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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
Se em Roma, sê Egipciano
Ciro Ganoma vivia tranquilo na sua aldeia. Um dia, subitamente, ameaçaram a sua vida e a da sua família. Não teve outro remédio se não partir. Pelas aldeias vizinhas por onde a sua família ia passando, todos olhavam com desconfiança. A sua família foi aumentado, à medida que Ciro Ganoma se deslocava, ficando filhos, netos, sobrinhos, afilhados, ... nas diversas terras por onde iam passando. Mas o estigma estava presente, onde quer que tentassem reconstruir o seu lar e viver como queriam. E o mito propagou-se por si mesmo, baseado em desconfiança em quem não se conhece. Após vários anos, só o mar se estendia à sua frente e, para trás, ficaram muitos membros da família, sempre mal recebidos onde procuravam refúgio. Não lhes bastava terem sido obrigados a deixar o seu lar e a deixar para trás tudo o que tinham, eram e continuavam sempre a ser mal-vindos. Mesmo após 58 anos de estadia (700 meses), ainda eram vistos com desconfiança pelos seus vizinhos, fossem crianças de colo, jovens, adultos, idosos, homens ou mulheres.

Este história parecerá estranha, num mundo de refugiados e preocupações humanitárias:
Como pode uma família ser tão pouco ou nada socorrida e ajudada perante tudo pelo qual passaram? Poderá parecer estranho mas acontece diariamente neste pequeno jardim à beira mar plantado que se chama Portugal. Um dos povos mais antigos com os quais os Portugueses contactaram e com os quais convivem é ainda mal compreendido, rejeitado, alvo de desconfianças e de má-vontades. Acha-se tão natural essa forma de estar que nem se pensa muito nisso, a catalogação e a subvalorização são já tão naturais que saem espontaneamente. A demonstração de que muito paciente tem sido este povo é que todos se alarmam quando algo se noticia sobre eles. Isto só demonstra quão pouco frequentes são as suas acções negativas (que também as têm, ou não fossem membros da espécie humana).

Quando chegaram a Portugal, corria o século XV (cerca de 1425), já lá vão 700 anos. Esta é a História do povo Cigano, a etnia não originária de Portugal mais antiga que cá vive. E a sua história, costumes, crenças, dificuldades, sonhos e esperanças continuam a ser mal-compreendidos, ostracizados, as suas diferenças incompreendidas e desrespeitadas. Como povo, tem-se revelado, ao longo da sua história, resistentes, sobreviventes e orgulhosos das suas tradições e costumes (apesar das perseguições sistemáticas ao longo da sua história e à perda da sua cultura e língua por aculturação aos países onde se foram instalando).

O povo a que se chama Cigano em Portugal e Brasil (e Gitano em Espanha) pertence a uma etnia mais vasta, denominada Rom (substantivo singular) ou Roma (substantivo plural) ou Romani (adjectivo).
Dessa etnia fazem parte ainda os Garachi (Azerbaijão), Kalderach (Balcãs e Europa Central), Romnichal (Grã-Bretanha e América do Norte) e os Sinti (Alemanha, Áustria e Itália).

Do povo cigano fazem parte algumas individualidades que se têm destacado no Mundo (e em particular em Portugal, que é o tema do artigo). Alguns dos mais conhecidos incluem o grupo musical Gipsy Kings (banda musical de França), Joaquin Cortés (dançarino de Espanha) ou Ricardo Quaresma (futebolista de Portugal), só para mencionar alguns dos membros da etnia cigana dos Roma da península. Na ficção, quem pode esquecer Esmeralda, a amada de Quasímodo?

Nos países europeus, eis as últimas estatísticas disponíveis:
incluí também o Brasil

Por análise da tabela, pode-se ver que o Reino Unido (1 cigano em 1 mil 496 habitantes) tem uma proporção muito baixa de ciganos (há os romanchi, mas fala-se de ciganos), e a Roménia e a Bulgária as mais altas (1 cigano em cada 15 e em cada 13 habitantes, respectivamente). Portugal e Brasil têm sensivelmente a mesma percentagem da etnia cigana na sua população: Portugal tem, em números absolutos menos ciganos e menos população e os dois números equilibram-se.

Apesar da semelhança, o povo Roma não emprestou o seu nome ao país Roménia (que deriva o seu nome directamente dos Romanos e o seu império). Há uma razão concreta para que os Roma (Rom no singular) existentes na península ibérica sejam chamados Ciganos, e tem a ver com a sua origem, viagens e o julgamento apressado de que sempre foram alvo.

