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Diário das pequenas descobertas da vida.
Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007
Polimáticos possidónios
Não sejas possidónio!

Eis uma frase que, não sendo predominante no discurso moderno, por vezes é ouvida.
Surge como um insulto, como um meio-insulto ou apenas como advertência, dependendo de quem a profere, a quem a profere e o contexto no qual é proferida.
Não é usada com uma conotação positiva e quem a ouve sabe que algo está a ser criticado no que disse ou considerou.

O número de pessoas que conhece o significado da frase não é substancial (a par com a frequência do uso da expressão) mas uma curta consulta a um dicionário de Português, em busca do significado de «possidónio», indica o seguinte:
substantivo masculino: designação dada ao político provinciano e ingénuo que via a salvação da Pátria no corte radical de todas as despesas públicas;
adjectivo: pretensioso; vulgar; convencional.

PossidónioComo se depreende, trata-se de uma referência a um putativo (da palavra latina «putativu» que significa «suposto») político com ideias ingénuas e simplistas, merecedor de condescendência.
Mas quem foi de facto esse político? Quem foi Possidónio? Corresponderá o uso do seu nome à verdadeira História da sua pessoa? Pecará a definição até por ser um eufemismo? Terá sido Possidónio alguém risível?

Não seria a primeira vez que injustiças foram cometidas na avaliação popular de alguém. Num dos primeiros artigos do Cognosco, Injustiças, foram mencionadas algumas (muito poucas). Também no artigo Ante mortem vivetes foi referido como Jacques de Chabannes, senhor de La Palisse, não foi uma «máquina produtora de verdades ridiculamente óbvias», mas um Marechal francês, morto em batalha, merecedor do respeito e admiração das suas tropas, que lhe composeram um hino desvirtuado por uma má tradução do Francês, tornando-o uma personagem injustamente ridicularizada.

E quanto a Possidónio? Quem foi este homem, referido como um simplório de vistas curtas? Terá sido realmente um político? De que altura? Em que lugar?



Possidónio nasceu na cidade de Apameia, na actual Síria, e viveu durante o período de expansão romana através da Europa, Norte de África e Próximo Oriente, tendo nascido em 135 AC e morrido em 51 AC, com 84 anos.
Um acontecimentos que ocorreu, no mundo romano, durante a vida de Possidónio, foi a Terceira Revolta dos Escravos, entre 73 AC e 71 AC, liderada por Espártaco. O cônsul romano que o derrotou, Marco Licínio Crasso (115 AC - 53 AC), o homem mais rico de Roma na altura, formou, juntamente com Júlio César e Pompeu, o primeiro Triunvirato romano.
A cidade era já antiga quando Possidónio nela nasceu, tendo sido fortificada em 300 AC por Seleuco, um dos Generais de Alexandre Magno que ficou com uma das divisões do Império Macedónico quando este morreu.
Para mais sobre Alexandre Magno ver Magna bybliotheca e Kara victoria.
Seleuco mudou o nome da cidade de Pharmake para Apameia, o nome da sua mulher.
Em 130 AC, quando nasceu Possidónio, tinham já passado 16 anos desde a destruição da cidade de Cartago, no Norte de África (após 3 Guerras Púnicas) e a República Romana era a principal potência mediterrânica.

Possidónio estudou na sua cidade natal mas finalizou os seus estudos (superiores) em Atenas, antes do domínio romano (a cidade foi conquistada, em 87 AC, pelo general romano Sila, quando Possidónio tinha 47 anos). Nesta cidade, foi aluno do filósofo estóico Panaitio (185 AC -108 AC), que, em 129 AC (com 56 anos), se mudou para a cidade (era oriundo da ilha grega de Rodes mas viveu muitos anos em Roma). Tornou-se, a par do seu mestre, o maior representante e divulgador do estoicismo no mundo romano.
Stoa de Attalos, na zona alta de Atenas
A Escola Filosófica Estóica surgiu em Atenas, em lugares públicos conhecidos como «stoa» (zonas de passagem, exteriores aos edifícios, viradas para a rua, rodeadas de colunas e cobertas). Devido ao lugar onde era geralmente discutida e abordada, a escola filosófica recebeu o nome de Estóica, de «stoa». Foi Zenão de Citium (não confundir com o filósofo eleático Zenão de Elea, o criador dos famosos paradoxos, como visto em Celer turtur) quem fundou o estoicismo.

Para a Escola Estóica, o auto-controlo, a força psicológica e o distanciamento das emoções permite o raciocínio claro, o equilíbrio mental e a imparcialidade de julgamento. O objectivo do filósofo estóico é o melhoramento espiritual do indivíduo através da razão, da virtude e da sujeição às leis físicas. Através do controlo das paixões e das emoções, acreditavam estes filósofos que era possível encontrar a paz interior face ao turbilhão do Mundo exterior. Isto porque as emoções obscuram a verdade e a procura da verdade é a maior das virtudes. Para um estóico, deve-se fazer como a razão determina. A paixão (no sentido clássico de «sofrimento» e «angústia») deve ser evitada e a arma para combater o sofrimento é a razão e o raciocínio claro. Este é um raciocínio bastante similar aos predicados budistas e não admira que tenham influenciado um mundo helénico para sempre modificado pela abertura cultural providenciada pelas conquistas de Alexadre Magno na Ásia.
Para mais sobre o budismo, ver o artigo O Príncipe e a roda, que fala sobre o budismo indiano e o imperador Açoka.

O Estoicismo influenciou em grande medida o mundo romano e vários imperadores romanos (e vários legisladores e leis que defenderam) beberam do Estoicismo a sua ética. Através do Estoicismo, a vivência legislativa romana foi influenciada e, através da legislação romana, a Religião Católica foi adaptada e tornada na entidade que hoje se encontra. Os Estóicos consideravam que a tristeza e a maldade eram fruto da ignorância e que apenas a razão e a procura da verdade as podiam limitar. Todos as pessoas são uma manifestação do mesmo espírito universal e devem ajudar-se e serem honestas umas com as outras. A igualdade de todos perante a Lei e o Mundo são conceitos naturais para um Estóico e a sua propagação ideológica pelo Império Romano em muito terá contribuído para a implantação do Cristianismo na Europa romana (apesar de Nero, perseguidor dos primeiros cristãos romanos, se dizer estóico. Mas, a julgar pelas suas acções, era um crente não-praticante do estoicismo... Ver Colossicum amphitheatrum para mais sobre este Imperador e a sua ligação ao Coliseu).

