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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sexta-feira, 16 de Setembro de 2005
Colossicum amphitheatrum
No dia 15 de Dezembro do ano 37 da nossa era nasceu em Antium (actualmente a vila piscatória de Anzio, 50 Km a sul de Roma) um menino de nome Lucius Domitius Ahenobarbus, duma nobre família romana com fortes tradições na República romana (o seu bisavô, Gnaeus Domitius Ahenobarbus, foi implicado no assassinato de Júlio César em 44 AC e foi eleito cônsul romano em 32 AC ).
A sua mãe Agripina era sobrinha do futuro Imperador Cláudio mas o actual imperador era o seu irmão Calígula e as coisas para o lado da família Ahenobarbus não estavam de feição. Quando o pequeno Lucius tinha 2 anos a sua mãe Agripina foi banida de Roma e o seu pai morreu 1 ano depois.

Mas entretanto o Imperador Calígula foi morto (o método preferido no mundo romano para uma «suave» mudança política...) e Imperador Cláudio subiu ao poder. Agripina foi trazida do exílio e casou com o tio. Ao seu filho Lucius foi dada uma educação própria de um nobre de ascendência imperial e ficou em linha de sucessão para o trono. A educação do jovem Lucius foi confiada ao eminente filósofo romano Lucius Annaeus Seneca.

Moeda com o rosto do Imperador ClaudiusSendo sobrinha do Imperador Cláudio (que, devido a ser coxo, viria a dar o nome à palavra latina claudicar, que significa «coxear» mas que é usado em sentido figurativo como «hesitar») a sua mãe Agripina conseguiu, no ano 50 DC, que Cláudio adoptasse o seu filho Lucius. Isto colocou-o na linha directa de sucessão para o trono imperial, uma vez que Lucius (com 13 anos na altura) era mais velho do que o filho ainda criança de Cláudio, Britannicus.

Foi nessa ocasião que o «jovem» Lucius adoptou o nome Nero Claudius Drusus Germanicus («Germanicus» em honra do seu avô materno Germanicus).

No ano 51 DC Nero foi nomeado sucessor de Cláudio e em 54 DC, após o envenenamento do Imperador (possivelmente pela sua mulher), a sua mãe Agripina foi nomeada regente pois o seu jovem filho de 17 anos ainda não tinha idade para ser Imperador.

O reinado de Nero foi marcado pela sensatez e pelo apelo à legalidade, segundo o exemplo de Augusto. Ao Senado foi concedida maior liberdade, nova legislação foi introduzida para fomentar a ordem social, reformou-se as finanças da corte e os governadores da cidade de Roma foram proibidos de gastarem avultadas somas com os espectáculos de Gladiadores na cidade (mas não no Coliseu que, como se verá em seguida, só foi construído após a morte de Nero), era muito rigoroso em relação aos seus deveres legislativos.

Mas Nero era uma personalidade de facetas contrastantes: os seus cabelos louros, olhos de um azul pouco profundo, barriga proeminente, pescoço grosso, pés usualmente descalços, corpo coberto de borbulhas e malcheiroso albergavam uma alma simultaneamente artística, desportiva, brutal, fraca, errática, extravagante, sádica,...

Inicialmente os seus extremos eram suavizados pelos seus tutores Séneca e Burrus (não há dúvida de que é um bom nome para um mentor...). Mas aos poucos Nero foi perdendo o interesse na governação e dedicou-se aos prazeres mundanos (por exemplo, tomou como amante a bela Poppaea Sabina, casada com o amigo de Nero Marcus Salvius Otho. Em 58 DC Otho foi enviado como Governador para a distante província da Lusitânia....)

Ruínas da Domus Aurea de NeroNero tinha também um gosto pela arquitectura monumental. Após o Grande Incêndio de Roma em 64 DC, no qual a casa de Nero, a Domus Transitora (que devia o nome ao facto de a sua extensão ligar as colinas Palatinas e Esquilinas, fazia a transição entre elas) foi queimada, Nero iniciou a construção de um grande palácio de nome Domus Aurea («Casa Dourada») que devia o seu nome ao facto de partes da casa, que era feita de tijolos de barro e não de marfim como por vezes se julga, serem cobertas com folhas de ouro ou serem incrustadas com jóias ou conchas raras. A Domus Aurea era ainda maior do que a sua anterior casa, pois extendia-se pelas colinas Palatina, Esquilina e ainda Ciliana (ocupava um terço da dimensão total da cidade). Pouco da Domus Aurea sobreviveu pois Imperadores subsequentes usaram partes da estrutura para as sua próprias contrucções. Mas relatos contemporâneos da casa e evidências arqueológicas permitem dar uma ideia da grandiosidade do palácio. Grandiosidade que que não podia deixar de incomodar os cidadãos romanos: um romano escreveu, numa das paredes da «Domus Aurea» (um «grafitti» ancestal...):
«ROMA DOMUS FIET: VELOS MIGRATE QUIRITES
SINON ET VEIOS OCCUPET ISTA DOMUS»
(Roma inteira tornar-se-á uma casa: quirites
mudem-se para Veii antes que esta casa a engula também)
(quirites eram os moradores de uma das 7 colinas de Roma, a colina Quirinal, e Veii era uma cidade romana a 15 km noroeste de Roma. Actualmente as suas ruínas encontram-se num subúrbio de Roma de nome «Isola Farnese»)

Reconstituição do Colosso de NeroNo exterior da casa foi construído um grande lago artificial onde por vezes se encenavam batalhas navais. Existia ainda um enorme estátua do próprio Imperador Nero com 37 metros de altura, o Colossus Neronis. Era um verdadeiro Colosso (o famoso Colosso de Rodes, uma das 7 Maravilhas da Antiguidade, tinha «apenas» 33 metros de altura). As fundações da gigantes estáua de Nero podem ainda ser encontradas debaixo do Mosteiro de S. Francesca Romana. Colosso significa «estátua de grandes dimensões».

