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Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 20 de Novembro de 2005
Fumare salutem
O Cognosco tem apresentado algumas das substâncias que impulsionam o ritmo de vida acelerado da civilização dita «ocidental», se bem que cada vez mais «global».
Falou-se na gasolina em Octanas para que te quero;
Referiu-se o café em Cafea est optima amica;
(Foi também abordado marginalmente o dinheiro em O vil papel. Apesar de não ser uma substância per se é o combustível da economia global).

Mas outras substâncias concorrem a um cantinho no coração da Humanidade.
Uma delas é um líquido amarelo, venenoso, com um cheiro desagradável e persistente (porque penetra facilmente na pele e no cabelo).

Podia-se pensar que, com tais atributos, poucos aceitariam o seu convite para dançar, mas o número dos seus apaixonados tem sucessivamente crescido. Em 2003, de acordo com o World Health Report, 1 mil milhões e 300 milhões de pessoas no mundo inteiro (em 6 mil milhões e 300 milhões de pessoas) tinham sucumbido ao seu charme.

Este líquido venenoso amarelo dá pelo nome de Nicotina.

Nicotiana tabacum em florA nicotina é uma substância produzida pelas plantas como pesticida natural, como no caso da supra-citada cafeína. Tem como fim exterminar os insectos que se alimentem da planta. Apesar de ser um potente gás dos nervos, em pequenas quantidades actua como estimulante. A fonte mais conhecida de nicotina é a planta Nicotiana tabacum (mais conhecida como a planta do tabaco), uma planta da família das solanáceas, género Nicotiana, espécie tabacum. A nicotina é sintetizada nas raízes e concentra-se nas folhas, totalizando até 5% do peso seco da planta.

Outras espécies de plantas da famíla das solanáceas (família que inclui o tomate «Solanum lycopersicum, a batata «Solanum tuberosum», a beringela «Solanum melongena» e a pimenta verde «Capsicum annuum») também contêm nicotina nas suas folhas, mas em muito menores quantidades.
As folhas da planta de coca («Erythroxylum coca») também contêm nicotina.
Marguerite de Valois
A substância nicotina, bem como o nome do género Nicotiana, advêm de Jean Nicotin, o embaixador francês em Portugal de 1559 a 1561. Nicotin veio a Portugal para arranjar o casamento do rei português de 5 anos, D. Sebastião, com uma princesa francesa de 6 anos, Marguerite de Valois.
(O casamento acabaria por não ir em frente e esta acabou por casar com o futuro rei de Inglaterra, Henrique IV).

Quando Nicotin regressou a França, levou algumas sementes da planta, originária das Américas e consumida pelos nativos em cerimónia religiosas. A planta (e o seu consumo) fez sucesso rapidamente e a planta recebeu o nome popular de nicotina (que se preserva na designação científica do género) mas eventualmente o nome passou a designar a substância activa que continha.

Em pequenas doses a nicotina tem um efeito estimulador, aumentando o nível de actividade, alerta, prontidão e memória no corpo humano, tal como a cafeína. Mas, como esta, também aumenta a presão sanguínea, os batimentos cardíacos e reduz o apetite (os consumidores frequentes apontam geralmente como sintoma da sua ingestão um relaxamento dos músculos).
Entre 40 e 60 mg são geralmente os níveis tóxicos para o organismo humano.

Os sintomas da interrupção do fluxo de nicotina para o corpo de alguém dependente da substância incluem irratibilidade, dores-de-cabeça, ansiedade, distúrbios cognitivos e perturbações do sono. Estes sintomas têm um pico de intensidade entre 48 e 72 horas após a interrupção e geralmente desaparecem ao fim de 2 a 6 meses. (Tempo mínimo geralmente necessário para se acabar com «o vício do tabaco»).

A nicotina é vulnerável à temperatura, sendo destruída facilmente pelo calor. Assim a quantidade de nicotina que penetra no corpo através do fumo do tabaco é pequena, mas como tem um elevado grau de criação de dependência, essa pequena quantidade é suficiente para despoletar o vício.

