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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sábado, 30 de Agosto de 2008
Doce mecânica

Muitas são as razões pelas quais o nome de um país circula pelo Mundo e geralmente procura ter uma boa reputação no palco mundial. O adjectivo «bom», subjectivo como é, pode ser interpretado de formas diferentes por pessoas diferentes. Um país militarista com armas nucleares poderá ser visto como «mau» pela generalidade das pessoas e em especial pelos seus vizinhos mas, na sua visão, será algo positivo ser visto internacionalmente como um país a recear. Alguns procuram alcançar um lugar no palco mundial realçando o seu glorioso passado, outros através do poder bélico, através das influências políticas, através do número de medalhas desportivas ganhas... Eis algo em que Portugal não é excepção: procura o seu lugar ao Sol internacional mas o seu passado é ignorado por muitos e a sua pequenez presente pode torná-lo uma mera curiosidade nalgum Atlas geográfico.

Atlas segurando os céusO termo Atlas, referindo-se a uma colecção de cartas geográficas, deve o seu nome a um lendário Rei Atlas, da Mauritânia, conhecido, de acordo com o grego do século IV AC Eumero, por ser um grande Filósofo, Matemático e Astrónomo. Quando, em 1595, Gerardus Mercator (1512-1594), cartógrafo flamengo (parte da actual Bélgica), reuniu uma colecção de mapas num mesmo livro, deu-lhe o nome de «Atlas, Sive Cosmographicae Meditationes De Fabrica Mundi» (Atlas, ou Descrição do Universo). O Atlas a que se referia era o mitológico Rei Atlas, da Mauritânia, e não ao também mítico Titã Atlas, irmão do Prometeu. Atlas, de acordo com a mitologia clássica grega, sustinha o peso do Céu, pelo que a representação comum de Atlas a carregar o mundo às costas é uma incorrecção. No Norte de África, a atravessar Marrocos, Argélia e Tunísia, há uma cordilheira montanhosa chamada Montanhas Atlas. Deve o seu nome ao famoso Rei da região e não ao malogrado Titã. Para mais sobre Prometeu e Epimeteu (ambos irmãos do Titã Atlas) ver Pandora; para mais sobre a origem do nome África (e dos outros continentes), ver Magnus Tellus.

Bem podem os portugueses se exaltar quando o seu decisivo papel como país que iniciou os Descobrimentos e deu início à primeira Globalização é esquecido; discutir acaloradamente quem foi o maior português de sempre (o resultado da «auscultação» popular deu um vergonhoso resultado que revela bem como a memória das pessoas é curta e, mesmo após décadas, como uma propaganda, repetida até à exaustão; pode ainda lavar mentalidades...), podem abespinhar-se perante o número de medalhas ganhas nos Jogos Olímpicos (é de realçar que há 192 países no Mundo; destes todos participaram nos Jogos Olímpicos; mais 13 territórios, como Hong Kong ou a Formosa ou as Ilhas Cook participaram; no total, 205 equipas olímpicas participaram nos J.O. de Pequim; das 205 Delegações Olímpicas apenas 87 (42%) levaram alguma medalha; mais países ganharam apenas 1 medalha (19) do que 2 medalhas (12). Portugal ficou em 46.º lugar (quadragésimo sexto) em termos de medalhas ganhas (2). O Brasil em 23.º (vigésimo terceiro) em termos de medalhas ganhas (17). Ficar na metade que ganhou efectivamente medalhas parece que é ainda pior, para alguns, do que ficar na metade que nada ganhou...); pode ficar terrivelmente emocionado quando a selecção nacional de futebol marca algum golo (e desconsiderá-la quando perde algum jogo).

Mas a verdade é que não é nenhuma destas razões que coloca mais vezes o nome de Portugal nas bocas do mundo. Tal honra deve-se a um simples fruto, a mui humilde laranja. Mas que possível ligação pode ter esse fruto com o nosso pequeno rectângulo geográfico (mais as suas 11 principais ilhas)? Portugal não é o maior produtor de laranjas do mundo (nem há registos históricos de alguma vez o ter sido). O maior produtor mundial de laranjas é o Brasil (cerca de 18 milhões de toneladas anuais); segue-se os EUA (8 milhões e 500 mil toneladas) e depois o México (4 milhões). Mesmo a Espanha, nossa vizinha geográfica, produz apenas 2 milhões e 500 mil toneladas anuais, o que é cerca de noves vezes inferior ao Brasil.

