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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sábado, 30 de Setembro de 2006
O-zono de Morfeu
OzonoUmas das palavras mais comuns nos dias de hoje e que, como tantas outras, é tão ouvida como incompreendida é «ozono»: fala-se no grave problema do buraco do ozono, fala-se no perigo para a saúde do ozono, preocupam-se as pessoas com a diminuição do ozono atmosférico, emitem-se avisos de segurança pública para a presença de ozono ao nível do solo, a falta de ozono como vítima da poluição, a presença de ozono como agente de poluição...
E o actor principal, a entidade que está na boca do Mundo, permanece um desconhecido cuja aparência para o público em geral é apenas o seu nome.

A dualidade do papel do ozono para a existência humana nasce da sua composição, o bem que faz e o mal que provoca têm paralelo nas de um primo chegado, mais irmão até do que primo, sem a qual a vida é impossível mas do qual a morte terá também nascido.

O seu nome, «ozono», vem do facto de se originar geralmente nas tempestades eléctricas.
Apesar do odor característico que se sente durante e imediatamente após as tempestades não se dever à produção espontânea de ozono, este encontra-se presente. Em 1840, o químico Germano-Suíço, Christian Friedrich Schönbein, em resultado de algumas experiências suas, descobriu que se produzia um gás cujo odor que lhe lembrava as tempestades. Chamou-lhe «ozono», do grego «ozein» que significa «odor», apesar de ser um gás praticamente inodoro nas concentrações normais com que um ser humano se pode deparar.

Apesar do seu estatuto de «celebridade pública», o «ozono» é uma molécula de aspecto e composição muito simples: é composto de 3 átomos de oxigénio (O3). O «oxigénio» que respiramos e do qual quase toda a vida actual depende é constituído por 2 átomos de oxigénio (O2)

Mas este oxigénio, tão querido e necessário à vida, só surgiu na Terra após ter surgido a vida e, quando surgiu, provocou uma das maiores (quiçá se não mesmo a maior) extinção de vida na Terra. Os poucos seres que sobreviveram foram os remotos antepassados da maravilhosa diversidade de vida no planeta.

Há mais de 5 mil milhões de anos, formou-se a nuvem de gás (uma nebulosa planetária que seria semelhante à da fotografia) que viria a dar origem ao Sistema Solar e que era os restos mortais de uma estrela que existia aqui, no espaço agora ocupado pelos 8+0,5 planetas.
(Recorde-se que Plutão perdeu o seu estatuto de planeta recentemente, devido ao seu tamanho e à sua origem. Para mais sobre a origem do Sistema Solar ver o artigo Vertigone tellus, que aborda a razão pela qual há estações do ano)

Quando a Terra se condensou, há 4 mil e 570 milhões de anos, não tinha oxigénio na sua composição. A sua atmosfera seria constituída por Hidrogénio (H) e Hélio (He), os elementos que constituem 98% de todos os elementos do Universo.
Aos poucos, devido às erupções vulcânicas e aos cometas que com ela chocavam, novos gases foram sendo adicionados mas não oxigénio.

Há 4 mil mihões de anos surgiu, da imensa quantidade de substâncias que flutuava no oceano primordial, uma molécula capaz de produzir cópias de si mesma utilizando outras moléculas à sua volta. Essa primeira molécula produziu 1 cópia sua, as 2 produziram 4 cópias, as 4 produziram 8 cópias, as 8 16, as 16 32,... Rapidamente consumiram as restantes moléculas e passaram a consumir-se umas às outras.
(Para outro exemplo de como algo que se multiplica inicialmente tão lentamente assume proporções enomes ver o artigo esTepes, que mostra matematicamente como não pode haver vampiros)

A intensa competição e a intensa radiação desse início da vida levou ao aparecimento de várias moléculas auto-replicadoras, com diferentes características. As que tinham características que lhes davam alguma vantagem foram sobrevivendo e deixando descendentes. Nessa altura, há 2 mil e 700 milhões de anos, surgiram micróbios (chamados cianobactérias devido à sua cor azul - «ciano») que usavam dióxido de carbono, água e raios solares para produzirem o seu alimento. O sub-produto, extremamente tóxico para a vida que existia na altura, era o nosso conhecido oxigénio.

