Últimas atualizações
Novo endereço do Cognosco: http://www.cognoscomm.com
Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 27 de Agosto de 2006
Espíritos sociais
Quem sai à noite, raramente, mesmo que saia sozinho (ou especialmente se o fizer), dispensa a companhia deste companheiro-por-excelência-em-eventos-sociais.
Chama-se particular atenção para o facto de que a palavra «sozinho» não tem acento, apesar de «só» ter. Como «sozinho» é uma palavra grave, só podia ter acento na sua sílaba tónica, neste caso no «zi», o que não faria sentido.
Em casos de enamoramento mais grave, é companheiro para todas as ocasiões, mesmo que não sociais.

Esse «amigo» de todas as ocasiões (?), com BI C2H6O tem, como nome, Etanol.
Podia ser mais bonito, mas a sua «mãe» não estava com grande imaginação na hora de escolher o nome do seu «rebento»...

Apesar do seu nome e do seu aspecto bonacheirão (na imagem, parece um cão com excesso de peso), a verdade é que muitos dos que cultivam a sua companhia desconhecem o que o seu «amigo-da-onça» lhes faz enquanto pensam que estão a passar um bom bocado. É que o Etanol é mais uma das drogas legalizadas, potencialmente tóxica e viciante... O Etanol entra no consumo humano através das bebidas alcoólicas.

Já antes, no Cognosco, se abordou outras substâncias que se poderiam chamar «drogas leves» se esta designação não fosse uma contradição de termos...
Falou-se na:
~ Nicotina em Fumare salutem;
~ Cafeína em Cafea est optima amica;
~ Teobromina em La nourriture des dieux;

Faltava então o Etanol, a única «droga legalizada» que tem nome masculino...
O Etanol é uma substância tóxica, líquida em condições TPN (temperatura e pressão normais), inflamável (entra em combustão facilmente), insípida (não tem sabor), incolor (não tem cor), mas não é inodora, porque tem um cheiro muito característico.
Para mais sobre os 4+1 sabores conhecidos, ver Sabe a mais

O Etanol é uma substância psico-activa (isto é, actua ao nível do Sistema Nervoso Central modificando funções cerebrais) com uma grande leque de efeitos no organismo, dependendo das circunstâncias e da quantidade do consumo. Os seus efeitos têm duas fases diferentes ao longo do tempo.
Inicialmente o consumo de álcool (palavra esdrúxula, pelo que obrigatoriamente tem de ter acento na sua sílaba tónica) provoca relaxamento mas um consumo continuado provoca os conhecidos problemas de descoordenação motora que facilmente se associa a quem se encontra intoxicado por etanol (a conhecida «bebedeira»). As membranas celulares são muito permeáveis ao Etanol. Quando este se encontra na corrente sanguínea propaga-se facilmente por todos os tecidos corporais. Consumo excessivo de álcool leva à perda de consciência e, em níveis muito elevados, ao envenenamento e à morte (que pode surgir após o consumo de 330 gramas de álcool, o que existe em, por exemplo, 20 «shots» de vodca, ou por asfixia no próprio vómito. Quando alguém desmaia é aconselhável colocá-la na «posição de recuperação», para evitar asfixia).

Posição de recuperação sobre o lado esquerdoCuidados a ter ao colocar alguém na «posição de recuperação»:
~ não pôr alguém que está consciente e caiu de costas se não estiver a asfixiar, pois pode agravar potenciais lesões na coluna;
~ alguém que tem uma lesão no peito deve ser virada para o lado da ferida. Desta forma, se um pulmão estiver afectado, o pulmão sem lesão não terá uma acumulação de sangue e poderá funcionar normalmente;
~ quando um mulher grávida desmaia, deve ser colocada sobre o seu lado esquerdo. Assim evita-se a compressão da Veia Cava Inferior, que leva o sangue desoxigenado para os pulmões, pelo Útero, o que pode ser fatal para a mãe e para o feto.


