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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sexta-feira, 10 de Junho de 2005
Amo ergo liberto
Sonho Caminhando pela estrada da vida sou rodeado por sonhos de todos os tipos.
Uns são mais brilhantes e desfocados, correndo e ultrapassando a velocidade do meu andar.
Outros são mais claramente definidos, de cores homogéneas e definidas, acompanhando a minha jornada.
A maioria é uma estranha mistura de cores e definições já não tão desfocada como os mais brilhantes mais ainda não tão definidos como os mais definidos.
Vão correndo à minha volta, rodeando-me, sussurrando-me ao ouvido, abandonando-me perante outros que vão chegando.

Mesmo à minha frente, a meio da minha estrada, eis que vejo um. Não lhe consigo perceber a cor, não consigo determinar a sua definição. Está lá simplesmente, como que aguardando a minha chegada. Tem uma postura resoluta de quem nem pondera ser ignorado.
Aproximo-me curioso e estendo a minha mão para lhe tocar. Tem uma textura suave, um aroma inebriante, emite um som reconfortante e inspira confiança.

Será este o sonho que há tanto tempo aguardo? - penso.

Sonho na mãoPego-lhe delicadamente com a mão e encosto-o ao peito. De imediato o meu coração pula e rejubila.
Electrizantes emoções perspassam por todo o meu ser, a felicidade inunda-me, o amor estrutura-me o ser, a esperança ilumina a minha visão.
Ignoro todos os outros sonhos. A mais nenhum presto atenção. Todos vão ficando para trás, à medida que correm para me acompanhar e para se fazerem notar. Só um interessa. Só interessa o sonho que guardo na palma da minha mão contra o meu coração.
E assim o mantenho, enquanto percorro a minha jornada rumo a uma meta que desconheço e que a cada passo se vai modificando.

Mas começo a perceber que o meu sonho já não está bem. Agita-se dentro da palma da minha mão, emite ruídos estranhos, tem uma textura urticante.

O que se passará? - penso.

O meu sonho quer ser livre, quer sentir a brisa, quer ver o mundo com os seus olhos, quer aspirar as flores, ouvir os pássaros a cantar, quer ver o nascer do sol.
Mas eu não posso abdicar da minha felicidade!
Mas eu não posso abrir mão do meu sonho!

O meu sonho continua a agitar-se na mão que eu mantenho cerrada firmemente.

Talvez não queira fugir de mim, talvez só queira ser livre para me amar também, não queira ser prisioneiro do amor. - penso.

Mas a sua presença é tão importante para mim, a sua existência junto ao meu coração é-me tão imprescindível. Como posso sequer arriscar abrir a mão? E se ele foge, se escapa, deixa-me para trás?

O meu sonho continua a agitar-se na mão que eu mantenho cerrada firmemente.

Compreendo por fim que tenho de abrir a mão. Não para que ela possa fugir mas para que ele me possa amar. Como se pode amar a nossa prisão?

Relutantemente estendo o braço e lentamente abro os dedos. Lentamente afasto os dedos da palma da mão e progressivamente vejo outra vez o meu sonho.

Finalmente tenho a mão plenamente aberta e o meu sonho está enroscado sobre si na minha palma.
Aos poucos endireita-se, espreguiça-se, abre os olhos e fita-me com os seus olhos de sonho.

Com um olhar diz-me «Obrigado» e abre as asas.

Não sei se fugirá de mim, não sei se se aninhará junto ao meu peito.
Só sei que amo o meu sonho somente se for livre...

Amo logo liberto


Publicado por Mauro Maia às 23:18
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3 comentários:
De sylpha a 11 de Junho de 2005 às 16:16
Simplesmente sublime este teu post :) Bjs


De Fernanda a 13 de Junho de 2005 às 13:37
Adorei o teu conto. Considerei magnifica a forma como trabalhaste quer os conceitos quer os valores que se pantenteiam no texto. Embora universais estes são sem dúvida alguma tão valiosos e caros para a Homem. As personificações estão coloridamente bem conseguidas, o emprego das expressões verbais e nominais são tão diversificadas e ricas que animam o texto, deixando o leitor expectante na dinâmica da teia que o vai abraçando. É assim um texto que prima pelo que é dito mas a meu ver acima de tudo pela forma como é dado a conhecer o que se quer dizer a quem lê.


De Jos lopes a 14 de Junho de 2005 às 14:34
Parabéns!


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