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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005
Mathematicus demidius cor
A 21 de Outubro de 1833 nasceu em Estocolmo, Suécia, um menino a quem foi dado o nome de Alfredo. O seu pai era um engenheiro de pontes chamado Immanuel que também se interessava pela investigação sobre explosivos. Mas as coisas correram mal e Immanuel ficou na miséria. Deixou por isso a família em 1837 para procurar trabalho na Finlândia e na Rússia. As coisas melhoraram e, em 1842, a sua família juntou-se-lhe em São Petersburgo. Lá o pequeno Alfredo recebeu uma excelente educação.

O pequeno Alfredo gostava de Química e Física, apesar das suas paixões serem a Literatura e a Poesia (quando morreu deixou escritos 1 500 livros de Literatura, Poesia e Filosofia). Mas o seu pragmático pai considerava semelhantes coisas uma perda de tempo e decidiu que o seu filho receberia formação como Engenheiro Químico. Como o seu pai, Alfredo desenvolveu um gosto por explosivos, em particular pela nitroglicerina. Esta tinha sido descoberta pouco tempo antes (em 1847) por Ascanio Sobrero. Era um líquido pastoso, incolor, muito explosivo e acima de tudo muito instável e sensível ao mais pequeno choque. Alfredo decidiu experimentar várias combinações de nitroclicerina com outros compostos para a tornar mais estável e manejável.

Em 1867 Alfredo patenteou um composto de nitroglicerina a que deu o nome de dinamite. E nos anos seguintes viajou pelo mundo vendendo a sua invenção e tornando-se cada vez mais rico. Pelo caminho ia patenteando outras descobertas (num total de 355, como a seda artificial, a borracha sintéctica, entre outras).

Quando morreu, a 10 de Dezembro de 1896 em São Remo, Itália, Alfredo doou 9 milhões de dólares para a criação de uma instituição que deveria premiar anualmente as personalidades que «mais contribuiram, no ano anterior, para o maior benefício da Humanidade» numa de 6 áreas: Paz, Literatura, Física, Química, Medicina (ou Fisiologia). O da Economia surgiu mais tarde, instituido por um banco.

Nasciam os Prémios Nobel
(que, respeitando as convenções da língua portuguesa, deve ser lido como «Nobél», por terminar em L e não ter acento na penúltima sílaba).

Mas uma área do conhecimento humano, uma que tem acompanhado o Homem desde que ele surgiu na face do planeta, foi misteriosamente deixada de lado:
não há Prémio Nobel da Matemática!

~ Cá para mim ele também não gostava de Matemática! Era cá dos meus!

Os mais néscios poderão pensar que isto se deveu a alguma aversão de Nobel pela Matemática.
Tendo sido Nobel engenheiro e inventor, os conhecimentos e as aplicações matemáticas ter-lhe-ão sido muito importantes.
Por isso a razão desta ausência tem sido objecto de muitas especulações.

.:. Uma das especulações mais comuns (se bem que inteiramente infundada) é a de que Nobel terá decidido não atribuir um prémio à Matemática por causa uma mulher que não o quis (ou trocou-o ou atraiçoou-o) por um eminente Matemático sueco da altura, Gosta Mittag-Leffler. Ela tê-lo-ia recusado em detrimento de um Matemático famoso (ou tê-lo-ia traído com um).
Mas não há evidências históricas que apoiem tal afirmação.

Em primeiro lugar, Nobel (o nosso pequeno Alfredo) nunca casou. Por isso não podia ter sido traído ou trocado por Gosta. Ele teve realmente uma amante, uma vienense chamada Sophie Hess mas não há registo de qualquer separação ou traição.
Depois, apesar de Gosta Mittag-Leffler ser um matemático importante na Suécia nos finais do século XIX, princípios do século XX e fundador do jornal Acta Mathematica, além de ter tido um papel importante no estabelecimento da Universidade de Estocolmo enquanto director da Stockholm Hogskola, precursora da Universidade, parece altamente improvável que ele tivesse sido um grande candidato para um Prémio Nobel da Matemática. Na mesma época viveram grandes Matemáticos como Poincaré e Hilbert.