Para desvendar esse mistério, analisemos primeiro o que é ao certo uma «laranja». Originária do Sudoeste Asiático, a Laranja terá surgido pelo cruzamento entre o Pomelo e a Tangerina. Há dois tipos de laranjas, a «laranja doce» (Citrus sinensis) e a «laranja amarga» (Citrus aurantium). A primeira a chegar, vinda da China, ao Médio Oriente, nomeadamente à Pérsia, foi a «laranja amarga» (C. aurantium). Essa variedade de laranja (amarga) ainda hoje é conhecida como «maçã chinesa» (e.g., «apfelsine», em Alemão) e é muito usada na perfumaria e na produção de compotas. Foi essa a primeira laranja a chegar à Europa, quando foi introduzida, em Itália, no século XI, vinda da Pérsia. Até que, no século XV, os portugueses chegaram à Índia e trouxeram uma outra variedade de laranjas. Estas eram doces e mais do agrado do paladar da maioria das pessoas. Ao longo das rotas marítimas, os navegadores portugueses plantaram laranjeiras, como forma de combaterem o escorbuto (doença provocada pela falta de vitamina C no organismo). Durante séculos, a principal fonte de importação das laranjas doces era Portugal (e as suas colónias). De tal forma que, em muitas línguas, Portugal passou a ser sinónimo de laranja (doce):
~ Árabe: al-Burtuqal «البرتقال»
~ Búlgaro: Portokal «портокал»;
~ Etíope: Birtukan «birtukan»;
~ Georgiano: Phortokhali «ფორთოხალი»;
~ Grego: Portokali «πορτοκάλι»;
~ Italiano (alguns dialectos): Portogallo ou Purtualle «Portogallo»;
~ Persa: Porteghal «پرتقال»
~ Romeno: Portocala «Portocală»;
~ Turco: Portakal «Portakal».
No livro de Ficção-Científica «Dune», de Frank Herbert, fortemente influenciado pela cultura, modo de vida e língua árabes, é dado o nome de «Portyguls» às laranjas.

Como é natural, em português o fruto não se chama Portugal, é «laranja». Esta palavra deriva do Sânscrito (antiga língua indiana de moderno uso religioso) «nāraṅgaḥ». Daqui derivou o persa «nārang», que deu origem ao árabe «nāranj», de onde veio o «laranja» português, «naranja» espanhol e «arancia» italiano. Não temos um nome distintivo para as laranjas amargas e para as laranjas doces, enquanto que, para os árabes, «nāranj» é a laranja-amarga» e «al-Burtuqal» é a laranja-doce.
Para a origem persa de Xadrez, Xeque-mate e Xeque, ver O Rei vai manco

Da laranja veio também o nome para a cor. A cor, claro, não foi inventada apenas nessa altura, sempre existiu. Mas apenas quando os Europeus tiveram acesso às laranjas é que a cor que anteriormente designavam por algo como «amarelo-vermelho» passou a ter a designação do fruto com essa cor.
É uma fruta que modernamente se associa à Vitamina C e ao combate às Gripes e Constipações. No entanto, como foi visto em O-zono de Morfeu, a laranja não é a fruta com maior percentagem de Vitamina C. A acerola (0,72%), a amora (0,2%), os pimentos (0,19%), a salsa (0,13), o kiwi (0,09%), os brócolos (0,09%), couves-de-bruxelas (0,08%), dióspiros (0,08%), papaia (0,08%), morangos (0,08%) têm mais Vitamina C do que a laranja (0,05%) e do que o limão (0,04%). Por exemplo, um quilograma de amoras tem 2 gramas de Vitamina C, enquanto um quilograma de laranjas tem apenas 0,5 gramas! Além disso, não há qualquer ligação cientificamente estabelecida entre a Vitamina C e o combate às gripes e constipações por «reforço imunitário». No artigo Influências astrais, viu-se que as causas das gripes e das constipações nada têm a ver com os ditos populares de que são «causadas» pelo frio ou pela chuva. Esse é um mito do século 18, que se propagou naturalmente, sem fundamentos válidos. Tanto se repete e repetiu que parece «verdade» mas não é.