Foi esta a Filosofia que Possidónio aprendeu enquanto estudava em Atenas e da qual foi um dos maiores representantes, tendo contribuído largamente para a sua dessiminação pelo mundo romano. Um dos pupilos (em 80 AC) de Possidónio foi Cícero, o grande Orador, Político, Filósofo e Advogado romano, que, apesar de não se ter tornado estóico, foi grandemente influenciado pela ética desta escola de pensamento. Em 95 AC (quando tinha 40 anos), Possidónio mudou-se para a ilha grega de Rodes (já há muito um terramoto tinha destruído o famoso Colosso de Rodes. Este foi construído em 292 AC e caiu em 280 AC. Durante centenas de anos os seus vestígios permaneceram no porto da ilha, até que os Árabes os venderam como sucata, em 654 DC). Pouco depois da sua chegada à ilha, foi eleito governador por um período de 6 meses (o tempo de mandato habitual) e, após 8 anos de residência, em 87 AC, Possidónio foi nomeado Embaixador de Rodes em Roma, devido à forma como geriu eficazmente o seu cargo político. Na altura, a ilha era aliada independente da República de Roma e tinha, como tal, na cidade, uma embaixada (Rodes foi, em 43 AC, eventualmente conquistada e pilhada pelo general romano Gaius Cassius Longinus, amigo de Pompeu e inimigo de Júlio César).

Possidónio era um grande apoiante do poder romano, vendo-o como uma força estabilizadora do mundo mediterrânico, mesmo após Pompeu, inimigo de César, ter invadido a sua cidade-natal Apameia em 64 AC, anexando a cidade à República Romana pela força. Devido aos laços que estabeleceu com a nobreza romana, Possidónio pôde dar azo a uma outra das suas buscas da libertadora verdade, tendo viajado por várias terras conhecidas na altura (tanto as sobre domínio romano como as que não estavam). Escreveu sobre as terras e costumes que presenciou nas suas viagens, mas os seus escritos perderam-se nas marés do Tempo (perderam-se os textos, mas muitos dos títulos das suas obras foram preservados, em listas de obras citadas por outros autores).

Além da sua Filosofia e das suas viagens exploratórias, Possidónio fundou uma escola em Rodes, onde tinha vários alunos, tanto romanos como gregos, que o procuravam devido à sua sabedoria e conhecimento. A sua fama de erudito era conhecida por todo o Mundo romano e foi uma das poucas pessoas que dominou todo o conhecimento da sua época.
A sua fama como polimático (isto é, de alguém que domina vários saberes, do grego «poli»+«mathēs» - muitos conhecimentos. É da raíz «mathēs», conhecimento, que deriva a palavra Matemática, «máthēmas» em grego) era inteiramente merecida: estudou e escreveu sobre Física (incluindo Meteorologia e Geografia), Astronomia, Astrologia e Adivinhação (consideradas, na altura, ciências), Sismologia, Geologia e Mineralogia, Hidrologia, Botânica, Ética, Lógica, Matemática, História, Antropologia e Táctica Militar. A sua fama percorreu toda a História romana e, mesmo na Idade Média, era considerado um dos maiores intelectos que o Mundo conheceu. Dificilmente foi alguém de ideias curtas e simplórias... Tinha, além disso, a alcunha de «o Atleta», o que poderá ser uma indicação da vastidão dos seus interesses.
Possidónio foi o primeiro Estóico a considerar que a alma era constituída por «paixão» e «razão» e que a Ética era o meio pelo qual o equlíbrio entre as duas podia ser encontrado.

Os escritos de Possidónio encontram-se hoje fragmentados e a maioria do que se conhece deles é devido à enorme influência intelectual que exerceu sobre outros escritores. As citações das obras de Possidónio são inúmeras e extensas e fornecem uma base sólida de informação sobre a sua figura intelectual.

Tudo aponta para que Possidónio, longe de ser um simplório de vistas curtas e um político inábil, tenha sido um homem de enorme inteligência e capacidade, que influenciou (e ainda influencia) a vida intelectual humana.

Registar e manter a História, tanto da espécie como a individual, é uma das principais (se não mesmo das poucas) características que nos separa dos outros seres vivos deste planeta. Mas, apesar de toda a sua beleza e importância, não deixa de ser mal usada e mal interpretada nas mãos inábeis de quem com ela pouco se preocupa. Possidónio parece ter sido uma das suas vítimas.
Mas a sua importância não passou despercebida e ganhou mesmo direito a um título perene bem acima das preocupações terrenas...



A Cratera Possidónio, na Lua, foi assim nomeada em homenagem a Possidónio e situa-se no Mar da Serenidade. A primeira missão à Lua, a Apolo 11, aterrou no Mar da Tranquilidade, a 960 quilómetros a Sul da Cratera Possidónio. A Apolo 15, a protagonista da experiência-para-comprovar-que-os-corpos-caem-todos-à-mesma-velocidade (como visto em Apolo não favoreceu Aristóteles), aterrou (ou melhor, alunou) a 715 quilómetros a Oeste da Cratera Possidónio, do outro lado do Mar da Serenidade. Para referência visual, foi incluída, no mapa, a localização da Cratera Tycho, no Pólo Sul da Lua.

Agora, como na sua época, Possidónio foi testemunha de grandes acontecimentos, que mudaram o rumo da História...


