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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sábado, 10 de Janeiro de 2009
Sonhos prateados
Mas que coisa mais roscofe essa que compraste!

Eis uma expressão curiosa, popularizada pelo uso mas que não se encontra atestada em dicionários. Algo roscofe é entendido como algo sem qualidade.
Em alguns estados do Brasil, «roscofe», supostamente do russo, significa «ânus», ainda que o mais próximo que encontrei com esse significado foi "pyпop" (rupor).
Mas de onde virá esta expressão que usamos em Portugal? O que é ou o que foi ao certo um «roscofe»?

Não se trata de uma palavra que tenha origem portuguesa, é um empréstimo de uma língua estrangeira que foi aportuguesada. A verdade é que, como em outras situações, o uso da expressão esconde uma origem mais elevada do que a acepção comum parece indicar. Situações como as do Marechal de Lapalisse, cuja morte em combate levou a que as suas tropas lhe compusessem uma canção fúnebre de homenagem, adulterada depois com o tempo; ou ainda a do polimático Possidónio, filósofo admirado na Antiguidade, cujo nome viria, mais tarde, a ser usado como sinónimo do oposto de quem foi; ou mesmo o uso difamatório do nome da tribo dos Vândalos, cujo percurso histórico foi invejável e foram dos povos mais civilizados a conquistar a cidade de Roma.

Georges Frederic RoskopfE quanto a «roscofe»? Bem, Georges Frederic Roskopf (1813-1889) foi um inventor, nascido alemão e depois naturalizado suíço, do final do século 19 que pretendia vender relógios de bolso de qualidade e baratos para as pessoas comuns, em vez de apenas pessoas abastadas os poderem comprar. Quis apenas permitir a qualquer um saber a quantas andava, por assim dizer, numa altura em que os relógios tinham de ser produzidos à mão e eram vistos como peças de joelharia. Queria democratizar o tempo!
Na língua alemã, a combinação de letras Pf (como em Pferd, «cavalo»), lê-se apenas «f». Daí que se leia «Roscofe» e «Fêrde». Curiosamente também, «Ros» em Alemão antigo significa «cavalo» e «kopf» significa «cabaça». Assim, «Roscopf» significa «Cabeça de Cavalo»...
Para uma análise à subjectiva e carecida de fundamento real acepção do Alemão como uma língua feia e rude, leia-se o artigo
Die Wahrheit den Herzen

Quando nasceu, em 1813, Napoleão tinha sofrido, no ano anterior (1812), a grande derrota na Invasão da Rússia, enquanto na Península Ibérica Wellington derrotava as tropas francesas e nascia, no norte da actual Itália, o compositor Giuseppe Verdi. Roskopf, nascido na então-alemã cidade de Niderwiller (faz agora parte da França), tinha 9 irmãos e tornou-se, com a idade de 21 anos, aprendiz de relojoeiro numa firma na cidade de La Chaux de Fonds, no cantão de língua francesa de Neuchatel, na Suíça.

Acalentava o sonho de construir relógios de qualidade e baratos para as massas e, em 1860, conseguiu finalmente fazer um bom relógio, sólido e fiável, ao preço de uma semana de trabalho de um trabalhador não-qualificado, a que seu o nome de montre proletaire. Mas os outros relojoeiros não aceitaram bem a ideia de um «relógio para o povo» e, só em 1867, é que pode começar a produzir os seus relógios, com um mecanismo interno mais simples e que ia de encontro às necessidades dos seus compradores.

Relógio RoskopfUma das características que tinha era a de não possuir ponteiro dos segundos, tal como os restantes relógios do seu tempo (não era considerado necessário então saber com exatidão os segundos, excepto pelos médicos, para mediram as batidas cardíacas). Graças à introdução, nos seus relógios, de uma mola «inquebrável» inventada por Adrien Philippe, os seus relógios eram mais resistentes do que os dos seus concorrentes. Também a introdução de uma esfera (ou disco), no topo, com a qual, rodando, se dava corda ao relógio, foi uma característica introduzida por Roskopf (até então a corda era dada com o uso de uma chave nas costas do relógio). Outras inovações em termos mecânicos permitiam a fabricação em série de um relógio fiável, barato e que podia ser produzido em massa, o que ia ao encontro do sonho de Roskopf. O relógio estava inserido numa caixa feita de «Prata alemã», que na verdade é um liga metálica de Cobre, Níquel e Zinco que tem uma aparância prateada. Como, no final do século 19, os alemães aperfeiçoaram o seu fabrico, passou a ser conhecido como «Prata alemã», ainda que de prata tenha só a aparência. Graças a essa característas e aos tumultos causados pela guerra com a inda e vinda de exércitos inteiros neste período conturbado da História europeia, os relógios Roskopf ganharam fama e aceitação generalizada. De aparência requintada, com um preço acessível e podendo ser produzido em massa, o Relógio Roskopf tornou-se muito popular, até entre as classes mais abastadas. O filho (Fritz Edouard Roskopf) e depois o neto (Louis-Frederic Roskopf) deram seguimento ao seu sonho.
As antigas moedas de Escudo eram também feitas, tal como os relógios Roskopf, de «Prata alemã».
Antiga moeda de 50$00


Mas o sonho de Roskopf tornou-se vítima do seu próprio sucesso. Perante a qualidade, facilidade de fabrico e número de vendas do relógio (Georges Roskopf terá produzido perto de 20 milhões de relógios, o seu filho mais outros 20 milhões e o seu neto 10 milhões), outros fabricantes de relógio começaram a fazer cópias menos fiáveis, com menos peças e mais baratas de fazer. Vendidas com pequenas alterações do nome (como «Rosskopf», com duplo «s» ou com a designação «Estilo Roskopf») estes relógios invadiram o mercado e emprestaram a sua má qualidade e defeitos de fabrico ao prestigiado nome Roskopf. Um nome que representava simultaneamente relógios fiáveis e acessíveis passou a ter uma acepção adulterada e contrário ao sonho que lhe deu origem. Como tantas vezes aconteceu ao longo da História, o que começou como um sonho que pretendia elevar a qualidade de vida da Pessoa Comum foi desvirtuado pela ganância de outros, que apenas procuravam lucro fácil.

Saber a verdadeira origem do termo «roscofe» alterará a forma como é vulgarmente usado? Dificilmente mas é sempre bom termos presente os sonhos de outros que esmagamos sobre as botas da nossa ignorância...


Publicado por Mauro Maia às 18:44
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