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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quinta-feira, 14 de Julho de 2005
A flor que chorava de amor
Um passarinho acordou um dia muito cedo, ainda o Sol mal se espreguiçava sobre a copa das árvores. Ia em busca de comida mas aproveitou para passear pela sua floresta que tanto amava. Conhecia toda a gente e cumprimentava toda a gente: os outros pássaros, a família de javalis que morava perto do seu ninho, as venerandas árvores, as atrevidas lebres, as vorazes raposas. A todos saudava com alegria e ânimo. A sua vida era óptima e o mundo sorria para a sua juventude e entusiasmo.

Voava alegremente por entre as copas das árvores quando ouviu um som muito alto, parecido com aquele que o céu faz quando está muito escuro e aborrecido com alguém que nunca se sabe quem é. De imediato sentiu, mais do que viu, um súbito brilho passar-lhe pelos olhos, sentiu um tremendo ardor por baixo das penas do alto da cabeça e uma só gota de um líquido espesso e quente descia pelas suas penas. Enquanto caía indefeso e perdia aos poucos a consciência pensou que se calhar um ramo tinha raspado pela na cabeça. Pelo que pareceu durar uma eternidade caiu, caiu, caiu. Até que o ramo de uma gentil árvore lhe aparou a queda. E ali ficou inerte e semi-inconsciente.

Quando acordou já o Sol ia alto no céu. Ainda tinha poucas forças mas precisava voltar ao seu ninho. Fez um esforço, abriu as asas e fez força para subir. Nada. Tentou de novo. Desta vez elevou-se uns centímetros mas logo voutou a cair, exauto. Tentou de novo. Só que agora atirou-se do ramo em vez de tentar atirar-se para o ar. O ar aparar-lhe-ia a queda uma vez que tinha as asas abertas, pensou. Nos primeiros instantes caiu simplesmente. Abriu mais as asas e passou a planar. Desviou-se de alguns ramos que vinham na sua direcção. Bateu ligeiramente as asas e subiu mais um pouco. Animado decidiu bater mais. Subiu alguns centímetros, alguns decímetros, um metro. Já estava acima da copa das árvores. Agora era só voar na direcção de casa.

Virou no ar muito lentamente mas com confiança. De súbito uma rajada de vento muito forte soprou e apanhou-o pela frente. Batia as asas com muita força mas mesmo assim a rajada de vento continuava a empurrá-lo para trás e para longe do seu ninho. Viu as suas amigas árvores a passarem por baixo dele, viu os seus amigos olhando espantados para a visão de um passarinho batendo as asas para a frente enquanto andava para trás, viu o lago passar por baixo dele, a floresta acabou e via passar por baixo de si os campos cultivado. Passou por montes e vales e planícies e lagos. E a rajada de vento continuava a empurrá-lo sem misericórdia.

Decidiu deixar de fazer força e deixar-se ir. Assim que a rajada abrandasse voltaria para casa. E aproveitou a boleia e admirou a paisagem que por baixo dele corria. Mais florestas se aproximaram e fugiram, mais montes vieram na sua direcção e depois foram-se embora. Viu aproximar-se um grande lago. Á volta desse lago havia uma terra esquesita, muito amarela, fina e sem árvores. E era tão grande o lago que mesmo estando longe só conseguia ver uma margem. E o lago grande aproximava-se cada vez mais. E cada vez parecia maior. Maior e mais violento. Fazia umas ondas zangadas, altas e de espuma branca. Aproximava-se cada vez mais e o barulho do lago a ralhar com alguém que ele não via onde estava ia ficando cada vez mais alto.

A rajada de vento continuava a empurrá-lo. Estava já sobre o grande lago e mesmo em cima dele não conseguia ver as suas margens. Era enorme este lago. E tinha um aroma estranho diferente. Até o cheiro deste lago era violento. Entrava pelo bico adentro o cheiro e fazia-o tossir. Ao longe começou a ver uma pequena mancha de algo que não era o lago. À medida que se aproximava perccebia que era um pequeno pedaço de terra. O pedaço de terra ia ficando cada vez maior à medida que a rajada de vento o empurrava mais e mais. O pequeno pedaço de terra ia ficando cada vez maior. Percebia já que era maior do que tinha parecido. COmelou a perceber uma floresta que existia no pedaço de terra no meio do lago grande. E as árvores que lá haviam. E até as gaivotas que passavam por ela sem sequer a cumprimentarem. Quando já estava sobre a floresta a rajada ia perdendo a força e aos poucos ia libertando-o. Então parou por completo. O passarinho estava liberto finalmente.

