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Diário das pequenas descobertas da vida.
Terça-feira, 25 de Outubro de 2005
Duplex negatio
Usa-se correntemente expressões como estas: «Não vi nada», «Não vi ninguém».
São expressões formuladas com a intenção de serem negativas.
No entanto usa-se uma dupla negativa na expressão, situação que, em termos lógicos, anula a negativa e a torna afirmativa.
Se alguém diz «Não vi tudo», sabe-se que ficou algo por ver.
Então se se diz «Não vi nada», é porque algo foi visto
(teria de se dizer «Vi nada», tal como se diz «Vi tudo»).

Costumava pensar que esta situação se devia à crónica iletracia matemática portuguesa.
Mas a prudência em referir essa hipótese sem bases de sustentação compensou.
Este paradoxo de se pretender falar na negativa, formando uma dupla negativa (que é equivalente a uma afirmativa) permeia as línguas de origem latina.
Há no Espanhol («No quiero nada»), há no Francês (o inesquecível «Je ne regrette rien» de Edith Piaf), no Italiano («No fato niente»), há no nosso Português,...
No entanto tal construção de dupla negativa é inexistente nas línguas germânicas.
O equivalente inglês do «Não vi nada» é «I didn't see anything», que é literalmente «Não vi coisa alguma». Se alguém disser «I didn't see nothing» será alvo de chacota.
No alemão a situação é igual.

Numa gramática latina que por acaso tinha à mão, procurando no índice, eis que me surge a construção gramatical «dupla negativa».
Folheei (atenção que não se diz desfolhei, isso é retirar as folhas e não percorrê-las) então a dita gramática («Gramática Latina», das publicações da Faculdade de Filosofia e Livraria A.I., edição de 1987) para as páginas que referiam.

Continha alguns exemplos do uso da dupla negativa em Latim.
Mas os Romanos usavam-na como «equivalente a uma afirmação e dá-lhe maior ênfase».
Ou seja em Latim tinham a consciência das regras da lógica na construção de frases.
Como exemplos:
«Non indignus» - muito digno;
«Non nescius» - muito competente;
«Nemo non videt» - todos vêem.

Referiam ainda como a posição da partícula non na frase afectava o significado e poder ter assim dois significados (ambos graus diferentes de afirmação).
.: Non antes de uma palavra negativa significa algum;
(Non nemo vidit - Vi alguns)
.: Non depois de uma palavra negativa significa todo;
(Nemo non vidit - Vi todos)

Assim, a frase
Nemo non mortalis est é «Todos (os Homens) são mortais»;
Non nemo pauper est é «Alguns (Homens) são pobres».
(O adjectivo latino pauper é usado no superlativo absoluto sintético português de pobre «paupérrimo»)

Como se passou de «uma dupla negativa reforça a afirmativa» para
«uma dupla negativa reforça a negativa» é mais um desses mistérios com que a evolução das línguas humanas nos brinda.

Suspeito, no entanto, de uma possível origem. Na altura em que o Latim era a língua mais viva da Europa, havia duas classes de Latim, uma para cada classe dentro da sociedade romana.
Havia o Alto Latim, falado pelos oradores, pelos políticos, pelos pensadores.
Havia o Baixo Latim, falado pelos membros da classe mais humilde e, no sistema sem educação obrigatória romano, sem instrução.

Quem falava o Alto Latim preocupava-se com a forma como se expressava, com a preservação da correcta construção gramatical e pelo adequado uso semântico.
Quem falava o Baixo Latim preocupava-se meramente em que outros o entendessem, sem preocupação pela pureza da língua.

As línguas românicas (Português, Espanhol, Francês, Italiano) derivam todas do Baixo Latim. Pode entender-se assim facilmente como uma distorção no uso da dupla negação se pode ter dessiminado pelas línguas românicas modernas. De reforço da afirmativa (numa construção de inegável valor lógico) passou-se para o reforço da negativa (numa construção que ignorava subtilezas e apenas se preocupava com o significado imediato).

Tenho verdadeiramente pena que a evolução das línguas siga o sentido da sobre-simplificação, por tal destruir formas gramaticais e semânticas de claro valor estético e lógico. Para quem já tenha entrado em contacto com o Grego clássico e o compare com o moderno, ou quem tenha visto o Latim e o compare com as línguas românicas actuais não pode deixar de notar a maior pobreza das últimas.
Estou absolutamente consciente da necessidade e do valor da evolução como processo que formou o Universo em que habitamos e dotou a Terra de toda a variedade que conhecemos.