De onde é o povo Roma originário (que depois deu origem às etnias actuais) é uma matéria ainda especulativa, tendo em conta que é um povo desconfiado após séculos de perseguição e desconfiança. Que, antes de chegar à Europa, veio da Índia é consensual, se foi de lá que primeiro vieram se foi mais um dos seus locais de passagem ainda é matéria de discórdia, sendo que a opinião mais generalizada é que são oriundos da Índia mesmo.

A análise da língua romani (realizada desde o século XV) indica que serão originários do Paquistão (antiga parte norte da Índia maioritariamente de religião muçulmana que se tornou independente em 1952).
Para mais sobre os meçulmanos ou sobre os povos que conviveram com os Roma ver:
~ Os Magos dos Medos que fala sobre um povo da Pérsia, os Medos, e os Reis Magos;
~ Um século sobre as possíveis razões dos atentados suicidas muçulmanos;
~ Míngua sobre a origem do símbolo do Quarto Crescente;

Esse território, tradicionalmente budista, foi conquistado, em 712 DC, pelo general muçulmano Muhammad bin Qasim, tendo a religião islâmica aí se propagado. O povo Roma eram habitantes dessa região e acabaram por fugir, por volta do século XI (especula-se que tenham sido levados, como escravos, pelos invasores muçulmanos, para a Pérsia, actual Médio Oriente). No século XIV surge a primeira referência escrita a um povo de tez escura (chamados «Atsingani») que vivia na ilha de Creta. Em 1360 há o registo da criação de um importante reino Romani na ilha de Corfú (entre a Grécia e a Itália). No século XIV, os Roma alcançaram os Balcãs, em 1424 a Alemanha.
Alguns Roma vieram directamente da Pérsia, pelo Norte de África e entraram na Península Ibérica no século XV e tornaram-se os Ciganos que todos conhecem.

Quando os Roma alcançaram a Europa através da Península Ibérica, o seu anterior estatuto de aliados comerciais mudou radicalmente. Por exemplo, durante 5 séculos (até 1864), os Roma foram escravizados nos principados de Valáquia, Moldávia e Transilvânia, até os três terem sido fundidos na actual Roménia, em 1860. Na península ibérica foram, desde a sua chegada, no século XV, encarados com desconfiança e o nome «cigano» tinha conotações negativas. a primeira legislação anti-cigana ibérica data de 1492, o mesmo ano em que Colombo chegou à América e Granada foi finalmente conquistada as Mouros.
Ver Ceuta et ignotus tractatus sobre porque a chegada de Colombo à América acarretaria a perda portuguesa das Canárias.

Aquando da chegada à península e tendo em conta a sua tez morena e o facto de virem do nordeste da África, levou a que as pessoas pensassem que vinham do Egipto, pelo que eram designados por Egipcianos. O nome «egipciano» foi mudando a par da evolução das línguas, dando origem ao gitano espanhol, ao cigano português, ao Tsiganes francês e ao gipsy inglês, nomes pelos quais este povo Roma é ainda designado nesses países.

Na Rússia, Catarina a Grande (1729-1796), tinha declarado os Roma escravos imperiais e, no Sacro Império Germânico (que inclui a actual Alemanha, Áustria e Europa de Leste) os Roma foram simlplesmente banidos. Ambas estas atitudes descriminatórias viriam a dar origem à perseguição, no século XX, do povo romani pelos Soviéticos e pelos Nazis (por exemplo, os Roma residentes nos países conquistados pelo exército nazi foram perseguidos, enviados para campos de concentração e assassinados em grande escala, num total de mais de 500 mil. Os Roma foram o segundo povo que mais sofreu às mãos nazis, depois dos Judeus. Após a II.ª Guerra Mundial, as tradições culturas romani foram proibidas nos países ocupados pelos soviéticos e os Roma foram perseguidos).

Entretanto, os Roma sobreviveram e prosperaram (estima-se uma taxa de natalidade de 5% entre os Ciganos). Ao contrário da etnia Kalderach, da Europa de Leste, os Ciganos não são nómadas, não são tão pobres e a maioria (pelo menos em Portugal) dedica-se à venda em feiras. Apesar disso, cerca 25% das reclusas em Espanha (e uma percentagem de que não tenho números em Portugal) são de etnia cigana, principalmente devido ao tráfico de droga...


