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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sábado, 28 de Outubro de 2006
Influência astral
Numa sala, alguém espirra. Comentários à sua volta:
- Coitado, constipou-se. Apanhou alguma rajada de vento mais frio.
- Pois, andam por aí estas gripes. Se calhar não apanhou a vacina.
- Isto agora só lá vai com descanso e antibióticos!


Este tipo de comentários, bastante comuns quando alguém espirra, contém uma série enorme de erros e desconhecimentos do que é uma gripe, do que é uma constipação, as diferenças entre ambas, o que as causa, como curá-las ou tratá-las...

Começando pelo básico, gripes e constipações são doenças bem diferentes nas suas causas, pericolosidade e efeitos.
A gripe é mais perigosa, demora mais a passar e pode levar a doenças mais graves, como a pneumonia. É, além disso, a doença que mais mortos provocou na espécie humana (só num ano, entre 1918 e 1919 matou tantas pessoas no mundo inteiro como toda a peste negra). A constipação é mais ligeira, menos perigosa e demora menos a passar mas também pode levar ao aparecimento de uma pneumonia.
Partilham alguns (mas não todos os) sintomas.

Os sintomas da gripe são:
~ tosse, dor de cabeça, fadiga física, garganta inflamada, febre e dores musculares.
Os sintomas da constipação são:
~ tosse, dor de cabeça, fadiga física, garganta inflamada, espirros e nariz congestionado.
Alguns dos sintomas são comuns (mais mais graves na gripe), mas há outros sintomas específicos de cada uma delas. Se alguém espirra, tem uma constipação, se tem febre alta é uma gripe.
Graças ao contributo de Maria Papoila, acrescenta-se que a constipação pode ser acompanhada de febre baixa (38º), enquanto a da gripe é superior (40º)

Vírus InfluenzaA gripe é causada por um de três vírus (tipo A, tipo B e tipo C) da família Ortomixoviridae (influenza), que ataca aves e mamíferos.
O nome do vírus surgiu na Itália do século XV, quando se acreditava que a gripe era provocada por «influências astrológicas desfavoráveis» e, mais tarde, no século XVIII, quando se pensava que era por «influência do frio». O termo «influenza» sobreviveu, como o termo «desastre», que significa «mau astro», má influência astrológica...
A constipação pode ser provocada por uma miríade de diferentes vírus (mais de uma centena foram já identificados), desde vírus da família Picornaviridae (rinovírus, ecovírus, coxsackievírus), da família Coronaviridae (coronavírus) e da família Paramixoviridae (paramixovírus).

Outra diferença entre as duas doenças é as formas de propagação. Embora ambas se propaguem pelo ar, têm vários mecanismos de propagação diferentes.
Os vírus influenza (causadores da gripe) também se transmitem pela saliva (um beijo mais intenso, por exemplo), secreções nasais, fezes (a falta de higiene pessoal, água contaminada por fezes,...) e sangue. Os diferentes vírus que provocam a constipação transmitem-se pela secreções nasais, através dos espirros e da tosse, ou directamente ou através de apertos de mão ou puxadores de porta (sendo depois a mão levada ao nariz). Os vírus da constipação podem durar várias horas no exterior, enquanto «aguardam» alguém para infectar (é claro que os vírus não têm intenções nem planos, limitam-se a agir mecanicamente). Após alguém constipado espirrar, o ar fica contaminado de vírus por horas e estes caem a um ritmo muito vagaroso, pelo que são contagiosos mesmo após horas depois de uma pessoa constipada passar. Entram no organismo principalmente através do nariz e da garganta e pelos olhos por vezes também, através do líquido lacrimal que é «despejado» através do Duto nasolacrimal (canal que liga olhos e nariz e através do qual o excedente lacrimal é expelido. É por esta razão que o nariz se enche de líquido quando se chora). A boca não é um ponto especialmente vulnerável à entrada dos vírus da constipação, pelo que contactos orais (como num beijo) não transmitem a doença.

Vírus da gripe das aves H5N1Um aspecto comum às duas doenças é que os vírus que as provocam estão em constante mutação, permanecendo virais mas suficientemente diferentes para que uma vacina permanante para qualquer uma delas seja muito difícil (se não impossível) de encontrar.
Uma pessoa que fique doente e depois se cure fica imunizado contra a variante do vírus que a atacou, mas não contra todas. Devido à rápida propagação dos vírus, novas variantes surgem constantemente, pelo que uma pessoa imunizada contra uma das variantes possa facilmente adoecer com outra.

