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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quinta-feira, 19 de Maio de 2005
Com tino e siso
Dentes do siso Os dentes do siso numa ou noutra altura atormentam a vida dentário-dolorosa dos adultos homo sapiens. Parece estranho que a evolução nos tenha fornecido um maxilar que tem geralmente insuficiente tamanho para comportar um terceiro grupos molares que surge na nossa espécie quando se chega à vida adulta.</br>
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Daí que esse conjunto extra de dentes tenha o nome de dentes do siso, pois surgem quando se espera (demasiadas vezes infrutiferamente) uma maior maturidade, responsabilidade, de siso nos indivíduos.</br>
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Mas parece unicamente estranho apenas à luz de uma ideia de um homo sapiens completo, perfeito, criado e finalizado no mesmo instante. À luz de uma visão do Homem como mais uma criatura deste planeta sujeita às mesmas limitações e regras que as restantes há coisas que encaixam, quando anteriormente parecem paradoxais.</br>
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O homo sapiens tem dentes do siso. Surgem geralmente entre os 18 e os 20 anos, podendo contudo (infelizmente) surgir bem mais tarde. Quando surgem no maxilar este já adquiriu o seu tamanho adulto e há pouco espaço para os novos dentes. Surgem os incómodos, as dores, dentes do siso que nascem com inclinações anormais (de lado, contra os outros,...) As causas para o seu aparecimento numa altura em que a dentição definitiva já surgiu é matéria de desacordo (mas não de discórdia). De entre as várias possíveis contam-se as seguintes:</br>
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~ Os dentes do siso podem ser um remanescente da evolução da nossa espécie. Serão uma característica «vestigial», algo que ainda se conserva apesar de não usado, como os minúsculos ossos nas baleias e nas serpentes nos ossos da bacia que são vestígios dos membros inferiores que os seus antepassados tinham.</br>
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~ Uma outra possibilidade prende-se com a invenção do fogo. A descoberta do fabrico e uso do fogo é anterior ao surgimento da espécie humana. Desde o homo habilis que os hominídeos fabricam e usam o fogo. (ver o artigo Ah, a foto de família para informações sobre a evolução do Homem). Com o uso do fogo para cozinhar a comida tornou-se mais fácil de mastigar. Assim o maxilar diminuiu de tamanho (por não ter de comportar músculos tão fortes) mas o dente do siso continua a surgir onde já não há muito espaço para ele.</br>
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~ A questão da diminuição do maxilar terá a ver com a maturação física precoce que hoje se regista nas sociedades ocidentais, que não permite ao maxilar o tempo para crescer antes do aparecimento dos dente do siso. Nas culturas não ocidentais, onde a maturação física ainda segue os padrões biológicos, os problemas com os dentes do siso praticamente não existem.</br>
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~ A questão dos problemas relacionados com o dente do siso poderão estar também ligados à alimentação, mas não evolutivamente. A alimentação mais tenra (por exemplo, à base de hambúrgueres) nos países ocidentais poderá não fornecer o exercício físico de mastigação ao maxilar que lhe permita desenvolver-se largo, forte e com dentes do siso que não apresentem problemas.</br>
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Seja qual for a sua justificação, são uma chatice que quem tem a infelicidade de padecer prefiriria não ter. Sem dúvida mostram que o Homem não é uma obra acabada mas que pode e deve continuar a evoluir. Nada mais me agrada do que a perspectiva de que ainda há mais para subir e ser. </br>
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GuelrasUm outro exemplo evolução ainda a moldar a nossa espécie é que ainda existe ainda uma ligação entre o nariz e os ouvidos, uma ligação «vestigial» talvez dos nossos remotos antepassados peixes com guelras. É esta ligação a que as pessoas recorrem quando, após um megulho, por exemplo, sentem os ouvidos entupidos. Tapam o nariz, fecham a boca e tentam esvaziar os pulmões. O ar não sai mas na pressão interna que cria liberta os ouvidos.</br>
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Componentes «vestigiais» de um homo sapiens em busca de aperfeiçoamento... </br>


Publicado por Mauro Maia às 12:31
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4 comentários:
De js a 20 de Maio de 2005 às 00:10
... eu creio é que cada vez mais a ideia de que o sizo e o juizo estão ligados... é o maior ou pelo menos um dos maiores erros do senso comum...
FORÇ'AÍ!...
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt


De Rata Zinger a 20 de Maio de 2005 às 10:26
A Rata Zinger já não tem os dentes do siso. Aos 12 anos já os tinha segundo a dentista. Precoce mesmo.


De Henrique Ramos a 14 de Dezembro de 2007 às 12:01
Não conheço qualquer ligação entre o nariz e o ouvido, mas sim a trompa de Eustáquio, entre a faringe e o ouvido. Não se trata de estrutura vestigial, mas fundamental, para que a pressão do ar seja igual por fora e por dentro da membrana do tímpano, de modo a que esta possa vibrar normalmente com os sons. Aliás, não é por acaso que na membrana passa o nervo que estimula as glândulas salivares: quando a pressão interna desce, a membrana estica para dentro, o nervo é afectado e a seguir há produção de saliva que obriga a engolir. O acto de engolir injecta ar na trompa de Eustáquio e, assim, repõe-se a pressão normal do lado interno da membrana. Esta perfeição da natureza, que faz sair o nervo das estruturas ósseas onde corre para caminhar numa frágil membrana exposta ao ar, deve dar muito que pensar a quem não acredita em Deus...


De Mauro a 14 de Dezembro de 2007 às 14:28
Agradeço-te, «Henrique Ramos» os complementos anatómicos ao artigo. Sim, a ligação que o artigo refere, entre a boca e o ouvido, refere-se à Trompa de Eustáquio (o anatomista do século XVI), que liga a faringe (no sistema digestivo) ao ouvido médio (no sistema auditivo). E existe a separação entre os dois sistemas, a epiglote, que nos impede de sufocar quando comemos, por exemplo. Tens razão quanto ao facto de não ser uma estrutura vestigial. Como o artigo refere, é a função de ligar as primordiais «guelras» à boca que será vestigial. Essa ligação foi exaptada (para usar a expressão de Stephen Jay Gould) para as funções que tem modernamente e que referes (outros animais, como os crocodilos, não têm, pelo que ou engolem ou respiram, não conseguem fazer as duas simultaneamente). Quanto ao dar muito ou pouco que pensar a quem é ateu, algo me parece evidente: se algo como isto (que é perfeitamente explicável em termos não teológicos) alterar a religiosidade de alguém, só se poderia concluir que o ateísmo dessa pessoa não era verdadeiro. Ou, a sê-lo, seria muito superficial. Da mesma forma estranharia muito que uma pessoa religiosa abdicasse das suas convicções religiosas por verificar a existência do cóccis nos seres humanos... A questão da existência de Deus, independentemente do que digam religiosos ou ateus, é uma questão pessoal, impossível de demonstrar que positiva quer negativamente. Muito estranho acho eu sempre quando vejo «conversões» baseadas em argumentos «lógicos». Uma coisa é algo sobre a qual há dados sobre os quais ponderar e argumentar, outra ainda é algo sobre a qual apenas a convicção pessoal pode chegar. Sim, ateus e religiosos partilham o mesmo barco, querendo ou não: vivem os dois de convicções que não se podem provar ou desmentir. Tivesse uma estrutura tão simples como a epiglote uma consciência e ficaria orgulhosa de lhe ser dada tamanha importância, a de alterar a forma como alguém entende o Mundo.


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