A bandeira internacional do povo Romani.
No centro o Chacra de Açoka, como na da Índia.

Para mais sobre Açoka e porque o seu símbolo figura na bandeira indiana ver
O Príncipe e a roda

A influência cultural dos Ciganos na cultura ibérica é geralmente desconhecida e/ou desvalorizada:
~ A mais conhecida é a dança da Andaluzia chamada «Flamengo». Esta é uma dança com raízes nos Roma Ciganos que viviam nesse reino (na altura mouro) e o seu nome vem da frase «fellah mengu» que significa «camponês sem terra», o que caracterizava o povo cigano da altura.
~ Uma outra influência, desta vez na linguagem popular portuguesa, tem a ver com a palavra «gajo». O povo cigano adaptou a religião católica existente e fala a língua do país que habita, com algumas palavras do Romani. Assim, designam-se a si mesmos como «Rom» ou «Calé» (cigano) e a quem não é como «Gaje» (não-cigano). Portanto, o generalizado uso de «gajo/gaja» no vocabulário popular português vem desses nossos antiquíssimos vizinhos.
E isto para falar de algumas influências mais directas, uma vez que serviram de inspiração a muitos artistas europeus, de pintores a músicos a escritores...


Estão a ver o Aladino? Estão a ver as histórias das Mil e uma Noites?
São persas e foi da Pérsia que o Ciganos saíram para nos vir visitar.
Um pouco como os 3 Reis Magos, que também de lá vieram.
Quem se encanta ou encantou com os maravilhosos contos dessas terras distantes, saiba que é de lá que vieram os «nossos» Roma, os Ciganos!

Como se diria em Rom:
Gadje si Dilo
Os gajos são estúpidos!

Para um interesssante estudo social dos Ciganos em Portugal ver a página
Janus 2001 - A etnia cigana em Portugal

Para se ter uma ideia da complexidade da língua Romani, eis a palavra phral que significa «irmão», nos 8 casos das suas declinações:
> nominativo: phrala (irmãos)
> genitivo: phralengo (dos irmãos)
> dativo: phralenge (para os irmãos)
> acusativo: phralem (os irmãos)
> vocativo: phralale (irmãos!)
> ablativo: phralendar (dos irmãos)
> locativo: phraleste (para os irmãos)
> instrumental: phralentsa (com os irmãos)

Por comparação, uma língua tão complexa como o Latim tem meramente 6 casos...


Publicado por Mauro Maia às 14:11
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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007
Cavaleiro de Trapp'o
Uma jovem professora de 21 anos vivia num convento, preparando-se para ser freira. Entretanto residia perto do convento um militar, com 46 anos, viúvo havia 4 anos e com 7 filhos. Uma das filhas do militar adoeceu e não podia ir à escola. O pai então dirigiu-se ao convento local para contratar uma professora que desse à filha as aulas que estava a perder. A jovem professora foi escolhida e contratada por um período de 10 meses, após os quais integraria o convento. Mas acabou por casar com o militar, 25 anos mais velho, com quem viria a ter 3 filhos, e não mais voltou ao convento. A família eventualmente acabou por dedicar a sua vida familiar a cantar, bem longe da sua terra natal.

Eis uma história que será, em termos gerais, reconhecida pela maioria das pessoas.
A História da família foi posta em livro e deu origem a um dos filmes que a maioria das pessoas já viu, gostou ou não gostou mas não ficou indiferente: Música no coração (Portugal) ou A noviça rebelde (Brasil).



O filme foi baseado na verdadeira História da família von Trapp, originária da Europa Central e que emigrou para os EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

A História dos von Trapp começa com Georg Ludwig Trapp, nascido em 1880, na cidade de Zadar, no Império Áustro-Húngaro (agora cidade da Croácia). Quando Georg Trapp nasceu, o Império Áustro-Húngaro (de 1804 até 1867 apenas Império Austríaco e, de 1867 até 1918, Império Áustro-Húngaro), com os seus 676 mil e 615 km2 governava onze povos diferentes (e outras tantas línguas diferentes) num total de perto de 51 milhões de pessoas.

