Últimas atualizações
Novo endereço do Cognosco: http://www.cognoscomm.com
Diário das pequenas descobertas da vida.
Quinta-feira, 27 de Julho de 2006
Os Medos dos Magos
O século XXI começou (a 1 de Janeiro de 2001) com o peso de questões por resolver do século XX. Questões essas cujo impacto no novo século prometem durar (espera-se que não muito).

Uma das heranças do século passado foi a verdadeira epidemia de crendices, horóscopos, superstições, logros e pseudo-«ciências», que se dizem «sobrenaturais», enquanto a Ciência é simultaneamente a mão que alimenta e a mão que é traiçoeiramente mordida.
(ver Scientia in orbis core para mais sobre a razão para esse papel dual da Ciência)

Outra questão, mais importante e mais preocupante, é a constante beligerância entre as nações do Médio Oriente, em especial entre as nações árabes e Israel (mas não exclusivamente). Essa rivalidade transvasa muitas vezes a área, focando-se noutros países. A face mais visível dessas rivalidades são os atentados terroristas que, começando no século XX, tiveram o seu momento mais ignóbil já no novo século, a 1 de Setembro de 2001 em Nova Iorque. Apesar da aparência e da insistência de quem disso beneficia, estes atentados não tiveram origem (quando começaram ainda no século XX) em motivos religiosos ou em supostos «choques culturais». As cruzadas há muito tinham terminado (a nona e última acabou em 1271 e marcou o fim da presença militar cristã na região) e durante os 645 anos seguintes a rivalidade cristã-muçulmana diminuiu até à quase extinção, sob a mão firme do Império Otomano.
Até que, a 16 de Maio de 1916, a meio da I.ª Guerra Mundial, foi tomada uma decisão que viria a levar, 85 anos depois, à destruição das Torres Gémeas de Nova Iorque: o Acordo Sykes-Picot, entre a Inglaterra e a França.
(ver o artigo Um século para maiores detalhes sobre a Iª Guerra Mundial, este acordo e a sua ligação aos atentados terroristas)

Começa um novo século (e um novo milénio) e é importante que se olhe para um Passado que insiste em morder os calcanhares do Presente.

Uma das questões prementes parece ser o papel das religiões no Mundo, em particular as 3 grandes religiões monoteístas que têm sido usadas como protagonistas para muitos dos principais eventos do século XX: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
Curiosamente, para supostos «antagonistas», partilham uma forte ligação e uma imensa variedade de valores e de visões do Mundo e do Homem. As três são conhecidas como as «Religiões do Livro», por terem como base, para a sua fé, os ensinamentos contidos num livro considerado sagrado. Surgiram na mesma região (o Médio Oriente) e têm partilhado uma longa história de conflitos. São também conhecidas como Religiões de Abraão, pelo papel primordial que a sua figura tem nos fundamentos de qualquer uma delas.

~ O Judaísmo foi, das três, a primeira a surgir. Contando com perto de 15 milhões de fiéis em todo o Mundo, é a mais antiga fé monoteísta que é ainda praticada. De acordo com a tradição judaica, foi fundada por Abraão em 1 800 AC mas tornou-se o Judaísmo actual com Moisés, cerca de 1 200 AC. Tem como livro sagrado a «Tora» (que, em hebraico, significa «Lei»).
~ O Cristianismo surgiu mais de 1 mil anos depois, como uma seita religiosa judaica. Conta com perto de 2 mil milhões e 100 mil fiéis em todo o Mundo. Foi fundada por Jesus da Nazaré (6 AC - 33 DC), que viveu na antiga colónia romana da Judeia, onde pregou e converteu pessoas. De acordo com a tradição cristã, após morrer e ressuscitar, os seus discípulos espalharam-se pelo Mundo para pregar a sua fé. Após a conversão do Império Romano, a sua ascenção a maior religião monoteísta (em números absolutos) tornou-se imparável. Tem como livro sagrado a «Bíblia» (que, em grego, significa «livro»).
~ O Islamismo surgiu 600 anos depois do Cristianismo e 2 400 anos depois do Judaísmo. Conta com perto de 1 mil milhões e 400 mil fiéis em todo o Mundo. Foi fundada por Maomé (571 DC - 632 DC), um comerciante árabe que unificou as tribos politeístas da Arábia sob uma nova religião, baseada em princípios comuns ao Judaísmo e ao Cristianismo. Tem como livro sagrado o «Alcorão» (que, em Árabe, significa «A recitação»).
(ver o artigo Míngua sobre a origem do símbolo Quarto Crescente na religião islâmica</font></a>)

