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Diário das pequenas descobertas da vida.
Domingo, 16 de Agosto de 2009
Egrégios ventos

Olho pela minha janela e, lá fora, vejo uma bandeira

portuguesa drapejando ao vento. O seu verde imaculado

reflectia-se nos extensos campos à sua volta e o seu ígneo

vermelho no sol que se punha ao longe.

 

Mas de onde vieram estas cores? Porque foram estas as escolhidas para a bandeira? Ao longo dos seus, feitos em 2009, 881 anos de vida (870 anos se se contar a partir da aprovação papal), Portugal teve várias bandeiras. Pelo menos 15 bandeiras representaram este pequeno grande rectângulo plantado à beira-mar (podem ser vistas no final do artigo). Desde as bandeiras quadradas brancas com a cruz a azul dos primeiros Reis, à mesma mas com um rebordo vermelho com castelos, rectangulares com fundo totalmente branco ou com o fundo dividido numa parte azul e outra branca, até à actual vermelha e verde, várias bandeiras representaram este pequeno território que deu novos mundos ao Mundo.

 

A História de Portugal começa, paradoxalmente, no meio da actual França, algures no século IV. Durante as invasões hunas do Império Romano, no século IV, várias tribos germânicas, fugindo aos hunos, espalharam-se pelo Império Romano do Ocidente: os Francos no que viria a tornar-se a moderna França, Visigodos, Vândalos, Alanos na península ibérica. Outros povos se lhes juntaram como os Suevos e os Burgúndios. Os primeiros dirigiram-se para a Península Ibérica. Os últimos, vindos da Escandinávia, instalaram-se na região onde é a actual Dijon, perto dos Francos. Aí fundaram o seu reino, a Burgúndia, que existiu até ser anexada pelos reis francos da dinastia merovíngia (sim, a mesma que é referida no livro como tendo sido fundada pelos descendentes de Jesus).

 

A Burgúndia, que ocupava sensivelmente a região da Borgonha actual, manteve alguma da sua autonomia dentro do reino franco e tornou-se mesmo um ducado influente dentro do reino, tendo um dos Duques da Borgonha se tornado Rei dos Francos em 923. Da família real burgúndia viria a nascer, em 1035, Henrique, Duque da Burgúndia. Teve um total de 7 filhos, tendo o mais novo, nascido em 1066, recebido o nome do pai, Henrique. Como filho mais novo, nunca herdaria o Reino da Burgúndia, pelo que abandonou a sua casa, em 1090, para acompanhar o seu primo, Raimundo da Burgúndia, que se vinha casar com a filha mais velha do Rei de Leão e Castela de nome Urraca, com 12 anos. Tendo-se juntado a Afonso VI de Castela e Leão na Reconquista Cristã na Península Ibérica, Henrique destacou-se na luta contra os Mouros, a grande maioria não era Árabe. Árabes são os oriundos da Arábia e a maioria dos conquistadores muçulmanos, i.e., que professavam o Islão, eram oriundos de Norte de África, da região conhecida pelos Romanos como Mauritânia. Daí o nome do país e também o de Mauros, que se tornou em Mouros. Camões, nos Lusíadas, refere-se aos Mouros como Mauros e eis o porquê). Pelos seus feitos, Afonso VI deu-lhe a mão da sua filha bastarda Teresa (Tareja em Português arcaico) em casamento. O primo de Henrique, Raimundo da Burgúndia, casado com Urraca de Castela, tinha-se tornado Conde da Galiza, Conde de Portugal (Condado portucalense) e Conde de Coimbra. Afonso VI, como recompensa pelo valor de Henrique na Reconquista, separou, em 1093, a Galiza em duas: o norte ficou para Raimundo e o sul, o Condado Portucalense e o Condado de Coimbra, para Henrique. Desde essa altura que as duas regiões, o Norte de Portugal e a Galiza, partilham uma herança comum, reforçada pelo sangue de dois primos divididos.