Quando Georg Trapp nasceu, o Império Austríaco tinha já mudado de nome para Império Áustro-Húngaro. A Hungria era uma parte importante do Império Austríaco (maior até do que a da própria Áustria) antes de 1867 mas a casa governante era a dos Habsburgos da Áustria. Mas, em 1867, em consequência das guerras com a Sardenha (na actual Itália), em 1859, e com a Prússia (na actual Polónia), em 1866, o Imperador Franz Joseph (marido da famosa Sissi e tio do Arquiduque Franz Ferdinand) não tinha já a mesma força unificadora de antes. Os Húngaros exigiam mais predominância no Império, a par da sua importância geográfica e populacional. Para estabilizar o Império Austríaco, Franz Joseph, em 1867, modificou a constituição da nação (e o seu nome), dando plena igualdade política à Hungria e Áustria e criando o Império Áustro-Húngaro.
A Imperatriz Sissi, de verdadeiro nome Elisabeth Amalie Eugenie, Duquesa da Baviéria, viveu entre 1837 e 1898, tendo sido assassina por um anarquista, na Suíça. Sissi era tia do Arquiduque Franz Ferdinand, cujo assassinato iniciou a I.ª Guerra Mundial.

Foi nesse vasto Império, com uma zona costeira mediterrânica (ao contrário das actuais Áustria ou Hungria), que Georg Trapp cresceu. O seu pai, que morreu quando Georg tinha apenas 4 anos de idade, fazia parte da Marinha Áustro-Húngara e Georg seguiu-lhe as pisadas: ingressou na Academia Naval e formou-se após 6 anos (4 de estudo e 2 de navegação). Em 1900 entrou para a tripulação do Cruzador Kaiserin und Königin Maria Theresia (Imperatriz e Rainha Maria Teresa).
Maria Teresa, 1717-1780, foi Arquiduquesa da Áustria e Rainha da Hungria.

Em 1910, o seu fascínio por submarinos foi recompensado, sendo nomeado Comandante do recentemente construído submarino áustro-húngaro U-6. A cerimónia de baptismo da embarcação foi feita por Agatha Whitehead, neta de Robert Whitehead, inventor do torpedo, em 1866. Os dois casaram um ano depois, em 1911.

Assassínio do Arquiduque Franz Ferdinand em 1914Em 1914, a vida dos europeus (e das suas colónias) foi abalada por um evento que viria a ter repercussões ao longo de todo o século XX e início do século XXI (e esperemos que não muito para além disto): o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro da coroa Áustro-Húngara. Em 1914, enquanto visitava o Reino dos Servos, Croatas e Eslovenos, no sul do Império, foi assassinado, nas ruas de Sarajevo, por Gravilo Princip, membro do grupo Black Hand que pretendia a independência do Reino do Império. O Black Hand foi fundado na Sérvia e era financiado por esta. A Áustria-Hungria, quando se deu o assassinato, exigiu à Sérvia que punisse o grupo e, quando esta se recusou, declarou-lhe guerra. Os Russos, aliados da Sérvia declararam guerra à Áustria-Hungria. Por sua vez, o Império Alemão, aliado dos áustro-húngaros, declarou guerra à Rússia. Os aliados de ambos os países (a Inglaterra e a França, aliadas da Rússia; o Império Otomano, aliado da Áustria-Hungria e da Alemanha) entraram por sua vez em guerra, tornando o continente europeu um barril de pólvora em explosão, cujas consequências viriam a incluir o fim da hegemonia cultural, colonial e política no Mundo da Europa, a ascensão dos EUA como a grande Superpotência Mundial, a Segunda Guerra Mundial e, eventualmente, a Guerra Fria e o terrorismo mundial dos séculos XX-XXI. É incrível como os actos de um só homem podem ter tão directo e nefasto efeito sobre o Mundo inteiro...
As últimas palavras do Arquiduque Franz Ferdinand, após ser atingido, foram
«Sopherl! Sopherl! Sterbe nicht! Bleibe am Leben für unsere Kinder!»
«Querida Sofia! Querida Sofia! Não morras! Continua a viver pelas crianças!»