Mas, apesar da crença durante muito tempo sustentada nos países cristãos de que a «Bíbilia» tinha sido o primeiro livro alguma vez escrito (a Tora judaica é um conjunto de textos durante muito tempo dispersos), mesmo as partes mais antigas do Antigo Testamento têm origem em mitos e histórias escritas milhares de anos mais antigas.

Por exemplo, uma das mais antigas civilizações do mundo, a Suméria, surgiu entre os rios Tigre e Eufrates, onde é o moderno Iraque. Inventaram os números em 3 500 AC, a escrita em 3 100 AC e as sílabas das palavras em 2 600 AC. Escreviam em placas de argila, que eram, depois de usadas, cozidas para conservar os seus registos. Muitas dessas placas foram descobertas, contendo textos em escrita cuneiforme (literalmente «em forma de cunha», pois consistia numa série de símbolos feitos com uma ponta afiada). Há registos escritos com poemas de amor, tratados de Matemática, Medicina, Astrologia/Astronomia (naqueles tempos não havia distinção entre as duas). Em algumas dessas placas há o registo dos mitos religiosos sumérios.
Um deles narra a história de
Ziusudra, o rei da cidade Shuruppak (a moderna cidade iraquiana de Tell Fa'rah, 200 quilómetros a sudoeste de Bagdad). Este rei foi avisado pelo deus sumério Enki de que os deuses iam destruir a Humanidade por meio de um dilúvio (a razão para a decisão dos deuses perdeu-se). Enki ordena então a Ziusudra que construa um grande navio (perdeu-se igualmente o que seria embarcado e salvo). Há vestígios arqueológicos de uma grande enchente na região, por volta de 2 750 AC. O mito de Noé surgiu baseado no mito de Ziusudra.

Mas, se o Islamismo se baseou no Cristianismo e o Cristianismo no Judaísmo, não são geralmente conhecidas as origens do Judaísmo.

O Monoteísmo ocidental está intrinsecamente ligado ao Médio Oriente.
O primeiro registo de um monoteísmo na região surgiu com o Zoroastrismo, fundado por Zaratrusta (cerca de 1 500 AC), conhecido pelos gregos como Zoroastro, no que é agora a parte oriental do Irão e a parte ocidental do Afeganistão, a Terra dos Medos.

A região era, na altura, conhecida como Média e habitada por um povo de origem ariana (que não eram nem louros nem de olhos azuis mas falavam uma língua indo-europeia) conhecido como os Medos.
O Império dos Medos coexistia com o Império dos Persas, dos Lídios, dos Fenícios e dos Egípcios, todos mais a ocidente.

Medos e Persas emigraram, para a região, vindos da Ásia Central, em sensivelmente 1000AC. Os Medos instalaram-se no que é agora o norte do actual Irão (com capital na cidade de Ecbátana) e os Persas no que é agora o sul do Irão (com capital na cidade de Persépolis), na actual Fars, uma das trinta províncias do Irão. A proximidade dos dois povos levou a grandes contactos e a casamentos entre as casas reais dos dois (como aconteceria, milhares de anos depois, entre Portugal e Espanha).

O império cresceu em cultura e ciência. Durante muito tempo foram politeístas, até que Zaratrusta fundou o Zoroastrismo, o primeiro monoteísmo conhecido. Esta nova religião foi conquistando muitos devotos ao longo do tempo.
A máxima do Zoroastrismo era «faz aos outros o que gostavas que te fizessem» e adoravam Ahura Mazda, o Deus Criador.

