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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007
42 regras
</br>
A Língua Portuguesa (e reconheço que estarei a ser parcial) é uma das mais belas e complexas do Mundo. Tem algumas bonitas construções frásicas, como a pronominalização de que se falou em Lusitanae linguae.</br></br>

O desenvolvimento tecnológico e o contacto cada vez mais frequente e importante com outras línguas significativamente mais pobres têm feito esfumar-se algumas das catedrais da ortografia portuguesa. Um dos efeitos do desenvolvimento tecnológico (que é extremamente importante, tendo até em conta que é através dele que escrevo estas palavras, deve ser um meio para a promoção da língua e não para a sua banalização) tem sido o progressivo esquecimento do uso e conhecimento do hífen aquando da passagem de parte de uma palavra no final de uma linha para a linha seguinte (a translinearização).</br></br>

O primeiro uso do hífen corresponderá igualmente ao primeiro texto impresso em 1452.
Neste ano, o alemão Johannes Gutenberg imprimiu aquele que será, ainda hoje, o livro mais imprimido do Mundo, a Bíblia. A prensa de Gutenberg imprimia exactamente 42 linhas da mesma altura em cada página, não sendo possível alterar este valor. Cada página era composta por «tipos» (pequenas peças de madeira ou metal onde está gravada uma única letra) que eram alinhados para formar as frases do texto e que eram mantidos fixos em 42 linhas por meio de uma estrutura rígida que circundava toda a «página». Para tornar cada linha do mesmo tamanho (evitando o uso de imensos «tipos» de espaço em branco), Gutenberg, quando uma linha de texto terminava a meio de uma palavra, colocou um traço no final, do lado direito, indicando que a palavra continuava na linha seguinte.</br>
Na verdade, Gutenberg usava dois traços paralelos horizontais ( = ) para a translinearização. Nessa época, entre os séculos XIII e XVII, usava-se um traço oblíquo ( / ) para representar uma pequena pausa no texto (a bem conhecida vírgula), uma vez que o símbolo moderno ( , ) ainda não se usava. Mais tarde, no século XVI, com a evolução da escrita, a vírgula passou a ser o actual «,» e o traço horizontal passou a ser o símbolo da translinearização. No mesmo século, em 1557, os dois traços horizontais passaram a ser usados, para propósitos matemáticos, como o símbolo da igualdade. O uso de dois traços horizontais para o hífen da translinearização ainda foi usado, na Alemanha, até meados do século XX.</br></br>

Antes das prensa mecânicas, em textos manuscritos, não havia necessidade de se usarem sinais indicadores de que a palavra continuava na linha seguinte: se uma palavra não cabia ou se escrevia na margem ou colocava-se toda a palavra na linha seguinte. Mas a necessidade de manter as linhas com tamanhos iguais para permitirem o seu uso em prensas mecânicas levou à criação desta singular pequena linha, que os descendentes das prensas de Gutenberg (os computadores) ameaçam (esperemos que uma falsa ameaça) agora.</br></br>

Por exemplo, a translineação (o uso de um hífen no final de uma frase para indicar que a palavra continua na linha seguinte) pode ser</br>
Conhe-</br>
cimento</br></br>

É verdade que os processadores de texto podem realizar esta tarefa de divisão silábica no final de uma linha automaticamente, mas não é menos verdade que essa opção é pouco utilizada e, principalmente, como é feito automaticamente as regras pelas quais tal processo é feito permanecem ocultas.</br></br>

Então quais as regras que regem a translineação? À partida é muito linear (aparentemente) mas tem algumas excepções que vale apena referir.</br></br>

~ A primeira e óbvia(?) regra é que a divisão se faz por soletração. Fazê-lo é, geralmente, fácil (ge-ral-men-te), não havendo regras para o fazer. É daquelas coisas que se sentem audivelmente («ge»+«ral» são duas sílabas mas «ger»+«al» NÃO são).
Por exemplo:</br></br>

Sabe-se que é geral-</br>
mente válida esta regra.
</br></br>

~ Os ditongos não se quebram no final de uma linha. Ou parmanece junto numa linha ou passa junto para a seguinte.Um ditongo, como visto em Esdruxulamente, é um conjunto de duas vogais que se lê como um só som. Nem todas as combinações de vogais são ditongos («ai» é ditongo mas «ia» não é), apenas «ai», «ao», «ei», «eu», «ou», «ui».</br>
Por exemplo:</br>
</br>
Hoje apetece-me começar com bis-</br>
coitos de chocolate e um copo de lei-</br>
te.
</br></br>