Um outro aspecto fundamental nas duas doenças é que são provocados por vírus.
Os antibióticos funcionam unicamente contra bactérias, que são organismos vivos, com uma parede celular e informação genética necessária para a reprodução do indivíduo. Os antibióticos rebentam essa parede celular das batérias (mas não as do corpo humano), levando à destruição bacteriana.
Mas os vírus não são seres vivos: não possuem paredes celulares (há alguns que têm um invólucro exterior mas não uma verdadeira membrana celular) e não são capazes de se reproduzirem com outro membro da sua «espécie», não têm o equipamento genético para isso (e essa é uma condição indispensável há classificação de algo como «ser vivo», a capacidade de auto-reprodução). Em vez disso, usam e abusam das células de seres vivos para que estas produzam novos vírus. São meros motores de injecção de material genético.
Quando um vírus entra num organismo, agarra-se à parede celular de uma célula e injecta literalmente o seu material genético (apenas uma fila de ARN e não uma fita dupla de ADN) para o interior da célula. As células têm ADN, que contém toda a informação genética do organismo numa hélice dupla de bases nucleótidas (Adenosina, Timina, Citosina e Guanina, que deve o seu nome ao facto de ter sido primeiro detectada nas fezes fossilizadas de aves, a que se dá o nome de «guano», material fertilizante que se costumava usar para adubar). Essa informação é preciosa para o organismo e nunca deixa o núcleo do indivíduo. As suas informações para a célula são transferidas, do ADN para o resto da célula, através de fitas de ARN. Estas contêm as ordens de produção das diferentes substâncias produzidas pela célula. Quando o ARN viral entra nas células, sobrepõe-se ao ARN celular, e as «fábricas» de substâncias da célula começam a produzir somente vírus, cuja informação está contida no ARN viral.
O interior celular vai-se enchendo de vírus, já não produz as coisas que necessita para viver e, ao fim de algum tempo, rebenta e morre, lançando uma nova multidão de vírus para infectar as células vizinhas.
É uma descrição muito sumária da acção viral mas penso que esclarecedora.
Como salienta Nox, o mecanismo antibiótico de «rebentamento» das paredes celulares nem sempre ocorre e nem é o mais frequente, tal como, apesar da maioria dos vírus só terem ARN, uns poucos têm ADN. Crucial também é a distinção entre ser vivo/ser não-vivo na classificação dos vírus. Mas o mecanismo que se descreve acima, apesar de nem sempre se verificar, permite uma visualização dos possíveis mecanismos de acção antibiótica (ou antimicrobiana, como também é salientado). Não há dúvida de que este é um tema longe se se esgotar num único artigo e agradeço a Nox levantar mais um pouco do véu, podendo dessa forma ainda mais aliciar à pesquisa de mais informação sobre a microbiologia.


Hipócrates de KosÉ por esta razão que tomar antibióicos não cura gripes ou constipações, estes não os afectem em nada, é como mandar uma horda de mosquitos para parar uma manada de elefantes. Os «remédios caseiros» e as «explicações populares» abundam nas duas, devido à sua longa convivênvia com os seres humanos.
A constipação era já conhecida no Antigo Egipto, havendo hieróglifos (do grego «hieros» -sagrado e «glifo» -escrita) que representam pessoas com os seus sintomas.
Também Hipócrates (o do célebre juramento que os médicos fazem) descreveu a doença no século 5 AC. Igualmente os Maias (e os Aztecas, seus descendentes culturais, como visto em Nex terrae) conheciam a doença e também tinham os seus «remédios populares» (que incluíam folhas de tabaco, pimentos picantes e mel).

Hipócrates descreveu também a gripe, no mesmo século (400 AC).
Por todo o mundo, ao longo da História, se têm registado surtos mais ou menos pandémicos de gripe. O surto mais grave de gripe deu-se entre os anos 1918 e 1919, a chamada «Gripe Espanhola» (apesar da doença não ter começado em Espanha nem lá ter sido a população mais atingida. O facto de a Espanha não ter entrado na Iª Guerra Mundial, ao contrário de Portugal, levou a que não houvesse censura militar aos jornais da época, pelo que relatos da doença eram livremente imprimidos. Como apenas os jornais espanhóis falavam abundantemente da doença, acabou por se pensar erradamente que era ali que tinha surgido e onde era mais virulenta). A guerra tinha acabado e milhares de soldados regressaram a casa, levando consigo a doença. Esta espalhou-se como fogo por um mundo devastado pela Guerra e entre 40 milhões e 50 milhões de pessoas morreram, até mesmo no Ártico e em remotas ilhas do Pacífico.