Após penetrar no corpo (pelos pulmões ou pela pele), a nicotina entra rapidamente na corrente sanguínea e, ao chegar ao cérebro (em média 7 segundos após a entrada na corrente sanguínea), ultrapassa facilmente a barreira que o separa do sangue. No cérebro actua sobre alguns receptores que controlam a libertação de adrenalina.

Se em pequenas quantidades, a nicotina leva a um aumento da produção da estimulante hormona adrenalina no cérebro.
Mas em quantidades elevadas a nicotina bloqueia os receptores, o que origina a sua toxicidade e o seu uso como insecticida (pelas plantas e também pelo Homem!)
Além disso, como também o faz a cafeína, a nicotina aumenta os níveis de dopamina no cérebro, o que activa artificialmente os circuitos de bem-estar no cérebro. Dessa forma pode causar o bem-estar (?!) referido pelos fumadores e também explica como surge o vício. (As drogas viciadoras funcionam dessa forma, aumentando os níveis de dopamina no cérebro, o que conduz à necessidade da sua permanente ingestão para manter esses níveis elevados).

Os efeitos carcinogénicos da nicotina são ainda objecto de estudo, mas dados recentes apontam para que a a nicotina não seja a causa directa de cancro em células saudáveis (não terá propriedades mutagénicas). Mas a nicotina bloqueia a apoptose das células com defeitos genéticos. A apoptose é o mecanismo natural de morte auto-programada das células. Quando existe essa necessidade, as células auto-destroem-se (para além da auto-destruição de células com defeitos, ocorre, por exemplo, durante o desenvolvimento do feto, quando as células que ligam os dedos da mão se auto-destroem para permitir a sua individualização).

Dessa forma, a nicotina poderá (ainda não está claramente estabelecido se sim ou não e não tendo em consideração os restantes químicos presentes num cigarro) permitir a sobrevivência de células com defeitos genéticos, abrindo assim caminho para o surgimento de cancro. O conjunto de todos os químicos presentes num cigarro é cancerígeno e a nicotina inibe a capacidade do corpo eliminar as células potencialmente cancerígenas. A combinação é, sem dúvida, letal, como o atestam as estatísticas internacionais. (Em 2001, no mundo inteiro, 2 milhões e 100 mil pessoas morreram em consequência do tabaco. Em 2030, a projecção dos mesmos números aponta para 7 milhões de mortes).

E os riscos para a saúde dos fumadores passivos (aqueles que, como eu, não fumam mas têm de levar com o fumo dos outros nos locais públicos) têm sido confirmados por inúmeros estudos: o risco de desenvolvimento de cancro do pulmão é 20% a 30% mais elevado em pessoas expostas ao fumo do tabaco e é 23% mais elevado no caso das doenças cardíacas.

As crianças são as principais afectadas pelo fumo dos adultos. Há um risco elevado de crianças expostas rotineiramente ao fumo do tabaco desenvolveram bronquites, pneumonias, agravamento da asma, doenças auriculares, perturbações neuronais e comportamentais e doenças cardio-vasculares em adulto. O mesmo se aplica aos fetos em desenvolvimento quer em mães activamente fumadores quer em mães fumadoras passivas, riscos que se acumulam depois do nascimento quando a criança se torna também fumadora passiva.

A título de curiosidade, foi verificado que entre 75% e 90% das pessoas diagnosticadas com esquizofrenia fumam. Poderá ser uma forma de aliviar a tensão psicológica que a doença provoca, aumentando os níveis de dopamina no cérebro...

No título «Fumar a saúde»


Publicado por Mauro Maia às 14:51
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10 comentários:
De deprofundis a 20 de Novembro de 2005 às 21:26
Caro Mauro. A minha memória, já ronceira, por vezes prega-me cada partida! Desta vez, agradável. É que julgo que ainda me lembro da definição de "índice de octana" que tive que decorar na minha cadeira de "Motores e Material Automóvel". Aí vai: «O índice de octana de uma gasolina é a percentagem de isooctana, numa mistura de isooctana e heptana com o mesmo poder antidetonante dessa gasolina».