O oxigénio é um gás extramamente reactivo, que provoca o desgaste dos materiais com que entra em contacto (é só ver o seu efeito numa peça de metal enferrujada ou numa maçã cortada e exposta ao ar). Os tecidos vivos não são excepção. Com o aumento substancial do oxigénio (até aos 21% actuais), muitos desses primeiros micróbios foram exterminados, incapazes de aguentar os estragos que o oxigénio lhes provocava.
Mas onde alguns perecem outros aproveitam. Por uma feliz coincidência, fruto do exponencial crescimento dos micróbios, um deles surgiu capaz de utilizar o oxigénio para produzir energia. Um outro tinha uma parede protectora mas não conseguia usar o oxigénio. Ambos os micro-organismos tinham o seu próprio ADN, as suas características que lhes permitiam sobreviver nese mundo hostil à vida poluído por oxigénio.
Mas um acontecimento transformou-os de simples sobreviventes no jogo da vida a vencedores incontestados (mas não únicos) da vida: por algum processo desconhecido uniram-se, o motor de oxigénio envolto pela parede protectora. Nasceu a vida como a conhecemos e nós descendemos dessas duas minúsculas entidades que um dia se uniram e conquistaram o mundo.

MitocôndriaAinda hoje eles coexistem em nós, cada um individual e com o seu próprio ADN.
As células do nosso corpo descendem directamente da parede protectora inicial, mais e mais complexa à medida que decorriam os milhões de anos. O motor de oxigénio sofreu menos evolução e é a mitocôndria, o organelo existente em cada uma das nossas células e que é responsável pela produção de energia, «queimando» os alimentos que ingerimos com o oxigénio que respiramos.
De cada vez que uma célula se multiplica, duplica o seu ADN e o ADN das mitocôndrias para produzir novas células. O ADN principal é muito complexo (a conhecida dupla hélice) mas o ADN mitocondrial é muito simples e é um mero anel de nucleótidos. A função do ADN principal é conter a informação toda necessária à criação e funcionamento do corpo. A função do ADN mitocondrial é... fazer outra mitocôndria.
(Ver o artigo Sinto saudades da minha avó para uma imagem e mais sobre o ADN mitocondrial).

A vantagem do novo ser híbrido era o facto de utilizar o altamente-energético oxigénio.
A desvantagem é que, para ser mais energético, sacrificou a sua imortalidade:
com o consumo de oxigénio, este passou a ser levado até ao interior sensível da célula e os sub-produtos da produção de energia usando o oxigénio eram ainda mais reactivos do que este: os chamados radicais livres (assim chamados porque são moléculas que têm uma ponta solta, um radical, que reage livre e facilmente com outras substâncias). Gradualmente as células foram produzindo mecanismos de reparação dos danos que o oxigénio e os radicais livres lhes provocavam mas o mecanismo de reparação nunca funciona a 100% e cogita-se que uma das razões pelas quais envelhecemos é pela acumulação de danos mal-reparados feitos nas células pelos radicais livres...
Um forma de ajudarmos o nosso sistema de reparação e prolongar, pelo menos, a nossa qualidade de vida é ingerindo alimentos com vitamina C, uma vez que esta é anti-oxidante e neutraliza os radicais livres do nosso corpo. A vitamina C pode ser encontrada (por ordem decrescente):
na acerola (0,72 g de vitamina C por 100 gramas do fruto), na amora (0,2 g em cada 100), nos pimentos-não-picantes (0,19g), na salsa (0,13g), no kiwi (0,09g), nos bróculos (0,09g), nas couves-de-bruxelas (0,08g), nos diospiros (0,06g), na papaia (0,06g), nos morangos (0,06g), na laranja (0,05g), no limão(0,04g) e em outros frutos, em quantidades cada vez menores.
Em fontes animais, o fígado é o maior fornecedor de vitamina C (entre 0,036g e 0,011g), as ostras (0,03g), o leite humano (0,004g) e o leite-fresco-bovino (0,002g).
Quem diria que uma amora tem 4 vezes mais vitamina C do que uma laranja?
A maior fonte natural de vitamina C que se conhece é o fruto de uma planta australiana, de nome Terminalia ferdinandiana, que tem 3,15 g de vitamina C por cada 100 gramas de fruto.