A gripe tem 3 tipos diferente de vírus (e dentro desses tipos novas variantes vão surgindo):
~ tipo A é o responsável pela gripe aviária. Este tipo surge nas aves mas geralmente infecta depois mamíferos (como o Homem). A gripe do início do século XX foi a variante H1N1 (que actualmente só existe em reservas genéticas em laboratórios militares) e a do início do século XXI é a variante H5N1.
Estas variantes recebem o seu nome científico devido às moléculas que contêm.
Possuem hemaglutininas (H), responsáveis pela «aderência» viral às células que atacam (e que recebem o seu nome devido a também levarem à aglutinação dos glóbulos vermelhos do sangue, os hematrócitos).
Têm também neuraminidases (N), que aumentam a capacidade de virulência por segregarem ácido siálico.
Novas variantes dos vírus têm alguma mutação ou nas hemaglutininas ou nas neuraminidases, fazendo assim variar a designação no número da respectiva letra.
É o tipo mais perigoso, com a maior velocidade de mutação dos três tipos.
~ tipo B, que afecta unicamente seres humanos (e focas!), que é pouco patogénico e não provoca pandemias como o tipo A. Os influenza B têm mutações mais lentas do que os do tipo A (cerca de metade ou um terço da velocidade de mutação do tipo A). O tipo B não recebe a denominação H*N* que tem o tipo A.
~ tipo C, que afecta seres humanos e porcos (a já-várias-vezes-ouvida-«gripe suína») e é o tipo mais lento a sofrer mutações. No entanto, é mais perigoso do que o tipo B e pode provocar pandemias regionais. Também este tipo não tem as designações H*N*.
Algumas variantes, do tipo A, que provocaram epidemias de gripe foram a H1N1 (gripe 1918-1919), H2N2 (gripe asiática), H3N2 (gripe de Hong Kong), H5N1 (a gripe das aves do século XXI), H7N7 (que tem um potencial de salto entre espécies perigoso), H1N2 (que afecta seres humanos e porcos).

Os vírus que provocam a constipação são vários e também em constante mutação. Não são, em geral, mortais. Estes vírus atacam as células da mucosa do nariz e da faringe, ligando-se aos receptores ICAM-1 (moléculas de adesão inter-celular) das células ali presentes. As moléculas ICAM são as responsáveis pela adesão entre diversas células, em especial entre os glóbulos brancos. Os receptores destas moléculas encontram-se nas paredes celulares dos eritrócitos e é pela porta da «polícia» que estes bandidos se infiltram e roubam a «esquadra»!
Para mais sobre os glóbulos brancos e vermelhos do sangue ver O ninja das casas.

Os vírus da constipação (e os da gripe) não têm cura conhecida, nenhuma mezinha da avó resolve o problema, nenhum leite aquecido com mel ao deitar cura...
É o corpo, e apenas o corpo, o responsável pela cura.
Mesmo tratamentos ditos «modernos», como os suplementos de vitamina C, ainda não se provaram como eficazes no combate à doença. É só mais um «remédio popular» que é como andar a pôr alho para afugentar vampiros: o bem que faz é psicológico...
Já se mostrou matematicamente, em esTepes, que não há vampiros.

Uma das mais erradas mas mais difundidas ideias sobre quer as gripes quer as constipações é a que as liga ao frio e a ter os pés ou a roupa molhada. Repete-se, sem fundamento qualquer e só porque se ouviu dizer, «Não apanhes frio, olha que te constipas!» ou «Vai já tirar essa roupa molhada e tomar um banho quente antes que te constipes!»
Isto é absolutamente errado. O frio não causa nem gripes nem constipações (basta ver que, em climas frios, a taxa de incidência das duas doenças é igual ou inferior às dos países de temperatura moderada ou quente).
Reverendo John WesleyEsta errónea ideia surgiu no século XVIII, quando John Wesley (1703-1791), clérigo anglicano, publicou um livro em que afirmava que os arrepios de frio provocavam a constipação e, por isso, não se devia tomar banhos de água fria.
Também William Buchan (1729-1805), médico, afirmava que a causa da constipação eram pés e roupas molhadas.
É uma ideia com perto de 300 anos, desactualizada e errada, e no entanto, continua-se a repetir a mesma lenga-lenga!
Foram levadas a cabo, de forma séria e rigorosa, já no século XX, experiências para determinar se o frio aumentava a susceptibilidade às constipações e gripes. Nenhuma das já feitas mostrou qualquer relação entre o frio e a constipação ou a gripe.
A maior incidência de gripes e constipações no Inverno não se deve ao frio que se faz sentir mas ao facto de as pessoas estarem mais tempo juntas em locais aquecidos e mais próximas umas das outras. O que acaba por difundir a constipação e a gripe não é o frio, é o que fazemos para fugir dele. Uma emenda pior do que o soneto, neste aspecto!