 

Estátua de D. Afonso Henriques, em Lisboa Raimundo morreu em 1107 e Urraca tornou-se, em 1109, Rainha da Galiza, Leão e Castela, (a primeira mulher a tornar-se Rainha de um país ocidental) após a morte do príncipe herdeiro, Sancho, que morreu na infância, e do pai, em 1179. Ao longo do seu reinado, enfrentou problemas internos, com o ex-marido Afonso I de Aragão e com o cunhado, conde D. Henrique. Em 1125, a Rainha Urraca morreu, treze anos antes do seu sobrinho, D. Afonso Henriques, se ter proclamado Rei de Portugal.

 

D. Henrique usava, como estandarte na sua luta contra os Mouros, um escudo com uma cruz azul e fundo branco. D. Afonso Henriques, o Conquistador, que se proclamou Rei de Portugal em 1139 (após a Batalha de Ourique, na qual venceu um exército mouro numericamente superior) usou o estandarte do pai como o seu, acrescentando à cruz 5 escudetes (chamados também quinas) com 11 pontos cada. É difundida a ideia de que as 5 quinas representavam as «chagas de Cristo», que D. Afonso Henriques terá visto antes da Batalha, mas esta lenda foi criada muitos séculos após os acontecimentos. O mais provável, é que fossem apenas pregos adicionados aos escudos para os reforçarem deixados visíveis para evidenciarem o facto de D. Afonso Henriques, ao tornar-se Rei, passava a cunhar moeda própria (Escudetes num brasão indicam, em heráldica, que quem o enverga pode cunhar moeda, tendo dinheiro e independência política para tal).

 

Quando D. Sancho I, o Povoador, sucedeu a seu pai, tomou como sua a bandeira do pai, eliminando a cruz azul e deixando as 5 quinas. Foi esta a bandeira usada pelos reis seguintes, o seu filho D. Afonso II, o Gordo e o seu neto D. Sancho II, o Capelo.

 Azeitona grafadaD. Afonso II também é conhecido pelo cognome «o Gafa». Na Idade Média, as pessoas com Lepra eram chamadas de «leprosos», «lázaros» e «gafos». A Gafa da Oliveira (ver a página Gafa da Azeitona) é uma doença que atinge as oliveiras e em especial as azeitonas nas árvores e que lentamente destrói a azeitona a partir de uma depressão inicial provocada pela picada da mosca que transmite o vírus pela sua saliva, que é também o meio de transmissão de uma pessoa para outra. O aspecto acastanhado e rugoso que a azeitona ganha levou a que fosse aplicada aos doentes com Lepra e os hospitais para leprosos eram conhecidos como «Gafarias». D. Afonso II seria provavelmente leproso.

 

Em 1245, o Papa Inocêncio IV, através da bula Inter alia desiderabilia e Grandi non emmerito excomungou e depôs D. Sancho II, considerando-o um «rex innutilis» (governante incapaz) devido a conflitos com os interesses da igreja em Portugal. Então D. Afonso III, o Bolonhês, irmão mais novo de D. Sancho II, deixou o Condado de Bolonha, no norte de França (onde era conde por casamento), foi coroado Rei de Portugal. D. Afonso III subiu então ao trono e, não sendo o filho mais velho o anterior monarca, teve de utilizar a bandeira do pai com alterações (regras da heráldica). Incorporou então uma borda vermelha com castelos dourados. O significado dos castelos não é claro. Vários cronistas indicam que se trata da representação dos castelos mouros que Afonso III conquistou (sendo que o número referido é variável). Há também quem veja nos castelos dourados sobre fundo vermelho a alusão ao brasão do Reino de Castela: um castelo dourado sobre um fundo vermelho. Ou porque a sua mãe Urraca era de Castela ou porque casou (depois de se separar da Condessa de Borgonha) com uma infanta castelana, D. Beatriz. O número de 7 castelos foi apenas definitivamente estabelecido no século XVI.