Mas, se a poluição de oxigénio provocou a extinção em massa de muitos dos micro-organismos existentes na altura, teve uma consequência para nós muito feliz.
As moléculas de oxigénio (O2), na alta atmosfera e expostos à mortífera radiação solar, absorviam os assassinos-da-vida raios ultra-violeta e transformavam-se em O3, o ozono. Sempre que uma molécula de O2 é atingido por um raio ultra-violeta, absorve a sua energia, usa-a para se combinar com mais oxigénio e produzir O3.
(Para mais sobre os ultra-violetas ver:
~ Solares ambusti sobre os raios ultra-violeta e a pele;
~ Lux mundi sobre os raios ultra-violeta e luz;
~ Loqui longinquitate sobre as micro-ondas e os raios ultra-violeta;

Dessa forma os micro-orgnismos que sobreviveram à chacina do oxigénio passaram a estar protegidos dos raios ultra-violeta e puderam tornar-se mais complexos, sem o perigo de serem desfeitos por essa perigosa radiação. Assim puderam surgir os organismos multi-celulares, assim estes puderam sair do oceano e colonizar a terra (primeiro os insectos, em particular um antepassado dos escorpiões, e mais tarde as plantas). O planeta Terra passou a estar protegido por um escudo de ozono que permitiu que a vida se desenvolvesse.
Uma outra consequência feliz do aparecimento do ozono na atmosfera foi a lindíssima cor azul do nosso céu: é essa a cor do gás ozono.

Mas o oxigénio é altamente reactivo e o ozono é mais ainda. O ozono na alta atmosfera que nos protege é produzido naturalmente pela interacção do oxigénio e dos raios ultra-violeta (e destruída mais rapidamente do que surge pelos CFC's, como visto em Esburacar o frio)

Devido à poluição das grandes cidades há a libertação de óxidos nitrosos (dos tubos de escape dos veículos a gasolina e das centrais de energia que funcionam com combustíveis fósseis) e compostos orgânicos voláteis (como os libertados pela gasolina, pesticidas,...)
Estes compostos são muito reactivos e têm, na sua composição, oxigénio. Quando em contacto com os raios ultra-violeta que passam o escudo de ozono troposférico, dissociam-se e os átomos de oxigénio agrupam-se em ozono.
Apesar de a sua produção ser benéfica, por absorver a energia dos raios ultra-violeta mais perigosos, a sua presença ao nível do solo é prejudicial à saúde, devido à grande reactividade do ozono e dos compostos que lhe dão origem.

Smog fotoquímicoTodos combinados formam um tipo diferente de smog, o «smog fotoquímico» («foto» -luz + químico por ser a luz, especificamente os raios ultra-violeta, que desencadeia as reacções químicas quie produzem o ozono ao nível do solo), principal poluente das zonas urbanas actualmente. Inicialmente o «smog» (palavra composta por «smoke» -fumo e «fog» -nevoeiro) era consequência da queima de carvão da Primeira Revolução Industrial. Hoje em dia, é o «smog» fotoquímico, formado por óxidos nitrosos, compostos orgânicos voláteis e ozono, que é a principal poluição atmosférica das grandes cidades (e que forma nuvens de cor creme nos céus urbanos).

As crianças, idosos e pessoas com problemas cardíacos e respiratórios (como enfisemas, bronquites e asma) são especialmente afectados pelo ozono ao nível do solo. Este pode inflamar as vias respiratórias, diminuindo a capacidade respiratória dos pulmões e provocando faltas de ar, dor aos inspirar e tosse. Pode ainda causar irritação nos olhos e nariz, secura da membrana protectora do nariz e garganta e interferir com a resposta imunitária do organismo às infecções, tornando as pessoas mais susceptíveis a doenças. Hospitalizações e mortes por problemas respiratórios aumentam significativamente quando os níveis de ozono são elevados (ao nível do solo, claro. A camada de ozono situa-se na estratosfera, entre 10 e 50 quilómetros de altitude).

Em Portugal ainda não é comum, mas em países mais industrializados, em que o smog fotoquímico é um problema sério, é já comum emitirem-se avisos de segurança pública alertando para a presença de concentrações elevadas de ozono desenvolvido pela poluição e por dias mais quentes (em que a emissão de raios ultra-violeta é mais sentida).
Pode ser um sinal positivo, saber que ainda não há poluição de ozono significativa em Portugal. Ou pode ser um sinal negativo, saber que as autoridades ainda não estarão alertadas suficientemente para esta questão.
Eu espero que seja a primeira hipótese mas geralmente costuma ser a segunda...

Vivemos assim um estranho paradoxo: o que nos dá vida é também o que nos mais cedo nos entrega ao abraço imortal de Morfeu...