Claro que, como ambas as doenças afectam as mucosas nasais, apanhar ar frio depois de se ter a doença realça o mal-estar.
Mas isto, de forma alguma, quer dizer que o frio as causa.
Não se confunda causas com efeitos!

Resumindo tudo:
A gripe e a constipação são doenças provocadas por vírus e não pelo frio e que não têm cura conhecida. Pode-se aliviar os sintomas mas não se pode curar. O corpo é o supremo médico nestas questões!

A razão porque todos os anos é necessário apanhar uma nova vacina da gripe relaciona-se com a sua taxa de mutação. Ninguém sabe exactamente que mutação se dará a seguir, mas os médicos fazem uma ideia aproximada de algumas das características da mutação e incluem-na na vacina. Claro que não é 100% seguro (dão-se muitas mutações diferentes), claro que se pode ter o azar de se ser exposto a uma variante não coberta pela vacina...
Mas, entre nada fazer, e dar uma ajuda ao nosso sistema imunitário...

Mas, novamente graças a Maria Papoila, há grupos de risco que devem tomar a vacina para a gripe: «Os idosos, os doentes cardíacos, diabéticos e pulmonares ou com outras doenças crónicas, as crianças, os profissionais de saúde, produtores e tratadores de aves domésticas, bombeiros» e eu acrescentava os professores, que passam o dia inteiro com crianças...


Publicado por Mauro Maia às 18:27
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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006
E ou não E, eis a questão
Tenho, nas mãos, uma lata de refrigerante com esta lista de ingredientes:
água, dióxido de carbono, corante E150, emulsionantes E950, E951 e E952, acidificantes E330 e E338, conservante E211


Enquanto que «água» e «dióxido de carbono» são termos conhecidos de todos, o conjunto seguinte, E seguido de números, é geralmente desconhecido.
Quem, sobre isso, já tenha pelo menos ponderado um pouco, ficará incerto quanto ao seu significado. Provavelmente terão chegado à verosímil (mas errada) conclusão que é alguma substância química (até potencialmente tóxica em alguma concentração).

Dito de outra forma, perante o desconhecido, receia-se que seja perigoso.
A verdade é bem outra, diametralmente oposta até desta conclusão e está ligada à unificação europeia e ao sonho da construção de um espaço seguro para todos os seus 456 milhões, 953 mil e 258 habitantes (valores do ano 2006).
A letra E que usa é o E de Europa!
Esta nomenclatura foi criada e é usada na UE. A Austrália é o único país não-europeu que também a adoptou.

Desde o Império Romano que alguém sonha com uma Europa Unida, em vez da multiplicidade existente. Os mil anos do domínio romano foram, até ao século XX, o mais próximo que a Europa esteve de ser uma só e de falar a uma só voz.
Após a queda do Império, os povos germânicos ocuparam o território europeu e fundaram muitas nações diferentes. Mas, na área presentemente ocupada pela França, pela Alemanha, Áustria e Itália, formou-se um grande Reino Germânico dos Francos, que não eram mais do que uma colecção de diversos povos germânicos que se auto-intitulavam «franks» - livres.
Carlos MagnoQuando Carlos Magno e o seu irmão, Carlomano, sucederam ao seu pai, Pepino o Breve, em 768 DC, o vasto império franco foi dividido entre os dois, ficando a antiga Gália romana para Carlos Magno e a antiga Germânia para Carlomano.
Foi o pai de Carlos Magno, Pepino o Breve, quem doou, em 758 DC, à Igreja Católica, os territórios na península itálica que englobavam a cidade de Roma, levando à criação dos Estados Papais, que só terminaram em 1870. Foi por causa dos Estados Papais que morreu La Palisse, como visto em Ante mortem vivetes
O império ficou dividido em dois, o que teve profundas implicações nos séculos que se seguiriam, mais notavelmente na língua e na beligerância entre a França e a Alemanha (nações irmãs na sua origem) no século XX.
Foi também devido a esta divisão que se formou a clivagem entre as línguas francesa e alemã, apesar da sua origem «fraterna», como visto em Deutschland (Alemanha em alemão)
A região dada a Carlomano desenvolveu os seus próprios costumes e língua, vindo a formar o Sacro Império Romano do Povo Germânico, que englobava as actuais Alemanha e Áustria, que se dissolveu somente em 1806, em consequência das Guerras Napoleónicas.