Após a morte de Nero o lago foi drenado e, na bacia formada pelo lago seco, foi construído um enorme anfiteatro a que foi dado o nome de Flavium Amphitheatrum, uma estrutura elíptica com aproximadamente 188 m por 156 m inaugurada em 80 DC.
A palavra latina «flavium» significa «dourado». Seria verosímil que fosse uma alusão à casa que o antecedeu mas é mais provável que se referisse ao nome de família do seu primeiro arquitecto, Vespassius.

Apesar da destruição da «Casa dourada», a gigante estátua de Nero foi tendo o seu rosto alterado para o dos sucessores de Nero, até que o Imperador Adriano o moveu para ao pé do «Anfiteatro de Flávio». Este passaria a ser conhecido pelo colosso que se encontrava às suas portas e o seu nome perdurou.
O «Anfiteatro de Flávio» seria para sempre conhecido como «Coliseu», uma alusão à colossal estátua de Nero que se erguia no local...


A palavra latina para areia é harena. Facilmente se percebe como «harena» se tornou a «areia» portuguesa. Mas também de «harena» derivou a palavra «arena», uma vez que os circos romanos (os locais de combate dos gladiadores) eram cobertos de areia para absorver o sangue derramado.

No título «Anfiteatro colossal».
Como outras grandes construcções que sobreviveram ao tempo, o revestimento metálico e de mármore do Coliseu foi retirado para a construção de habitações.
O revestimento de pedra calcária branca das pirâmides sofreu semelhante destino.
O Parténon em Atenas sofreu também mas por outros motivos.
Ver o artigo Parténon para mais sobre o assunto.


Publicado por Mauro Maia às 11:27
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4 comentários:
De Rui a 16 de Setembro de 2005 às 18:28
É este o mesmo Nero da lenda, que ficou a tocar harpa enquanto Roma ardia, e sufocou até à morte os convidados de um jantar debaixo de uma chuva de pétalas de rosa (!)? Se sim, como é que as duas imagens contrastam tanto? E, já agora, o que aconteceu ao colosso de Nero?


De marius70 a 16 de Setembro de 2005 às 19:47
Olá Mauro. Como em certos aspectos os nossos blogs complementam-se se não te importares vou colocar o endereço do teu blog no Império. Como estou a tratar dos temas por ordem cronológica, irá chegar a altura que os intervenientes deste teu tema serão referenciados no meu. Assim, embora esta ligação se vá perder no tempo, pois demorarei um pouco a lá chegar, fica aqui a anotação. Um abraço.


De Mauro a 17 de Setembro de 2005 às 00:41
Meus dilectus frater, é uma e a mesma pessoa. Por isso o artigo refere apersonalidade contrastante. Aquela coisa de ele ter mandado incendiar Roma enquanto tocava harpa é obviamente fantasias para encher olho. Pode até ter feito pouco para o extinguir (queria a sua Domus Aurea) mas é certo que também perdeu o seu lar (a Domus Transitora) mas nada sustenta a tese de fogo posto por ele. Obviamente o Colossus Neronis foi destruído para se fazer o Coliseu. Exactamente o que aconteceu e o que fizeram do que sobrou não tenho conhecimento. Provavelmente usaram para os acabamentos...
Marius, é com prazer que registo a tua anotação. O teu blog sobre o Império romano (marius.blogs.sapo.pt) é igualmente interessante. Agradeço-te a visita e o comentário elogioso. O Cognosco é um blog que navega ao sabor da inspiração. Por vezes ocorre-me os códigos de barras, por vezes o Colosso de Nero. É um blog sobre as coisas que eu sei e que desejo aprofundar. Assim reforço o que sei e por vezes aprendo igualmente. Não deixarei de continuar a visitar o teu blog, onde se pode aprender continuamente. Ave Marius.


De Mauro a 17 de Setembro de 2005 às 12:01
Em relação ao Colossus Neronis, há algo que não vem especificado no artigo e pode ser relevante para o facto de ser geralmente desconhecida essa estátua: entre o Grande Incêndio de Roma e a morte de Nero mediaram 4 anos. Foi durante esses 4 anos que foi construída a Domus Aurea e o Colossus Neronis. Quando Nero morreu a Domus Aurea não estava plenamente acabada. Mesmo que o Colossus já estivesse feito, só durante 4 anos dominou a linha do horizonte da cidade. Não admira que poucos registos apareçam dela e seja algo a que raramente se faz menção.


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