Em 552 AC, Ciro o Grande, de ascendência real persa e meda, subiu ao trono persa. Eventualmente conquistou o Reino Medo ao seu avô e tornou-se rei de ambos. Após a consolidação dos dois tronos, virou-se para o Reino dos Lídios, que conquistou, e depois para a Babilónia, que juntou às suas conquistas em 539 AC. Foi Ciro quem libertou os Judeus do jugo babilónico que os mantinha na Babilónia desde Nabucodonosor II. As suas relações com a Judeia e a Fenícia eram excelentes. Foi Ciro, o Grande, o fundador do vasto Império Persa, o maior império terrestre da altura. Foi um descendente de Ciro, o rei persa Dário I (521AC - 486AC), que reconheceu oficialmente o Zoroastrismo.

Topo da Catedral de Colónia e o seu brasãoUm dos povos Medos era os Magi (plural de Magus), uma tribo responsável pelos ritos funerários e religiosos. Também os Magi se converteram ao Zoroastrismo e, durante muitos séculos, foram aprofundando os seus conhecimentos astronómicos, religiosos e científicos. Foi de Magi que evolui a palavra «mago» e as vestes tradicionais dos Magi (o chapéu alto e pontiagudo e as roupas longas e largas) tornaram-se as vestes tradicionalmente associadas aos feiticeiros (como, por exemplo, o mítico Merlim do Rei Artur. Ver Magnus tellus, onde se apontam algumas possíveis origens do nome do Rei Artur e a sua ligação ao Ártico e ao Antártico). As semi-luas e estrelas são uma referência aos extensos estudos astronómicos dos Magi.
Foram 3 homens da tribo Magi que, segundo a Bíblia, estudaram os céus e visitaram Jesus no seu berço. Por isso se designaram «3 Reis Magos».
(Conta a lenda que os 3 Reis Magos estão enterrados, em sarcófagos de ouro, na Catedral de Colónia, na Alemanha. Em 1164 o Arcebispo da cidade comprou estas «relíquias sagradas» e colocado-as na Catedral, construída para os receber. A Catedral de Colónia tem uma estrela no seu topo (em vez de uma cruz) e o brasão da cidade tem 3 coroas em honra das ossadas dos 3 Reis Magos lá enterrados.

250 anos após a morte de Ciro, o Grande, a vasta Pérsia era governada por Dário III (cujo nome de baptismo era Codomano), que governou 6 anos, até que Alexandre Magno conquistou o império e Codomano foi deposto.
(para mais sobre Alexandre e a sua influência no Mundo ver Magna bybliotheca)

Na mesmo altura em que Zoroastro pregava na Pérsia, no reino vizinho do Egipto a classe sacerdotal passava por grandes mudanças. O Faraó Amen-hotep III (1389AC - 1351AC) decidira limitar o poder dos sacerdotes de Amon, a principal divindade egípcia. Em vez de se declarar «filho do Amon», este faraó declarou-se «filho de Aton». Apesar de serem ambas divindades ligadas ao sol, Amon era uma figura com aspecto humano, enquanto Aton era simplesmente o disco solar.
A diferença poderá parecer pouca aos olhos modernos, mas a decisão do Faraó levou a grandes conflitos sociais.

Busto do Faraó AkenatonQuando Amen-hotep III morreu, subiu ao trono o seu filho Amen-hotep IV.
Este era fortemente adepto de «Aton», tendo levado ao extremo o afastamento da classe sacerdotal de Amon. Mudou o seu nome para Akenaton «O que trabalha por Aton» e fundou o Atonismo (ou Atenismo), o culto a Aton (ou Aten. Os Egípcios não tinham vogais, pelo que é uma questão especulativa se seria um «o» ou um «e»). A principal esposa de Akenaton era Nefirtiti «A beleza que chegou», de quem teve 6 filhas (um delas, Ankhesenpaaten, eventualmente casou com o pai, de quem teve uma filha-irmã). Teve também outras esposas, de quem teve mais filhos. De uma dessas esposas teve um herdeiro, a quem deu o nome de Tutankaton «Imagem viva de Aton». Este, após a morte do pai, restabeleceu o culto a Amon, os privilégios da antiga classe sacerdotal e mudou o nome para Tutankamon «Imagem viva de Amon». Fez todas estas alterações com apenas 9 anos, tendo morrido com 19 anos, o que indicia manipulação por parte de outros, nomeadamente pelo antigo vizir do pai, de nome «Ay».
(Para mais sobre Akenaton ver Celer turtur)

O Judaísmo terá assim sido duas influências monoteístas: o Zoroastrismo persa e o Atonismo egípcio.
Amenhotep III fundou as bases do Atonismo entre 1389 AC a 1351 AC.
Zaratrustra fundou as bases do Zoroastrismo em cerca de 1 200 AC.