NapoleãoNa História Europeia, foram estas as nações que mais território dominaram do continente europeu durante mais tempo. Mas o sonho de uma Europa unida prossegiu. Napoleão, causa da extinção do Sacro Impéro Romano, governou grande parte da Europa, da Espanha às fronteiras russas. Após a desastrosa invasão da Rússia, em 1812, o seu império foi desmoronando até à sua abdicação, em 1814.
Também Hitler, que subiu ao poder em 1933 (democraticamente eleito), conquistou grande parte da Europa, da França às fronteiras russas. Após a desastrosa invasão da Rússia, em 1941, o seu império foi desmoronando até ao seu suicídio, em 1945. Após a derrota nazi, em consequência das ocupações americana e russa da Europa, esta foi «dividida» em 2 blocos ideologicamente oponentes: a zona ocidental, capitalista e pró-americana e a zona oriental, comunista e pró-russa.

E foi na zona ocidental que nasceu um novo sonho de unificação europeia. O líder da «vitoriosa» Grã-Bretanha, Winston Churchil, deu, em 1946, na Universidade de Zurique, na neutral Suíça, um discurso em que apelava à criação dos «Estados Unidos da Europa», como forma de impedir que novas guerras devastassem o continente e o mundo.
Em 1951, foi criada a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, tendo como fundadores a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo, a Alemanha Ocidental, a França e a Itália (a Inglaterra recusou-se a fazer parte deste grupo inicial, alegando questões de soberania).
Aos poucos, novos Estados Europeus foram-se juntando a esta Comunidade Europeia, que entretanto se tornou a Comunidade Económica Europeia. Com o alargamento dos 6 países iniciais para 12 (e depois para os presentes 25) a CEE tornou-se a União Europeia, pelo Tratado de Maastricht, em 1992, tendo adoptado o Euro como a sua moeda única.

E é na União Europeia que nasce o famoso E dos ingredientes alimentares.
A necessidade da criação de um Mercado Único europeu exigia uma normalização das designações, das propriedades e da segurança dos aditivos alimentares (não confundir com a correntemente usada mas incorrecta palavra «adictivos», como sinónimo de «substância viciante», má e literal tradução do «addictive» inglês).
Em 1988, foi criada a Directiva 89/107, que procurava legislar as substâncias que eram adicionadas aos produtos alimentares, como os adoçantes, os conservantes, os colorantes,...

Esta directiva (apenas publicada em 1989, daí a sua designação legal) estipulava que todos os aditivos alimentares usados no espaço europeu fossem avaliados e a sua segurança estabelecida pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), que estabelece os critérios de segurança e pureza dos aditivos alimentares. Em Julho de 2006, nova legislação estabeleceu os critérios para a entrada de novos aditivos na lista dos aditivos alimentares autorizados na União Europeia.

Os aditivos considerados seguros pela Comissão Europeia recebem uma designação específica, com a letra E seguida do número de série respectivo. São substâncias de origem variada, desde a animal à vegetal à química. Os números E variam desde o número 100 (a Curcumina, um colorante amarelo com propriedades anti-oxidantes e anti-cancerígenas) até ao 1520 (o Glicol Propileno, um humidificante).

Os números E para os aditivos alimentares considerados seguros podem ser genericamente divididos em 8 grupos:
~ 100 - 199 colorantes;
~ 200 - 299 conservantes;
~ 300 - 399 anti-oxidantes e reguladores de acidez;
~ 400 - 499 espessantes e estabilizadores;
~ 500 - 599 reguladores de pH e anti-coagulantes;
~ 600 - 699 intensificadores de sabor;
~ 900 - 999 miscelâneos que não se inserem nas categorias anteriores;
~ 1100 - 1599 novas substâncias não categorizáveis;

Os números E não são perigosos, são na verdade substâncias que foram devidamente testadas e cuja segurança, para a generalidade da população, foi
assegurada pela União Europeia. Algumas das substâncias (poucas) poderão causar alergias específicas em determinadas doenças, daí a obrigatoriedade da sua inclusão nos rótulos alimentares, para que, quem possa ser alérgico a uma delas especificamente, se possa acautelar.

