Últimas atualizações
Novo endereço do Cognosco: http://www.cognoscomm.com
Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 11 de Setembro de 2005
Um século

Faz hoje 4 anos que aconteceram os atentados de 11 de Setembro. Dois aviões de passageiros, acabados de levantar vôo, cheios de passageiros e gasolina, foram lançados contra as Torres Gémeas do World Trade Center. Ao contrário do que é normal não saí de frente da televisão nesse dia para acompanhar as notícias. Os eventos desse dia chocaram-me profundamente e, mesmo após estes 4 anos, as imagens do segundo avião a embater na Torre, as imagens de uma Nova Iorque envolta em poeira, dos sobreviventes e testemunhas marcadas indelevelmente pela dor nunca mais me deixaram.

Fossem quais fossem as razões dos atenteados o acto de matar 3 mil inocentes faz perder qualquer justificação, explicação ou razão!

Mas de onde surgiu tamanha animosidade por parte de um minoritário sector do mundo muçulmano? O povo árabe é historicamente conhecido pela sua tolerância, erudição e cultura. Basta lembrar que, durante a Idade Média na Europa, em que a cultura estagnou, em que a perseguição religiosa estava na ordem do dia, os povos sob domínio árabe gozaram de liberdade de trânsito, culto religioso e pessoal; que os clássicos gregos e latinos eram protegidos e guardados; que o mundo oriental era posto em contacto com o ocidental e conhecimentos e bens eram trocados; que o mundo do próximo e médio oriente (designações excessivamente eurocêntricas...), do norte de África e da península ibérica viveram uma Idade do Ouro em termos culturais e científicos.</br></br>As raízes desta animosidade surgiram no início do século XX na Europa. Mais especificamente começou em 1915, acentuou-se ao longo de todo o século XX e prolonga-se ainda para este início do século XXI. Em 1914 deflagrou o que viria a ser conhecida como a Primeira Guerra Mundial, o primeiro conflito de natureza mundial na história da humanidade e o segundo mais sangrento da história registada (a Revolta Taiping, entre 1851 e 1864, ocorrida na China Emperial teve um total de baixas entre 20 e 40 milhões foi ainda mais sangrenta).

</br> Em pinceladas latas, após o assassínio do arqui-duque Franz Ferdinand alianças foram activadas e dois blocos militares viram-se em confronto: as Potências Centrais e os Aliados.</br></br> As Potências Centrais eram formadas por 3 impérios: o Império Germânico, o Império Austro-Húngaro que iniciou a guerra e o Império Otomano.</br> Os Aliados eram formados pela Inglaterra, França e Rússia.</br> Ambos os blocos consideravam que a guerra seria breve mas 1914 acabou com os exércitos em confronto parados ao longo de trincheiras que atravessavam a França.</br></br> O esforço de guerra era enorme e os Aliados procuravam novas formas de atingir os seus inimigos. O poder militar germânico era demasiado grande para que ingleses e franceses pudessem penetrar as suas linhas e a Rússia mal conseguia travar a guerra na sua frente.</br></br> Em 1915 um novo primeiro-ministro subiu ao poder, na Inglaterra (Lloyd George), que iniciou uma campanha para destabilizar as Potências Centrais através dos seu «elo mais fraco»: o Império Otomano.</br> Em 1916, a Rússia retirou-se do conflito na sequência da revolução bolchevique. Apesar da guerra se prolongar por mais 2 anos a Rússia foi o país que nos 4 anos de guerra mais baixas teve: 1 milhão e 700 mil. Sem a pressão russa a oriente as Potências Centrais reforçariam a frente ao longo da França. Os Aliados tinham de fazer algo pois os americanos, apesar de aliados, não se disponham a colocar na Europa soldados suficientes para suster os austríacos e germânicos. Para encorajar o apoio internacional, e como na altura (como agora) a comunidade judaica tinha grandes influências na opinião pública e governo dos EUA (além de, na Alemanha, a comunidade judaica gozar de grande prestígio e influência no governo) os Aliados prometeram criar, na Palestina, um Estado Judeu.</br></br> Na altura, o Império Otomano estendia-se pelo que é agora a Turquia, Síria, Líbano, Israel, Iraque, Irão. Sob o domínio Otomano viviam vários povos de origem árabe (não confundir árabes com muçulmanos. Árabes são os proveninentes da Arábia, muçulmanos são as pessoas de fé islâmica) que se sentiam descontentes com essa subjugação. A Inglaterra e a França prometeram aos Árabes sob domínio otomano a independência e a criação de um Estado árabe após a guerra, se estes se revoltassem contra os Otomanos.</br> Entretanto Ingleses e Franceses dividiam entre si as terras que publicamente prometiam devolver aos árabes: a 16 de Maio de 1916 o celebrado o Acordo Sykes-Picot, com os franceses representados por François Georges-Picot e os ingleses por Mark Sykes. Por este acordo a Inglaterra ficaria com o controlo da actual Jordânia e Iraque e a França com o actual sudoeste da Turquia, norte do Iraque, Síria e Líbano. Um zona ficou estabelecida para ser internacionalmente controlada: a zona actualmente chamada Palestina.</br></br> Para ajudar a revolta árabe, os ingleses enviaram para o Médio Oriente um militar inglês que iria ensinar técnicas de guerrilha aos revoltosos árabes: Thomas Edward Lawrence (que viria a ser conhecido pelo título de Lawrence da Arábia).</br></br> Os povos árabes revoltaram-se e, graças também aos seus esforços, a guerra terminou com a vitória dos aliados. Assim que a guerra terminou os árabes declararam a sua independência e formaram um governo do seu futuro estado árabe, que incluiria o que é agora a Síria, Israel, Iraque e Irão. Mas ao longo da guerra os aliados prometeram tudo e a todos para alcançar os seus intentos. Enquanto prometiam aos árabes o Médio Oriente a França e a Inglaterra já tinham dividido, entre si, a terra árabe.</br></br> Após a declaração de independência árabe a França apressou-se a militarmente silenciar os árabes e a ocupar o Líbano e a Síria e os Ingleses a ocupar o Iraque. Todas as promessas que tinham feito aos líderes árabes, todos os árabes mortos durante a revolta, todo o esforço feito em prol da ideia de liberdade e auto-determinação árabe caíram por terra. Na altura na Palestina 8% da população era judaica, sendo a maioria de origem árabe. Com o fim da guerra vários judeus, fugindo das perseguições anti-semitas que grassavam em particular na Europa de Leste, emigraram para a Palestina e criaram vários colonatos. Os árabes sentiram-se enganados e ultrajados com a quebra das promessas e com a invasão de povos europeus. Além disso o poder militar e tecnológico da Inglaterra e da França era claramente superior ao dos árabes e estes viram-se sem opções para reclamar o cumprimento das promessas de guerra e alcançarem finalmente a sua ansiada liberdade.</br></br> Os Ingleses procurarem depois cumprir parcialmente as suas promessas colocando o dirigente árabe Faisal (que fez a guerra ao lado de Lawrence) como governador do Iraque. No entanto os seus poderes eram muitos limitados e quem exercia de facto o poder eram os Ingleses. Já na altura surgiram os primeiros atentados suicidas na Palestina como resposta desesperada dos árabes à sua incapacidade de deter o fluxo de entrada de estrangeiros. A perda impotente de influência e do controlo de propriedades na sua própria terra levou a essas atitudes extremadas. A questão religiosa não era a mais importante e serviu (e serve) mais como desculpa e ponto de aglutinação dos sentimentos árabes.

