palavra «bril» (óculos), ainda hoje neste dia de libertação os Holandeses referem-se a 1 de Abril como «O dia em que Alva perdeu os óculos», uma piada nacional de repurcussões históricas (um pouco como se, em Portugal, se chamasse ao 25 de Abril «o Dia em que Marcelo ficou com alergia a cravos»...)Foi durante o reinado de Filipe II de Espanha que algumas ilhas no Pacífico foram conquistadas e nomeadas em sua honra: as Filipinas.Cada país europeu terá as suas razões para «comemorar» este dia, tendo havido uma evolução convergente que ligou essas razões ao dia 1 de Abril.Mas, fazendo algo que não aprecio muito mas se ajusta bem aqui, cito Mark Twain:

O dia 1 de Abril é o dia em que somos lembrados de como somos nos restantes 364 dias do ano.

Para mim isto é duplamente verdade...E agora mais uma partida apropriada ao dia, na qual o enganador se torna o enganado:Busto de Sophie GermainA 1 de Abril de 1776 nasceu Sophie Germain (1776-1831), uma das mais importantes matemáticas que já cruzou os anais da História.Foi a primeira mulher a assistir às sessões da Academie des Sciences por pleno direito e não por ser mulher de um membro da Academia e a primeira mulher a ser convidada a assistir às sessões do Institut de France.Sophie foi uma auto-didacta, que aprendeu sozinha Matemática, Latim e Grego (para ler as obras originais matemáticas).Diz-se que Sophie se interessou pela Matemática quando, para a proteger dos motins da Revolução Francesa, os pais a impediram de sair de casa com 13 anos. A sua única fonte de distracção era a biblioteca do pai, onde leu a história de Arquimedes. Após saber que este tinha sido morto por um soldado romano que não gostou de ser ignorado por um senhor que fazia figuras geométricas na praia, decidiu devotar-se a um assunto que seria tão interessante a ponto de prender de tal forma a atenção de alguém.Quis estudar Matemática mas os pais não deixaram.Quis estudar em casa e os pais não deixaram.Estudava à noite Matemática e os pais retiraram-lhe as velas (para não poder ler) e as roupas (para que não pudesse esconder os livros). Mas Sophie arranjou sempre formas de esconder livros e velas e estudar Matemática.Finalmente os pais cederam perante uma tal vontade de estudar Matemática. Usando o pseudónimo de Monsieur le Blanc trocou correspondência sobre Matemática com professores da École Polytechnique, a mais avançada na altura.O mais conhecido foi Lagrange que, só após muitos anos, descobriu que se correspondia com uma mulher mas a profundidade profícua do seu pensamento matemático levou-o a continuar a correspondência, apesar de ter sido iniciada com base num engano. Também com o famoso matemático alemão Gauss Sophie trocou correspondência como M. le Blanc. Só ao fim de 3 anos Gauss descobriu que o seu genial correspondente era uma mulher.E qual a relevância desta questão, perguntarão os mais curiosos?~ O seu nome significa o que procuro e considero mais precioso: sabedoria (em grego);~ Nasceu exactamente 200 anos antes de 1 de Abril de 1976 (faz hoje uns redondos 230);~ A Mulher e a Matemática são duas das mais belas coisas do Mundo. Combinadas então...



Publicado por Mauro Maia às 10:56
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