~ Nos colorantes há algumas vitaminas (como a riboflavina, a vitamina B2), caramelo (do 150a ao 150d), carvão vegetal (E153), o caroteno encontrado nas cenouras (160a) e cal (E170).
~ Nos conservantes há o dióxido de carbono (E290) de que se falou em O ninja das casas.
~ Nos anti-oxidantes há a vitamina C (E300), de que se falou no artigo O-zono de Morfeu pelas suas propriedades anti-oxidantes e protectoras da célula.
~ Nos espessantes há a gelatina (E441) e a celulose (E460).
~ Nos reguladores de acidez há o ácido sulfúrico (E513).
~ Nos intensificadores de sabor há o glutamato de sódio (E621), de que se falou em Sabe a mais como sendo um 5.º sabor, a juntar aos 4 mais conhecidos.
~ Nos miscelâneos há a cera de abelhas (E901), há a parafina (E905) de que se fazem as velas (ver Equus et candela que explica a quantas velas corresponde um watt de uma lâmpada), o Hélio (E929), o Azoto (E941), o Butano (E943a) e o Propano (E944) (De que se falou em O ninja das casas), o Oxigénio (E948), o Hidrogénio (E929) e os adoçantes Aspartame (E951) e o Xilitol (E967).
~ Nas substâncias não categorizáveis há o etanol (E1510), de que se falou em Espíritos sociais.

A conclusão então é que os números E nos alimentos não são tóxicos ou perigosos. Na verdade, apesar de haver alguma controvérsia sobre a inclusão de algumas (poucas) substâncias na lista de números E, é certo que a parte mais segura e testada de um produto alimentar são os seus E's!
Claramente ao contrário do que geralmente se pensa!

Estão assim explicados os ingredientes «mistérios» do refrigerante:
E150 - corante: caramelo
E211 - conservante: benzoato de sódio (que se encontra também nas maçãs)
E330 - anti-oxidante: ácido cítrico (indispensável na respiração celular)
E338 - anti-oxidante: ácido fosfórico (que dá um sabor mais ácido à bebida)
E950, E951, E952 - adoçante: aspartame


Já fico mais descansado...

Para mais informações sobre os números E dos alimentos, veja-se a interessante página Food info, que pode ser consultada em várias línguas, incluindo o Português e o Inglês.
Nela pode ser encontrada a lista exaustiva dos números E presentemente atribuídos pela UE aos aditivos alimentares e a substância a que correspondem.
Algumas dúvidas sobre alimentos e a sua segurança podem também ser aí encontrados.
Uma página que vale a pena ser explorada.


Publicado por Mauro Maia às 18:56
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Domingo, 15 de Outubro de 2006
Circunferência do umbigo
O Homem de Vitrúvio - Leonardo da Vinci
O Homem de Vitrúvio, Leonardo da Vinci, circa 1492, Accademia di Belle Arti, Veneza

Esta é uma das imagens que, neste século XXI, tem entrado na cultura popular, mais desde que se tornou uma das peças iniciais do enredo de um romance histórico que conquistou o Mundo. Quando o famoso Leonardo da Vinci a pintou, por volta de 1492, incluiu-o num dos seus diários e acompanhou-o de notas explicativas. Tinha em mente a simetria inerente ao Mundo em que vivemos e do corpo humano em particular e Leonardo (como muitos dos seus contemporâneos) interessava-se pela Matemática e a sua simetria, demonstrado pelas proporções existentes na Natureza. Chamou então, ao seu desenho, O Homem de Vitrúvio.

Quando este desenho foi feito, no ano de 1492, o último Reino Mouro na Península Ibérica, Granada, foi finalmente conquistado e, após alguns meses, Cristovão Colombo chegou à América Central. Na Itália nasce o pintor Polidoro Caldara da Caravaggio. Portugal vive a sua Idade de Ouro, os Descobrimentos: passaram 77 anos desde a conquista de Ceuta, em 1415 (ver Ceuta aeterna dolor); passaram pouco mais de 60 anos desde a descoberta dos Açores, entre 1427 e 1431 (ver o artigo circa Trientes Insulae para uma origem mais verosímil para o seu nome); passaram 23 anos desde o Tratado de Alcáçovas, pelo qual o Mundo era dividido entre Portugal e Castela horizontalmente e as Canárias eram cedidas aos espanhóis (ver Canarias et ignotus tractatus); passaram 8 anos (1484) desde que as pretensões de Cristovão Colombo de que podia chegar às Índias pelo Ocidente foi recusada pela Coroa Portuguesa; passaram apenas 5 anos (1487) desde que o Cabo das Tormentas foi dobrado e recebeu o novo nome de Cabo da Boa Esperança.