De Mauro a 20 de Novembro de 2005 às 21:35
É uma definição concomitante e deveras interessante da detonante octana. Quiçá tão detonante como a periclitante nicotina... É uma memória vinda tão deprofundis essa, que relembra com tamanha exactidão semelhante definição. As gerações mais novas nem sabem(os) do que se livraram...


De Maria Papoila a 20 de Novembro de 2005 às 22:21
Olha Mauro, para mim que sou da arte, este artigo está esclarecedor e vem a propósito porque a 17 de Novembro comemora-se o dia do não fumador! Estou rendida! Abraço


De Mauro a 20 de Novembro de 2005 às 22:36
Para mim, que sou não-fumador (mas oriundo de uma família imensamente fumadora), o dia do não-fumador devia ser todos os dias. Foi um curiosa coincidência, o ter escrito um artigo num dia tão próximo (meros 3 dias após) o do não-fumador. Obrigado, Maria Papoila, pela visita, pela «rendição» ;) e pela chamada de atenção para um dia que devia ser ano, década, século, milénio...


De marius70 a 21 de Novembro de 2005 às 06:10
NICOTINA - Embaixador francês em Portugal no século XVI, Jean Nicot, levou o tabaco para a França. Só 200 anos depois a droga presente nas folhas do tabaco foi isolada e recebeu seu nome: nicotina. O que durante um século foi uma homenagem hoje parece ser um castigo. Um abraço Mauro


De Mauro a 21 de Novembro de 2005 às 10:33
Ave Marius, tens razão. O que o embaixador Nicotin poderia ter visto como um elogio seria hoje o pior insulto, como uma criança nascida em 1930, a quem tivesse sido dado o nome de Afolf, olhando hoje para o seu BI, com 75 anos... A cultura humana tem este tipo de reviravoltas que não se compadecem com a mesmo assim limitada esperança de vida do ser humano...


De PN a 22 de Novembro de 2005 às 19:09
Uma prova de como essas estatísticas relativas aos fumadores passivos, é o caso da namorada de um dos meus primos. Ela não fuma, nem nunca fumou, contudo todos os dias está sujeita ao fumo de dezenas de pessoas que o fazem num espaço interior e público, de tal maneira que uma radiografia acusou uma mancha nos pulmões semelhante à que teria um fumador.


De Mauro a 22 de Novembro de 2005 às 22:20
É uma das consequências de conviver com activos fumadoras, as manchas nos pulmões (e eu já vi, por mais de uma vez, em cafés, um grupo de adultos a fumar desalmadamente e com os seus bebés em carrinhos de bebé ao seu lado ou mesmo ao seu colo). Mas também sei que as manhchas nos pulmões surgem também devido à poluição atmosférica nas cidades, devida aos automóveis. Só que ser fumador (Activo ou passivo) agrava e amplia muito essas manchas já de si indesejáveis, PxN. Obrigado pelas palavras e pela partilha de um testemunho em primeira mão (ou em segunda mão, neste caso). Não há como personalizar as questões para que por vezes as pessoas se consciencializem das mesmas...


De Elsita a 22 de Novembro de 2005 às 22:39
Mauro!!!!!!! Vinha eu tão feliz e contente saltitante de nenúfar em nenúfar rsrsrs e dou de caras com esta triste realidade que me atinge em cheio (bingo). Sou fumadora, pronto, assumo! Estou tentando deixar o vício, mas ele: não me quer largar!Eu conheço "todos" os malifícios do tabagismo...mas...tu sabes!Perdão vou-me retirar humildemente dependente! Fica bem


De Mauro a 22 de Novembro de 2005 às 23:37
Elsita, eu peço desculpa por ter sido o involuntário causador da tua tristeza. Não era certamente essa a intenção (nem a ti nem a qualquer outra pessoa). Certamente sofrerão mais do que eu. O vício é como a caixa de Pandora: enquanto não se abre está tudo bem, quando se abre dificilmente se consegue fechar e todos os males do Mundo libertam-se. Por isso costuma ser tão difícl abandonar um vício (é uma caixa difícil de fechar) e por isso eu nem sequer toco na fechadura... (o mito de Pandora foi abordado em http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/579930.html) Bom, se o vício não te quer largar, talvez ele tenha melhor gosto do que à partida se pensaria... ;)


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