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Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 1 de Junho de 2008
Franca mente

Dois amigos conversam: - E então, como correu a entrevista para o emprego? - Estava a correr tudo bem até que me perguntaram como era o meu Inglês. - E então? - Tive de confessar que não sei Inglês. Depois disso, continuaram simpáticos mas acho que a entrevista acabou aí mesmo. No final, despediram-se de mim, informando-me que não tinha ficado com o emprego e recomendando-me que aprendesse Inglês. - Sabes bem que, hoje em dia, quem não sabe Inglês e não sabe usar um computador é quase visto como analfabeto. - Eu sei disso. Mas eu nunca fui bom a Inglês, como sabes. Porque se costuma dizer que o Inglês é muito fácil? Para mim, é um bicho de sete cabeças...


É inegável a importância que, na segunda metade do século XX e início do século XXI, o Inglês tem como lingua franca (a expressão latina é assim mesmo, sem acento) internacional. Isto é, como uma língua de conversação para a generalidade dos encontros internacionais. Quem se encontre perante alguém de outro país e não sabe a sua língua nativa, a primeira língua que tentará usar para estabelecer contacto e um ponto de entendimento é o Inglês. Esta não foi a primeira lingua franca alguma vez usada. Na Europa, o Latim (e o Grego) foram usadas durante mais de dois mil anos como plataforma de entendimento; aquando dos Descobrimentos, o Português era usada como lingua franca na Ásia e na África; o Inglês surgiu como a lingua franca internacional. Mas o que catapultou a língua inglesa, oriunda de uma ilha a norte do continente europeu, para os palcos mundiais? É por vezes apontada a facilidade da língua, ou a sua capacidade de síntese, ou a sua flexibilidade em variados contextos para explicar essa importância cultural actual. O facto de os EUA serem a única super-potência que sobreviveu à Guerra Fria (sensivelmente entre 1946 e 1991) e a sua importância e hegemonia cultural são também vistos facilmente como outros factores importantes para o domínio cultural mundial do Inglês. Não serão as características particulares da Língua Inglesa a razão para a sua dessiminação. Se é certo que tem a conjugação da generalidade dos verbos simplificada (apenas a 3.ª pessoa do singular difere das restantes por ter um «s» acrescido), a transição entre a língua falada e a língua escrita pode ser um pesadelo para muitos. A título de exemplo, considere-se estas palavras: «though»; «thought»; «through»; «thorough». Para um falante de Português, a semelhança entre as formas escritas das 4 remeteria para sonoridades semelhantes. Mas, na verdade, o mesmo conjunto de letras tem um som diferente conforme a palavra onde se encontra :

 

though - «Dou» - «apesar (de)» :: thought - «Thót» - «pensamento» :: through - «Thru» - «através (de)» :: thorough - «Thârou» - «minucioso» O mesmo conjunto de letras «ough» é lido como «ou», «ó» ou «ú»!

 

O som «Th» é feito pondo em contacto a ponta da língua com os incisivos superiores. Em seguida, faz-se um som semelhante a um «s» fazendo passar o ar pelos dentes e a língua na posição descrita. Também pode ser lido como um «d» (como em «this») ou um «t» (como em «lighthouse»), consoante a palavra em que se encontra.

 

Não será também por ser mais sucinta ou lógica (apesar de, como outras línguas germânicas, não usar a dupla negativa como reforço da negação. Para mais ver o artigo Duplex negatio).

O Latim é geralmente visto como uma língua complexa, em que a posição das palavras na frase pode alterar o seu significado e função;

o Português, durante a época de ouro dos descobrimentos, produziu pensadores que falavam e escreviam em Português, sem que isso lhes minasse a objectividade (como o matemático português Pedro Nunes, abordado num comentário ao artigo 42 regras ou o jogador de Xadrez Pedro Damião, abordado no artigo O Rei vai manco).

 

Nem será a sonoridade do Inglês que o distingue das demais línguas: como visto no artigo Die Wahrheit den Herzen, se se analisar o uso da sonoridade «r» e «t» em 4 línguas europeias (Português, Inglês, Alemão e Francês), o Inglês e o Português são bastantes semelhantes em termos de «suavidade».

 

Como em outros fenómenos culturais humanos, a resposta reside em circunstâncias históricas particulares que se combinam para produzir um efeito casualmente comum. Analisemos portanto a História da Língua inglesa, esta língua germânica de origem, germânica de vocabulário e de construção gramatical.

O Inglês desenvolveu-se, ao longo dos séculos, numa ilha a norte da Europa, a que modernamente se chama Grã-Bretanha (que inclui a Escócia a norte, a Inglaterra no centro e sul e o País de Gales a oeste). A Irlanda, a ilha sua vizinha, fez já parte da Grã-Bretanha mas tornou-se independente em 1920 (reconhecido pelo governo britânico em 1921), ficando somente uma das suas 4 províncias, o Ulster (Irlanda do Norte) ligada ainda à Grã-Bretanha até hoje. É frequente ser usado o nome Inglaterra para designar o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, na verdade é apenas um dos países que o constitui (e que, historicamente, uniu todos os outros sob a sua coroa). Uma situação semelhante ocorre com os Países Baixos. Na verdade, trata-se de um só país e esta designação surge como tradução literal do seu nome na sua língua: «Netherlands». Muitas vezes chamado como Holanda, a Holanda é apenas um (na verdade dois) dos estados que constituem o país. Para mais sobre este assunto ver o artigo Novas e demónios.