Publicado por Mauro Maia às 17:02
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Domingo, 21 de Janeiro de 2007
Primos inter primos

Nos confins do Universo, gira, em torno do seu próprio centro, uma galáxia. Nada a notabiliza de entre a miríade de outras galáxias, nem o seu tamanho (100 mil anos-luz de diâmetro, ou seja, 946 mil biliões, 52 biliões, 840 mil milhões e 500 milhões de quilómetros) nem a sua idade (13 mil e 600 milhões de anos, cerca de 100 milhões de anos menos do que o Universo) nem a sua forma (uma espiral com vários braços). Pertence a um grupo local de galáxias, a que pertencem mais de 30 outras galáxias e todas giram em torno do centro do seu próprio grupo. As inúmeras estrelas que a compõem (perto de 400 mil milhões) nascem, giram em torno do centro galáctico e morrem. Uma normal estrela, a meio da sua vida de 10 mil milhões de anos, na ponta de um dos braços (no «Braço de Órion»), a 26 mil anos-luz do centro (245 mil biliões, 973 biliões, 738 mil milhões e 530 milhões de quilómetros) e ao longo de 250 milhões de anos (a 13 mil e 200 quilómetros/hora), executa o seu bailado cósmico de homenagem ao suserano buraco negro do centro galáctico. A galáxia é a Via Láctea, a estrela é o Sol.


Oito planetas giram em redor do Sol (relembro que Plutão foi despromovido, em 2006, pela União Astronómica Internacional (IAU), devido ao seu tamanho, forma e mesmo origem, à categoria de planeta-anão, juntamente com muitos outros corpos astronómicos). O quinto maior planeta, o terceiro, que se formou há 4 mil milhões e 600 milhões de anos, foi palco de vários acontecimentos incríveis ao longo da sua História: quando tinha 67 milhões de anos, um corpo astronómico (conhecido pelo nome genérico de «Planeta Theia»), com o tamanho aproximado de Marte, «tocou» na superfície. Os detritos libertados reuniram-se num anel à volta do planeta. Ao longo de cerca de 6 milhões de anos, os detritos reuniram-se para formar a Lua, o seu único satélite; quando o planeta tinha 600 milhões de anos, surgiram, na sua superfície, moléculas com a capacidade de fazerem cópias de si mesmas. Foi o início da Vida e essas moléculas foram-se multiplicando e diversificando. Hoje em dia, há mais de 14 milhões de espécies de seres vivos no Mundo (embora menos de um quinto tenha sido classificada e recebido um nome), entre seres microscópicos (a vasta maioria), plantas e animais.

Novas evidências mostram que, quando a Terra tinha já 4 mil milhões e 535 milhões de anos de existência surgiu um grupo de mamíferos que viria a dominar o Mundo, os Primatas.
As características que distinguiam (e ainda distinguem) dos restantes mamíferos incluem:
.:. terem cinco dedos em cada membro;
.:. terem unhas em vez de garras;
.:. terem os olhos virados para a frente (visão binocular) e verem a cores;
.:. terem polegares oponíveis;
Esta última característica não é exclusiva dos primatas, os gambás também têm.
À medida que a tectónica das placas afastava os continentes, os Primatas encontraram-se espalhados pelo Mundo, evoluindo muitas vezes de formas diferentes. Encontram-se, hoje em dia, divididos em 2 Subordens, os Estrepessirrínios (do grego «strepho»+«rhis» que significa nariz encurvado) e os Haplorrínios (do grego «haplos»+«rhis» que significa nariz simples).


Desde há 40 milhões de anos, os Haplorrínios encontram-se divididos em 2 Parvordens:
.:. Os Platirrínios (do grego «platos»+«rhis» que significa nariz largo), representados apenas pelos Macacos do Novo Mundo (ou seja, do Continente Americano).
Como o seu nome indica, têm narizes largos com as narinas viradas para fora. Além disso, são geralmente noctívagos e monogâmicos (formam pares para a vida);
O filósofo Platão recebeu o seu nome devido às suas costas largas, «platos» em grego. Tendo em conta que esta é uma característica física que apenas surge na adolescência, a teoria de que devia o seu nome às suas costas largas remete para a hipótese de que se trataria de uma alcunha. Não havendo qualquer evidência de que tivesse outro nome além de Platão, tudo aponta para que fosse apenas um nome de baptismo, sem ligação a características físicas, tal como alguém chamado Filipe (do grego «philos»+«hippos», amigo de cavalos) não o é necessariamente.
.:. Os Catarrínios (do grego «catos»+«rhis» que significa nariz estreito) que inclui três famílias, os Cercopitecídeos (os Macacos do Velho Mundo, ou seja, África, Ásia e Europa), os Hilobatídeos (os Gibões) e os Hominídeos (os Orangotangos, os Gorilas, os Chimpanzés e os Humanos).
Como o nome indica, têm narizes estreitos e as narinas viradas para baixo. Além disso, são geralmente diurnos e não são geralmente monogâmicos. A maioria vive em grupos sociais.

Esta classificação científica é algo que seria absolutamente surpreendente há pouco mais de dois séculos. A simples noção de que o ser humano faz parte de uma vasta família e de que todos os seres vivos estão ligados a um ancestral comum é uma ideia tão incrível que muitas pessoas continuam teimosamente a rejeitá-la. Mas a Teoria da Selecção Natural e da Evolução Biológica já há muito deixaram o campo incerto de meras possibilidades e encontram-se firmemente implantadas nas certezas do conhecimento humano.

Tudo começou na Inglaterra, principiava o século XIX. A 225 quilómetros a noroeste de Londres, na cidade de Shrewsbury, nasceu, em 1809, Charles Darwin.
Este foi um ano pródigo em nascimentos de vulto: Louis Braille, Edgar Allan Poe, Felix Mendelssohn e Abraham Lincoln, entre outros.
Desde pequeno que mostrou interesse em observar o Mundo à sua volta, fazendo colecções de seixos, conchas, moedas, ovos de pássaros, flores e insectos.
Preocupado com a sua natureza contemplativa, o seu pai, Robert Waring Darwin, quando Charles chegou à idade apropriada, inscreveu-o, em 1825, no curso de Medicina na Universidade de Edimburgo, na Escócia, a 360 quilómetros para Norte.
Quando Darwin nasceu, a França Napoleónica estava no seu período de expansão continental e beligerância com o Reino Unido. Em 1807, deu-se a 1ª Invasão Francesa do território português, com a entrada do General francês Junot, sem resistência, pela fronteira portuguesa e entrando em Lisboa a 30 de Novembro desse ano. No dia anterior, a 29 de Novembro de 1807, a Corte Portuguesa tinha partido para o Brasil para fugir às tropas francesas. Foi este o evento que viria a culminar na Independência do Brasil. No exacto ano em que nasceu Darwin em Inglaterra, 1809, começou a 2ª Invasão Francesa, com a entrada pelo Minho e a conquista da cidade do Porto. Poucos meses depois, tropas portuguesas e inglesas libertaram a cidade e expulsaram os franceses de Portugal. Em 1810 deu-se a 3ª e última Invasão Francesa. Após a derrota, os franceses retiraram. A perene recordação dessas invasões foi a ilegal perda de Olivença para os Espanhóis, que nunca a devolveram, apesar de terem de o fazer. Para mais sobre esta perda ver o artigo Olivença amata filia.