Graças ao comentário de «Maria Papoila», o efeito do álcool sobre mulheres grávidas é relevante: «o álcool liga-se à glicose para ser transportado na corrente sanguínea e por isso provoca, quando em excesso, hipoglicémia, principalmente nos jovens. [É de] lembrar também que o álcool atravessa a barreira hemato-encefálica e a placenta e pode causar graves problemas ao feto e ao recém-nascido filho de mães que consomem álcool durante a gravidez. Nas mães alcólicas, é muito frequente a hipoglicemia no recém-nascido e, por vezes, síndrome de privação alcoólica.»

O etanol, ao chegar ao cérebro, induz a produção de dopamina e de endorfinas.
~ A dopamina é um neuro-transmissor (possibilita a transmissão dos impulsos nervosos no cérebro) com muitas e importantes funções no cérebro. Um das suas funções é a de provocar bem-estar no cérebro quando este aprende ou faz previsões correctas. É por causa da libertação da dopamina que o primeiro efeito do álcool é a falsa sensação de bem-estar.
~ As endorfinas são as substâncias que o corpo produz para aliviar a dor e aliviar o desconforto. Mais uma razão para o efeito inicial do álcool.
Ambos os efeitos podem conduzir à habituação e ao vício...

Além disso, o etanol produz um efeito depressivo no Sistema Nervoso Central, por aumentar a actividade dos Canais BK, que transportam potássio com a ajuda de cálcio. O aumento da actividade dos canais BK levam a uma diminuição da velocidade das transmissões nervosas. Além disso, o etanol actua directamente sobre as sinapses (as «ligações» entre os neurónios), o que leva ao desequilíbro das funções cerebrais.

Mas, ao contrário do que geralmente se pensa, o álcool não mata quaisquer neurónios. Os efeitos sobre a memória e sobre as capacidades cognitivas (que estão presentes quer nas ressacas quer nos bêbados crónicos) só existem enquanto o etanol está presente no organismo. Antes de o álcool poder destruir células nervosas (devido à sua concentração) já o limite fatal foi há muito ultrapassado e a pessoa já morreu.
(o limite fatal no organismo é cerca de 5 gramas de álcool por litro de sangue).

No entanto, há provas de que o Etanol é cancerígeno, como referido pela OMS (Organização Mundial de Saúde, de cujo símbolo se falou em Paruola-undae, um artigo sobre as micro-ondas). O efeito cancerígeno é provocado pela acumulação de etanal no organismo, resultado da decomposição do etanol. Os cancros no Sistema Digestivo superior (esófago, boca, laringe, faringe) são mais comuns em bêbados crónicos. No fígado, a cirrose acompanha o consumo exagerado de álcool, na qual cicatrizes substituem o tecido normal hepático, impedindo a circulação do sangue no fígado.
(ver, em Inglês, Global Status Report on Alcohol 2004)

A decomposição do etanol pelo fígado, explica também outras conhecidas características de quem bebe álcool. O fígado é o maior orgão interno do organismo humano (o maior orgão do corpo humano é a pele) e possui enzimas que decompõem o etanol em etanal. Outras enzimas depois decompõem o etanal em gorduras, dióxido de carbono e água.
Estas gorduras são armazenadas localmente, no fígado. Como o fígado se situa no limiar inferior das vértebras, o aumento do volume é sentido mais abaixo, na barriga.
O dióxido de carbono poderá também explicar a razão porque se associa, a quem está bêbado, os soluços.
A água produzida leva à constante necessidade de deslocação à casa-de-banho de quem está a ingerir bebidas alcoólicas (nesta situação, a palavra é esdrúxula também, pelo que o acento tem obrigatoriamente de se colocar na antepenúltima sílaba, «ó», porque nenhuma palavra portuguesa pode ter acentos tónicos fora das últimas três sílabas).

Um dos efeitos do álcool é a chamada ressaca (ou «veisalgia», do Norueguês 'kveis', a tontura sentida depois de se cometerem excessos, e do Grego 'algia', dor). As causas para a veisalgia ainda não são completamente conhecidas, estando a desidratação (carência de água no organismo), hipoglicémia (carência de açúcares no sangue) e défice de vitamina B12 (que pode, entre outros efeitos, causar anemia) na lista das possíveis causas (podendo, contudo, ser tanto causas como efeitos do consumo de etanol). A desidratação provocada pela ressaca provoca uma ligeira e temporária diminuição do volume cerebral, devido à perda de água. Não há qualquer remédio conhecido para a ressaca, uma vez que o fígado tem de processar o etanol existente na corrente sanguínea para que os efeitos passem. E não se conhece qualquer forma de acelarar a actividade do fígado.
Há vários supostos remédios caseiros para a veisalgia, alguns simplesmente ineficazes, outros que na verdade agravam os efeitos da ressaca e outros até potencialmente perigosos.