Acresce que não há evidências de que Gosta Mittag-Leffler tivesse muito contacto com Nobel (que morou em Paris nos últimos tempos da sua vida) e muito menos que houvesse inimizade entre eles por qualquer razão.
Pelo contrário, perto do final da vida de Nobel, Gosta Mittag-Leffler esteve envolvido em negociações diplomáticas para tentar persuadi-lo a legar parte da sua fortuna à Hogskola.
É difícil de acreditar que ele o tivesse tentado se existissem problemas entre eles.
Até porque inicialmente Nobel teve mesmo a intenção de fazer esse legado à Hogskola.
Só depois lhe ocorreu a ideia do Prémio Nobel, para grande desgosto da Hogskola (para não falar no dos parentes de Nobel e da "senhorita" Hess, claro).

.:. Uma outra especulação é do foro psicológico: será que Nobel, ao escrever o seu Testamento, presumivelmente repleto de grande benevolência para com a Humanidade, se teria permitido a este acto de má vontade, só para distorcer os seus planos idealistas para o monumento que ele iria deixar? Parece demasiado rebuscado e irrealista que alguém tenha doado toda a sua fortuna para uma instituição que propositadamente teria «maculado».

Face da medalha do Prémio Nobel.:. A explicação mais plausível é a de que Nobel, inventor e industrial, não criou um prémio para a Matemática simplesmente porque não se interessava por ciências teóricas. O seu testamento falava de prémios para aquelas "invenções e descobertas" de grande benefício prático para a Humanidade. Esta não ser considerada uma ciência prática da qual a Humanidade pudesse beneficiar (o principal motivo da criação da Fundação Nobel).
A isto só posso conter um brado de exclamação por uma tão veneranda instituição prolongar um preconceito desactualizado do século XIX.
(Para não ficarem fora da festa dos Grandes Prémios, os matemáticos domundo decidiram lutar. Em 1924, no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM) realizado em Toronto, Canadá, foi decidido que em cada nova sessão do Congresso seriam atribuídas duas medalhas de ouro para reconhecer grandes feitos Matemáticos.)

Contudo a versão das rivalidades por causa de uma mulher é muito mais apelativa às (in)sensiblidades das massas e por isso irá continuar a transmitir-se erradamente a ideia do
«Amor atraiçoado logo não há Prémio Nobel da Matemática.»

Os membros da família Nobel ficaram chocados quando viram que a fortuna que esperavam receber tinha sido dada por Nobel para criar os Prémios Nobel.
Contestaram em tribunal o testamento mas perderam.
Os desejos de Nobel foram concretizados e os primeiros foram atribuídos em 1901, cinco anos após a sua morte (acho sempre estranho quando vejo a expressão «aniversário da sua morte». O paradoxo da frase é por demais evidente).

Foram atribuídos nesse primeiro ano de 1901 o Nobel da Química a Jacobus H. van 't Hoff; da Literatura a Sully Prudhomme; de Medicina a Emil von Behring; da Paz a Henry Dunant e Frédéric Passy; da Física a Wilhelm Conrad Röntgen
O Prémio Nobel da Economia foi apenas estabelecido em 1968 pelo Riksbank (Banco Sueco) por altura do seu tricentésimo aniversário.

A Academia Real de Ciências de Estocolmo administra os prémios de Física e de Qúímica, o Instituto Real Médico Caroline atribui o de Medicina, a Academia Sueca atribui o da Literatura e o Parlamento Norueguês atribui o da Paz.

Alfred Nobel faria hoje, 21 de Outubro de 2005, 172 anos e ainda hoje o seu nome é snónimo de prestígio. Mas concerteza ele também teria gostado de ser conhecido pela sua vasta obra literária. Destinos...

No título «Coração partido matemático»


Publicado por Mauro Maia às 22:53
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9 comentários:
De Rui a 22 de Outubro de 2005 às 10:22
Lá vai um pormenor: o testamento original de Nobel não incluía a Economia como uma das grandes áreas da Humanidade, e este prémio só fio instaurado anos mais tarde por uma entidade exterior, o tal banco-não-sei-das-quantas. Os mais puristas não apreciam os Nobel da Economia, por não serem objecto do testamento original, e a pergunta que se faz é óbvia: se a Economia entrou mais tarde, e por forças exteriores, porque não também a Matemática?