Reconstituição da antiga BabilóniaO Zoroastrismo terá influenciado os Judeus que viviam na escravidão na Babilónia, desde 587 AC. Foi depois levada para a Judeia, após serem libertados (em 539 AC) por Círo, o Grande.
Além disso, o Atonismo terá influenciado os seus vizinhos Judeus (há várias passagens, no Antigo Testamento, que são cópias exactas dos textos religiosos «atónicos»: o Cântico dos Cânticos é textualmente uma prece do Atonismo a Aton, com o nome deste último mudado para Jeová ou para Deus).

Apesar dos cálculos baseados na Bíblia datarem Abraão em cerca de 1 800 AC, evidências arqueológicas sugerem que não poderá ter surgido antes de 650 AC. De qualquer maneira, seguramente o Zoroastrismo e o Atonismo deixaram as suas perenes marcas no Judaísmo, através dele no Cristianismo e através dos dois no Islamismo.

Lutas fraticidas, é como as guerras religiosos destes últimos séculos deviam ser classificadas...


Publicado por Mauro Maia às 11:18
Atalho para o Artigo | Cogitar | Outras cogitações (22) | Adicionar aos favoritos

Sábado, 15 de Julho de 2006
Erros normais
Há, na estrutura do Mundo, padrões e valores que unem as coisas mais aparentemente díspares. No Cognosco referiu-se o exemplo da razão de ouro, φ, no artigo Só phi é d'ouro

Curva de GaussMas há outros padrões imersos na estrutura da realidade que são comuns a uma grande variedade de fenómenos.
Uma delas é a justificação matemática do conhecido provérbio «No meio está a virtude».
(Não sou grande amigo de provérbios, como expliquei em Provérbios e Adivinhas, o que não significa que, nos contextos apropriados, não possam ter a sua validade...)
A chamada Curva de Gauss.
(Gauss foi um profícuo Matemático do final do século 18 e início do 19. Para se ter uma ideia da sua importância, há perto de 200 termos matemáticos que ostentam o seu nome. Ver o artigo Simples mente para uma história curiosa sobre a sua infância.)

Esta curva (também chamada Curva Normal ou em Forma de Sino) tem um aspecto singelo mas contém a chave para muitos segredos e mistérios do Mundo.

~ Será surpreendente saber que a altura de um grupo de pessoas está ligada, por esta curva, ao peso dos leões existentes em África?
~ Será surpreendente saber que o número de erros tipográficos dos livros publicados por uma editora está ligada, por esta curva, à duração dos jogos da Taça do Mundo de Futebol?
~ Será surpreendente saber que as notas nos exames de acesso à Universidade estão ligadas, por esta curva, ao número de ramos que uma árvore tem?
~ Será surpreendente saber que o QI (Quociente de Inteligência) dos Portugueses está ligado, por esta curva, ao comprimento dos Tubarões-Brancos existentes no Mundo?
~ Será surpreendente saber que a relação do número de filhas e filhos dos casais europeus está ligada, por esta curva, ao número de cabelos existentes na cabeça dos seus pais?
~ Será surpreendente saber que o número de gotas de chuva que cai durante uma tempestade está ligado, por esta curva, ao número diário de leitores de um jornal?

Para perceber estas ligações (e muitas mais, que muitos mais exemplos se podiam dar) é necessário primeiro compreender o que é a Curva de Gauss, qual a sua História, como tem o nome que tem, quais as suas características, como surge e como é construída.

