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Domingo, 6 de Janeiro de 2008
Vandalismo civilizacional
Machado de 2 facesHá palavras que surgem no uso quotidiano sobre as quais geralmente não se descortina bem qual a sua origem ou só se tem uma vaga ideia. Uma dessas palavras é «Vândalo». Uma brevíssima pesquisa virtual permite encontrar, entre outros cabeçalhos de revistas e jornais, os seguintes:

~ Maio de 2007:
"Um vândalo no estômago - Helicobacter pylori causador da úlcera"
~ Agosto de 2007:
"Stephen King tomado por vândalo em livraria"
~ Outubro de 2007:
"Vândalo tinge de vermelho a água da Fontana di Trevi"

E os exemplos sucedem-se ininterruptamente. É uma palavra que está firmemente implantada no léxico de muitas línguas europeias, incluindo o português. Mas de onde vem este termo? A que se deve? E será justificado?

Num artigo anterior, Polimáticos possidónios, verificou-se que que o uso corrente que se dá de «Possidónio» não faz jus ao grande Homem que foi o filósofo Possidónio, figura maior do Estoicismo.
Também, em Ante mortem vivetes, se verificou que a História do Marechal La Palisse em nada corresponde ao uso caricatural que se faz do seu nome.

Uma definição, dada por um qualquer dicionário de Português, de Vândalo será:
Aquele que destrói monumentos ou objectos dignos de respeito.
Porque se associa este nome, vândalo, a este tipo de actos? A palavra terrorista vem de terror (que quer causar) mas vândalo vem de quê?

Ora muitas são as pessoas que têm conhecimento da existência histórica de um povo intitulado Vândalos, algumas mais sabem que, em algum momento da História romana, invadiram a cidade de Roma. Até que ponto corresponderá o uso do seu nome aos seus actos históricos? Será esse adjectivo pejurativo o único legado que esse povo deixou? Será surpreendente saber que, na fronteira portuguesa, existe toda uma vasta região cujo nome se deve a este povo?

Façamos então uma viagem pelo tempo e acompanhemos a História notável deste povo.

Júlio César (100AD - 44AD) entrou na Gália (actual França) para ajudar os Gauleses contra as investidas militares dos povos Germânicos. Após repeli-los, acabou por ficar na Gália e, após longas campanhas militares, conquistou-a. Em 52AC, derrota Vercingetorix, líder gaulês, e toda a região fica controlada. Entretanto, aproveitando a ausência de César, os seus adversários políticos em Roma começam a conspirar contra ele. César regressa então à península romana, atravessando o Rio Rubicão (rio entretanto desaparecido no norte da Itália). Para isso, quebra uma lei do Senado Romano que proíbe qualquer general romano de atravessar esse rio com as suas legiões. César desobedece, pronunciando a célebre frase "Os dados estão lançados", entra na cidade com as suas legiões leais acampadas no exterior das cidades e silencia os seus opositores.

Com a Gália controlada, Júlio César virou-se para as ilhas britânicas, onde fez alguns progressos. Mas, ao lado da Gália, estendia-se a vasta região conhecida pelos romanos como Germânia. Esta era habitada por um conjunto grande de povos, chamados conjuntamente de Germânicos pelos romanos. Ora os germanos tinham uma média de altura superior à dos romanos (a altura masculina de um homem adulto romano, a julgar pelos esqueletos encontrados, seria de 1,70m) e eram temidos por todos os seus vizinhos: Celtas, Gauleses Reconstrução da ponte de César sobre o Renoe mesmo Romanos. Aquando da derrota das tribos germânicas, César, numa grande manifestação da capacidade das legiões, mandou construir uma ponte de madeira a atravessar o rio Reno. A ponte, com perto de 400 metros de comprimento e 8 metros de largura, demorou 10 dias a ser feita e atravessa o rio Reno (algures entre as actuais cidade de Andernach e Neuwied) num ponto com perto de 9 metros de profundidade e fortes correntes. César atravessou a ponte, demonstrou o poderio militar romano e a sua capacidade de ir aonde quisesse e voltou para trás, destruindo a ponte. A acção de César revelou-se bastante eficaz e, durante os 600 anos seguintes, os povos germânicos mantiveram-se na sua área e não atravessaram a fronteira romana.

É então que, no século IV DC, os Hunos, vindos da Ásia, irrompem na Europa. Os povos germânicos (Godos, Francos, Anglos, Saxões, Vândalos) atravessam o rio Reno, no séculos V DC, para escaparem aos exércitos hunos. Os Godos dividem-se em dois ramos (Ostrogodos e Visigodos), os Francos ocupam a Gália (que viria a adoptar o seu nome, vindo a ser conhecida como França), os Anglos e os Saxões ocupam a Bretanha, os Vândalos começam por ocupar a zona que é hoje a Polónia.