Para mais sobre a I.ª Guerra Mundial ver os artigos:
~ Wilhelm sobre o último Kaiser Alemão: Wilhelm, imperador alemão na I.ª Guerra Mundial;
~ Um século sobre a ligação entre a I.ª Guerra Mundial e o terrorismo internacional dos séculos XX e XXI, como a destruição das Torres Gémeas;
~ Pacis nox sobre a Trégua do Natal de 1914, uma das mais bonitas (na minha opinião) histórias de Natal, que ocorreu no primeiro ano da I.ª Guerra Mundial;
~ Pequenos tijolos sobre a razão porque o governo alemão, entre a I.ª Guerra Mundial e a ascensão de Hitler, assumiu o nome de República de Weimar;


Em 1915, Georg Trapp foi comandante do submarino U-5 e do submarino U-14 (submarino francês capturado de nome Curie). Georg distinguiu-se no comando, afundando várias embarcações inimigas na sua carreira militar. Pelos seus serviços, foi-lhe dado um título nobiliárquico, tornando-se Georg, Ritter von Trapp. Ritter era o título germânico equivalente a «Cavaleiro» (ou seja, o «sir» inglês) e quem se tornava Ritter passava a ostentar, no seu nome, a partícula «von» e passava a ser barão, título hereditário (passado, por isso mesmo, para os seus descendentes masculinos).
Se fosse português, nascido Jorge Trapo, ter-se-ia tornado Jorge, Cavaleiro de Trapo.

Mas, em 1918, a I.ª Guerra Mundial terminou, com a derrota das Potências Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano). Após a retirada dos Russos da Guerra (em consequência das inúmeras perdas de soldados e da consequente revolução comunista de 1916), as Potências Centrais pareceram ver o maré da Guerra virar a seu favor: depois de 4 anos de uma esgotante Guerra de Trincheiras na Frente Ocidental (em que milhares, milhões de soldados perdiam a vida para conquistar parcos quilómetros de terreno, que era pouco depois novamente perdido), as Potências Centrais podiam concentrar (em particular a Alemanha, a mais forte das três) as suas tropas na Frente Ocidental, ao longo da França, e eventualmente ganhar a Guerra. Mas o afundamento do navio de passageiros dos EUA Lusitania, em 1915, por parte de um submarino alemão (estes acusavam, parece que correctamente, o navio de secretamente transportar armas para a Inglaterra), levou os EUA entrarem na Guerra, em 1917. A sua entrada deu novo fôlego aos esforços aliados e as Potências Centrais foram derrotadas, um ano depois.
Europa em 1914

A Alemanha foi forçada a assinar o Tratado de Paz de Versailhes, onde eram forçados a assumir a culpa da Guerra (incorrectamente mas a pressão inglesa neste ponto foi muito grande) e a pagar chorudas indemnizações de guerra. Quando se deu a Grande Depressão, em 1929, a Alemanha foi particularmente atingida, obrigada a socorrer a sua população e a pagar as indemnizações que a França e a Inglaterra exigiram de imediato. O ressentimento alemão foi tal que levou à ascensão política de um desconhecido Cabo do exército alemão na I.ª Guerra Mundial, Adolf Hitler, vindo a dar origem à II.ª Guerra Mundial.
O Império Austro-Húngaro foi desfeito, a Áustria foi reduzida ao seu núcleo actual, a Hungria tornou-se independente, o Império Otomano foi desfeito, reduzido ao seu núcleo turco (a moderna Turquia), os Ingleses e os Franceses ocuparam os territórios muçulmanos do Médio-Oriente ricos em petróleo, dando-lhes a soberania que tinham prometido apenas após a II.ª Guerra Mundial (o famoso Lawrence da Arábia foi um capitão inglês que ajudou os árabes a revoltarem-se contra o Império Otomano com a promessa não concretizada de independência quando a guerra terminasse).
Europa em 1919


Georg e Agatha tiveram 7 filhos: Rupert (1911–1992), Agathe (1913), Maria (1914), Werner (1915), Hedwig (1917–1972), Johanna (1919–1994) e Martina (1921–1952).

Como a Áustria perdeu a sua costa marítima em consequência da Guerra, não tinha necessidade de uma Marinha (de Guerra), pelo que Georg Trapp viu-se «Marinheiro em Terra», sem emprego e sem meios de subsistência. Felizmente a família tinha bastante dinheiro, fruto da herança de Agatha.
Então, em 1922, 4 anos após o final da Guerra, Agatha morreu de Febre Escarlatina, deixando os seus 7 filhos orfãos e o seu marido viúvo. A família von Trapp mudou-se então, de Pula (na actual Croácia, nas costas do Mediterrâneo, a 150 quilómetros da cidade natal de Georg, Zadar) para Salzburgo.