 

Bandeira de D. Afonso IIIA bandeira portuguesa não sofreu grandes alterações durante os aproximadamente 200 anos seguintes (cerca de 12 monarcas), desde D. Afonso III, o Bolonhês; passando por D. Dinis, o Lavrador (que mandou plantar o pinhal de Leiria e foi grande poeta); D. Pedro I, o Justiceiro (que mandou vingar a morte da sua amante D. Inês de Castro); D. João I, o da Boa Memória (por a ter deixado na mente dos seus súbditos, foi pai da Ínclita Geração e iniciou os Descobrimentos portugueses); D. João II, o Príncipe Perfeito (no seu reinado os Descobrimentos começavam a trazer prosperidadee felicidade a Portugal). A primeira alteração de vulto deu-se com D. Manuel I, o Venturoso (por ter tido a ventura/sorte de usufruir de todos os feitos do seu primo e predecessor D. João II), quando ascendeu ao trono, em 1495 (80 anos após o início da expansão portuguesa, com a conquista de Ceuta em 1415 por D. João I). A forma quadrada passou a uma forma rectangular com proporção 2:3 (ou seja, a cada 2 centímetros de altura da bandeira correspondem 3 centímetros de comprimento). Por comparação, as proporções dos ecrãs de televisão são 4:3 ou então 16:9; além disso, a borda vermelha com castelos dourados passou para o brasão central, tendo no centro as 5 quinas. Coroando o brasão, uma coroa representativa do facto de esta ser a bandeira de um reino. Quando o seu bisneto, D. Sebastião, o Desejado, morreu na Batalha de Alcácer-Quibir (ver mais pormenores em Um por todos e Ceuta aeterna dolor), Portugal teve, como bandeira, a bandeira espanhola.

 

Durante 60 anos, Portugal foi governado por representantes dos Reis espanhóis. Até que, a 1 de Dezembro de 1640, D. João IV, o Restaurador liderou uma revolta nacional e restaurou a independência (com algumas perdas territoriais, como Ceuta e o Império Português do Oriente, como visto em Novas e demónios), a bandeira portuguesa voltou a ser a que ea antes da perda da independência: fundo branco com um brasão central encimado por uma coroa. Em 1807, a família real portuguesa foge das invasões francsas, mudando radicalmente os destinos de Portugal (ver Jardins cor-de-rosa).

 

Um dessas alterações foi na bandeira portuguesa. Reino Unido de Portugal, Brasil e dos AlgarvesResidindo o rei no Brasil, o seu estatuto passou de colónia para reino e assim D. João VI passou a ser Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves. A esfera armilar, representativa dos descobrimentos portugueses e do Brasil e a cor azul foram inseridos pela primeira vez na bandeira nacional (desde D. Manuel I que a esfera armilar fazia parte do estandarte real ma não da bandeira nacional). Mas, na enorme reviravolta na história de Portugal que foi a Independência do Brasil e a subsequente Guerra Civil, duas facções lutaram pelo poder político: os Absolutistas, partidários de D. Miguel, e os Liberais, partidários de D. Pedro. Tendo-se exilado nos Açores, os Liberais não adoptaram a bandeira existente, introduzindo alterações: a esfera armilar desapareceu, a cor azul passou a ser metade do fundo de toda a bandeira, com o brasão central no meio das duas cores. Eventualmente o Liberais ganharam a Guerra Civil e a bandeira nacional passou a ser a bandeira liberal de fundo branco e azul, sem esfera armilar. D. Maria II assumiu a governação e a bandeira sofreria mais uma alteração: a cor azul passou a ocupar um terço (1/3) da bandeira e a cor branca dois terços (2/3), reflectindo o estandarte da marinha portuguesa.

 