Os efeitos do álcool no organismo, que dependem sempre da massa corporal de quem bebe e também do seu grau de habituação ao álcool, são sensivelmente os seguintes:

~ 0,3-1,2 g/L
o indivíduo torna-se progressivamente mais irresponsável, o tempo de reacção mais curto, incapacidade de se concentração, implusividade imprudente, descoordenação motora;
~ 0,9-2,5 g/L
o indivíduo torna-se sonolento, dificuldade de entendimento e de memorização de acontecimentos e/ou factos, tempos de reacção extremamente lentos; descoordenação motora e desiquilíbrios; visão desfocada, entorpecimento dos sentidos corporais;
~ 1,8-3 g/L
confusão mental, incapacidade de localização espacial, tonturas e gaguez, estados emocionais alterados e exagerados, sentidos coporais muito afectados, insensibilidade à dor, náusea e vómitos;
~ 2,5-4 g/L
movimentos descoordenados, momentos de inconsciência, possível coma, confusão quanto ao espaço onde estão e à passagem do tempo, sério risco de morte devido ao envenenamento por álcool ou por asfixia provocada pelo vómito.
~ 3,5-5 g/L
estado de inconsciência, reflexos inexistentes, respiração e batida do coração lenta, geralmente a morte;
~ mais de 5 g/L
falha do Sistema Nervoso Central e consequente morte;

Há também, claro, os efeitos benéficos associados ao consumo moderado de etanol, onde estão incluídos a diminuição do risco de enfarte do miocárdio e o aumento dos níveis de colesterol lipo-proteico de alta densidade (o colesterol benéfico). Mas ninguém deve iniciar o consumo de álcool pelos seus benefícios. Uma alimentação saudável e exercício adequado produzirão o mesmo efeito, sem o risco de desenvolver um vício.
Uma das razões pelas quais médicos aconselham a bebida moderada de vinho tinto é a presença, neste, de anti-oxidantes. Mas os anti-oxidantes do vinho podem ser obtidos de outras fontes não-alcoólicas. A maioria dos legumes, maçãs, bagas, melões, uvas, pêras, ameixas, morangos, bróculos, couves, cebolas, salsas, chocolates, chá verde e azeite são fontes alternativas dos mesmos anti-oxidantes que o vinho tinto. Por isso pode-se perfeitamente dispensar o consumo de vinho tinto por razões de saúde, pois muitos outros produtos têm tanto ou mais anti-oxidantes.
(Ver o artigo La nourriture des dieux para mais sobre o chocolate)

Mas também é preciso não esquecer que um grama de etanol tem mais calorias (7 Cal) do que um grama de açúcar (4 Cal)...
(Para mais informações sobre as calorias, ver o artigo Quotidianus calor)

Uma questão curiosa sobre as bebidas alcoólicas é a origem do ritual de tocar com os copos quando se faz um brinde (o vulgo «tchim-tchim»). Pensa-se que este costume terá surgido na Idade Média, quando se acreditava que as bebidas alcoólicas tinham «espíritos» no seu interior. Estes espíritos eram responsáveis pelos efeitos negativos da ingestão do álcool, como a ressaca e a bebedeira. É devido a essa ancestral crença que, ainda hoje, as bebidas alcoólicas são referidas como «bebidas espirituosas». Como igualmente se acreditava que sons vibratórios (como os sinos) afugentavam os espíritos, bater com os copos serviria para os afastar e eliminar os seus efeitos maléficos. Mas penso poder assegurar, sem margem para dúvidas, que não há um único caso de alguém que deixou de ter uma ressaca por ter batido o seu copo noutro antes de beber...