~ Nos casos em que há uma consoante dupla (geralmente «rr» ou «ss» mas podendo ser «nn», como em connosco), as consoantes são separadas.</br>
Por exemplo:</br></br>

Este artigo é uma bar-</br>
ri
gada de riso e divertimento</br>
e eu não sei se a impos-</br>
si
bilidade de o reescrever não</br>
fará com que ele tenha con-</br>
nos
co muito sucesso.
</br></br>

~ Se existirem duas consoantes seguidas diferentes, passa apenas a segunda para a segunda linha, excepto se a segunda consoante for «h», «l» ou «r», em que as duas passam em conjunto.</br>
Por exemplo:</br></br>

Vamos alcançar o cami-</br>
nho que nos levará a des-</br>
bloquear todo o nosso con-</br>
trolo sobre o processo.</b>
</br></br>

~ Quando há «qu» ou «gue»/«gui», a constante nunca é separada do «u» que a acompanha.</br>
Por exemplo:</br></br>

Foi somente por ser inques-</br>
tionável que não se sabe o quo-</br>
ciente que se pode comprar dez qui-</br>
los de manteiga e um aquá-</br>
rio. Não se sabe nem mesmo se conse-</br>
gue saber se, em segui-</br>
da, não se comprará um elefante branco.
</br></br>

~ Quando as palavras contém já um hífen (ou mais) por serem formadas por justaposição (como «arco-íris») ou por serem pronominalizadas (como «colocá-lo-ei») a separação pelo hífen acarreta a escrita de dois hífens, um no final da primeira linha e outro no início da seguinte.</br>
Por exemplo:</br>
</br>
Ao andar pela cidade, caiu-</br>
-me a carteira ao chão. Apanha-la-</br>
-ei de imediato.



Claro que há cuidados que se devem ter para manter um texto adequada e esteticamente translinearizado. Se, por uso das regras da translinearização, ficar apenas uma letra no final ou no início de uma linha, deve-se evitar fazê-lo, colocando toda a palavra no final da primeira linha ou no início da segunda, dependendo do espaço que se tem disponível.


Publicado por Mauro Maia às 10:20
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22 comentários:
De PN a 3 de Agosto de 2007 às 11:31
Mais um artigo em prol do bom uso do português.


De Mauro a 3 de Agosto de 2007 às 12:15
E haverá, «PxN», dama mais digna de ser socorrida do que a nossa bela língua? Eu sei que concordamos os dois que não.


De Transbordices a 3 de Agosto de 2007 às 23:58
Porque considera os computadores uma ameaça, que é como quem diz, um sucedâneo indesejável das antigas técnicas de impressão?

Eu tenho uma opinião diferente da sua no que toca às virtudes da língua Portuguesa. Comparativamente a outras, a língua Portuguesa é extremamente evasiva e não permite uma abordagem frontal e directa nas alturas em que isso se impõe. O que outras linguagens permitem abordar e tornar ponto assente em duas ou três frases curtas, implica na nossa língua o recurso a uma série de rodeios que tornam o conceito fugidio e distante. Manifesto-me na qualidade de um indivíduo que viveu alguns anos num País Anglo-Saxonico e que sentiu na pele o drama de deixar de pensar em Inglês e passou a ter que pensar em Português. Nas profundezas do meu íntimo, tenho a sensação nítida que o meu pensamento evolui de forma mais natural quando as ideias são traduzidas na língua Inglesa. Mais ainda, quando tento produzir um discurso interior baseado num monólogo, consigo prolongar de forma ininterrupta as ideias quando recorro à língua inglesa, o que não acontece quando faço a mesma experiência recorrendo ao Português. Isto só consigo explicar se me basear na rectilinidade que diferencia uma e outra língua. No entanto, admito que para reproduzir as ideias pela escrita, o Português poderá ser uma das melhores alternativas possíveis. O mesmo já não admito quando está em causa a transmissão de ideias pela via oral ou discursiva. As implicações que tudo isto acarreta para a formação da mentalidade dos povos são imensas. É precisamente neste ponto que eu penso estar o grande segredo


