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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quarta-feira, 28 de Setembro de 2005
Claudius litterae
A 1 de Agosto de 10 AC nasceu, na cidade de Lugdunum, na província romana da Gália Oriental (na actual França), fundada pelos romanos no ano 43 AC, um menino a quem deram o nome de Tiberius Claudius Nero Germanicus.
Províncias romanas da Gália

Uma teoria afirma que o nome da cidade veio da divindade solar céltica Lugh («Aquele-Que-Brilha»). Lugdunum cresceu até se tornar a segunda cidade mais importante de todo o império romano e capital natural das 3 Gálias (Armorica, Central e Oriental). Ainda hoje, com o nome de Lyon, é o contraponto da capital Paris, com a qual mantém rivalidades cordiais.

ClaudiusNasceu numa família da alta nobreza romana: por parte do pai era neto de Lívia (a mulher do imperador Augusto) e por parte da mãe era neto de Marco António. Mas Cláudio não foi uma criança feliz pois nasceu com deficiências físicas que levaram a família a escondê-lo do olhar público por vergonha. O menino coxeava, era gago e estava constantemente doente. Apesar de ter ascendência imperial, ninguém o considerava como eventual sucessor do trono. Devido a essa reclusão forçada, Cláudio tornou-se um ávido leitor e um reconhecido escritor em várias disciplinas, principalmente História. Foi, por exemplo, a última pessoa que se sabe ter lido Etrusco (língua do povo que primeiro dominou a península itálica, que governou inicialmente a cidade de Roma e que acabou por ser derrotado e absorvido pelos Romanos).

A Cláudio poucos prestavam atenção, muitas pessoas confundindo as suas deficiências físicas com deficiências mentais. As pessoas mais descrentes eram (estranhamente) a sua mãe Antónia e a sua avó Lívia. Mas, apesar de membros da nobreza, a sua família sofreu inúmeras desgraças: o seu pai, Drusus Claudius Nero, morreu em campanha tinha Cláudio 1 ano. O seu irmão, Germanicus, herdeiro natural do trono, morreu em circunstâncias suspeitas quando Cláudio tinha 28 anos. A sua irmã, Livilla, casou e caiu em desgraça tinha Cláudio 40 anos. No meio de todas os reveses que ocorriam à sua volta, Cláudio ia sobrevivendo, ignorado pelo facto de ser considerado mentalmente incapaz.

Em 37 DC (tinha Cláudio 46 anos) o seu sobrinho, Calígula, subiu ao trono imperial. Calígula costumava usar o seu tio como alvo de piadas ofensivas relacionadas com as suas limitações físicas. Mas a 24 de Agosto de 40 DC Calígula foi morto pelos próprios guarda-costas imperiais, a famosa Guarda Pretoriana, descontentes com as suas acções. Cláudio, como único membro adulto sobrevivente da família imperial, foi proclamado pelos militares como o novo Imperador (reza a tradição que Cláudio foi escolhido contra a sua vontade). O Senado, perante o apoio militar, não teve outro remédio senão acatar a proclamação. Apesar da falta de legitimidade legal, Cláudio subiu ao trono e assumiu o nome de Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e duas novas tradições políticas nasceram, em Roma, com a sua ascenção ao trono:
~ doravante os imperadores romanos subiam ao poder em função do apoio militar. Se o perdessem perdiam grande parte do seu poder e normalmente também a vida;
~ o nome que juntou ao seu, «César», passaria a ser usado pelos imperadores como símbolo de poder e viria a constituir sinónimo de governante
(foi aliás deste nome que viriam a derivar os títulos de «Kaiser», dos imperadores alemães, e «Czar», dos imperadores russos. Apesar de geralmente se pensar que se trata de um referência a Júlio César, na verdade o uso de «César» como título dos Imperadores romanos começou com o subvalorizado Cláudio).

E assim se viu Cláudio, a 21 de Janeiro de 41 DC, como o novo Imperador de Roma. O coxo e gago Cláudio comandava agora o destino de 55 milhões de pessoas (5 milhões dos quais com cidadania romana. Ser romano não era uma questão de origem, era um questão política e vários povos sob domínio romano abraçaram a cidadania pelos benefícios económicos e sociais da situação).

Apesar de a sua mãe lhe ter assegurado, bem antes de Cláudio se tornar imperador, que lhe seria mais fácil «mudar o alfabeto do que se tornar imperador» Cláudio governava. O seu reinado ter sido curto (até 54 DC) mas com projecção histórica.
Pouco antes da sua morte viria a casar com Agripina e a adoptar o seu sobrinho Nero.
(ver o artigo Colossicum amphitheatrum para mais informações sobre o Imperador Nero, que indirectamente viria a dar o nome ao Coliseu de Roma, construído após a sua morte).

Pensa-se que, devido aos comentários jocosos da sua mãe, Cláudio decidiu adicionar ao alfabeto romano 3 novas letras. Estas 3 letras foram usadas durante o seu reinado (e ainda hoje há ruínas que as ostentam) mas foram abandonadas após a sua morte.

Uma das letras era o antisigma, um «C» invertido na horizontal. Esta letra substituía os sons «BS» e «PS», da mesma forma que o «X» substitui o som «CS» em Português, como na palavra «flexível». Terá sido inspirada pela letra grega Ψ (Psi), cuja sonoridade é semelhante.