Quando Darwin foi estudar Medicina em Edimburgo, em 1825, nascia, em Portugal, o grande escritor Camilo Castelo Branco e, no recém-independente Brasil, nasce D. Pedro II, filho do príncipe Português (e rei de Portugal durante uma semana) D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil, uma vez que foi este príncipe que, permanecendo no território brasileiro quando a coroa portuguesa voltou ao continente europeu, declarou a independência do Brasil, soltando o famoso grito do Ipiranga «Liberdade ou Morte!»).
Foi também em 1825 que morreu Antonio Salieri, o compositor, tornado célebre pelo filme «Amadeus». Neste filme é retratado como uma figura medíocre e invejosa de Mozart, o que não corresponde à verdade biográfica. Também morreu, neste ano, Alexandre I, csar da Rússia, o inimigo russo de Napoleão.

Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de LamarckEnquanto esteve na Universidade, Darwin foi exposto à teoria de Lamarck (de nome Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck), de que os caracteres fisiológicos adquiridos pelos progenitores são passados à descendência (por exemplo, de acordo com o Lamarckismo, se alguém é praticante de culturismo e tem, por isso, bícepes muito desenvolvidos, os seus filhos terão os mesmo músculos, devido ao pai e não a exercício físico). O avô de Darwin, Erasmus Darwin, tinha, nos seus escritos desenvolvido uma teoria semelhante, aprofundado depois por Lamarck. Enquanto isso, as aulas de Medicina iam incomodando o sensível Darwin, uma vez que as lições e as experiências eram conduzidas em seres humanos vivos, numa altura em que a anestesia era inexistente. Numa dada altura, foi conduzida uma operação sobre uma criança. Darwin abandonou a sala de operações a meio, incapaz de suportar os gritos da criança, gritos esses que o perseguiriam durante anos.

Apenas 2 anos após o ingresso na Universidade (em 1927), o pai da Darwin, convencido de que o seu filho não tinha inclinação nem vocação para ser médico (como ele próprio era), retirou-o do curso de Medicina e inscreveu-o num curso de Belas Artes, no Colégio de Cristo, na Universidade de Cambridge. O objectivo era que o filho se tornasse clérigo, vindo a usufruir do bem-estar económico da classe sacerdotal. Mas, para Darwin, o Colégio de Cristo funcionou como umas férias pagas de 3 anos, anos esses, segundo o próprio Darwin, «lamentavelmente desperdiçados a rezar, beber, cantar, namorar e jogar às cartas.»

Charles Darwin em 1831, com 22 anosMas estes 3 anos foram igualmente proveitosos, tendo Darwin travado conhecimento (e amizade) com o professor de Botânica John Stevens Henslow. Foi Henslow que o introduziu a Robert Fitzroy, capitão do navio Beagle. A primeira impressão de Fitzroy em relação a Charles Darwin não foi das melhores.
Na altura, estava na moda a «Frenologia», a pseudo-ciência que defende que a personalidade e o carácter de um indivíduo podem ser avaliados pela forma exterior do crânio. Esta pseudo-ciência foi fundada pelo fisiologista alemão Franz Joseph Gall, na sua obra de 1796 «A Anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso em geral e do Cérebro em particular». Gall defendia que o cérebro é a sede da inteligência e dos sentimentos, que o cérebro é constituído por 27 «órgãos», cada um responsável por um traço de personalidade (o colaborador de Gall, Johann Spurzheim, alargou a lista depois para 37) e ainda que a forma do crânio se adapta às formas dos «órgãos» mentais que se situam abaixo dele. Estudando então a forma e tamanho do crânio, seria possível avaliar a personalidade e a inteligência do indivíduo. Mas a Frenologia desde a sua origem foi construída como uma pseudo-ciência: em vez de se recolher dados e sobre eles formular uma teoria, foi construída deturpando alguns dados e inventando outros, de modo a que se encaixassem na teoria. Mas, tal como a pseudo-ciência Astrologia foi a origem da ciência Astronomia ou que a pseudo-ciência Alquimia deu origem à ciência Química, a Frenologia veio a dar origem à ciência Neurologia. Mas, pela primeira vez no mundo moderno, o cérebro foi identificado como a sede da mente...
Fitzroy olhou para o jovem Darwin, de 22 anos, e achou, pela forma do seu nariz, que este não tinha nem a mentalidade nem a energia necessárias para se ser um bom cientista. Acabou por aceitar o jovem a bordo, tendo em perspectiva as conversas científicas que poderia ter com o jovem, ao longo dos inúmeros jantares que uma missão de 5 anos (o Beagle deixou a Inglaterra em 1831 e voltou em 1836).

Durante os anos que esteve nos mares da América do Sul, Darwin teve o privilégio de apreciar vários exemplos dos mistérios da vida. Com a precisão de um cientista e a imaginação de um poeta (pois todo o cientista é um poeta que canta a natividade do pensamento humano no Mundo), reuniu, observou e classificou seres e objectos com que ia entrando em contacto, procurando reuni-los numa teoria coerente e explicativa. Também, nesta viagem, a sua índole humanista foi-se manifestando, como no dia em que viu, na costa brasileira, uma escrava idosa e um grupo de escravos fugitivos que, em vez de se deixar capturar pelos seus perseguidores, preferiram atirar-se de um penhasco. O comentário de Darwin foi «Se fosse uma matrona romana, seria considerado um exemplo de nobre amor à liberdade. Numa escrava, será visto como selvagem obstinação.»
Durante toda a vida foi um fervoroso oponente da escravatura em qualquer das suas formas. Foi este o espírito que partilhou com o seu contemporâneo americano Lincoln...