De Mauro a 5 de Agosto de 2007 às 01:06
Algumas questões, «Transbordices», para esclarecer. Nada tenho contra computadores (na verdade aprecio-os imenso), o que não aprecio é a forma como são usados como desculpa para a banalidade linguística, apenas isso (e encaixado no claro objectivo de falar da translinearização). Falo 4 línguas diferentes (europeias), duas de raíz latina e 2 de raíz germânica (inglês incluído), o que me permite expressar a minha opinião quanto aos pontos altos e baixos que considero (obviamente a título meramente pessoal) nelas. É exactamente pela fluidez do Português, pela sua capacidade plástica de se adaptar às intenções do falante, da sua vasta insidência poética (não admira que haja tantos malogrados poetas em Portugal e haja tantos bem-sucedidos cantores em língua portuguesa no Brasil) que a considero uma das mais belas línguas do Mundo. Não fiz qualquer reflexão sobre a sua «objectividade», até porque a a objectividade está no falante e não na língua. Sendo o Inglês uma segunda língua materna para mim, podendo optar livremente entre raciocinar e dialogar em qualquer uma das duas, não vejo qualquer diferença em termos de «expressividade objectiva» entre as duas. Aliás, vejo sim: o Português, com o seu extenso vocabulário, as suas ricas metáforas e as suas construções frásicas, permite-me esculpir o meu discurso ao sabor da minha vontade e das necessidades. Por exemplo, caso não esteja certo do grau de formalismo a empregar no meu discurso (oral ou escrito) a alguém, ou desconheço o seu género (se feminino se masculino), o Português fornece uma série de ferramentas que permitem contornar essa especificação. Assim, a título de exemplo, se estou numa festa onde só conheço o anfitrião, o Manuel. Deverei perguntar a alguém que não conheço «Sabes onde está o Manuel?» ou «Sabe onde está o Manuel?» ? É fácil contornar a questão: «Onde estará o Manuel?», por exemplo. A limitação que referes sentir no discurso e no raciocínio em Português parece-me, claramente, uma limitação mais tua do que da língua. A vantagem do Português é que tanto pode ser subjectiva/flexível/romântica/surrealista/barroca/cubista, como ser objectiva/racional/científica/concreta/renascentista/expressionista. O problema do Inglês é que dificilmente consegue ser o primeiro... Por aí se percebe que Shakespeare foi de facto um génio, para conseguir extrair tanto romantismo da língua inglesa. Pergunto-me o que teria ele feito se tivesse nas mãos a maravilhosa plasticidade do Português... Mas isso, como bem sublinho logo no início do artigo, poderá não passar de uma opinião parcial minha (cada um amará a língua com que nasceu, em princípio).


De Transbordices a 5 de Agosto de 2007 às 18:13
Ponho algumas reservas. Sem dúvida que a língua Portuguesa permite todos os exercícios e estilos que refere, mas na minha opinião, o tal estilismo que permite e possibilita, adequa-se essencialmente à escrita, e não à comunicação oral. Senão repare-se... Quando alguém recorre a expressões mais rebuscadas e adornadas com figuras de estilo, não surgem logo apreciadores que frisam o teor lírico do discurso? Não dá a sensação imediata que o orador está a teatralizar, ou pior ainda, a escarnecer? Porque razão os hábitos culturais dos Portugueses teimam em centrar-se em volta do quotidiano, e as suas conversas habituais não passarem de meros relatos descritivos da acção, normalmente não apenas a sua mas também a dos vizinhos? Porque não apreciam os Portugueses, regra geral, a abstracção, tendendo a classificar qualquer conversa menos banal como "filosofias que a nada levam"?
As virtudes que anuncia na língua Portuguesa são um facto, é uma linguagem muito expressiva quando bem utilizada. Mas tem o problema de ser também muito difícil, e as suas virtudes acabam por apenas servir uns quantos dotados que têm a agilidade mental para tirar pleno rendimento dela. No fundo, a língua Portuguesa acaba por ser elitista na sua essência. Quando me centro na apreciação dos dotes linguísticos do povo Português na sua grande generalidade, não posso deixar de sentir alguma tristeza - fala-se e pensa-se mal em Portugal - porque é a linguagem que leva à formação das ideias, e são as ideias que levam à afirmação dum povo. O que eu continuo a apreciar diariamente é uma enorme apetência pelo banal e pela vulgaridade, e isso provém em grande parte da linguagem com que as pessoas aprendem a pensar. Talvez a sua experiência seja diferente da minha. Talvez eu esteja a julgar através do filtro das minhas próprias limitações. No entanto são factos que constato