Outra das letras era o dissigma inverso, um F invertido na horizontal e na vertical. Esta letra representava o «U consoante» e terá sido inspirado pela letra grega Γ (gama).

A letra seguinte tinha a mesma sonoridade que a grega Υ (Upsilon) e tinha a mesma função, um som entre a vogal «u» e «i». Era um H cortado na vertical.


Apesar de não terem vingado como letras aceites do alfabeto após a morte de Cláudio, uma das suas letras viria a dar origem a uma letra que viria a fazer parte do abecedário romano: a letra Y viria a ser incorporada no alfabeto romano como substituta do «meio-H».

Apesar das sua limitações físicas e do desprezo dos que o rodeavam, Cláudio não só sobreviveu como se tornou Imperador. Deu origem a novos vocábulos («claudicar», «Kaiser», «Csar»). Deu ao mundo novas letras com que se expressar (deu origem à criação da letra «Y», que foi integrada nos alfabetos europeus por influência romana).

No mundo de tacanha perspectiva, na qual os fisicamente menos dotados eram ostracizados, da vida de Cláudio vem uma lição para o mundo:

Os únicos deficientes são aqueles que julgam os outros pela aparência e desconhecem que o cerne do ser humano é a sua mente, não o seu corpo.

A propósito, relembro o comentário que deixei no já mui saudoso blog das letras ao artigo Ignorância, preconceito e intolerância....

No título «As letras de Cláudio»


Publicado por Mauro Maia às 21:07
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7 comentários:
De PN a 1 de Outubro de 2005 às 14:42
Se há coisa que guardei do Das Letras foram certos comentários. Enriqueceram imenso o meu blog, provocando-me novas reflexões.
Bem, centrando-me agora neste artigo, essa frase de Cláudio é magnífica e obrigada desde já por mais um bocadinho de conhecimento que me transmitiste... é claro que artigos que metam letras chamam-me sempre mais à atenção...


De Mauro a 1 de Outubro de 2005 às 20:23
Chamo-te a atenção para o facto de a frase não ter sido proferida por Cláudio, é algo que a sua vida me inspirou. Ainda bem que apreciaste, PxN. Obrigado pela visita e pelo comentário.


De Maria Papoila a 2 de Outubro de 2005 às 23:00
Bonita lição de vida ao contar-se a história do "coxo" e gago imperador! Este blog tornou-se-me essencial!


De Mauro a 2 de Outubro de 2005 às 23:26
Concordo contigo. A história do imperador Cláudio permite algumas ilacções importante. Pena tenho que não seja mais divulgada. Obrigado pela atenção que reservaste ao Cognosco e à vida de Cláudio em particular.


De blog Portugal Abrupto, mas ... a 4 de Outubro de 2005 às 12:35
Muito interessante artigo, mas penso que ainda hoje, existe a tendencia para pensar que Cláudio era deficiente mental .. estou errado neste ponto ? -- segundo que faz na vida ? O seu blog , parece náo tem destinatários próprios, nem objectivo prático .. (se responder, avise no meu blog, ok ? ... )


De Mauro a 4 de Outubro de 2005 às 18:23
Respeitando o seu pedido de responder ao seu comentário no blog, cabe-me, no entanto, no papel de anfitrião do blog, agradecer-lhe a visita, o interesse e o comentário. Posso responder a uma questão indirectamente relacionada (a forma como ainda hoje se confunde deficiência física com a mental). Se antigamente se podia alegar ignorância perante a diferença entre corpo e mente, hoje em dia é simples caso de burrice assumida e mantida. E em especial devo aproveitar o comentário para referir que, apesar de Cláudio limitações físicas e não intelectuais, não diminui em nada a extraordinária força que pessoas que as têm mentais revelam normalmente. Fazem a sua vida e as coisas que elas implicam como o fazem as outras pessoas mas com as limitações físicas e mentais que têm. Marginalizar quem as tem é mais do que indiferença, é pura burrice. Força tem quem, não pudendo, faz. É mero gesto banal quem o faz pudendo sen limitações. Quanto a Cláudio, só pode pensar que era deficiente mental quem desconhece a sua vida. Para a revelar a quem a desconhecia escrevi este artigo.


De blog Portugal abrupto, mas no exagerem a 5 de Outubro de 2005 às 01:42
Sim, sei perfeitamente, e táo bem como outro qualquer, que deficiência fisica, nada tem a ver com deficiência mental . E sei, pois já fui voluntário em associaçóes de crianças de vários genero .. e lido com produtos naturais (cientificamente analizados ) e ajudo pessoas com as mais variadas doenças ... A pergunta, foi mesmo se históricamente, ainda há havia residuos por aí, que Claudio tivesse sido, além de deficiente fisico, mental , e só isso . Pois pareceu-me ver na TV, faz tempos, e além de uma série, um documentário onde ele ficava mal visto mentalmente, digamos . Quanto a responder, no meu blog, era só par eu saber se respondia .... naó cultivo aquelas coisas, de andar a visitar blogs para ter visitas . Apenas pedi, para avisar ... até podia ser por mail ... De resto, adorei o seu comentário no meu blog, e desde já, fica a saber que o vou chatear, para uma causa que acho importantissima , e que náo tem de facto, apoiantes --- crianças espancadas, e violadas, etc ... Inté ...


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