Esta curva está ligada a dois valores que, em qualquer conjunto de valores, podem ser calculados: a média e o desvio-padrão.
A média (μ) pode ser entendida como um valor que está o mais próximo possível de todos os valores estudados;
O desvio-padrão (δ) é basicamente a média das diferenças de cada valor à média do conjunto;

As características mais significativas desta curva são:
~ é simétrica em relação ao seu centro (que é a sua média);
~ a média é também o valor mais frequente (moda) e a valor central (mediana);
~ 68,27% de todos os valores situa-se entre a média menos o desvio-padrão e a média mais o desvio-padrão;
~ </b>95,45%</b> situam-se entre a média menos 2 vezes o desvio padrão e a média mais 2 vezes o desvio-padrão;
~ 99,73% situam-se entre a média menos 3 vezes o desvio-padrão e a média mais 3 vezes o desvio-padrão;

de MoivreA primeira referência que se conhece a esta curva surge num artigo de Abraham De Moivre em 1734. A intenção de De Moivre era a de estudar de que forma distribuições binomiais à medida que o número de observações aumentava.
(Uma distribuição binomial é o estudo do número de acontecimentos em que só há duas possibilidades: ou ocorre ou não ocorre. Por exemplo, uma distribuição binomial pode ser formada pela pontuação que se obtem no lançamento de 10 dados. O que De Moivre procurava compreender, com o seu artigo, ao que acontecia à medida que mais e mais lançamentos do dado eram feitos: 10, 100, 1 000, 10 000, 100 000,...)
Laplace (1749-1827), outro importante Matemático, complementou o artigo de De Moivre em 1812.

Laplace usou depois a Distribuição normal (o nome da distribuição de valores associada à Curva de Gauss) para estudar a distribuição de erros em experiências.
Outro Matemático, de nome Legendre, introduziu, em 1805, o Método dos Mínimos Quadrados, um método pelo qual se procura uma função que melhor se aproxime de um conjunto aleatório de valores para, desta forma, permitir fazer previsões.
Suponha-se a título de exemplo, que se estudava o número de fumadores em Portugal em diferentes anos. Colocando os valores obtidos num gráfico obter-se-ia uma nuvem mais ou menos dispersa de pontos. Mas, usando o Métodos dos Mínimos Quadrados, podia-se encontrar uma função que permitiria prever, com alguma certeza, quantos fumadores existirão em Portugal em 2100...)
Mas o já citado Carl Friedrich Gauss afirmou, aquando da publicação de Legendre, que já usava um método semelhante desde 1794 e, em 1809, usou a Distribuição Normal para demonstrar rigorosamente o método.

Vários foram os Matemáticos que foram nomeando esta curva e a distribuição a ela associada: Joufrett criou a designação «Curva em Forna de Sino» em 1872, Galton introduziu o nome «distribuição normal». O nome «Curva de Gauss» foi sendo progressivamente usada desde o seu uso, por Gauss, para demonstrar o Método dos Mínimos Quadrados. Gauss não a criou, não a nomeou, não a complementou... No entanto, ficou com o seu nome associado a esta universal curva. Ironias da História...

Como surge então esta famosa curva de tantos fenómenos diferentes?
Suponha-se que se tem 2 dados, com seis faces cada.
Lançam-se 10 vezes os dados e soma-se o número de pintas.
Lançam-se 100 vezes os dados e soma-se o número de pintas.
Lançam-se 1 000 vezes os dados e soma-se o número de pintas.
Lançam-se 10 000 vezes os dados e soma-se o número de pintas.

Colocando num gráfico de barras os valores obtidos constata-se que, à medida que aumenta o número de lançamentos que se efectua, mais se aproxima a forma do gráfico da Curva de Gauss.
Em termos práticos, acima de meia dúzia de lançamentos, a forma da distribuição dos valores obtidos é suficientemente semelhante à curva de Gauss para se poder usar as suas características especiais para fazer previsões e cálculos.