Mas porque razão Leonardo da Vinci deu ao seu desenho o nome «O Homem de Vitrúvio»? Seria algum familiar do grande artista? Algum amigo chegado? E que ligação tem este desenho de facto com o número Fi?
(Fi é a chamada «razão de ouro», de que já se falou em Só phi é d'ouro)

Vitrúvio existiu de facto e de facto inspirou Leonardo da Vinci na realização desta pintura. Mas a inspiração que deu foi no campo conceptual e não num plano físico. É que Marcus Vitruvius Pollio viveu entre 75AC e 25AC enquanto que Leonardo da Vinci viveu entre 1452DC e 1519DC. Mil e quinhentos anos separam os dois e, no entanto, a mente de um influenciou a mente de outro.

Pouco é sabido sobre a vida de Vitrúvio. Sabe-se que nasceu um cidadão romano, na cidade de Fórmia, na região italiana de Lácio, berço da civilização romana (foi também às portas desta cidade que o orador Cícero foi assassinado, em 43AC, na Via Appia, ainda Vitrúvio era vivo). Foi engenheiro, nos exércitos de Júlio César (para quem terá desenhado algumas das suas formidáveis armas de guerra) e serviu depois o sobrinho deste, Caio César Augusto (o primeiro imperador de Roma. Sobre a questão de quem foi de facto o primeiro imperador romano ver Quis primus fuit?). Foi escritor, engenheiro e arquitecto.

Foi Vitrúvio quem relatou, na primeira fonte antiga que sobreviveu até ao tempo presente, a história de Arquimedes e de como este descobriu como provar que a coroa do seu rei não era feita unicamente de ouro, saindo pelas ruas da cidade, nu, gritando «Eureka!». Esta história, bem como a demonstração de que não pode ter sido como Vitrúvio a explicou, encontra-se em Aurea corona.

Entre 27AC e 23AC, escreveu a sua magna obra De architectura «Sobre Arquitectura» (a única fonte sobrevivente da época sobre a arquitectura romana). Estava dividida em 10 livros e versava todas as técnicas de construção romanas da época, desde o planeamento urbano no primeiro livro ao uso e construção de máquinas no último (o décimo). A largura padrão dos canos urbanos foi primeiro delineada por Vitrúvio e é ainda hoje a usada. Sendo um arquitecto, o único edifício que se sabe ter sido projectado por ele foi a Basílica da cidade de Fano (antiga Fanum Fortunae, devido ao seu templo às Fortunas. Falou-se destas figuras mitológicas em Pandora). No entanto, o edifício foi de tal modo destruído que nem a sua localização exacta é, hoje em dia, conhecida.

Para Vitrúvio, as 3 qualidades essenciais de um edifício devem ser: «firmitas» - solidez, «utilitas» - utilidade e «venustas» - beleza, qualidades que, ainda hoje, se procuram na contrução de qualquer edifício. Para ele, a Arquitectura é uma imitação da Natureza e deve, como esta, ser harmoniosa e simétrica. Na sua concepção, uma das obras mais perfeitas da Natureza é o corpo humano e Vitrúvio delineou quais deveriam ser as proporções perfeitas que o corpo humano deve ter para ser perfeito:

«No corpo humano, o centro é naturalmente o umbigo. Se um homem se deitar de costas, com as mãos e pés estendidos e um compasso centrado no seu umbigo, os dedos das mãos e dos pés formam uma circunferência centrada no umbigo. E da mesma forma que as extremidades do corpo formam uma circunferência que circunda o corpo, um quadrado pode também ser traçado. Se se medir a distância da sola dos pés ao topo da cabeça e se se aplicar esta medida aos braços entendidos, a amplitude deles será igual à altura [do corpo], como no caso das superfícies planas que são completamente quadradas.»
Marcus Vitruvius, De Architectura, Livro III, Capítulo I