Enquanto tudo isto decorria com a família von Trapp, uma jovem professora, de nome Maria Augusta Kutschera (nascida em 1905), orfã, criada por um tio ateu e socialista, ouviu, acidentalmente, um sermão de um padre de Viena (entrou na igreja pensando que estava a decorrer um concerto de Bach) e as palavras do pregador inspiraram-na. Ingressou então na Abadia de Nonnberg, em Salzburgo, como professora e com a intenção de se tornar freira.
Um ano antes de professar os seus votos de freira, foi-lhe pedido, na qualidade de professora, que desse explicações a Maria Agatha von Trapp, a filha doente de um viúvo da região com 7 filhos, Georg Ritter von Trapp.
Salzburgo
Cidade Velha de Salzburgo, Áustria

O contrato era de 10 meses, após os quais Maria voltaria ao convento, para se tornar freira. Mas Maria, como mais tarde revelou na sua autobiografia, apaixonou-se por todos os 7 filhos do viúvo e, quando este lhe pediu em casamento nesse mesmo ano, pedindo-lhe para ser a Segunda Mãe dos seus filhos, aceitou, apesar de não estar apaixonada por ele (como revela, se ele não tivesse posto a proposta nesses termos, se só a tivesse pedido em casamento, teria recusado).

Em 1927, casaram, vindo a ter três filhos: Rosmarie (1928), Eleonore (1931) e Johannes (1939). Os 10 jovens von Trapp apreciavam cantar e Maria muitas vezes juntava-se a eles. O pai não participava (o talento musical dos filhos não foi herdado dele) mas não se opunha a que os filhos cantassem. Então, 7 anos depois de casaram, em 1935, Georg perdeu a fortuna da família, em consequência da Grande Depressão (e das tensões políticas e militares provocadas pela ascenção política nazi e a sua política beligerante que conduziria, 4 anos depois, à II.ª Guerra Mundial). Mas Georg recusava-se a trabalhar, considerando-o pouco digno. Maria assumiu então as rédeas da família, despedindo os empregados e fechando o andar superior para diminuir as despesas (e, desta forma, a família podia tratar ela mesma da enorme casa).

A Família von Trapp ganhou, de facto, em 1936, o Festival de Música de Salzburgo (mas não fugiu do país logo de seguida, como apresentado no filme): continuaram a cantar como profissão, pela Europa toda. Somente 3 anos após a vitória, no festival, é que se deu a Anshluss (a unificação da Alemanha e da Áustria num único país). Nessa altura, os Nazis ofereceram, a Georg, um comando naval e convidaram os von Trapp a cantarem no aniversário de Hitler (data que nem merece divulgação). Tudo foi recusado e, como os 7 primeiros filhos de Georg tinham nascido em Pula e esta fazia agora parte da Itália (como consequência da redistribuição territorial após a I.ª Guerra Mundial), os von Trapp simplesmente foram para Itália (não fugiram, não se esconderam. Apanharqm um comboio para Itália e todos estavam cientes da partida da família: ninguém os procurou impedir). Daí partiram para a Inglaterra e depois para os EUA (supostamente fazer um único concerto mas onde ficaram a residir. O filho mais pequeno, Johannes, nasceu já nos EUA, em 1939).

Mulheres von Trapp, em 1944


Assim, em 1944, com uma quinta comprada nos EUA, os von Trapp pediram a cidadania americana. Apenas Maria (39 anos) e Agathe (31 anos), Maria (30 anos), Hedwig (27 anos)Johanna (25 anos) e Martina (23 anos) pediram a cidadania: Georg nunca o fez, Rupert e Werner tornaram-se cidadãos ao lutar no exército do EUA durante a II.ª Guerra Mundial, Rosmarie e Eleanore tornaram-se automaticamente cidadãs quando a sua mãe (Maria) se naturalizou e Johannes nasceu já nos EUA.

Georg morreu em 1947 (com 67 anos) e foi enterrado na quinta da família, nos EUA.
Um ano depois, em 1948, quatro anos depois do pedido, os von Trapp foram naturalizados como cidadãos dos EUA. Apesar do sucesso, a família parou de cantar em 1955 (30 anos depois de começarem), uma vez que cada von Trapp queria atingir objectivos diferentes na vida.