Mas não posso deixar de sentir pena pela evolução da linguagem humana tender para a simplificação e não para a complexidade, tender para o empobrecimento e não para o enriquecimento.
(Já no artigo Evolução e princípios fiz uma reflexão semelhante, num outro contexto.)

O uso da dupla negativa em Português é evitável facilmente («Não vi coisa alguma», «Nada fiz», «Não fiz coisa alguma», «Nada sei», «Sei coisa nenhuma»,...), pelo que eu faço o esforço consciente de banir o seu uso no meu discurso oral e escrito. Por vezes falho (tal é a força do hábito) mas faço por banir. Mas é difícil de sustentar essa luta perante a avalanche do seu uso quotidiano em Portugal.
Não tenciono modificar a forma como as pessoas se expressam, esta é uma questão a meu ver pessoal e o uso legitimou a dupla negativa como negativa (e não como afirmativa) em Português. Aceito isso, mas não me entrego. É por esta luta pessoal ser difícil de manter que redobro ainda mais o esforço de me auto-corrigir.

A inconsciência dos processos lógicos da estruturação do pensamento humano pode conduzir a aparentes paradoxos, fruto apenas da incorrecta utilização da lógica:
«Penso logo existo» -> «As batatas não pensam logo não existem»
A negação de implicações inverte o sentido das implicações.
«Penso, logo existo» -> «As batatas não existem logo não pensam», frase que é assim lógica: o que não existe não pensa.

Assim se vai no caminho da Lógica na Europa latina, a Lógica que moldou o espírito humano, seguindo a sua dupla progenitora, a Matemática, que moldou o Universo e a Lógica. (Como visto em Omnia factus mathematica).

No título «A dupla negativa»


Publicado por Mauro Maia às 20:09
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16 comentários:
De maresia a 26 de Outubro de 2005 às 09:07
há uns anos atrás surgiu essa questão num site, o Ciberdúvidas. Não é, a meu ver, uma questão linear, para além do "correctamente falando" existem muitas situações em que se utilizam expressões que analisadas à lupa não fazem qualquer sentido mas que são aceites no dia-a-dia como correctas.


De Mauro a 26 de Outubro de 2005 às 11:56
Sim, concordo contigo Maresia, a questão não é linear. Por isso mesmo ressalvo no artigo que se trata de uma questão pessoal e que o uso já ligitimou a dupla negação como uma negação. Não digo que é incorrecto usá-la. Digo apenas que eu faço o esforço de a evitar, uma vez que é facilmente possível e que assim preservo lógica do que digo. Não tenciono (nem o faço) corrigir seja quem for (até porque não é um erro). Ninguém está errado em usá-la como ninguém está errado em não a usar. Está instituído. O objectivo do artigo era primordialmente determinar a origem desta questão em particular e o porquê da sua presença nas línguas latinas mas não nas germânicas. É, como contas, uma dúvida que não é original, já num site tinha surgido. Desconhecia este facto mas as respostas que obtive são válidas em si mesmas. Obrigado Maresia pela visita e pelo olho crítico (no sentido positivo do termo).


De deprofundis a 26 de Outubro de 2005 às 16:07
Cponcordo consigo. Especialmente porque, por razões profissionais, tenho tido muito contacto com a línua inglesa. Mas isto de línguas é mesmo asim: há por vezes uma grande falta de lógica. Estou a lembrar-me do significado da palavra "actually" de raiz latina. Curiosamente, significa "realmente" e não "actualmente", o que me parece uma distorção. Por outro lado, gostemos ou não, o que comanda a evolução das línguas é a lei do menor esforço, o que não é brilhante.... Embora aprecie a pureza da nossa língua, recuso-me a aceitar a sua não evolução. É que uma língua é uma ferramenta de comunicação e não uma peça de museu.


De Elsita a 26 de Outubro de 2005 às 16:47
Completíssimo este post,imprimi para lê-lo melhor.
Sinceramente acho a nossa língua maravilhosa, já em relação ao Inglês, acho odiável a composição das frases. Amo de paixão o Francês, adoro a pronuncia...enfim. Aprecio uma pessoa que fale correctamente o Português, ainda que cada vez seja mais difícil encontrá-las.Fica bem. Tambem podes encontrar-me no: http://utilidades.blogs.sapo.pt/ (http://utilidades.blogs.sapo.pt/)


De Nox a 26 de Outubro de 2005 às 20:14
Já me tinha interrogado sobre isto... Bom artigo. Mas de facto é extremamente difícil corrigir um hábito de anos ou décadas, ainda para mais de uso corrente e geralmente não apontado como erro...