Por exemplo, sabendo que os QI's de um grupo de 1 000 pessoas têm uma Distribuição Normal e que o QI médio é 110 e o desvio-padrão 12 então sabemos que:
~ 68,27% dessas pessoas têm um QI entre 98 (110-12) e 122 (110+12). Ou seja, 682 pessoas têm um QI entre 98 e 112. Ou ainda a probabilidade de uma pessoa desse grupo ter um QI entre 98 e 112 é 68,27%;
~ 95,45% (954) das pessoas têm um QI entre 86 e 134;
~ 99,73% (997) das pessoas têm um QI entre 74 e 146;

O curioso é que a maioria dos fenómenos, em que há um conjunto de valores com uma característica aleatória, têm uma distribuição aproximadamente normal

Isto é garantido, sem margem para dúvidas, por um teorema matemático chamado
Teorema do Limite Central que afima (em termos latos) que:
qualquer distribuição de suficientes valores aleatórios tem uma distribuição aproximadamente normal e quanto maior for o número de valores maior é a aproximação à distribuição normal.
(A partir de 30 valores a distribuição pode-se considerar, em termos práticos, Normal)

A altura de um grupo de mais de 30 pessoas tem uma distribuição normal, logo em termos gráficos desenha uma Curva de Gauss;
O peso dos leões existentes em África é uma Curva de Gauss;
O número de erros tipográficos dos livros publicados por uma editora é uma Curva de Gauss;
A duração dos jogos da Taça do Mundo de Futebol é uma Curva de Gauss;
As notas nos exames de acesso à Universidade é uma Curva de Gauss;
O número de ramos que uma árvore tem é uma Curva de Gauss;
O QI (Quociente de Inteligência) é uma Curva de Gauss;
O comprimento dos Tubarões-Brancos existentes no Mundo é uma Curva de Gauss;
A relação do número de filhas e filhos é uma Curva de Gauss;
O número de cabelos existentes na cabeça das pessoas é uma Curva de Gauss;
O número de gotas de chuva que cai durante tempestades é uma Curva de Gauss;
O número diário de leitores de um jornal é uma Curva de Gauss;
(Talvez a questão da aleatoriedade dos jogos do Mundial pareça estranha. Afinal os jogos duram 90 minutos... Mas a verdadeira duração depende do tempo de desconto dado pelos árbitros e este é um fenómeno aleatório em cada jogo...

A maioria dos fenómenos têm um padrão comum, a Curva de Gauss
Apesar de parecerem imprevisíveis e sem ligação nem regularidade há uma padrão regular que surge em grupos suficientemente grandes (claro que «grande» é subjectivo: há mais de 6 mil e 600 milhões de pessoas no Mundo e basta um grupo de 30 para começar a surgir o «padrão normal»)...

Mas a diferença entre a razão de ouro e a distribuição normal é que a primeira surge de forma incoerente entre fenómenos diferentes mas a segunda determina um padrão comum entre fenómenos que em si nada têm em comum de uma forma rigorosa e demonstrada.
Ambos surgem de forma aproximada em situações reais mas a curva de Gauss precisa de menos aproximações para se encontrar e é, de facto, mais abrangente...

Na verdade:
95,45% está entre μ-1,96δ e μ+1,96δ (e não 2δ);
99,73% está entre μ-2,58δ e μ+2,58δ (e não 3δ);
Mas, para facilitar os cálculos, considera-se os valores arredondados...


Publicado por Mauro Maia às 10:44
Atalho para o Artigo | Cogitar | Outras cogitações (22) | Adicionar aos favoritos

Cognosco ergo sum

Conheço logo sou

Estatísticas

Nº de dias:
Artigos: 336
Comentários: 2358
Comentários/artigo: 7,02

Visitas:
(desde 26 de Abril de 2005)
no Cognosco
 
Cogitações recentes
Obrigado, João, pela contribuição. Não está no art...
Estive lendo sua cogitação à respeito do cálculo d...
Obrigado, Aleff, pelo apreço pelo artigo. Exatamen...
achei muito interessante essa sua forma de ver a l...
Obrigado, Desejo um bom 2014 também.
Artigos mais cogitados
282 comentários
74 comentários
66 comentários
62 comentários
44 comentários
Artigos

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Julho 2016

Março 2015

Dezembro 2014

Outubro 2013

Maio 2013

Fevereiro 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Janeiro 2012

Setembro 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Maio 2010

Janeiro 2010

Agosto 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Novembro 2007

Outubro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005