Publicado por Mauro Maia às 13:47
Atalho para o Artigo | Cogitar | Outras cogitações (10) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006
Um por todos
D. Afonso HenriquesEm 1143, D. Afonso Henriques é reconhecido como Rei português pela Coroa de Castela. Nos 42 anos seguintes, até à sua morte em 1185 na cidade de Coimbra, mais do que duplicou as terras que tinha sob seu domínio, conquistadas aos mouros.
A dinastia que fundou, a primeira dinastia real portuguesa, a Afonsina, estabeleceu os limites do território do que é agora Portugal Continental.
um trineto de Afonso Henriques, D. Afonso III, finalizou a conquista do Algarve e mudou a capital do Reino de Coimbra para Lisboa, em 1260. Para mais sobre D. Afonso III e o seu contemporâneo Marco Polo ver A derrota de pizza.

Durante 240 anos, até 1367, a Dinastia Afonsina governou Portugal, ano em que morreu D. Fernando sem ter descendentes masculinos. Na sequência da crise que se seguiu, entre 1383 e 1385, sobe ao trono português D. João I, o da Boa Memória, meio-irmão de D. Fernando e Mestre da Ordem religiosa de Aviz. É assim fundada a Segunda Dinastia Real Portuguesa, a Dinastia de Aviz. Foi esta dinastia que catapultou Portugal para os palcos cimeiros do Mundo, ao dar início e manter os Descobrimentos Portugueses (famosos são os filhos de D. João I, conhecidos como o nome colectivo de Ínclita Geração, que incluía o Infante D. Henrique).

D. SebastiãoDurante 195 anos, até 1580, a Dinastina de Aviz deu à luz os Reis de Portugal. Mas, em 1578, D. Sebastião, com 28 anos, levou para a frente os seus planos militares de conquistas no Norte de África. Desembarcou em Marrocos, com grande parte da nobreza portuguesa e esperando a chegada de um grupo de tropas espanholas, que seriam enviadas (mas nunca foram) pelo seu tio Filipe II de Espanha. As tropas portuguesas foram massacradas pelos Otomanos em Fez, na famosa Batalha de Alcácer-Quibir, pelo sultão Ahmed Mohammed. Na sequência deste desaire militar, em que perderam a vida muitos nobres portugueses e o próprio rei, o tio espanhol de D. Sebastião, Filipe II de Espanha, sobe ao trono português.
Filipe II era neto de D. Manuel I, Rei de Portugal, e filho do famoso Imperador Carlos V, que governou vários territórios na Europa e cuja relevância para a vida e morte do «famoso» La Palisse foi abordada em Ante mortem vivetes.

Durante 60 anos, até 1640, a Dinastia Filipina teve 3 reis espanhóis que usaram a coroa portuguesa, todos de nome Filipe: entre 1580 e 1598 governou Filipe I, o Prudente; de 1598 a 1621 governou Filipe II, o Pio; de 1621 a 1640 governou Filipe III, o Grande (o último rei espanhol de Portugal e devido a quem Espanha permaneceu na posse de Ceuta, como visto em Ceuta aeterna dolor).

Foi durante a a Dinastia Filipina, durante o reinado do fraco Filipe II, que a Espanha organizou a maior Armada que até à data se tinha visto, com o objectivo de proteger as tropas espanholas que aguardavam, no continente, para desembarcarem no Porto de Dover e conquistarem a Inglaterra. Os Espanhóis, donos do único império ultra-marinho da altura (uma vez que tinham unidas, sob a mesma coroa, Espanha e Portugal), que chamaram à sua frota de navios hispano-portugueses Grande y Felicísima Armada, pretendiam eliminar o Reino rival da comparativamente fraca (na altura) Inglaterra. Mas a enorme frota (que consistia em 130 navios de guerra) foi derrotada e a invasão não se consumou. Os Ingleses chamaram então, em tom sarcástico, à «Grande e Felicíssima Armada» a «Armada Invencível». Foi a partir desta derrota do enorme império espanhol da altura que a Inglaterra iniciou a sua escalada marítima que levaria à ascenção da Inglaterra como a potência marítima por excelência que viria a governar o maior império do Mundo.
Apesar de frequentemente se usar a expressão «O império onde o sol nunca se põe» como representativo do império britânico, na verdade esse epíteto era usado para designar o Império espanhol durante a Dinastia Filipina, uma vez que governavam territórios na África, na América, na Europa e na Ásia. O nome das Filipinas é uma homenagem ao imperador espanhol Filipe I, que as conquistou.