Com os dados que recolheu na viagem do Beagle, Darwin pode formular, a sua Teoria de Evolução. Em 1859, com 50 anos, publicou o seu livro «Sobre a Origem das Espécies pela Selecção Natural», na qual se explica a multiplicação da diversidade dos seres vivos. O aumento do número de seres é superior ao aumento da provisão dos alimentos (uma população animal cresce exponencialmente e os alimentos crescem linearmente). Resulta daí uma concorrência entre todos os seres vivos para os alimentos e o espaço disponíveis. Os mais bem adaptados ao meio conseguem sobreviver e deixar mais descendentes e os outros estão condenados a desaparecer (ou os seus descendentes menos adaptados). De cada vez que o ambiente muda, de cada vez que as circunstâncias são diferentes, os seres vivos mais adaptados podem tornar-se os menos adaptados e a diversidade da vida vai crescendo por sucessivas adaptações ao meio e a sua transmissão aos descendentes. Mas Darwin teve o cuidado de deixar de fora a espécie humana nesse primeiro livro, antecipando sérias controvérsias com a sociedade da altura.

Foi apenas em 1871, quando publicou o seu livro «A Ascendência do Homem», que Darwin abordou o sensível tema das semelhanças anatómicas e comportamentais do ser humano e dos grandes símios (chimpanzés, gorilas e orangotangos). Nele, mais uma vez reunindo provas factuais, mostrou que a diferença entre o ser humano e os (na altura?) intitulados «animais inferiores» são uns curtos passos. Desde que foi publicado, o livro foi alvo de diversos ataques, tanto honestos como difamatórios. A ideia de que «o Homem descende do Macaco» nunca foi defendida por Darwin. Na verdade, e tendo em conta as inúmeras semelhanças, são na verdade primos genéticos do Homem, descendentes de um ser que antecedeu ambos.

Esta ideia enferma ainda de uma outra concepção profundamente errada, e a que a Língua Portuguesa (na sua vertente popular) tem dado alento e sustento.
Como explicado em cima, a vasta família directa do Ser Humano é a ordem biológica «Primatas» (do latim «primas» que significa excelente, nobre, o primeiro), devido à sua semelhança com os seres humanos. Dentro da ordem primata há duas subordens, os «Estrepessirrínios» (chamados também prossímios) e os Haplorrínios, que incluem os Társios e os Símios. Ora, é dentro desta última (a infraordem dos Símios) que estão incluídos os macacos, os gibões e os símios superiores.

São três infraordens bem diferentes, cada uma com as suas características e descendem todos de um mesmo primata (que não era obviamente um macaco, que surgiram depois).
Há 58 milhões de anos, os Haplorrínios dividiram-se em 2 ramos, os Társios e os Símios. Há 40 milhões de anos, os Símios do continente americano separaram-se dos Símios dos continentes europeu, africano e asiático. Há 25 milhões de anos, separaram-se os grandes símios dos restantes símios.

Daqui decorrem as quatro divisões dos primatas do Mundo actualmente existentes:
prossímios (como os lémures de Madagáscar), os társios, os macacos (do Novo e do Velho Mundo), os gibões e os grandes símios. Os seres humanos fazem parte destes últimos, juntamente com os chimpanzés, gorilas e orangotangos.
Durante muito tempo, na Escola, aprendeu-se, nas aulas de História, lições sobre os Hominídeos. Estes eram vistos como o conjunto dos antepassados já extintos do Ser Humano (Australopitecus, Parantopos e Homos). Mas, desde meados do século XX, esta categorização foi revista. Neste momento, os Hominídeos incluem todos os Grandes Símios (Humanos e os seus antepassados, Chimpanzés, Gorilas e Orangotangos).
Uma característica visual permite distinguir os Hominídeos (os grandes símios) dos restantes primatas (apesar de não ser absolutamente correcta em termos científicos, á um bom auxiliar contudo): a ausência de cauda. A maioria dos primatas possui caudas, algumas maiores outras pequenas. Geralmente só os hominídeos (os grandes símios, como nós) não têm cauda, possuindo o Osso do Cóccix, no fundo da coluna vertebral.



Ou seja, longe de sermos descendentes dos macacos somos seus primos. É já muito conhecida a semelhança genética entre os Seres Humanos e os Chimpanzés (até há pouco tempo calculada em 98,5% mas actualmente revista em 95%) remete mais para uma relação de irmãos do que para uma relação entre primos. Aliás, de entre todos os grandes símios, não há nenhum mais próximo dos chimpanzés do que os humanos. Formamos uma tribo aparte (no sentido biológico do termo), os Homininos. Os demais grandes símios pertencem a tribos diferentes.

Por estas razões, e tendo em conta a absoluta recusa de qualquer forma de violência para com seres humanos, só posso se não execrar coisas como A Aldeia dos Macacos (note-se a violência de colocar seres inteligentes entre quatro paredes, sem terem cometido qualquer crime, a par da incorrecção científica da designação, uma vez que a «Aldeia» inclui os nossos irmãos genéticos Chimpanzés).
Há ainda incorrectas traduções do inglês «ape» (que se refere à superfamília Hominoidea, que inclui Gibões, Orangotangos, Gorilas, Chimpanzés e Humanos) para «macaco», que pertencem a famílias diferentes e incluem os Macacos do Novo Mundo e os Macacos do Velho Mundo. O filme «Planet of the Apes» não podia ter pior tradução do que «Planeta dos Macacos». É aqui que a Língua Portuguesa falha, ao nível popular. Não há termo adequado, na linguagem popular, que corresponda a «ape». Mas qualquer coisa menos «macaco»...

Neste pequeno planeta, girando à volta de um normal sol, de uma normal galáxia, recusamos estender a mão a quem nos é mais próximo, tanto outras pessoas como os nossos irmãos e primos genéticos. Somos ainda uma espécie infantil, que surgiu há apenas 150 mil anos, comparados com os 4 milhões de anos que a Vida tem neste planeta. E o ritmo a que destruímos o nosso quarto de dormir e atiramos papa para o chão é assustador.