É claro, em relação às fontes de vitamina C, que a amora tem 4 vezes mais do que a laranja por cada 100 gramas. Ou seja, 100 gramas de amoras tem tanta vitamina C como 400 gramas de laranjas. Claro que uma só laranja tem mais vitamina C do que um só amora...
Relevante também é a questão do limite máximo absorvível de vitamina C pelo organismo humano. Não há consenso sobre o máximo de vitamina C que se pode tomar nem qual o valor óptimo. A quantidade ideal é fruto de debate na comunidade científica: há quem recomende entre 6 gramas e 18 gramas diárias, há quem recomende 3 gramas, há quem recomende 0,3 gramas. Certo é que a quantidade necessária de vitamina C depende do físico de quem a toma (quanto mais volumosa for mais quantidade necessita) e também de circunstâncias particulares (mulheres grávidas devem tomar mais, pessoas com gripes mais também). Acima de aproximadamente 200 gramas por dia, a vitamina C provoca diarreia, que cessa assim que se pára a ingestão de vitamina C.

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Publicado por Mauro Maia às 21:46
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Sábado, 23 de Setembro de 2006
Hiato
Quem acompanha o Cognosco terá já notado o hiato de tempo entre os artigos publicados. O anterior data de 5 de Setembro e é hoje 23 de Setembro.

~ Não se trata de uma morte anunciada;
~ Não se trata de enfado;
~ Não se trata de indiferença ao Cognosco;

A razão tem sido os problemas com o meu computador. Tendo regressado de férias, preparei-me para voltar a utilizar o meu PC, relegado para segundo plano nestes últimos 3 anos. Seguiram-se formatações de disco, instalação do sistema operativo, transferência de dados importantes do disco do portátil para o comparativamente menor disco do PC. Mas, de cada vez que re-instalava o sistema operativo, algo não corria bem e precisava (ou queria, qual a diferença?) de uma nova instalação. Faz mais de um mês que permaneço sentado, nesta cadeira, à volta do computador, para que tudo fique perfeito e da forma como quero. E faz mais de um mês que este computador insiste em ter algum problema na instalação.

O artigo que escrevi no dia 5 foi ainda no portátil. E desde esse dia várias vezes pensei que já tinha tudo resolvido e poderia finalmente dar ao Cognosco e às suas centenas de visitantes diários a atenção merecida. Mas o sucesso iludiu-me consecutivamente, e mesmo agora, que escrevo estas palavras no PC, a nova instalação aponta problemas com a placa de som (espero que seja das drivers e não da placa em si...)
Isto significa mais tempo que preciso de dispender a corrigir o problema.

Além disso, com o início das minhas actividades laborais no início de Setembro, tenho de repartir a minha atenção/dedicação entre o trabalho (e a preparação de um projecto importante que desejo começar dentro de alguns meses), o PC, os meus livros, a minha escrita e o Cognosco.

Por isso tudo tem sido tão escassa a frequência de artigos no Cognosco.
Dentro em pouco (espero) tudo se solucionará e o ritmo será reestabelecido (se bem que nunca para a estonteante frequência de vários artigos no mesmo dia, como aconteceu no início do Cognosco).
Estão, neste momento, na forja, pelo menos, 2 artigos:
~ O que é o ozono e porque a falta dele na alta atmosfera é prejudicial e a sua presença ao nível do solo prejudicial igualmente;
~ A história do Brasil após a sua descoberta pelos portugueses, nomeadamente a fuga da família real portuguesa que conduziria à independência, o Reino Unido de Portugal e do Brasil, o príncipe português que se tornou o primeiro imperador do Brasil independente e depois Rei de Portugal, sobre a sobrevivência da monarquia brasileira ao longo dos seus primeiros (e poucos imperadores). Para os visitantes brasileiros (que, em média, são um terço dos visitantes do Cognosco) poderá não trazer muito de novo mas para a maioria portuguesa trará seguramente;

Até lá, peço a compreensão de quem aqui vem e a promessa de que tudo estou a fazer para acelerar a normalização do Cognosco.

Um bem haja e um obrigado a quem por aqui passa, Mauro Maia.


Publicado por Mauro Maia às 22:06
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Terça-feira, 5 de Setembro de 2006
Esburacar o frio
Em dias quentes, não há como ir ao frigorífico e beber um copo de água fresca. Em dias frios, não há como não ir às compras, ir ao frigorífico e tirar uma pizza congelada para o jantar. O frigorífico mudou a forma como se vive e se está no Mundo...