Brasão da família Batz-CastelmoreFoi durante o reinado de Filipe II que nasceu, em 1611, no palácio de Castelmore, na antiga província francesa da Gasconha (que se situava na fronteira com a Espanha, ao longo dos Pirinéus e que tinha capital na cidade de Auch), um menino a quem foi dado o nome de Charles de Batz-Castelmore. Em 1611, era rei de França Luís XIII, o Justo, e a França encontrava-se dividida em 39 províncias (as províncias foram depois, na sequência da Revolução francesa, abolidas e reorganizadas em 100 departamentos em 1790.
Sobre outras mudanças revolucionárias, como a tentativa de alterar a própria contagem do tempo, ver Aevum decimale.

O pai de Charles (Bertrand Batz) morreu a proteger o rei, enquanto chefiava a Guarda Real de Henrique IV, o anterior monarca e pai do actual Luís XIII e avô de Luís XIV. O rei Henrique IV foi alvo de várias tentativas de assassinato durante a sua vida (numa das quais morreu o pai de Charles) até que, em 1610, sucumbiu às facadas de um assassino.

Charles de Batz-CastelmoreVários membros da família Batz-Castelmore fizeram parte da Guarda Real e a sua mãe, Françoise de Montesquiou d'Artagnan, era oriunda de uma família com bastante influência junto da corte. Como tal Charles adoptou o nome da mãe, d'Artagnan, ao atingir a maioridade, quando se deslocou a Paris no sentido de também fazer parte da Guarda Real, como o pai e os irmãos. Como não tinha qualquer experiência no campo militar, a sua candidatura foi rejeitada. No entanto, Monsieur de Treville, um grande amigo da família, usou a sua influência política e o jovem ingressou no corpo militar de protecção do Rei.
Em 1644, ingressa nos Mosqueteiros que viria, muitos anos depois, a chefiar.
Quando tinha já 40 anos, e o Cardeal Mazarin era o Ministro-Chefe do Rei, Charles de Batz-Castelmore d'Artagnan conduziu várias missões de espionagem ao serviço do Cardeal. Devido aos seus valiosos serviços, foi nomeado Governador da recentemente conquistada cidade de Lille, conquistada pelo Rei-Sol Luís XIV aos holandeses. Mas, se devido à sua incompetência ou ao facto de ser um governador de um país ocupante, os habitantes não apreciaram o seu governador e Charles também não era feliz, sonhando voltar à vida militar. Com o continuar da guerra entre a França e a Holanda, Charles conseguiu voltar ao combate. A 24 de Junho de 1673, Luís XIV ordenou o Cerco a Maastricht e o Tenente-Capitão Charles de Batz-Castelmore d'Artagnan liderou as tropas francesas. No dia seguinte, a 25 de Junho de 1673, morreu com um tiro de canhão.

Mas, na altura em que Charles nasceu, o Ministro-Chefe do Rei era Armand Jean du Plessis. Armand teve uma carreira política meteórica: estudou Filosofia e, mais tarde, planeou entrar na vida militar. Devido a problemas financeiros (a família Plessis tinha-se apropriado de dinheiro enquanto geriam o Bispado de Luçon), teve de se tornar um clérigo para apaziguar a indignação religiosa. Mais tarde, em 1607, foi ordenado bispo e, em 1616, tornou-se Secretário-de-Estado do Rei. Em 1622, tornou-se cardeal e, em 1624, tonou-se Ministro-Chefe do Rei. Armand tinha dois irmãos mais velhos e os três nasceram em Paris. Entretanto, a sua família mudou-se para a antiga província de Tourrine (já então rebaptizada como Richelieu), onde o pai exerceu um importante cargo político.
Richelieu é uma cidade situada a 50 quilómetros de Tours e a 30 quilómetros de Descartes, cidade natal do filósofo René Descartes.
Artagnan é uma pequena povoação, perto da fronteira com a Espanha, com cerca de 430 habitantes.