Prosseguiram depois, atacando as desmoralizadas legiões romanas, no rio Danúbio, instalando-se, após um tratado de paz com os Romanos, nas actuais Roménia e Hungria. Mas as pressões hunas prosseguiam e os Vândalos, em 400DC, juntamente com os seus aliados, os Alanos (vindos do actual Irão) e os Suevos (outro povo germânico) penetram mais profundamente no território romano. Os três povos chegam à Gália, dominada já pelos Francos, e encontram enorme resistência. Através de várias batalhas e terríveis devastações pelas terras por onde passavam, chegam aos Pirinéus, a cordilheira montanhosa que separa a Gália da Ibéria. No sentido de os apaziguar, os Romanos dão-lhes «permissão» para se estabelecerem na península ibérica: os Suevos ficaram com o parte do Noroeste da Península (actuais Galiza e norte de Portugal), os Alanos com a Lusitânia, os Vândalos ficaram com o sul da península, os Visigodos, que chegaram depois, estabeleceram-se no sul da Gália e nordeste da península (os Visigodos derrotaram depois os Alanos e entregaram a coroa alana ao Rei Vândalo). A região que os Vândalos ocuparam, na actual Espanha, era conhecida como Vandaluzia. Os Árabes, muitos séculos depois, chamaram à península Al Andaluz, como chamaram ao sudoeste Al Garb. De Al Andaluz (a anterior Vandaluzia sem o V) veio o nome Andalucia, nome da região espanhola e de Al Garb veio o português Algarve.

Ora, o uso do termo «vândalo» surgiu historicamente como consequência da entrada dos Vândalos na cidade de Roma. Mas, se os Vândalos atravessaram a Gália e se instalaram na Península Ibérica, quando se deu esse saque que lhes valeu o uso do seu nome como sinónimo de destruição e violência?

Bem, é que os Vândalos, após chegarem à Península, não se limitaram a cruzar os braços e a saborear os frutos das suas vitórias contra os Romanos e outros povos. Em 429AD, aproveitando distúrbios políticos no Império Romano (do Ocidente), cruzaram o Estreito de Gibraltar e atacaram as províncias romanas do Norte de África, que foram atravessando e conquistando até chegarem às muralhas de Hippo Regius (actual Annaba, cidade o norte da Argélia), cidade a que fizeram um cerco de 1 ano. Finalmente um acordo de paz foi feito com os Romanos, em 435DC, que os Vândalos quebraram 4 anos depois, em 439DC, quando conquistaram a cidade de Cartago e formaram o Reino Vândalo e Alano no Norte de África.
Moeda do Rei Geiseric


Com base no Norte de África e nas ilhas Baleares, Sicília, Córsega e Sardenha, principiaram uma era de pirataria e pilhagem no Mar Mediterrâneo. Até 453DC, ano da morte de Átila o Huno, os Romanos pouco fizeram para combater a frota vândala que pilhava as cidade costeiras do Império Romano do Oriente e do Ocidente. Mas, a partir desse ano, com a ameaça huna diminuída, os Romanos decidiram prestar mais atenção aos piratas vândalos que lhes assolavam a costa. Longe do poderio militar romano de outrora, o Imperador Valenciano III ofereceu a mão da sua filha em casamento ao filho do rei vândalo mas um usurpador de nome Petrónio Máximo assasinou o imperador romano para se apoderar do trono. A imperatriz enviou então um pedido de ajuda ao filho do rei vândalo e, como resposta ao pedido, a frota vândala aproximou-se da costa italiana e tomou a cidade de Roma, em 455DC. Partiram então, com a Imperatriz e as suas duas filhas e com inúmeros tesouros romanos, incluindo os despojos do Templo de Jerusalém e regressaram a Cartago. O clima político com o Império Romano do Oriente, único sobrevivente do império romano, situado no Mediterrânio oeste, com capital em Constantinopla (actual cidade de Istambul, na Turquia, mas não a sua capital, que é Ancara) estabilizou-se, exceptuando as tensões religiosas decorrentes do facto dos Vândalos serem Cristãos Arianos e os Bizantinos (nome porque passarem a ser conhecidos os romanos do oriente) serem Cristãos Ortodoxos.

Imperador Justiniano IEntão, em 477DC, com 88 anos, morreu o rei Vândalo Geiseric (389AD-477AD), que tinha sido coroado quando os Vândalos entraram no Norte de África. O Reino Vândalo foi progressivamente declinando de poder e influência. Quando os Muçulmanos do Norte de África (conhecidos como Mouros) venceram militarmente as tropas vândalas, o Imperador Bizantino Justiniano I (482-565) declarou guerra aos Vândalos, argumentando que estes não protegiam os Cristãos Ortodoxos do Reino dos exércitos infiéis dos Mouros. Os Bizantinos tomaram Cartago, em 533, e um ano depois, em 534, vencerem finalmente os Vândalos, tornando novamente o Norte de África uma província romana. O império bizantino foi sendo progressivamente conquistado pelos Muçulmanos até à queda de Constantinopla, em 1453. Ver o artigo Míngua sobre a adopção do Quarto Crescente pelos Muçulmanos depois da conquista de Constantinopla.