De Mauro a 26 de Outubro de 2005 às 21:11
Devo realçar novamente que a «dupla negativa como negativa» não é um erro segundo a norma portuguesa actual, nem eu o considero como tal. A questão da evolução da língua é um argumento com duas lâminas, «deprofundis» (valsa lenta?!): a evolução de uma língua é um processo imparável, não há como o evitar nem sequer se procurar fazê-lo. Mas a evolução não deve servir como desculpa para erros gramaticais ou semânticos (como já vi fazer). Uma evolução é um processo gradual, de adaptações ligeiras que se acumulam ao longo do tempo. Um ser vivo com bruscas mutações raramente sobrevive, excepto em casos de mudanças bruscas do meio ambiente e consequentes extinções em massa. A evolução como processo inevitável é algo desejável e imparável, o erro é outra. Um erro é sempre considerado à luz a norma vigente. «Pharmácia» ou «mèdianamente» é um erro segundo a norma actual, não o era há 100 anos. A dupla negativa como negativa (e não como afirmativa) não é um erro, é perfeitamente correcto segundo a norma actual. Eu evito fazê-lo por chocar com os padrões da lógica que formou o universo e tudo o que nele existe (incluindo nós). Eu não o faço mas aceito perfeitamente a sua presença. Faz parte da evolução da língua, sem dúvida. A sua presença nas linguas latinas atesta bem a sua antiguidade. E eu abraço a evolução como o processo que tudo formou e que tanta beleza nos permitiu contemplar. Devo confessar-me, «Elsita», como amante de todos as línguas mas como amador de todas elas (o nosso belíssimo Português incluído). O Inglês tem a sua beleza, como o tem o Francês, o Alemão, ... Não há dúvida que a nossa parece ser das mais belas, pelo grau profundo das suas analogias, dos seus sinónimos, de toda a sua estrutura. Mas gostava de conhecer mais (como o Árabe ou o Chinês) para fazer um ranking pessoal... Cara Nox, é realmente difícil e se calhar nem é desejável. Esta é sem dúvida uma luta pessoal minha, uma luta para preservar a minha coerência lógica. É uma forma de manter a minha auto-vigilância desperta, para que outros erros (quiçá mais graves) surjam com menos frequência. A auto-correcção é um músculo mental que convém manter em forma. A lógica é sem dúvida a sua melhor treinadora...


De deprofundis a 26 de Outubro de 2005 às 22:57
O meu forte não é a valsa (lenta ou rápida - já li esse livro de José Cardoso Pires e gostei muito). O meu forte é o swing, mas do golfe... Já agora, a propósito de falta de lógica, cá vai uma redundância muito comum "Há uns anos atrás". Eu cá digo apenas "há uns anos" ou então "uns anos atrás". Um abraço e parabéns pela sua luta. Estou consigo.


De Mauro a 26 de Outubro de 2005 às 23:56
É de facto uma redundância cada vez mais comum. «Há um ano» é perfeitamente suficiente, que é atrás é óbvio. Ainda não há viagens no tempo, pelo que não é possível «Há um ano à frente». Mas curiosamente há uma consequência interessante que se retira da relatividade geral aplicada a um universo fechado sobre si mesmo: as viagens no tempo seriam possíveis, num tal universo (como é que seria a parte difícil). A questão é que ainda não se sabe a forma do nosso universo, não se sabe se será aberto (infinito) ou fechado. A ser ilimitado, por muito que se andasse sempre haveria mais para andar. Se fosse fechado, ao fim de um certo tempo a viajar (equivalente ao diâmetro da universo) voltaríamos ao ponto de partida (como na superfície da Terra). Talvez aí se pudesse aplicar a expressão «há um ano à frente»...


De Maria Papoila a 27 de Outubro de 2005 às 14:10
Mais um dos artigos que me prendeu, e tal como a elsita imprimi para o ler, e reler. Na verdade, embora não seja considerado erro a dupla negativa em português, é bom fazer o esforço de não a utilizar na escrita, pois a torna bem mais erudita como a tua de hoje. O rigor e cuidado da investigação semântica, fascinou-me como sempre, e por isso não deixarei de passar por cá. Obrigada pelas visitas ao meu campo! Beijo


De js a 27 de Outubro de 2005 às 14:35
..no meio disso os franceses criaram o "si" nas respostas... para baralhar ainda mais a questão...
FORÇ'Aí!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt


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