De Mauro a 5 de Agosto de 2007 às 18:47
Tenho, «Transbordices», o cuidado de sublinhar quando emito uma opinião pessoal, o que fiz nesta questão. Mais uma vez, a dequação ou não do Português à forma como é usado (escrita e oral) é ua questão meramente pessoal e desprovida de objectividade. É referido que «[...] não surgem logo apreciadores que frisam o teor lírico do discurso?» Claramente dependerá da audiência à qual se destina o discurso e aí a questão centra-se na incapacidade do falante ao meio onde fala. Seria tão inadequado recitar sonetos de Camões em Português a um estrangeiro-que-não-tem-a-sorte-de-falar-Português como a de usar rebuscadas figuras de estilo quando o tema é o prosaico quotidiano. Mas, como anteriormente disse, uma das boas qualidades do Português é a sua faculdade de se adaptar ao contexto onde é usado, se o falante assim fizer por isso. No exeomplo apresentado, claramente a limitação está no utilizador do Português (provavelmente recheado de inseguranças socias que pensa mitigar desaquando o seu dicurso à situação em que está) do que na Língua em si mesma. Para se ser fluente e correcto em Português, é indispensável saber esgrimi-lo com mestrias, adequando-o aos fins a que se destina o discurso. Se eu quiser compor uma ode à minha amada, poucas línguas serão tão expressivas (parece que o árabe será e tenho curiosidade quanto às orientais) e adequadas à tarefa. Se quiser compor um texto científico, nenhuns entraves encontro para o uso do Português além do desconhecimento da Língua por parte de quem me leia/ouça. A questão do «povo» (termo para o qual não tenho uma definição exacta, mas entendo o subentendido no uso da expressão no contexto) Português não apreciar (uma percentagem razoável, cogito sem bases estatísticas e sustentação) os floreados do Português parece-me tão natuiral como a generalidade dos falantes ingleses não apreciarem os rebuscados shakesperianos. É das pessoas, não é da língua. Nos séculos XV e XVI, o Português eram uma língua franca de comércio na Ásia, com o qual os negócios eram realizados, independentemente de portugueses estarem envolvidos. Não foi obstáculo ao seu uso comercial os seus floreados: a sua componente objectiva adequou-se ao meios. O Latim (do qual conheço menos do que gostaria ou acharia necessário) é uma língua de grandes complexidades (quem sabe até não terá sido dela que se originou a complexidade portuguesa) o que não obstou ao seu uso e valorização ao longo de milhares de anos. Não me parece que haja elitismo no Português: é, talvez, das línguas mais democráticas que há, uma vez que tem um pouco de tudo para satisfazer as necessidades de qualquer um. O facto de tanto o Rei inglês como um plebeu serem tratados como «he» não reveste a Língua Inglesa de uma qualquer particularidade democrática, os sotaques encarregam-se de a desfazer. O que poderá parecer elitismo na Português (A sua complexidade não acessível a todos) é, a meu ver, exactamente o que a torna tão bela. Se a dificuldade da concretização de um objectivo fosse mais belo e preferível, nunca o Homem teria saído de África para colonizar o Mundo, nunca o Evereste teria sido escalado (que melhor exemplo de se fazer algo apenas porque é difícil e esse difícil torna-o ainda mais belo?) ou chegado à Lua; noutras palavras, a procura da obtenção do impossível (aparente) é que tem levado a Humanidade para mais longe. Basicamente, das palavras aqui deixadas («as suas virtudes acabam por apenas servir uns quantos dotados que têm a agilidade mental para tirar pleno rendimento dela»), infiro que o problema do Português NÃO é o seu uso/conhecimento, mas sim no dwsconhecimento sobre ele. Se for correcta e abundantemente usado, o Português é tudo menos elitista e «só para alguns», é a língua do povo e do rei, do filósofo e do pastor. Não partilho do gosto pelo banal e corriqueiro, mas essa é um questão pessoal (que estranho mas, não sendo nem desejando ser ou ter messias, não critico).