De Mauro a 22 de Outubro de 2005 às 14:57
Pois, como diz o artigo, o da Economia foi instituído em 1968 pelo Riksbank para celebrar os seus 300 anos. Os primeiros foram em 1901, este foi em 1969. Mas tens razão quando o salientas. O artigo refere que Nobel deixou dinheiro para a criação dos prémios e refere o da Economia, que existe actualmente mas que ele não instituiu. Tornarei mais claro o artigo nesse ponto. Os puristas não gostam do da Economia. Por um lado percebo a sua posição. Se deu para adicionar um prémio, nada impede que se adicionem outros. A única questão é o valor. Quem pagaria os novos Nobel? O da Economia é pago pelo banco que o instituiu. Quem pagaria o da Matemática? Gostava que houvesse um mas...


De Maria Papoila a 23 de Outubro de 2005 às 20:01
Este blog fascina-me pelas suas cogitações, e interrogo-me como se ganham prémios nobel da Economia sem Matemática? será que as teorias económicas não assentam também nas teorias matemáticas? Estarei a cogitar erradamente? Beijo


De Mauro a 23 de Outubro de 2005 às 22:17
Cara Maria Papoila, é com prazer que leio tão boa cogitação. É de facto claro que as teorias económicas assentam sobre bases matemáticas. Muitos aliás dos prémios Nobel da Economia que foram atribuidos galardoaram desenvolvimentos matemáticos. Uma Matemática aplicada, mas ainda assim Matemática. O deste ano (2005) foi atribuido R.J. Aumann e a T.C. Schelling pelos seus trabalhos independentes sobre Teoria dos Jogos. Esta Teoria é um ramo da Matemática desenvolvida em 1944 pelo Matemático John von Neumann e Oskar Morgenstern. O seu campo de acção são as relações (e em particular os conflitos) que surgem em contextos militares, pessoais, ... Tem sido usada também para estudar as tendências de desenvolvimento e evolução no mundo dos negócios (campo de atroz complexidade com que lidar em termos de previsões sem a Teoria dos Jogos). Os dois economistas desenvolveram (não criaram, ao contrário do que se possa depreender de algumas notícias apressadas e leigas surgidas sobre o Nobel da Economia de 2005). Focaram a lupa (!) matemática nos conflitos económicos como o estabelecimento de preços e as competições comerciais. Desenvolveram em separado as suas teorias sobre o assunto e com isso partilharam esta prémio. Não há Nobel da Matemática mas como bem intuis ele está lá, humilde e subreptíciamente por detrás do de Economia. Só que, ao gosto de Nobel, é a Matemática aplicada...


De maresia a 24 de Outubro de 2005 às 00:11
é impressão minha ou isto está com outro ar? é o que dá não visitar os blogueiros favoritos por tempo de+...


De js a 24 de Outubro de 2005 às 10:32
...ou será que ele entendeu que a matemática é só um instrumento de trabalho?...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt


De Mauro a 24 de Outubro de 2005 às 10:34
Cara maresia, bons ventos os que te trazem de novo à costa do Cognosco! Acho que é mesmo impressão, o aspecto do Cognosco mantém-se inalterado bem como a sua temática (?!). Há costas nas quais o vento sopra para sentidos opostos. Também os meus me têm enfunado as velas para outras paragens. Mas os portos de abrigo, enquanto o mar não volta, não são esquecidos nem os braços que neles nos acolhem. Js, a Matemática é a força que dá trabalho a todos. Homenageá-la com um Nobel seria ficar ainda assim aquém do merecido. Mas enquanto houver pessoas, haverá Matemática. Um abraço e força aí também.


De Elsita a 24 de Outubro de 2005 às 15:48
Parabens a ambos (ao ALfred e a ti), porem...contudo... sinceramente...não gostar de matemática?? É linda a matemática, linda mesmo!Fica bem e boa semanita, bjinhos


De Mauro a 24 de Outubro de 2005 às 17:25
Já somos dois a achar o mesmo, Elsita. Como diz o artigo «só os néscios» poderão pensar assim. Longa vida à Matemática, um obrigado pelos três (do pequeno Alfredo;) pelos parabéns, da Matemática por a apreciares e de mim por aqui teres vindo).


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