Ou seja, apesar do termo «vandalismo» remeter para violência desmedida, o que é certo é que os Vândalos foram até bastante civilizados quando entraram em Roma a pedido da Imperatriz, apenas levaram tesouros e não há quaisquer evidências de que tenham tocado numa única casa ou monumento romanos. Na verdade, Roma foi saqueada pelo menos 7 vezes ao longo da sua História:
~ em 387 pelos Gauleses, que saquearam a cidade;
~ em 410 pelos Visigodos, que saquearam a cidade durante 3 dias;
~ em 455 pelos Vândalos, que levaram os tesouros da cidade;
~ em 546 pelos Ostrogodos, que a saquearam e escravizaram a sua população;
~ em 846 pelos Árabes, que saquearam a Basílica de São Pedro;
~ em 1084 pelos Normandos, que incendiaram a cidade, destruindo ruínas romanas;
~ em 1527 pelas tropas Imperador espanhol Carlos V, que mataram todas as tropas da cidade e pilharam e destruíram todos os edifícios religiosos;

Runa Germânica na SuéciaOs Vândalos foram até bastante civilizados, tendo até em consideração a forma como as legiões romanas conquistaram, mataram, escravizaram, pilharam e destruíram ao longo dos mil anos de existência do Império Romano. Mas, no início do século XIX, em França, a Idade Clássica foi idealizada e Godos e Visigodos foram apontados como inimigos e destruidores da Civilização. Injustamente, tendo em conta a profunda influência que os Vândalos e outros povos germânicos tiveram na criação da cultura europeia. É de salientar que a História Europeia, desde a queda do Império Romano do Ocidente, foi escrita pelos povos Germânicos e seus descendentes (a Península Ibérica foi depois conquistada e influenciada pelos Mouros e a Europa do Norte pelos Viquingues). Os cristãos que fizeram a Reconquista Cristã, reconquistando aos Mouros a Península Ibérica, eram descendentes dos povos germânicos e as populações dos países europeus descendem directamente dos povos germânicos. Ser Europeu significa ser Germânico!

Verdade seja dita, a Europa foi fundada sobre alicerces latinos mas assenta sobre solo germânico. E os Vândalos foram os mais proeminentes de entre eles.
Wir sind Wandals Kinder!
(Traduzindo do Alemão «Nós somos filhos dos Vândalos!»


Publicado por Mauro Maia às 16:03
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6 comentários:
De Maria Papoila a 30 de Janeiro de 2008 às 18:17
Mais um artigo de história que desmistifica o uso de "vandalismo" como negativo. Temos sangue dos vândalos...ainda virei a usar uma pulseira gótica...(lol) Beijos.


De Mauro a 31 de Janeiro de 2008 às 10:16
Minha querida «Papoila», é sempre um prazer receber tão orvalhada visita no Cognosco. Os Vândalos foram realmente maltratados pela História, tendo em conta a viagem épica que fizeram, da sua natal Germânia até à fundação do seu Reino no Norte de África e terem dado também origem ao nome da região espanhola Andaluzia. Que prazer é desmontar as construções erróneas da História (da escrita pelos Homens, não a escrita pela passagem do Tempo)!


De Transbordices a 18 de Fevereiro de 2008 às 23:38
Parabéns pelo artigo.


De Mauro a 19 de Fevereiro de 2008 às 09:35
Obrigado, «Transbordices», pela visita e pelos «parabéns». O mérito será, sem dúvida, dos Vândalos, uma vez que a sua História é bastante interessante e a forma como são imaginados pelas (poucas) pessoas que se darão a esse trabalho é claramente injusta. Como em tudo e em todos, certamente aspectos negativos mas que não podem apagar os positivos. As contribuições para o alicerce europeu dos Vândalos e de outros povos germânicos não pode ser olvidada ou diminuída por causa de um indivíduo de bigodinho ridículo, complexo de inferioridade e assassino em série que governou a Alemanha por 12 anos. Mas infelizmente é o que acontece... Os Vândalos são um tema muito interessante mas, citando Fernando Pessoa pela pena do seu ortónimo Álvaro de Campos, «(...) o que há é poucos para perceber isso». Fico contente que tenhas apreciado também.


De Fiju a 20 de Fevereiro de 2008 às 22:59
Hummm e esta hein?
Realmente quem diria?! Não tenho a certeza, mas quase que apostava que na escola foi-me ensinado que os Vândalos tinham sido uma civilização extremamente rebelde e destruidora! Como fazem falta os teus artigos para desmistificar e chamar a atenção de palavras com significados controversos!
Tenho tido pouco tempo para andar a cuscar nos blogs... Mas por fim já comentei no teu blog!!!
Jokas!


De Mauro a 21 de Fevereiro de 2008 às 10:23
Olá, «Fiju», é bom receber-te. Sim, é um julgamento apressado que geralmente se faz sobre este povo, tendo como base uma interpretação parcial e falaciosa de um indivíduo do século XVIII. Espero que o contributo germânico para o alicerce europeu venha a ser mais profundamente entendido e estudado. Afinal, como disse anteriormente, todas as nações europeias são descendentes directas dos reinos «bárbaros» germânicos. Infelizmente, também eu estou num período profissional e pessoal que me tem deixado pouco tempo para o meu ou para outros blogs.


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