 

Por volta do século 6 AC, habitavam, na Europa Central, um grupo de povos dispersos que falava uma língua comum. Daí, espalharam-se por o resto do continente e, em 3 AC, tinha já chegado à Península Ibérica a ocidente, à Anatólia (parte da actual Turquia) a oriente e às Ilhas Britânicas a Norte.

 

 

Dessa expansão pela Europa, os Celtas foram-se dividindo em povos cada mais mais numerosos, muitos deles tendo dado origem aos modernos nomes de muitos países europeus que se encontram na área dos seus antigos territórios: os Gallaeci (Galiza) e os Celtiberos (no centro da Península Ibérica, fusão entre os Celtas e os Iberos, sendo uma das sua tribos os nossos conhecidos Lusitanos), os Aquitani (actual Aquitânia, no sudoeste da França), os Helvetii (na actual Suíça e razão porque o adjectivo «helvético» se refere a esse país), os Parisii (que deram o nome à cidade de Paris), os Belgae (actual Bélgica), entre outros. Viveram nos seus territórios (com conflitos com povos seus vizinhos) durante muitos séculos até que os romanos venceram a sua rival Cartago e se apoderaram dos seus territórios (nomeadamente na Península Ibérica), no século 2 AC. Júlio César, general romanot, no século 1 AC, empreendeu uma campanha militar de 10 anos que conquistou a Gália (onde residiam os Gauleses, um povo descendente dos primeiros povos celtas a alargarem fronteiras).
Eventualmente, a maioria dos territórios celtas foram incorporados no Império Romano. Muitas línguas celtas (como o Lusitano, no território actual de Portugal) desapareceram sem deixarem vestígios significativos nas modernas línguas faladas nos seus antigos territórios (embora possam ter influenciado indirectamente a evolução do Baixo Latim para as modernas línguas românicas).
Nas Ilhas Britânicas, os romanos não conquistaram a Irlanda nem o norte da Grã-Bretanha, actual Escócia. As línguas faladas aí (excluindo o Inglês) são descendentes directas das línguas celtas e mesmo o seu sotaque característico é devido à influência celta.
Mas, nos territórios romanos britânicos, deu-se a chegada do Latim e das línguas faladas pelos legionários romanos. Muitos eram oriundos de territórios conquistados e falavam outras línguas que não o Latim. Os soldados estacionados na Grã-Bretanha eram principalmente oriundos do actual norte da Alemanha e Dinamarca e a acompanhá-los vieram muitos colonos Anglos (de Angeln, região que agora é em Schleswig-Holstein, no norte da actual Alemanha), Saxões (da Saxónia, no sudeste da actual Alemanha) e os Jutos (oriundos da Jutelândia, Sul da Saxónia). Quando se deu a retirada romana das ilhas, no século 5 DC, foi a língua germânica desses soldados e desses colonos que foi a semente da língua que viria a ser conhecida como Inglês.
Uma das diferenças entre esse dialecto germânico e as restantes é a transformação do som «k» no início de algumas palavras no som «ts». Vestígos dessa sonoridade da língua levada para a Grã-Bretanha pode-se encontrar em palavras como cheese (queijo em Inglês), que se lê «txize», e em Alemão é Käse, que se lê «kêsa». Ou church (igreja em Inglês), que se lê «txârtx», enquanto em Alemão é «Kirche», que se lê «kirxa». 
Até que, três séculos depois, no século 8 DC, os Víquingues (aqui temos um interessante palavra esdrúxula: «Ví»+«quin»+«gues» e como tal é acentuada na antepenúlima sílaba) oriundos da península escandinava (actuais Noruega, Suécia e Finlândia), conquistaram o nordeste da Grã-Bretanha (a costa mais próxima da sua península nativa). Navegavam nos seus característicos navios (geralmente conhecidos como «drakkar», que não passa da palavra víquingue para «Dragão», devido à forma da proa dos navios).
Esta vaga de conquistadores, que falavam um língua germânica conhecida como «Norse» e que deu origem aos actuais Norueguês, Sueco e Finlandês, introduziu significtivas mudanças e simplificações nesse Proto-Inglês. Entre essas simplificações, contam-se a conhecida ausência de género nas palavras inglesas (não há palavras masculinas ou femininas) e a perda das declinações da língua alemã. Surgiu assim o Inglês Antigo, ocasionalmente (mas não significativamente) importando umas poucas palavras gregas e romanas quando o Cristianismo foi introduzido nas ilhas.
Entretanto, as conquistas Víquingues prosseguiram na Europa. Uma tribo víquingue, os Russ penetrou no actual território russo e deram o seu nome à região e ao país que aí viria a surgir: a Rússia (Terra dos Russ).