O frigorífico é mais um dos milagres científicos de que pouco geralmente se sabe. Como funciona, como surgiu, como realiza um feito que, durante séculos, se julgava completamente impossível e a sua concretização é pouco menos do que um milagre.
(Para mais sobre outros feitos tecnológicos do século XX ver os artigos:
~ Paruola-undae sobre os micro-ondas;
~ Loqui longinquitate sobre os telemóveis;
)

~ Como assim, um «milagre»?! Qual é a grande questão?! Produz frio e mais nada...

Uma das questões que a maioria das pessoas nem pensa nem tem consciência é a de que não existe coisa alguma que possa ser identificado como frio.
Não há frio, há apenas níveis diferentes de calor. Poderá parecer uma simples questão de terminologia (pouco calor=frio, pouco frio=calor) mas não é assim.
Existe de facto «calor», mas não existe «frio».

Este questão foi já abordada em Está calor aqui: o «calor» é a medida da agitação das moléculas que compõem a substância, é a sua energia. Podem estar muito agitadas ou pouco agitadas (e o «muito» e o «pouco» são adjectivos subjectivos), o que corresponde a «mais calor» ou «menos calor».

O calor é assim uma forma de energia e, como tal, não pode ser criada nem destruída. Só se pode transferir energia (ou transformá-la noutro tipo de energia) e, por isso, igualmente só se pode transferir calor de um local para o outro. O calor é sempre transferido do corpo mais «quente» para o corpo «menos quente» até que ambos os corpos se encontrem à mesma temperatura e, nessa altura, a transferência de calor pára. E se é possível produzir calor, transformando alguma outra forma de energia em calor (a fricção é uma das mais comuns no quotidiano), o frio não se consegue produzir, pois isso equivale a destruir energia, o que é impossível. A única coisa que se pode fazer é aproximar um corpo com menos energia calórica e esperar que a transferência se realize e ambos os corpos fiquem à temperatura média dos dois (Se um estiver a 30º C e o outro estiver a 10º C, após a transferência, que não é imediata, poderão ficar ambos a 20º C, sendo o resultado verdadeiro dependente das características físicas dos dois corpos envolvidos, mas sempre entre as temperaturas dos dois. Agradeço a «.» pela chamada de atenção sobre a exactidão deste ponto ;) ). Por isso, durante muitos anos, a ideia de «produzir frio» parecia ridícula e a noção de um «frigorífico» mais ainda: para se esfriar algo era necesário ter algo mais frio com o qual transferir calor.

Mas então como é possível explicar o funcionamento de um frigorífico? Está à temperatura ambiente, liga-se à electricidade e, ao fim de algum tempo, está mais frio do que a temperatura ambiente...

Curiosamente um passo fundamental no funcionamento de um frigorífico é a produção de calor. O frio depois não é, de forma alguma, produzido, o calor é que é transferido.
Há mais de um método para se conseguir esta extracção de calor mas os frigoríficos domésticos usam geralmente o Ciclo de Compressão de Vapor.

Neste método, são necessários 4 componentes fundamentais:
~ um compressor;
~ um condensador;
~ uma válvula de expansão;
~ um evaporador;

O ciclo começa pela introdução, no compressor, de um gás. Este é comprimido e as suas moléculas são empurradas na direcção umas das outras. Esse movimento, que aumenta a pressão do gás, aumenta muito a sua temperatura (a energia da compressão é transformada em calor). Sai então do compressor e entra no condensador, onde é condensado num líquido. Em seguida, é conduzido para a válvula de expansão, onde a sua pressão é abruptamente diminuída. Isto leva a que parte do líquido retorne à forma de gás, livre da pressão a que estava e com menos temperatura do que a que tinha quando iniciou o ciclo (e a que está inicialmente no interior do frigorífico). Em seguida, a mistura de líquido e gás é transportada pelos tubos do evaporador. No exterior desses tubos circula o ar quente existente no frigorífico e que é mantido em circulação por uma ventoínha. A temperatura do ar interior do frigorífico é superior à do gás+líquido refrigerador e, pelo mesmo processo de transferência de calor, o líquido existente absorve o calor do ar, transforma-se em gás e o ar do frigorífico é esfriado. O gás regressa então ao compressor e o ciclo recomeça. Em pouco tempo, o ar dentro do frigorífico está mais fresco, porque o seu calor foi transferido para o exterior do frigorífico.