De Transbordices a 6 de Agosto de 2007 às 00:15
Pouco conheço do Latim, mas a ideia que tenho é que se trata das linguagens mais pragmáticas e objectivas possíveis. O extenso legado de expressões proverbiais que originou parece comprovar que o Latim tem o dom de dizer muito com recurso a poucas palavras. O Latim parece ter o dom da síntese, e é precisamente essa característica que me atrai na língua inglesa.
Os meus comentários centram-se na hipotética e controversa questão da formação das mentalidades a partir da língua, e não na sua utilização posterior. Neste caso, se as minhas hipóteses se comprovam, se a linguagem tem influência no encorpar intelectual dos povos, então não podemos deixar de dar destaque à pertinência que a linguagem assume como tradutora de ideias inviabilizando que seja um mero instrumento independente do pensamento. Acabamos por ser aquilo que a linguagem permite e a própria linguagem se encarrega de dotar os povos de um cunho próprio. Donde se explicam determinadas apetências ou tendências que nunca se tratam de casos isolados.
Pessoalmente não sou grande apreciador da expressão artística típica Portuguesa. A revista à Portuguesa traduz-se por uma brejeirice que apenas fica a dever à verdadeira arte dramática. Teatro a sério raramente se vê por estas paragens. Quando assisto a uma novela em Português dá-me sempre a sensação que as representações são forçadas e mal conseguidas - ao contrário dos Brasileiros que conseguem prestações magníficas comparativamente. Serão problemas que se prendem com a pronúncia? Talvez com pronominalização que tão bem nos descreve no seu artigo.
Depois, a métrica caracteristica da língua Portuguesa parece favorecer o florescimento dos cantores pimba, uma praga quanto a mim. Vacuidade de conteúdos e realce excessivo na forma. A métrica dos versejos que escamoteia o simbolismo.
Depois, se enveredarmos por figuras mais sérias, como a justiça por exemplo, é o descambar total. É como se a própria linguagem favorecesse a vacuidade que permite contornar a própria justiça por graves lacunas ao nível da frontalidade e da síntese linguística. É como se a própria linguagem proporcionasse meios para "enrolar" o senso do correcto por via da verbosidade casual. Porque razão figura o povo Português entre os mais intrujões do mundo? Será exagero culpar a linguagem disso? Admito que sim, que talvez seja exagero.


De Mauro a 6 de Agosto de 2007 às 13:16
Vejo então, «Transbordices», que temos mais pontos em comum do que pareceria, com a clara e marcada diferença de retirarmos conclusões perfeitamente antagónicas das mesmas premissas. Do pouco que sei do Latim e falo do Alto Latim dos eruditos e não do Baixo Latim do povo que deu origem às línguas românicas actuais) o poder de síntese que tem sustenta-se meramente na capacidade de síntese do orador/receptor. O muito que fica implícito no Latim, as imagens que usa, o que não diz dizendo, pode tanto ser bem como mal usado. Há, claramente, um atrofiamento lógico-sintático na evolução das línguas humanas: quanto mais evoluída é a Humanidade mais simples e desestruturada será a sua linguagem. Compare-se o Latim com o Italiano (ou qualquer outra língua românica), compare-se o Grego Clássico com o Grego moderno, as Línguas Germânicas antigas com as modernas e o padrão parece saltar à vista. O Inglês não foge a este padrão nem vejo nele uma qualquer especial objectividade superior ao Português. O que me parece que pode aqui estar sobre a mesa é a tua dificuldade em separar a hegemonia cultural e científica actual do Inglês (fruto de um suceder de acasos históricos fascinantes na sua totalidade) das suas qualidades/defeitos. Não vejo qualquer diferença na possibilidade objectiva entre as línguas inglesa e portuguesa. Mas referes uma tese fascinante, com que já tive oportunidade de ser confrontado há uma decada: a possibilidade de a linguagem moldar os pensamentos na mesma medida que estes molda a linguagem (as mútuas interacções, como as dos genes/memes, por exemplo, são interessantíssimas). Foi uma tese de doutoramento que li, na qual se explicava a facilidade no raciocínio matemático/científico dos povos do extremo oriente (comprovada pelos resultados de exames internacionais ultimamente feitos nessas disciplinas) com base no seu tipo de linguagem. O facto de esta ser constituída por símbolos que representam uma palavra inteira facilitará o raciocínio e manipulação de variáveis matemáticas. Uma teoria fascinante, por certo. Quanto às apetências que a Língua dará aos povos que a falam, nunca apreciei brejeirices nem «pimbas» e sou nado e criado em Portugal continental. Aliás, do pouco que sei, há sempre equivalentes às «pimbalhadas» em todas as línguas: é uma questão da natureza humana e não da linguagem que se usa, há estatisticamente uma percentagem da população que aprecia pimbas, como há estatisticamente uma percentagem da população que é alta ou que aprecia música erutdita ou que gosta de desporto ou que gosta de ler. No cadinho da evolução genética/memética da Humanidade, todas as cartas estão sempre sobre a mesa, vingando aquelas que, por sorte ou habilidade, melhor se ajustam às circunstâncias. O facto do povo português apreciar brejeirices será, talvez, a forma como consegue apreciar a maravilhosa plasticidade do Português, com os seus significados implícitos e caminhos feitos e refeitos. Mais uma vez, não é limitação da língua mas de qum a usa.