Leonardo da Vinci, usando os escritos de Vitrúvio, calculou então (e colocou nas notas que acompanham o desenho) que, no corpo humano perfeito:
~ a palma da mão deve ter a largura de 4 dedos;
~ o pé o comprimento de 3 palmas;
~ a altura do corpo 24 palmas;
~ o comprimento da passada também 24 palmas;
~ a envergadura dos braços (a distância de uma ponta à outra dos braços estendidos) igual à sua altura;
~ a distância da linha de cabelo até ao queixo um décimo da altura do corpo;
~ a distância do topo da cabeça ao queixo um oitavo da altura do corpo;
~ a largura dos ombros um quarto da altura do corpo;
~ a distância do cotovelo à ponta dos dedos um quinto da altura do corpo;
~ a distância do cotovelo ao sovaco um oitavo da altura do corpo;
~ o comprimento da mão um décimo da altura do corpo;
~ a distância da ponta do queixo ao nariz um terço da altura da cabeça;
~ a distância da linha do cabelo às sobrancelhas um terço da altura da cabeça;
~ a altura da orelha um terço da altura da cabeça;

Ora, sendo que a unidade de medida inglesa (agora em desuso) «palma», equivale a 7,62 cm, a altura «perfeita» de um homem, segundo Vitrúvio, seria 1,83m. Seria muito difícil que algum contemporâneo, quer de Vitrúvio quer de Leonardo, alcançassem semelhante altura (devido à pobre alimentação e doenças). Recordo-me dos relatos aterrorizados dos Legionários Romanos ao enfrentarem os «gigantes» povos germânicos, uma vez que só tinham em média pouco mais de 1,60m... Talvez isto contivesse alguma crítica social pois então nenhum homem do seu tempo seria perfeito...

Por aqui cai também por terra uma outra teoria, baseada nas proporções do corpo humano, representado n'«O Homem de Vitrúvio», como estando ligadas ao número fi.
Como visto em Só phi é d'ouro, o número fi é uma dízima infinita não-periódica, isto é, é um número irracional com infinitas casas decimais sem padrão reconhecível (para mais sobre os tipos de números ver Simplesmente complexo. O seu valor aproximado é φ ≈ 1,61803... A noção de perfeição, quer de Vitrúvio que de da Vinci, referem-se explicitamente a valores fraccionais (dízimas finitas ou infinitas periódicas). É assim um mero subterfúgio literário e uma grande dose de vontade de encaixar factos em teorias que se pode pensar ser possível medir os valores de fi nas proporções do corpo humano, seja ele considerado perfeito ou não (até porque o que é belo para uns não o é para outros e o que numa pessoa pode ficar bem pode ficar má noutra). Seguramente Vitrúvio e Leonardo ficariam horrorizados pela perspectiva de as proporções do corpo humano não serem valores obtidos pela divisão de dois valores inteiros...

Tendo em conta a diversidade dos corpos humanos, não há uma proporção padrão e o padrão do que é belo varia muito de cultura para cultura. Seguramente que se se medir a altura do corpo e as distâncias entre as suas diversas componentes, não se obterá o valor de fi nem o abusivo valor 1,618 (que não é o seu valor, é uma mera aproximação).

A obra de Vitrúvio pode ser lida, no seu original em Latim, no site De architectura

Esta obra, de da Vinci, tem inspirado muitos artistas ao longo dos séculos e várias são as suas manifestações no mundo moderno:
Euro italiano
~ A face nacional do Euro italiano é a repesentação d'«O Homem de Vitrúvio», querendo simbolizar não só uma das obras de um dos maiores artistas italianos como também a procura do ideal da paz e harmonia europeias.

~ Vários artistas procuraram também representar as proporções do corpo humano, como por exemplo o pintor alemão Albrecht Dürer na sua obra «Vier Bücher von menschlicher Proportion» - 4 Livros sobre a Proporção humana. Algumas das imagens do livro, digitalizadas o original, podem ser vistas em:
Albrecht Durer: Vier Bücher von menschlicher Proportion

É claro que a «perfeição» procurada por Vitrúvio e por Leonardo da Vinci sofre de erro de localização. Não tenho dúvidas de que, a haver perfeição no corpo humano, este se encontra no corpo feminino e não no masculino. Mas esta é um questão de gosto pessoal, admito...

Encontrei, no site Zenburger, esta «Mulher de Vitrúvio», que me expressa bem.


Talvez o que Vitrúvio e Leonardo fizeram foi não mais do que centrar, no seu próprio umbigo, na sua definição de «perfeição» a felizmente-diversa natureza e beleza física humana. Mas, concordando com o comentário de
Nox, a busca da simetria é inerente ao Homem...


Publicado por Mauro Maia às 17:42
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