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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quarta-feira, 13 de Julho de 2005
Ethicus libri optio
Ethicus libri optioQuando tinha 16 ou 17 anos ofereceram-me um livro. Que melhor prenda a dar a alguém que aprecia tanto ler como eu? O livro tinha sido lido (e apreciado) pelo filho da pessoa que mo ofereceu que portanto o considerou uma boa prenda a dar-me.</br></br>

Abri o embrulho da prenda, aguardando com expectativa quais os novos universos de que iria desfrutar pela leitura deste novo livro.</br></br>

Assim que retirei o livro li a sua capa: Ética para um jovem.</p>

Senti-me imensamente frustado, insultado, ultrajado. O tom condescendente do seu título gerou em mim muralhas imensamente altas de rejeição desta que devia ser uma excepcional prenda (bastava ser um livro para ter como oferta bastantes pontos de aprovação).</br></br>

O que se depreendia do título era "Ética para um jovem explicada de uma forma acessível de modo a que se interesse por um assunto tão aborrecido e difícil. Ultrajante foi o adjectivo mais suave que me lembro aplicar ao livro.</br></br>

Era como se me chamassem de ignorante, inculto e incapaz de apreciar e compreender um assunto tão interessante como a da ética na sua forma mais pura e verdadeira.</br></br>

Como se precisasse de muletas para me deslocar pelo mundo das ideias e das noções filosóficas.</br></br>

Como se me achassem desprovido das faculdades necessárias para abarcar apenas mais uma das infindas vertentes do mundo que desde sempre me fascinaram.</br></br>

Era uma prenda de quem não me conhecia de todo e me nivelava por baixo dentro das suas considerações pela Humanidade em geral e pela minha faixa etária em particular.</br></br>

O livro poderia ser bom ou ser uma perfeita imbecilidade escrita por imbecis para os jovens que os autores consideravam tão imbecis como eles próprios. Nunca o soube (e se calhar morrerei sem saber).</br></br>

O livro foi como uma semente de uma flor caída no cimento:
podia ser uma aromática rosa ou um espinhoso cacto. Podia mas foi escolhida a pior forma de se apresentar a mim...</br></br>

Nunca abri o livro, nunca folheei o livro, sequer dei uma vista de olhos pelo o seu índice. A última vez que estive em casa dos meus pais penso ter reparado (no canto da estante onde o tinha deixado há 13 anos) o livro, sozinho, abandonado, por ler e por abrir (por mim pelo menos).</br></br>

Provavelmente quem ler esta artigo pensará «Tens de experimentar antes de julgares. Não podes reprovar sem tentares».</br></br>

É certo que concordo em termos gerais com este argumento. Afinal a validade de uma teoria é somente dada pela experimentação.
Mas isso só é válido em termos de conceitos objectivos.</br></br>

A subjectividade dos critérios de apreciação invalida muitas vezes esta máxima. Devemos experimentar tudo
desde que não choque com os nossos valores fundamentais. Por vezes necessitamos de pôr à prova os nossos valores básicos quando estes não estão solidamente implantados na nossa mente ou quando dentro da hierarquia dos valores os que serão postos à prova não são os mais significativos.</br></br>

Mas não necessito de andar aos tiros aos pardais para julgar essa prática absolutamente bárbara e carecida de validação.</br></br>

Não necessito de ler o
Mein Kampf para me sentir ultrajado por ele e pelo seu autor.</br></br>

Não</b> necessitei de ler o
Ética para um jovem para me sentir insultado por ele...</br></br>

O título do artigo admite duas opções de significado, ambas ajustadas à minha ideia: «A opção ética de um livro» ou «A opção de um livro ético»



Publicado por Mauro Maia às 17:00
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2 comentários:
De Rui a 13 de Julho de 2005 às 21:22
De facto, após ler este artigo, não tive outra opção que não fosse dirigir-me à estante e abrir o famigerado livro - e sim, recordo ainda quando o recebeste e como não ficaste de todo contente com a oferta. Mas, fosse pela "saturação cultural" que um dia discutimos, ou por mera preguiça visual, o facto é que após meias páginas lidas na diagonal voltei a fechá-lo e deixá-lo na estante.


De Cyber Conhecimento a 14 de Julho de 2005 às 01:26
É como darem-nos a ler ainda a história da carochinha... posso dizer que esse livro faria muita falta à maior parte dos jovens com 16 anos, HOJE. São raras as excepções... e de tão raras que são que as pessoas as tomam como iguais às outras. E depois... depois essas raridades não gostam nada quando lhes dão para mão "guias" desse tipo...


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