Outra tribo víquingue instalou-se, no século X, no norte da França, na actual Normandia (derivado de «Norseman», homens do Norte, nome porque eram também conhecidos os Víquingues). Foi na Normandia que as forças aliadas desembarcaram, na Segunda Guerra Mundial, só parando em Berlim, após a derrota dos exércitos nazis.
Eventualmente, a língua dos conquistadores víquingues passou a ser a língua francesa da região que ocupavam, uma língua marcadamente românica.
Quando, no século XI (em 1066), o Duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, atravessou o canal da Mancha e venceu os Anglo-Saxões (a última invasão bem sucedida das ilhas britânicas até hoje! Os espanhóis tentaram infrutiferamente em 1588 e os Franceses, liderados por Napoleão, em 1744 e 1759), a Grã-Bretanha passou a ser governada pelos Normandos, que falavam Francês.
Esta nova (e última invasão) voltou a introduzir alguma da complexidade gramatical na língua. Durante muitos séculos, à medida que a língua do povo britânico ia evoluindo, com as suas raízes germânicas e as suas influências germânicas e francesas, a língua da coroa inglesa era o Francês e, ainda hoje, o mote da casa real inglesa é «Dieu et mon droit» (Deus e o meu direito), expressão em língua francesa. Joana D'ArcDurante muitos séculos, o Rei inglês (descendente de Guilherme, o Conquistador) era Duque da Normandia (no Norte da França) e esse facto despoletou fortes rivalidades entre ingleses e franceses, que deram origem à Guerra dos 100 anos (entre 1337 e 1453, cento e desasseis anos) sobre quem seria o legítimo Rei Francês, se a Casa de Valois (francesa) se a Casa Plantageneta (inglesa).
Nesta guerra, notabilizou-se Joana D'Arc, valorosa combatente francesa. No fim da Guerra, a casa de Valois (falou-se, em Fumare salutem, de Marguerite de Valois, durante algum tempo possível futura mulher de D. Sebastião) emergiu como a governante de toda a França, incluindo o Ducado da Normandia.
Essa rivalidade prosseguiu durante séculos, até que, no final do século XIX, uma aproximação histórica devido a uma linha de caminho-de-ferro entre as suas possessões africanas enterrou o machado de guerra entre os dois países (a Grã-Bretanha lidou de forma diferente connosco, o que originou a célebre questão do mapa Cor-de-Roa, de que se falou em Jardins cor-de-rosa) e ambos se tornaram os fortes aliados a que o século XX nos acostumou, através da I,ª e II,ª Guerras Mundiais. Nos dos primeiros artigos do Cognosco, Ái sei falou-se na semelhanças entre o Inglês e o Francês. Tendo em conta a história de como o Inglês surgiu, não estará muito longe da verdade a hipótese do artigo de que, talvez, algumas palavras inglesas não sejam mais do que mau Francês!
Entretanto, esse povo oriundo da 8.ª maior ilha do Mundo (-1.ª: Gronelância, 2 milhões, 130 mil e 800 quilómetros quadrados; -2.ª: Nova Guiné, 785 mil e 753 km2; -3.ª: Bornéu, 748 mil e 168 km2; -4.ª: Madagáscar, 587 mil e 713 km2; -5.ª: Baffin, 507 mil e 451 km2; -6.ª: Sumatra, 443 mil e 66 km2; -7.ª: Honshu, 225 mil e 800 km2 ;-8.ª: Grã-Bretanha, 218 mil e 595 km2), conquistou o Mundo.
Na esteira dos Descobrimentos portugueses, os Holandeses fizeram seu o império português do Oriente (como visto em A lágrima do Leão). Após os Holandeses, os Ingleses dominaram todos os ocenos e levaram a sua língua aos «quatro cantos» do Mundo (claro que, como o Mundo é esférico, não tem cantos, apenas os mapas os têm). Joe Rosenthal - Marines americanos a levantar a bandeira americana em Iwo Jima
Já no século XX, após duas desastrosas Guerras Mundiais que puseram de joelhos todos os países europeus devido ao grau de destruição a que foram sujeitos, os Estados Unidos, antiga colónia inglesa, emergiram como uma das Super-Potências do Mundo, tendo uma presença militar em todos os continentes habitados mundiais. Como o Inglês não era estranho à maioria dos países do mundo (devido ao antigo império inglês), a cúltura america espalhou-se facilmente por entre os países por onde estiveram os americanos na esteira da II.ª Guerra Mundial e da Guerra Fria. E assim, uma língua fruto de misturas entre línguas germânicas e românicas, provinda de um povo insular no norte da Europa, se encontra na confortável posisão de língua franca do Mundo (não a mais falada, mas a internacionalmente mais usada).


Publicado por Mauro Maia às 22:24
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