Tantas violências familiares e linguísticas são de pôr os cabelos em pé a qualquer um...
Cria de Macaco Careca (Macaca arctoides)

E como pode alguém honesta e imparcialmente olhar para os bebés dos quatro grandes símios e não ver quão próximos todos somos?! Como muitas vezes acontece, a verdade vem das crianças...
Bebé ChimpanzéBebé Orangotango
Bebé Gorila

No título «Primeiros entre os primeiros»


Publicado por Mauro Maia às 15:14
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Domingo, 7 de Janeiro de 2007
O Príncipe e a roda
Era uma vez um menino que vivia num reino muito distante e que era filho do rei e de uma mulher de condição humilde. Desde pequeno, o menino mostrou ser muito dotado e inteligente, destacando-se dos outros príncipes nos estudos, mesmo do seu irmão mais velho, o futuro rei. Um dia, já crescido, o principezinho foi enviado para acabar com uma revolta na província de que era governador o seu irmão mais velho. Assim que, na província, se soube que ele vinha, foi acolhido por todos e a revolta acabou sem luta. O príncipe mais velho ficou furioso e convenceu o pai a exilar o príncipezinho-já-crescido. Durante dois anos viveu longe da sua casa e de tudo o que gostava até que novamente houve uma revolta no reino do seu pai e ele pediu-lhe que voltasse. O príncipe foi ferido na batalha que se seguiu mas a revolta foi extinguida. Um ano depois o rei adoeceu e morreu e, como todos o admiravam e respeitavam, queriam que fosse ele o novo rei, apesar de não ser o irmão mais velho. Mas este não era o desejo do pai e todos os seus meio-irmãos fizeram os possíveis para que subisse ao trono o príncipe mais velho. Num momento de fraqueza e revolta, o príncipe atacou a cidade onde viviam os seus irmãos, matou-os a todos e tornou-se rei. Arrependeu-se muito deste momento de fraqueza e, depois de subir ao trono, mandou colocar, por todo o reino, colunas de pedra a louvar os seus irmãos. Entretanto, sem se aperceber, o seu acto maligno dominou-lhe o coração e, durante oito anos, fez guerras atrás de guerras, alargando o seu reino. Um dia quis conquistar um reino independente vizinho. Mas a guerra não foi fácil e o príncipe-agora-mau decidiu enviar todas as suas tropas para a batalha. Milhares de pessoas morreram e o reino foi finalmente vencido e destruído. Após a vitória, o príncipe foi dar uma volta pela capital do reino que vencera e, ao passar pelas casas queimadas e pelas pessoas em sofrimento e mortas, o príncipe-até-então-mau apercebeu-se da enorme maldade que tinha governado o seu coração e gritou, de desespero, «O que é que eu fiz?!». Voltou a casa vitorioso mas com o coração pesaroso, porque se tinha apercebido do enorme sofrimento que tinha causado. Era um rei poderoso mas, perante o que tinha feito e visto, jurou nunca mais fazer guerras. Por isso libertou todos os prisoneiros que tinha feito e devolveu-lhes as suas terras. O menino-cruel tornou-se no menino-piedoso e devotou o resto da sua vida a melhorar a vida dos seus súbditos e a fazer as leis mais justas que o Mundo alguma vez conheceu. Ainda hoje o seu antigo reino reino tem, na sua bandeira, o símbolo do menino que se arrependeu do sofrimento que causou e se tornou no melhor de todos os reis.

Esta quase podia ser uma história de encantar, na qual o bem triunfa e a maldade é vencida. Mas a verdade é que esta história faz mesmo parte da História.

O príncipe chamava-se Açoka (ou Asoka ou Ashoka) e o seu reino é a actual Índia.
Viveu 72 anos (304AC–232AC) e tornou-se rei do Império Máuria com 31 anos (273AC). Este império ocupava um pouco mais do que a área da actual Índia e foi fundado em 352AC por Chandragupta Maurya, avô de Açoka e dissolveu-se em 185AC, apenas 47 anos após a sua morte. Tinha como capital a cidade de Pataliputra (actualmente a cidade indiana de Patna), uma das mais antigas cidades do mundo continuamente habitadas, referida pelo historiador grego Megasthenes como tendo 14,5 quilómetros de comprimento e 3 quilómetros de largura.

Açoka é o único dos reis registados pela História que, apesar de militarmente vitorioso, renunciou à guerra. Começou o seu reinado com morte e destruição e acabou-o com sabedoria e clemência, convertido ao budismo.
Quando o Império Máuria começou era um pequeno reino, na costa ocidental da península indiana. Chandragupta, avô de Açoka, e o seu pai Bindusara (que mereceu o simpático epíteto de Amitraghatta «Carniceiro dos seus inimigos») extenderam os seus domínios para além do seu pequeno reino e Açoka (que significa, em sânscrito «o que não tem remorsos») alargou-o até à maior das suas extensões.

Enquanto vivia na actual Índia, sucediam-se muitos eventos importantes na Europa, que fazem parte do período clássico da civilização ocidental.
Quando Açoka tinha 15 anos (288AC), subiu, ao trono de Épiro (na Grécia), Pirro, primo de Alexandre Magno, e que foi o primeiro comandante a levar elefantes de guerra para a península itálica (foi baseado em Pirro que Aníbal, em 218AC, na 2ª Guerra Púnica, levou elefantes de guerra e atravessou os Alpes para atacar Roma).
Para mais sobre Pirro ver Kara victoria.
Quando Açoka tinha 18 anos (285AC) foi construído o Colosso de Rodes (na ilha grega com o mesmo nome) e os Romanos unificavam a península itálica, a caminho do seu vasto império.
Um ano após subir ao trono do Império Máuria (em 272AC), após matar o seu irmão Vitthashoka e todos os seus meio-irmãos (incluindo o príncipe mais velho Susima</b>, o seu mais directo rival) Pirro abandona finalmente a Itália, incapaz de prosseguir a luta contra as tropas romanas e após ter vivido a sua famosa «Vitória de Pirro».
Quando morreu, em 232AC, os romanos tinham já unificado a península itálica, a 1ª Guerra Púnica tinha já terminado, há 9 anos (241AC), a 2ª Guerra Púnica só aconteceria passados 14 anos (218AC). Roma ainda era apenas uma potência regional, ocupando a península itálica e tendo Cartago (que significa «Cidade nova» em língua fenícia) como grande rival.