Mais curioso é saber que um processo de refrigeração semelhante a este é conhecido desde o século XVIII (o grande físico auto-didacta Michael Faraday mostrou como se fazia teoricamente e, na Universidade de Gascow, na Escócia, um primeiro protótipo funcional foi demonstrado ainda no mesmo século). Mas só passados dois séculos é que os primeiros dispositivos verdadeiramente eficazes surgiram (a electricidade facilitou muito todo o processo): em 1902 foi inventado o primeiro ar-condicionado (que funcionam por princípios semelhantes aos dos frigoríficos). Num instante, a invenção do frigorífico comercial surgiu.
(O primeiro dispositivo de refrigeração foi instalado, no início do século XX, na mansão de um abastado executivo de uma companhia petrolífera nos EUA).
O primeiro frigorífico vendido comercialmente foi da General Electric, em 1927. Este usava dióxido de enxofre (SO2) como gás refrigerador e muitos dos frigoríficos na altura feitos e vendidos ainda trabalham(!).

O dióxido de enxofre, produzido comercialmente e libertado também em erupções vulcânicas, é um gás (à temperatura ambiente) que provoca irritação nos pulmões, é ainda hoje utilizado como conservante em algumas bebidas alcoólicas e frutas (mantendo artificialmente o seu aspecto mas não impedindo que apodreçam), é utilizado na produção de ácido sulfúrico (H2SO4) e causa a conhecida chuva ácida, destruidora de estátuas e monumentos urbanos.

Após o uso de dióxido de enxofre como gás «refrigerador», foram introduzidos os CloroFluorCarbonos (os conhecidos CFC's) (Fréon é o nome comercial de um dos gases CFC). Estes foram inventados, em 1928, por Thomas Midgley (1889-1944), o engenheiro-mecânico que se tornou químico com desastrosas consequências para o ambiente. Foi Midgley quem introduziu o chumbo na gasolina e que inventou os CFC's.
(Já se falou neste desastroso inventor no artigo Octanas para que te quero</b>)
Da família química dos CFC, para além dos gases usados na refrigeração, contam-se também substâncias como o Teflon (Politetrafluoroetileno), usado nos revestimentos anti-aderentes dos utensílios de cozinha, ou o PVC (Cloreto de polivinil), usado como um plástico de origem não-petrolífera nos tubos onde se alojam os cabos eléctricos domésticos.
Apesar de serem da mesma família, não têm os efeitos sobre o ozono que têm os seus «primos», e não só por serem sólidos à temperatura ambiente. As diferenças químicas, apesar das semellhanças, não produz o mesmo efeito...


Com a descoberta de que os gases CFC's provocavam um grave efeito de estufa e a destruição da camada de ozono (ver o artigo Solares ambusti para os danos provocados pela ausência de ozono na alta atmosfera), no final da década de 1980, foi assinado o Tratado de Montreal, com vista à diminuição da libertação de substâncias que destroem a camada de ozono. Após a consciência internacional da sua periculosidade, os CFC's foram substituídos por outros gases que não provocam a destruição da camada de ozono.
Hoje são utilizados principalmente dois gases não poluentes: o metilpropano - (CH3)2CHCH3 ou o 1,1,1,2-Tetrafluoroetano - CF3CH2F

Buraco no Ozono sobre a Antártida
O Buraco na Camada do Ozono sobre a Antártida, fotografia tirada pela NASA a 6 de Setembro de 2000. Vê-se ainda a ponta sul da América do Sul.
(Ver Magnus Tellus para a origem dos nomes dos continentes).

Para contextualizar a gravidade do problema, relembre-se que a Antártida tem 14 milhões de quilómetros quadrados e que o buraco a ultrapassa largamente: em 2000 tinha mais de 28 milhões de quilómetros quadrados.
A área de Portugal, continental, Açores e Madeira, é de apenas 92 mil e 345 quilómetros quadrados. Cabem 305 «portugais» no buraco antártico.

Não deixa de ser cruelmente trágico que, devido aos esforços humanos para se refrescarem, o efeito tenha sido tão substancial num dos 2 locais da superfície terrestre mais frios, onde há locais onde a temperatura nunca sobe acima dos 30º negativos.


Onde não é preciso refrigeração é onde os efeitos negativos da refrigeração mais se sentem...


Publicado por Mauro Maia às 19:18
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