Cartaz do filme alemão «Die Trapp-Familie»Em 1949, Maria escreveu The Story of the Trapp Family Singers. Baseados no livro, cineastas alemães fizeram dois filmes baseados na família von Trapp (Die Trapp-Familie, em 1956, e Die Trapp-Familie in Amerika, em 1958). Eventualmente os direitos dos filmes foram comprados aos cineastas alemães por cineastas americanos (antes disso foi ainda feito um Musical na Broadway intitulado «The Sound of Music» baseado nos von Trapp). Mas, quando Maria vendeu os direitos da história aos cineastas alemães, a família perdeu qualquer direito à história e aos subsequentes imensos lucros que o filme alcançou a nível mundial.

As diferenças entre a verdadeira história dos von Trapp e a constante do filme incluem:
~ a adulteração da personalidade de Georg Trapp: este não era um tirano que desaprovava as actividades musicais da família. Na verdade, tinha uma personalidade gentil e apreciava juntar-se à família nesses momentos;
~ Maria não foi contratada para cuidar das 7 crianças, apenas dar explicações privadas a Maria Agatha, que estava doente;
~ Maria e Georg casaram em 1927, 11 anos antes dos nazis chegarem à Áustria via Anshluss e 11 anos antes da família ganhar o Festival de Música de Salzburgo, não depois;
~ os nomes e idades (e mesmo os sexos) das crianças von Trapp foram alteradas. Liesl era na verdade Rupert (rapaz), Friedrich era na verdade Agathe (rapariga), Louisa era Maria, Kurt era Werner, Brigitta era Hedwig, Marta era Joana e Gretl era Martina. As dois filhos que Maria e Georg tiveram antes de fugiram da Áustria, Rosmarie e Eleanore, não são mencionadas no filme;
~ as crianças von Trapp já cantavam antes de Maria chegar à família;
~ a personalidade de Maria era mais explosiva do que o retratado no filme: apesar de amar as crianças (e eventualmente o marido), por vezes tinha repentes de cólera e agressividade;



Por isso, qualquer semelhança entre a realidade e a ficção não é pura coincidência, mas é preciso estar-se atento às diferenças e respeitar as verdadeiras pessoas por detrás da ficção. Um caso em que não é uma história só história, é uma história da História...


Publicado por Mauro Maia às 15:12
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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007
42 regras
</br>
A Língua Portuguesa (e reconheço que estarei a ser parcial) é uma das mais belas e complexas do Mundo. Tem algumas bonitas construções frásicas, como a pronominalização de que se falou em Lusitanae linguae.</br></br>

O desenvolvimento tecnológico e o contacto cada vez mais frequente e importante com outras línguas significativamente mais pobres têm feito esfumar-se algumas das catedrais da ortografia portuguesa. Um dos efeitos do desenvolvimento tecnológico (que é extremamente importante, tendo até em conta que é através dele que escrevo estas palavras, deve ser um meio para a promoção da língua e não para a sua banalização) tem sido o progressivo esquecimento do uso e conhecimento do hífen aquando da passagem de parte de uma palavra no final de uma linha para a linha seguinte (a translinearização).</br></br>

O primeiro uso do hífen corresponderá igualmente ao primeiro texto impresso em 1452.
Neste ano, o alemão Johannes Gutenberg imprimiu aquele que será, ainda hoje, o livro mais imprimido do Mundo, a Bíblia. A prensa de Gutenberg imprimia exactamente 42 linhas da mesma altura em cada página, não sendo possível alterar este valor. Cada página era composta por «tipos» (pequenas peças de madeira ou metal onde está gravada uma única letra) que eram alinhados para formar as frases do texto e que eram mantidos fixos em 42 linhas por meio de uma estrutura rígida que circundava toda a «página». Para tornar cada linha do mesmo tamanho (evitando o uso de imensos «tipos» de espaço em branco), Gutenberg, quando uma linha de texto terminava a meio de uma palavra, colocou um traço no final, do lado direito, indicando que a palavra continuava na linha seguinte.</br>
Na verdade, Gutenberg usava dois traços paralelos horizontais ( = ) para a translinearização. Nessa época, entre os séculos XIII e XVII, usava-se um traço oblíquo ( / ) para representar uma pequena pausa no texto (a bem conhecida vírgula), uma vez que o símbolo moderno ( , ) ainda não se usava. Mais tarde, no século XVI, com a evolução da escrita, a vírgula passou a ser o actual «,» e o traço horizontal passou a ser o símbolo da translinearização. No mesmo século, em 1557, os dois traços horizontais passaram a ser usados, para propósitos matemáticos, como o símbolo da igualdade. O uso de dois traços horizontais para o hífen da translinearização ainda foi usado, na Alemanha, até meados do século XX.</br></br>