Estava agora numa floresta que não conhecia, uma floresta onde não conhecia as árvores nem os animais. Teve medo de que ninguém gostasse dele nesta floresta. Mas encheu o peio de ar e decidiu explorar. Tinha de haver alguém que gostasse dele. O passarinho era muito simpático e por isso costumavam gostar dele. Foi voando por entre as árvores. Cumprimentava-as a todas. Algumas respondiam, outras não.

À medida que ia passeando por aquela floresta desconhecida ia ficando cada vez mais alto o som de água a correr. Então, ao contornar uma grande e árvore, viu o que fazia aquele barulho. Era um rio. Mais um ribeiro. Sereno, tranquilo e que fazia com um som apaziguador nas suas margens e nas suas pequenas ondas.

Aproximou-se dele e cumprimentou-o. O rio olhou para ele e cumprimentou-o de volta. Foi amor à primeira vista. O rio encantou-se com o passarinho e o passarinho encantou-se como rio. O rio mostrou-lhe uma árvore não muito longe onde pudia fazer o seu ninho. E todos os dias o passarinho ia visitar o rio e passavam o dia a conversar e a rir. Foram tempos maravilhosos, tempos como o passarinho nunca vivera. Um dia contou ao rio como tinha ido ali parar. E o rio contou-lhe da rajada de vento que costumava passar por ali. Às vezes trazia passarinhos como ele, às vezez levava-os. E a rajada tornaria a soprar passado dois dias. Se o passarinho quisesse voltar só tinha de esperar e a rajada levava-o de volta.

Nessa noite o passarinho não conseguiu dormir. Estava cheio de saudades da sua floresta e dos seus amigos. Mas como podia deixar para trás o seu rio, o seu rio de amor? Por um lado tinha a sua casa, por outro lado tinha o seu amor.

Na manhã seguinte tinha já tomado uma decisão. Acordou bem cedo e dirigiu-se ao seu rio. E falou-lhe na sua casa e nos seus amigos e de como tinha muitas saudades. Mas também lhe falou do que sentia e de que não podia deixar o rio. Por isso pediu ao rio para deixar tudo e voltar com ele para a sua floresta. O rio ia gostar da floresta, todos eram muito simpáticos.

O rio ouviu muito calado e sem nenhuma onda a perturbar a sua superfície. Disse então ao passarinho que gostava muito dele e que ia sentir muitas saudades mas não podia ir embora. Toda aquela floresta precisava dele. Era ele que alimentava as árvores e dava de berber aos animais. Se se fosse embora todos sofreriam. Tinha muitas responsabilidades e por isso, por muito que lhe custasse, tinha de ficar.

O passarinho não quis ouvir mais. Fugiu do seu amado rio na direcção das árvores. Nem ouviu o que o rio lhe queria dizer a seguir. A dor era tanta para o seu coração tão pequeno que parecia que ia explodir. Só parou por trás da grande árvore que no início contornara antes de ver o rio. Atrás do seu largo tronco o passarinho chorou. Chorou muito e por muito tempo. Chorou o dia todo e a noite toda.

Na manhã seguinte e sem ter dormido nada percebeu que não devia ter chorado. Não devia ter fugido do rio. Tinha de compreender que por muito que amasse o rio este não podia deixar para trás todos aqueles que precisavam tanto dele. Decidiu por isso voltar até ao rio e pedir-lhe desculpa por ter ido sem lhe dizer nada. Queria dizer-lhe que gostava muito dele e que não voltava à sua floresta. Tinha sido muito egoísta em pedir ao rio para se ir embora.

Assim que levantou vôo soprou a rajada de vento. E o passarinho mais uma vez se viu impotente perante a sua força. Mas desta vez batia as as asas com mais vigor. Queria desesperadamente voltar ao rio e falar com ele. Mas a rajada nem o ouviu. Continuou a soprar e algum tempo depois deixou o passarinho na sua floresta.

O passarinho estava de novo em casa. Os seus amgos saudaram-no e quiseram saber tudo sobre o tmepo que tinha estado fora. E o passarinho lá contou tudo, mas com uma grande tristeza na voz. À medida que os dias passavam o passarinho só esperava a rajada de vento para o levar de volta ao rio mas ela insistia em não aparecer. Todos os dias o passarinho cantava uma canção, esperando que o seu rio a ouvisse lá longe e soubesse que nunca se esqueceria. Lá longe, perto do rio, onde o passarinho tinha chorado nasceu uma flor.

E ainda hoje o vento leva até ao rio as pétalas que a flor vai chorando de amor.


Publicado por Mauro Maia às 23:49
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