De Transbordices a 7 de Agosto de 2007 às 19:51
Quanto à involução da linguagem humana ao longo dos tempos ponho algumas reservas - não podemos comparar os grunhidos e o vocabulário limitado dum australopitecus à complexidade da linguagem actual. Aliás, as recentes conquistas da tecnologia não veio em nada tirar recursos à linguagem, pode-se até dizer que veio foi a engrossar o vocabulário através da criação de novos termos e terminologias inexistentes até então. Passámos a ter as palavras antigas acrescidas das mais recentes. E justifica-se, porque de acordo com a evolução, as necessidades de expressão sofrem uma dialéctica de superação. Ha medida que surgem novas fronteiras e realidades, surge também a necessidade de criar novas formas de referência. Tal como a parafernália de expressões relacionadas com as técnicas antigas de navegação eram inprescindveis nos tempos dos descobrimentos, também as expressões relacionadas com a electrónica e as novas tecnologias necessárias actualmente. O busílis da questão centra-se na necessidade - As palavras antigas tendem a deixar de ser usadas consoante a utilidade prática que têm na existência diária. Mas será que se pode considerar isso uma involução?
Não nos podemos esquecer, tal como sugeriu, que a linguagem acaba por ter uma grande influência na produção da obra. O que não teria Shakespeare produzido se tivesse ao seu dispor a riqueza do Português? O que leva a concluir que no fundo, a língua acaba por influenciar a própria obra, não sendo o produto final uma exclusividade do autor, que afinal acaba por ter que lidar com as limitações decorrentes da linguagem que usa. Deste modo o pensamento acaba por ser limitado a jusante pelas possibilidades da própria linguagem, independentemente duma exclusividade das capacidades do indivíduo?
Não podemos deixar de ter em conta o desenvolvimento infantil, uma vez que, de acordo com a minha hipótese, a criança acaba por moldar o seu pensamento de acordo com a linguagem com que aprende a pensar, e não só, de acordo com o ambiente familiar e outros, o que levanta uma série de questões imensa mas não desinteressante...


De Mauro a 7 de Agosto de 2007 às 22:14
Bem, «Transbordices», a regressão linguística que falo é a partir do início das civilizações humanas não a partir do início da espécie (Homo Sapiens) ou do género (Homo) ou da Família (Hominidae) ou até da Ordem (Primatas). É claro que houve uma evolução da linguagem ao longo da evolução dos primatas que culminou em nós. Não falo de uma regressão a partir desse ponto. Falo da regressão (que aparece em todas as línguas) da antiguidade clássica até aos tempos modernos. Como nos exemplos que dei, as estruturas linguísticas das línguas sofreram simplificações e cortes de complexidade desde esses tempos. Por exemplo, tenho reparado que a tendência geral no Português moderno (o de Portugal, pelo menos) é o encurtamento da pronúncia de todas as palavras mais longas. Por exemplo, a irritante forma de ler co-les-te-rol como có-les-tról (de 4 para 3) ou de pe-rí-o-do como prí-u-do (de novo de 4 para 3) e mais exemplos poderia dar. Não me refiro, quando falo em regressão, ao vocabulário (é natural que novas palavras surjam e outras desaparecem de acordo com as realidades científicas/tecnológicas das pessoas). Refiro-me a uma regressão gramatical, ao desaparecimento de bonitas estruturas gramaticais, estruturas que tornam a língua mais objectiva e mais estável. A interacção entre os genes (ou melhor o fenótipo, que é a sua expressão no corpo) e os memes (as criações da mente, como já referi num outro artigo) é complexa e, por isso também, muito interessante e cativante. As línguas que moldam o cérebro influenciarão o seu desenvolvimento: de uma forma complexa tão comum na evolução biológica, as palavras modificam a forma como o cérebro produz as palavras que o influenciam. Fascinante tema, sem dúvida. Fica uma questão curiosa: e as crianças que crescem em ambientes bilingues? De que forma é que um criança (por eemplo que tem um pai inglês e o outro português), é que se desenvolve uma criança que tem estruturas linguistas diferentes (e mesmo antagónicas)? Do que conheço dessas situações, pdoe tanto resultar bem como mal. Que achas?


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