Após a Segunda Guerra Mundial, e como compensação pelas atrocidades do Holocausto que matou milhões de judeus europeus, o estado de Israel foi fundado na Palestina.</br> Foi o culminar das ofensas para o povo palestiniano que não só perdeu a sua terra, passou a ser considerado uma minoria política como perdeu definitivamente a auto-determinação política.

Os assassinos que hoje em dia perpetram atentados e matam inocentes usam esses factos como desculpa para os seus instintos animais. Infelizmente ao fazê-lo põem em cheque todos um povo que professa uma religião de paz, uma religião fundado sobre os melhores ensinamentos judaicos e cristãos. Surgida mil anos após a morte de Jesus Cristo a religião muçulmana prega a tolerância e a compaixão.</br></br> A muito citada Jihad é, de acordo com o livro sagrado Al Cohran, algo a que os muçulmanos só devem recorrer em legítima defesa e apenas se outros meios não estiverem disponíveis.

Passado quase um século desde os primeiros acontecimentos a situação não se mostra fácil de resolver: para os Palestinianos a Palestina é a sua terra há vários séculos e onde ainda são etnicamente maioritários. Para os Israelitas não só é a sua Terra Prometida como a geração actual nasceu e cresceu lá. Todos se atribuem o direito à posse da terra. Historicamente os árabes teriam preponderância em termos de razão mas os atentados suicidas claramente lhes tiram essa razão. Mas os Israelitas também não têm feito menos...</br></br> Para mais artigos relacionados com a 1ª Guerra Mundial ver os artigos</br> ~ Pequenos tijolos;</br> ~ Wilhelm;</br> ~ Portugal de primeira;</br> ~ Míngua.



Publicado por Mauro Maia às 22:09
Atalho para o Artigo | Cogitar | Adicionar aos favoritos

1 comentário:
De js a 16 de Setembro de 2005 às 13:02
... os 3000 mortos inocentes na América...dada a publicidade que foi dada ao caso pareceram 30000... já no que se refere ao milhares que morrem por via da venda de armas que a América faz... não contam assim como não contam os milheres que morrem de fome ou em acidentes de viação... no fundo deu-se demasiada importância ao caso e isso instigou aque houvessem mais e poderemos esperar por mais...
FORÇ'AÍ
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt e http://mprcoiso.blogs.sapo.pt


Comentar artigo

Cognosco ergo sum

Conheço logo sou

Estatísticas

Nº de dias:
Artigos: 336
Comentários: 2358
Comentários/artigo: 7,02

Visitas:
(desde 26 de Abril de 2005)
no Cognosco
 
Cogitações recentes
Obrigado, João, pela contribuição. Não está no art...
Estive lendo sua cogitação à respeito do cálculo d...
Obrigado, Aleff, pelo apreço pelo artigo. Exatamen...
achei muito interessante essa sua forma de ver a l...
Obrigado, Desejo um bom 2014 também.
Artigos mais cogitados
282 comentários
74 comentários
66 comentários
62 comentários
44 comentários
Artigos

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Julho 2016

Março 2015

Dezembro 2014

Outubro 2013

Maio 2013

Fevereiro 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Janeiro 2012

Setembro 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Dezembro 2010

Maio 2010

Janeiro 2010

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Novembro 2007

Outubro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005