E foi esta bandeira liberal a de Portugal durante os 76 anos seguintes, ao longo dos 6 últimos monarcas portugueses. A 5 de Outubro de 1910 foi instaurada a República em Portugal, depondo D. Manuel II, o Desventurdo (por ter tido o azar de ser o último Rei de Portugal e governar apenas 2 anos). Houve muitos debates sobre como deveria ser a nova bandeira nacional, já que a anterior tinha vários símbolos da Monarquia e o azul era a cor da Santa Padroeira de Portugal. Como os Republicanos eram laicos (defendiam a separação entre Estado e Igreja), foi nomeada uma Comissão para decidir como deveria ser a nova bandeira. Entre outros, faziam parte Columbano Bordalo Pinheiro (pintor e irmão de Rafel Bordalo Pinheiro, o criador da figura do «Zé Povinho»), João Chagas (jornalista), Abel Botelho (escritor) e Ladislau Pereira e Afonso Palla (líderes militares da Revolução). Zé Povinho, sempre desconfiado de Monárquicos e RepublicanosFoi esta comissão que aprovou a bandeira nacional actual como a bandeira de Portugal. O azul e branco monárquico foi substituido pelo vermelho e verde republicano, a esfera armilar foi reintroduzida, a coroa desapareceu e mas as proporções 1/3 e 2/3 das cores da bandeira foram preservadas. O vermelho e verde (que eram simplesmente as cores do Partido Republicano que tinha feito a Revolução) foram justificados porque o vermelho foi considerado uma cor de conquista e alegria, a cor do sangue e representativa de vitória. O verde foi mais difícil de justificar, já que nunca tinha feito parte da bandeira nacional, tendo a comissão acabado por a justificar dizendo que, durante a revolução republicana de 1881, reprimida brutalmente pelas tropas monárquicas, era esta a cor da bandeira dos revoltosos republicanos, vencidos e exilados quando a tentativa de revolução falhou (29 anos depois é que a Revolução foi bem sucedidda). A esfera armilar é o símbolo dos Descobrimentos Portugueses, a época de ouro de Portugal e a época de maior orgulho na nossa História.

As cores da bandeira derivam da do Partido Republicano Português: o vermelho é uma das cores tradicionais do Federalismo Ibérico, uma ideologia Socialista-Republicana muito comum no início do século XX e que defendia a união política entre Portugal e Espanha; o verde era a cor que, segundo Augusto Comte, teórico do positivismo (doutrina filosófica muito cara aos mentores do PRP, designadamente Teófilo Braga), convinha aos homens do futuro, isto é, aos positivistas.

 

Em 1928, a Primeira República foi deposta, uma ditadura militar foi imposta e Salazar tornou-se ministro das Finanças. Em 1933, a Constituição foi alterada e o Estado Novo foi criado. Como qualquer outra Ditadura, como forma de se auto-justificar, auto-glorificar e desviar as atenções da população oprimida para símbolos exteriores à miséria da sua vida, a Censura foi implementada, a Religião e o Futebol foram manejados para limitar as vistas nacionais e o passado histórico foi subvertido. Algumas dessas manipulações sociais são abordadas em Cadeira Negra. Uma das pequenas subversões da realidade histórica deu-se com a justificação das cores nacionais: tendo a Primeira República sido o Regime extinguido pelo Estado Novo, as cores nacionais não poderiam ser associadas às do Partido do Regime anterior. Pelo que as explicações, que a maioria dos Portugueses ouviu na Escola Primária, passou a ser a de que o verde é a cor da esperança (para passar a mensagem subliminar que as dificuldades que as pessoas sentiam passariam) e de que o vermelho é a cor do sangue dos que e sacrificaram por Portugal (justificação para o carácter nacionalista do regime e incentivo para os jovens portugueses se disporem morrer na Guerra Colonial a exemplo dos heróis portugueses do passado).

 

E eis a História do símbolo nacional por excelência mas que se alterou ao sabor dos ventos da História e da Política que sopraram neste pequeno e velho jardim europeu...

 



Publicado por Mauro Maia às 08:16
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2 comentários:
De . a 23 de Dezembro de 2009 às 11:40
Caro Mauro:

Não importa se a plataforma é a antiga ou outra qualquer mais recente. O importante é a essência do blogue. Que o Cognosco permaneça vivo e de boa saúde :-)

Votos de um Bom Natal e de um Feliz Ano Novo.

.


De Mauro Maia a 31 de Dezembro de 2009 às 10:56
Obrigado, «.». Como já verificaste, já fiz a transição. Ainda de olho na possibilidade que referiste de poder inluir imagens nos comentários (e transferir mesmo o Cognosco para outro local). Festas Felizes e por cá continuarei a colocar mais um ou outro tijolo no edifício virtual. Um abraço.


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