Assim, enquanto Charles de Batz-Castelmore d'Artagnan se encaminhava para Paris para servir na Guarda Real do Rei, Armand Jean du Plessis era Cardeal de Richelieu e Ministro-Chefe do Rei e Portugal vivia em plena Dinastia Filipina, aguardando a Restauração, que viria a acontecer alguns anos depois, em 1640.
Mosquete
A história factual de Charles de Batz-Castelmore d'Artagnan e de Armand Jean du Plessis parecerá familiar, o que é bastante razoável, pois a história de Charles e de Armand inspirou uma das histórias literárias mais conhecidas do mundo: Os 3 Mosqueteiros. A obra de Alexandre Dumas pai, foi integralmente inspirada no percurso de vida de Charles Batz-Caltelmore. Charles eventualmente tornou-se chefe d'A Guarda Real (conhecidos como os Mosqueteiros do Rei) e também conde de Artagnan.
O Corpo de Mosqueteiros da Casa Real do Rei da França (mais conhecidos como Mosqueteiros do Rei) foi fundado em 1622, quando o Rei Luís XIII forneceu mosquetes a uma companhia da Cavalaria Ligeira. Durante 7 anos, os Mosqueteiros estiveram sobre o comando do Capitão-Tenente da Cavalaria Ligeira, até que, em 1634, é nomeado, como Capitão dos Mosqueteiros, Jean-Armand du Peyrer, conde de Trèville.
Apenas os homens mais valorosos que pertenciam à Guarda Real podiam ser admitidos para o Corpo dos Mosqueteiros do Rei, como uma promoção, pois tratava-se de um Corpo Militar de Elite. Os Mosqueteiros combatiam a pé ou a cavalo e com mosquetes.
Em 1657, o sucessor dos Cardeal Richelieu, o Cardeal Mazarin, dissolveu os Mosqueteiros. Passados 4 anos, o Cardeal morreu (1661) e o Rei Luís XIV ressuscitou a Companhia de Mosqueteiros em 1664, usando como modelo os Mosqueteiros iniciais.
Ao longo dos anos foram sucessivamente dissolvidos e recriados, até que foram definitivamente dissolvidos a 1 de Janeiro de 1816.

Muitos dos eventos relatados no livro de Alexandre Dumas pai são os acontecimentos romanceados da vida do conde D'Artagnan e da primeira Companhia de Mosqueteiros. Alexandre Dumas pai escreveu 3 livros sobre a vida do conde D'Artagnan: o primeiro, publicado em 1844, chamou «Os 3 Mosqueteiros», ao segundo chamou «Vinte anos depois» e, ao terceiro, chamou «O Visconde de Bragelonne».

A Bastilha Alexandre Dumas pai afirmou que tinha baseado as suas aventuras em manuscritos que encontrou na Bibloteca Nacional francesa, em Paris, que contavam a vida do conde D'Artagnan. Mais tarde foi provado que, na verdade, Dumas baseou-se no livro Mémoires de Monsieur D'Artagnan, capitaine lieutenant de la première compagnie des Mousquetaires du Roi («Memórias do Senhor D'Artagnan, Capitão-Tenente da Primeira Companhia de Mosqueteiros do Rei»), escrito em 1700 (apenas 27 anos após a morte de Charles de Batz-Caltelmore d'Artagnan e 144 anos antes do livro de Dumas) por Gatien de Courtilz de Sandras (1644-1712). Gatien entrou para o Corpo de Mosqueteiros do Rei em 1670, mas deixou-os, após 18 anos, para se dedicar à escrita, e mudou-se para a Holanda. Em 1702, regressou à França e é preso na Bastilha (a famosa antiga prisão de Paris) devido aos seus escritos escandalosos. Na Bastilha, era guarda-prisional um antigo companheiro de armas do conde D'Artagnan de nome Besmaux. Terá sido através dele que Gatien soube da história do famoso mosqueteiro e a partir da qual escreveu o seu livro.