Da próxima vez que se ouvir a expressão «laranja mecânica», como referência à selecção de futebol da Nederlândia, vulgo «Países Baixos» ou o extremamente incorrecto «Holanda» (em Novas e Demónios há a explicação), pense-se que, para muitos países do mundo (entre eles vários apreciadores de futebol), Portugal é a verdadeira selecção LARANJA!

«Clockwork Orange» (Laranja mecânica) é o título de um livro do escritor inglês Anthony Burgess, datado de 1962, que relata a vida de um grupo de jovens marginais inglesas que praticam crimes nas ruas de Londres. O livro deu origem a um filme com o mesmo nome, realizado por Stanley Kubrick, em 1971. Devido ao facto de a cor predominante da selecção da Nederlândia ser laranja, alguém achou engraçado fazer essa referência e a moda pegou...



Publicado por Mauro Maia às 19:39
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4 comentários:
De Maria Papoila a 26 de Setembro de 2008 às 21:35
Querido Mauro:
Fiquei admiradíssima com o nome das laranjas nas diversas linguas. Li com o maior interesse o artigo e este de hoje tem o poder encantatório de um grande contador de histórias.
Beijos


De Mauro a 27 de Setembro de 2008 às 13:01
Minha querida «maria Papoila», é sempre um prazer receber a tua visita. Sinto-me em falta por nao ter ainda completado o artigo sobre a Inferência Estatística (artigo no qual manifestaste interesse) mas, em termos pessoais, não deu ainda para uma imersão no mundo da Estatística para depurar os termos e construir uma artigo simultaneamente relevante e de boa absorção. Não erstá esquecido... Obrigado pelo teu constante apreço pelo Cognosco e pelos seus artigos. A questão de ser a laranja a principal razão para Portugal andar nas bocas do Mundo faz pensar se não andamos a apostar em cavalos errados quando se trata de capitalizar a nossa presença no Mundo. Isso e o facto de o Oriente português ser esquecido pelos sucessivos governos portugueses é lastimável.


De Parafuso a 16 de Outubro de 2008 às 10:54
Só hoje descobri este interessante blog. Duas sugestões: - Passar a dizer 'o' grama e não 'a' grama quando se refere à medida de massa (também não se diz 'a' kilograma). - Utilizar feeds para facilitar a consulta smpre que há um novo post. Vou incluir este blog nos meus favoritos.


De Mauro a 16 de Outubro de 2008 às 11:44
Agradeço-te, «Parafuso», a chamada de atenção. Por vezes ouvimos tantas vezes o mesmo erro que acabamos, inconscientemente, por o cometer também, ainda que saibamos que está incorrecto. Costumo estar atento a ele e, como artigo, não o cometo com frequência. Mas se em algum artigo anterior o tiver feito, será já corrigido. Vou pesquisar todos os artigos do Cognosco e emendar esse clamoroso erro. Obrigado, mais uma vez. E obrigado pelo apreço pelo Cognosco. A sugestão de incluir um serviço de Feed no blog há algum tempo que pondero. Mas tenho o Cognosco na plataforma «antiga» do Sapo (em html), por isso me permitir maior controlo sobre a sua estrutura,além de que, por autodidatismo, realizei muitas modificações que iam de encontro ao meu gosto. Mudar para a «nova» plataforma não só eliminaria todos os ajustes que anteriormente fiz como, e já tentei (tenho um blog de teste na «nova» plataforma para isso) incluir os meus ajustes nos «novos« blogs e alguns que quero mesmo ter não me são possíveis (ou seriam se soubesse como usar esta linguagem de programação). Mas procurarei scripts em html que permitem incluir um serviço de feedback no Cognosco. De qualquer modo, se assim o desejares, posso incluir o teu mail na «Lista de notificações de novos artigos» do Cognosco. A tua sugestão leva-se a pensar que o posso fazer simplesmente, bastando incluir um link para que me enviem o e-mail expressando esse desejo e o mail para onde enviar. Agradeço-te, «Parafuso», a tua visita e comentário ajudaram a reforçar o Cognosco.


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