Foi então, nesta época clássica, quando o vasto Império de Alexandre Magno se encontrava dividido e os Romanos começavam a sua ascenção como a maior potência da civilização ocidental, que Açoka viveu e se tornou o exemplo maior de governante justo e leal, após uma década de violência e mortes.
A sua cidade natal, Pataliputra, capital do Império Máuria, era afamada na Ásia e na Europa e o seu império estendia-se pelo sul da cordilheira dos Himalaias, abarcando o actual Paquistão, o Irão e grande parte do Afeganistão (incluindo a cidade de Kandahar, fundada por Alexandre Magno como «Adrianópolis»).

A civilização helénica, trazida para a região pelas conquistas de Alexandre, era vista como a mais culta do mundo e Bindusara, pai de Açoka, escreveu a Antíoco, rei da Síria, a pedir que lhe enviasse, no próximo carregamento de figos e vinho, um professor grego para os seus filhos (tal como Alexandre tinha tido um tutor grego), mas a lei grega não permitia a venda de professores a estrangeiros. Teve por isso Bindusar de dar uma educação estrictamente hindu aos seus filhos, Açoka incluído.
O príncipe sempre se destacou nos estudos e nas lides militares e, ao chegar à idade adulta, comandava já vários regimentos do exército de 1 milhão de homens do reino. Os seus irmãos viam a ascenção militar de Açoka com preocupação e Susima</b>, o seu irmão mais velho e governador da província de Sind (no sul do actual Paquistão), convenceu o rei a ordenar a Açoka e aos seus regimentos que debelassem a revolta que se fazia sentir na província. Os habitantes de Sind estavam descontentes com a governação de Susima</b> e acolheram Açoka em festa e a revolta terminou imediatamente. Invejosos do sucesso de Açoka, os príncipes conseguiram que fosse exilado durante dois anos. Foi depois chamado, pelo pai, para acabar com uma revolta no centro do reino. Açoka acabou com a revolta com o seu exército e foi ferido na luta. Enquanto estava ferido foi tratado monges budistas, que primeiro lhe falaram no Budismo. Um ano depois de se recuperar, o seu pai adoeceu. Açoka foi então chamado pelos ministros do seu pai para subir ao trono, apesar do herdeiro natural ser Susima</b>, o irmão mais velho. Este atacou a cidade de Pataliputra para estabelecer o seu poder mas foi derrotado por Açoka, que o matou ainda antes de chegar à cidade. Após a derrota de Susima</b> mandou matar os seus irmãos, que se tinham juntado à causa do príncipe mais velho. Livre de outros pretendentes ao trono, Açoka tornou-se o incontestável Imperador máurio em 273AC, com 31 anos. Durante 8 anos expandiu o seu reino através de constantes guerras com os reinos vizinhos, que ia vencendo e anexando. Após dar por finalizada a expansão para oeste, Açoka virou-se para o sul do seu reino, para o independente reino de Kalinga, situado na costa oriental indiana. Em 261AC inicou uma guerra com este reino, visando anexá-lo ao seu já vasto império. Mas os habitantes de Kalinga prezavam a sua independência e a liberdade que gozavam no seu reino e opuseram-se ferozmente às tropas de Açoka. Após várias lutas, as suas tropas mataram 100 mil homens, aprisionaram 200 mil e ficaram sem casa e sem meios de subsistência 1 milhão de pessoas. Foi a maior vitória militar de Açoka e foi também a sua última, havendo ainda territórios no sul da península que eram independentes do Imperador. Mas Açoka, perante o terrível custo humanitário desta guerra, perante todas as mortes e destruição que trouxe, em vez de se alegrar pela sua vitória foi inundado pela «tristeza da saciedade». Perante tanta violência, os ensinamentos budistas que lhe tinham transmitido os monges que tinham cuidado dele afloraram e Açoka arrependeu-se vigorosamente das suas acções. Renunciou a futuras guerras e conquistas militares e Açoka, o feroz guerreiro, converteu-se ao evangelho budista da paz, numa estranha conversão religiosa, em que o conquistador se torna conquistado. Talvez as semelhanças entre a juventude de Açoka e a juventude de Buda tenha contribuído para a sua conversão...

O Chacra de AçokaO Chacra de Açoka é um antigo símbolo indiano do «Dharmachakra», A Roda da Vida e da Ordem Cósmica, do sânscrito «Chakra» -roda e «Dharma» -ordem cósmica. Tem 24 raios, cada um simbolizando um princípio espiritual diferente. O Chacra de Açoka surge inscrito em muitas obras de pedra deixadas por Açoka ao longo do seu reino. Em 1947 foi colocado na bandeira da República da Índia como homenagem a Açoka.
Curiosamente, a mãe de Açoka chamava-se Dharma...


O nome original de Buda era Siddhartha Gautama e nasceu no século 5AC ou 6AC em Lumbini, uma região do sul do Nepal, entre este e a Índia, filho de Suddhodana, chefe de uma tribo do Nepal, e da sua esposa, a princesa Maya. Teve uma vida luxuosa e casou com 16 anos, com uma prima da mesma idade, de quem teve um filho. Até aos 29 anos a sua vida foi rodeada de festas e opulência, sendo cuidadosamente afastado das misérias do Mundo.
Mas, com 29 anos, saiu do seu palácio para dar um passeio a sós. Viu então um idoso estropiado. Esta visão perturbou-o, fazendo-o pensar que envelhecer era o destino de todos os Homens. Em outros passeios que efectuou encontrou pessoas doentes, encontrou um cadáver em decomposição e um sábio asceta. Perturbado por estas 4 visões, decidiu abandonar o seu palácio e todas as suas riquezas para viver como um monge errante.