4 mosqueteirosDas personagens mais conhecidas dos livros apenas algumas são personagens históricas, sendo as outras personagens ficcionais:
São personagens inspiradas em factos históricos D'Artagnan, o Cardeal Richelieu, o Rei Luís XIII, a sua esposa Ana de Áustria, o Duque de Edinburgo e o Cardeal Mazarin (que sucedeu a Richelieu em 1642 e que surge no segundo livro da saga).
Para além do Conde D'Artagnan (Charles de Batz-Castelmore d'Artagnan) e do Conde de Trèville (Jean-Armand du Peyrer), alguns outros Mosqueteiros existiram realmente:
~ Armand de Sillègue d'Athos d'Autevielle (1615-1643): era conterrâneo do Conde de Trèville, que o levou, em 1640, para o Corpo de Mosqueteiros que liderava. Morreu jovem, com 28 anos, morto num duelo;
~ Isaac de Portau «Porthos» (1617-?): o seu pai era Secretário do Rei e entrou para a Guarda Real em 1640. Em 1643, ano da morte de Athos, entra para o Corpo de Mosqueteiros.
~ Henri d’Aramitz «Aramis» (?-?): cunhado do Conde de Trèville (uma das irmãs de Aramis casou com ele), pertencia a uma família nobre, com ascendência militar, filho de Charles d’Aramitz, Marechal dos Mosqueteiros. Entrou no Corpo de Mosqueteiros no ano em que também entrou Athos, em 1640, e casou, em 1654, com Jeanne de Béarn-Bonasse, de quem teve 4 filhos.

Apesar de Athos e Aramis terem entrado juntos, em 1640, nos Mosqueteiros, Porthos, que entrou em 1643, não foi companheiro de Athos (que morreu em 1643) e só passado um ano foi companheiro de D'Artagnan (que entrou em 1644).
Não houve simultaneamente estes 3 Mosqueteiros juntos com D'Artagnan. Só Aramis fez sempre parte da História dos Mosqueteiros juntamente com o Conde de Trèville.


Cardeal RichelieuA descrição do Cardeal Richelieu como um maníaco fanático de poder é completamente exagerada. Muitos historiadores consideram-no o primeiro Primeiro-Ministro da História. Em vez de uma figura interessada na sua própria glória, procurou, de diversas formas, engrandecer o seu país enquanto Ministro-Chefe do Rei: procurou consolidar o poder naval da França e, ao fazê-lo, impulsionou grandemente a colonização francesa no que é agora o Quebec canadiano e a Louisiana nos EUA, transformou uma França feudal com vários nobres poderosos num país moderno, com um governo centralizado e forte, que serviu depois de inspiração ao Rei-Sol Luís XIV. Para a consolidação do poder central francês, criou os primeiros Serviços Secretos do mundo. Além disso foi o fundador da Academia Francesa, a instituição que zela pela correcção e divulgação da língua francesa.
Não sendo de todo um anjinho (apesar de ser um padre católico, nunca se coibiu de se aliar a países de religião protestante no sentido de alcançar o que entendia como os interesses internacionais franceses), a imagem de pretendente-ao-trono-francês-sedento-de-sangue é imensamente exagerada e o Cardeal Richeliu serviu a coroa francesa durante 18 anos (de 1624 a 1642), não havendo qualquer evidência de tentativas de usurpar o trono. O seu pupilo, o Cardeal Jules Cardinal Mazarin, sucedeu-lhe como Ministro-Chefe de Luís XIV e também ele serviu a coroa até à sua morte, em 1661.


Publicado por Mauro Maia às 16:56
Atalho para o Artigo | Cogitar | Outras cogitações (8) | Adicionar aos favoritos

Cognosco ergo sum

Conheço logo sou

Estatísticas

Nº de dias:
Artigos: 336
Comentários: 2358
Comentários/artigo: 7,02

Visitas:
(desde 26 de Abril de 2005)
no Cognosco
 
Cogitações recentes
Obrigado, João, pela contribuição. Não está no art...
Estive lendo sua cogitação à respeito do cálculo d...
Obrigado, Aleff, pelo apreço pelo artigo. Exatamen...
achei muito interessante essa sua forma de ver a l...
Obrigado, Desejo um bom 2014 também.
Artigos mais cogitados
282 comentários
74 comentários
66 comentários
62 comentários
44 comentários
Artigos

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Julho 2016

Março 2015

Dezembro 2014

Outubro 2013

Maio 2013

Fevereiro 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Janeiro 2012

Setembro 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Maio 2010

Janeiro 2010

Agosto 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Novembro 2007

Outubro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005