Antes das prensa mecânicas, em textos manuscritos, não havia necessidade de se usarem sinais indicadores de que a palavra continuava na linha seguinte: se uma palavra não cabia ou se escrevia na margem ou colocava-se toda a palavra na linha seguinte. Mas a necessidade de manter as linhas com tamanhos iguais para permitirem o seu uso em prensas mecânicas levou à criação desta singular pequena linha, que os descendentes das prensas de Gutenberg (os computadores) ameaçam (esperemos que uma falsa ameaça) agora.</br></br>

Por exemplo, a translineação (o uso de um hífen no final de uma frase para indicar que a palavra continua na linha seguinte) pode ser</br>
Conhe-</br>
cimento</br></br>

É verdade que os processadores de texto podem realizar esta tarefa de divisão silábica no final de uma linha automaticamente, mas não é menos verdade que essa opção é pouco utilizada e, principalmente, como é feito automaticamente as regras pelas quais tal processo é feito permanecem ocultas.</br></br>

Então quais as regras que regem a translineação? À partida é muito linear (aparentemente) mas tem algumas excepções que vale apena referir.</br></br>

~ A primeira e óbvia(?) regra é que a divisão se faz por soletração. Fazê-lo é, geralmente, fácil (ge-ral-men-te), não havendo regras para o fazer. É daquelas coisas que se sentem audivelmente («ge»+«ral» são duas sílabas mas «ger»+«al» NÃO são).
Por exemplo:</br></br>

Sabe-se que é geral-</br>
mente válida esta regra.
</br></br>

~ Os ditongos não se quebram no final de uma linha. Ou parmanece junto numa linha ou passa junto para a seguinte.Um ditongo, como visto em Esdruxulamente, é um conjunto de duas vogais que se lê como um só som. Nem todas as combinações de vogais são ditongos («ai» é ditongo mas «ia» não é), apenas «ai», «ao», «ei», «eu», «ou», «ui».</br>
Por exemplo:</br>
</br>
Hoje apetece-me começar com bis-</br>
coitos de chocolate e um copo de lei-</br>
te.
</br></br>

~ Nos casos em que há uma consoante dupla (geralmente «rr» ou «ss» mas podendo ser «nn», como em connosco), as consoantes são separadas.</br>
Por exemplo:</br></br>

Este artigo é uma bar-</br>
ri
gada de riso e divertimento</br>
e eu não sei se a impos-</br>
si
bilidade de o reescrever não</br>
fará com que ele tenha con-</br>
nos
co muito sucesso.
</br></br>

~ Se existirem duas consoantes seguidas diferentes, passa apenas a segunda para a segunda linha, excepto se a segunda consoante for «h», «l» ou «r», em que as duas passam em conjunto.</br>
Por exemplo:</br></br>

Vamos alcançar o cami-</br>
nho que nos levará a des-</br>
bloquear todo o nosso con-</br>
trolo sobre o processo.</b>
</br></br>

~ Quando há «qu» ou «gue»/«gui», a constante nunca é separada do «u» que a acompanha.</br>
Por exemplo:</br></br>

Foi somente por ser inques-</br>
tionável que não se sabe o quo-</br>
ciente que se pode comprar dez qui-</br>
los de manteiga e um aquá-</br>
rio. Não se sabe nem mesmo se conse-</br>
gue saber se, em segui-</br>
da, não se comprará um elefante branco.
</br></br>

~ Quando as palavras contém já um hífen (ou mais) por serem formadas por justaposição (como «arco-íris») ou por serem pronominalizadas (como «colocá-lo-ei») a separação pelo hífen acarreta a escrita de dois hífens, um no final da primeira linha e outro no início da seguinte.</br>
Por exemplo:</br>
</br>
Ao andar pela cidade, caiu-</br>
-me a carteira ao chão. Apanha-la-</br>
-ei de imediato.



Claro que há cuidados que se devem ter para manter um texto adequada e esteticamente translinearizado. Se, por uso das regras da translinearização, ficar apenas uma letra no final ou no início de uma linha, deve-se evitar fazê-lo, colocando toda a palavra no final da primeira linha ou no início da segunda, dependendo do espaço que se tem disponível.


Publicado por Mauro Maia às 10:20
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