Dirigiu-se então à região de Magadha (que viria, séculos depois, a ser a base do Império Máuria e onde nasceria Açoka) para aprender a descartar os confortos da vida e a praticar uma vida de ascetismo («asceta» vem do grego «askesis» que significa «prática, treino, exercício» e veio depois a significar todo aquele que renuncia aos prazeres mundanos para atingir objectivos mais elevados espirituais). Mas esta vida não lhe deu as respostas que procurava. Sentou-se então debaixo de uma figueira e jurou só sair quando alcançasse o entendimento. Aos 35 anos encontrou finalmente as respostas que procurava e tornou-se «Buda» (que significa «o Iluminado», da raíz sanscrita «budd» - despertar).
Curiosamente, há uma lenda que afirma que Buda previu que, 200 anos depois do seu nascimento, nasceria um rapaz, chamado Açoka, que seria uma encarnação sua...

Chegou então à conclusão que o sofrimento humano era originado pela ignorância e visualizou os passos necessários para acabar com o sofrimento. As suas conclusões reuniram-se nas «4 Nobres Verdades»: 1- a vida é feita de sofrimento; 2- a fonte do sofrimento é o desejo e a insatisfação; 3- para parar com o sofrimento há que deixar para trás o desejo e a insatisfação; 4- o caminho para parar o sofrimento é a visão correcta, a intenção correcta, o discurso correcto, a acção correcta, o viver correcto, o esforço correcto, a mentalidade correcta e a concentração correcta.
Para Buda também, a alma existe e passa por várias migrações, a caminho da iluminação, a caminho de se tornar Buda e cada vida equivale a uma nota que soa numa sala aberta e faz vibrar, em uníssono, outros instrumentos semelhantes, ao longo dos corredores do tempo, até que a nota é por fim absorvida na harmonia universal. Cada vida tem consequências importantes no Mundo e cada ser humano é parte fundamental da Humanidade. Tudo é importante, na visão budista, do mais pequeno passarinho ao maior dos elefantes.

Édito de Açoka na região do antigo rino de KalingaAçoka abraçou de corpo e alma a doutrina de Buda. Ao contrário deste, não abandonou a sua vida real, mas usou-a para aliviar o fardo do seu povo. Promulgou, por isso, um novo código de leis, que mandou gravar em colunas de pedra por todo o Império. Eram catorze os princípios estabelecidos por Açoka:
1- Toda a vida é sagrada. Não haveria mais guerras ou sacrifícios de animais, ou morte de animais para consumo.
2- É dever de todos zelar pelo bem-estar de todos os seres vivos. Por todo o Império foram abertos poços para matar a sede, árvores foram plantadas para aliviar o calor, ervas medicinais foram plantadas para aliviar o sofrimento.
3- Todos devem praticar obediência aos pais, liberalidade com os amigos, respeitar os seus professores e fazer negócios honestos.
4- A bondade é para pregar e praticar.
5- Devem ser seguidos os trilhos difíceis da boa acção em vez dos trilhos fáceis da má acção. Para isso, foram nomeados funcionários para ensinar, por todo o império, os princípios da Justiça.
6- Deve-se ser diligente, especialmente para promover o bem-estar dos outros. Como exemplo, Açoka declarou-se sempre disponível para ouvir uma queixa ou reparar uma injustiça.
7- A benevolência deve ser seguida por todos. O excesso de um é propriedade de outro.
8- Deve-se espalhar a religião, para alimentar o espírito como se alimenta o corpo com comida.
9- Devem ser abandonadas as ocupações frívolas, para procurar leis mais benignas para o estrangeiro e um tratamento mais justo para o escravo.
10- Deve-se obedecer à lei do estado, quando for boa e pedir ao rei que a mude, quando for má.
11- Todos os seres vivos devem ser respeitados.
12- Deve-se praticar a tolerância. Tratar com respeito os crentes de outras fés é exaltar a própria religião e é ofendê-la persegui-los.
13- Todos devem vencer o seu próprio ódio, é essa a maior das vitórias.
14- A repetição destas ideias é criar as raízes da «doce suavidade da Clemência».

Foi esta a Bíblia de granito que Açoka deu ao seu povo e que ainda hoje pode ser encontrada espalhada por toda a Índia. O «cruel Açoka» (Chandashoka) do início do seu reinado tornou-se o «piedoso Açoka» (Dharmashoka). E estes éditos de Açoka, gravados em pedra por toda a Índia, tornaram-se a pedra fundamental de toda a vida indiana. Não é de espantar que a figura de Gandi se possa rever tão cabalmente nas leis de Açoka.
Mesmo após 25 séculos, as suas leis tornaram-se de tal forma parte da mentalidade indiana que hoje é quase impossível dissociar as leis de Açoka do espírito indiano. Gandi teve uma óptima base de partida para a sua independência-não-violenta.

O mundo actual, em especial a sociedade ocidental, vive com a a noção de que a evolução das sociedades é linear e de que não há época mais evoluída da História humana do que aquela que agora se vive. Mas qualquer político moderno coraria de vergonha ao ler os éditos de Açoka e ao ponderar sobre a sua História. E neles se encontram também princípios que qualquer um pode empregar para ser um pequeno Buda na sua própria vida, independentemente das suas convicções religiosas (ou de as ter sequer).
Não é difícil ponderar quanto o budismo, através dos éditos imperiais de Açoka, terá contribuído para a coluna dos valores morais das grandes religiões monoteístas nascidas muito perto, de onde um dia um menino se tornou um rei bom e justo.
Há uma teoria que defende que, na História de Jesus Cristo, o período por relatar da sua infância terá sido passado na Índia, onde terá aprendido os valores do Budismo, e que ainda lá se encontrará enterrado, na sepultura de um homem santo, ainda hoje venerado na Índia, de nome Yuz Azaf, como já relatado no artigo Ao contrário da crença popular (Yuz Azaf)...</i>
Se algum desejo tivesse para o ano de 2007, era que Açoka pudesse novamente inspirar o Mundo e que as suas leis fossem gravadas no coração de todos, tal como o foram na pedra há 25 séculos...

Bandeira da Índia


Publicado por Mauro Maia às 10:58
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