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Diário das pequenas descobertas da vida.
Terça-feira, 25 de Maio de 2010
Ápices culturais

A seis meses do acabar a primeira década do século XXI, a Humanidade confronta-se ainda com problemas que herdou do seu passado, como o terrorismo internacional (ver Um século), ligado sobretudo ao extremismo de uma minoria muçulmana que claramente tem uma visão muito limitada e distorcida da fé religiosa que dizem professar.

 

É sempre bom lembrar que muçulmano é todo aquele que professa a fé islâmica, árabes são apenas os naturais da Arábia sejam ou não muçulmanos. O neologismo em voga tem sido «islamita», o que considero estranho e desnecessário já que Muçulmano existe com esse significado. Se fosse «Ismaelita», derivado de «Ismael», entenderia. As 3 principais religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) entrelaçam-se ao longo da sua História com laços de origem, crenças, personagens relevantes e constantes rivalidades ideológicas e militares. Abraão, figura ancestral e reverenciada pelas três, teve pelo menos oito filhos. Os dois primeiros tinham os nomes de Ismael e Isaac. Ismael, o mais velho (referido pelos textos sagrados das três religiões), é encarado como o antepassado dos Árabes (e logo dos Muçulmanos) e o segundo mais velho, Isaac, como o antepassado da religião Judaica (e consequentemente da Cristã, já que esta surgiu como uma seita da primeira). Assim, Ismaelitas são os filhos de Ismael e logo são os Árabes (e os Muçulmanos em geral, já que Maomé seria descendente directo de Ismael e a religião muçulmana foi fundada por Maomé). Desconheço o que islamita seja ou de onde terá vindo (receio que tenha sido uma confusão com o correcto termo «ismaelita» mas não tenho dados que o comprovem). Quanto a outras designações que quem se lembrar vagamente da História de Portugal reconhecerá, como Mouros, Sarracenos ou mesmo Mamelucos ou os Berbéres, apesar de serem frequentemente usadas como sinónimas não o são verdadeiramente. A palavra Mouro chegou ao Português (e outras línguas românicas) através do Latim «Mauro», que designava os originários do Norte de África (daí o nome do moderno país Mauritânica). Através da evolução das línguas, «Mauro» tornou-se «Mouro» (ainda que Camões se referisse aos «valentes Mauros» nos Lusíadas). A palavra «moreno» descende de «mouro». Sarracenos eram um povo que habitava na península Arábica (referidos por Ptolomeu, no século 2 DC, como Sarakenoi) mas que não eram árabes e tinham a fama de viverem em tendas no deserto e fazerem pilhagens no Império Bizantino, através do qual o nome chegou às línguas europeias. Mamelucos foram o grupo de elite militar de várias sociedades muçulmanas. Originalmente eram escravos tornados guerreiros (que é o significado original de Mameluco) mas cujo poder e influência política cresceu entre os séculos 9 e 19. Os Berbéres são um grupo étnico que se estende do Atlântico ao Egipto e que inclui, entre os notáveis, o ex-futebolista Zinadine Zidane. Nem todos estes grupos muçulmanos tiveram o mesmo peso na conquista da Península Ibérica mas estes termos são frequentemente usados como sinónimos. Mas é importante saber a distinção entre eles.


Outro dos grandes problemas que a Humanidade enfrenta e que poderá ser umas das principais limitações para o seu progresso tem sido o Racismo (e a Xenofobia, a sua origem. Não esquecer que Xenofobia vem do grego «Xenos» (estranho) e «Phobos» (medo irracional e exagerado), ou seja é apenas um medo do que não se conhece provavelmente por suspeita de que seja, de alguma forma, superior.

Infelizmente, parece ser um daqueles medos irracionais que temos desde o início da Humanidade (e que a precederá, já que o Homo Sapiens não «criou» sentimentos, emoções, capacidades, instintos, fobias, comportamentos que já não existissem, apenas as exagerou, como a Guerra, a Violência, o Amor, a Amizade, o Altruísmo,...), fruto da insegurança dos pequenos grupos familiares em que vivemos grande parte da existência da espécie, nestes últimos 150 mil anos (cidades e grupos maiores surgiram com o advento da civilização, há cerca de 10 mil anos). Ao longo de 140 mil anos, a Humanidade (e os seus antepassados antes disso) viveu em pequenos grupos familiares, sempre na defensiva em relação a grupos estranhos e potencialmente perigosos. Então, há apenas 10 mil anos, grupos humanos juntaram-se em aglomerados populacionais: as primeiras cidades. E o grupo familiar em relação ao qual se tinha o instinto de protecção passou a abarcar a cidade. À medida que as cidades iam prosperando e se fortalecendo, algumas começaram a conquistar e dominar cidades vizinhas, formando reinos e impérios. No início, estes eram circunscritos a cidades com populações da mesma etnia e língua. Mas evoluíram para abarcar grupos mais heterogéneos.

 

Acádia, ca. 2300 AC

 

Imagem retirada de http://en.wikipedia.org/wiki/File:Orientmitja2300aC.png

O primeiro império multi-étnico e politicamente centrado terá sido o fundado por Sargão, o Grande, entre os séculos 23 AC e 22 AC. Este foi fundado pelo primeiro imperador da Acádia, situada no Médio Oriente, com capital na cidade de Akkad, no actual Iraque. Foi este Império da Acádia que serviu de pano de fundo ao filme de 2002 «O Rei Escorpião»

E o sentimento de desconfiança em relação aos outros subsistiu (hábitos culturais são muito difíceis de eliminar), alimentando guerras, genocídios, intolerâncias, perseguições. Por vezes, a Xenofobia vem disfarçada com argumentos (falsos) de suposta origem religiosa, mítica, biológica, social mas o cerne permanece o mesmo: desconfiança do vizinho e justificação para a realização de actos intoleráveis para com outro ser humano com vista a proveito próprio. Assim nasceu a bárbara prática da Escravatura, praticada por povos de todo o Globo (o que atestará à premissa da antiguidade da Xenofobia). Povos tão díspares como os Espartanos na Grécia Antiga (ver o artigo Lacónico regresso) e os Helotas, o povo que eles escravizavam e que lhe permitia dedicar tanto tempo a aperfeiçoar as suas tácticas militares. Ou ainda os Aztecas (ver Nex terrae) e os seus rituais de sacrfícios humanos. Ou os Romanos, que usaram a mão de obra escrava para erigir os seu império e monumentos (ver Colossicum amphitheatrum). Ou os Europeus dos séculos XV e XVI, que usaram a Escravatura como forma de ultrapassarem a crise demográfica e económica provocadas pela Peste Negra do século XIV.

Assim, após a conquista de Ceuta, em 1415, pelos Portugueses (ver Ceuta aeterna dolor para a explicação de porque Ceuta nunca foi conquistada depois de 1415 mas é agora espanhola), a Europa parte à «descoberta» de um Mundo que desconhece e de povos com múltiplas e distintas culturas, tendo na mão armas de fogo (inventadas pelos chineses, sendo que o primeiro registo histórico do uso de armas de fogo é relativo à Dinastia Jin, entre 1115 e 1234, que usou canhões, foguetes e armas pessoais de fogo contra os Mongóis) e as ainda mais mortíferas armas da ignorância, presunção cultural e cupidez económica. Viraram as suas ambições económicas para o vasto continente africano (ver o artigo Magnus Tellus para a origem dos nomes dos 5 continentes actuais), em busca de matérias primas e de mão-de-obra. África foi o berço da Humanidade, há 150 mil anos, de onde depois o ser humano partiu para colonizar o Globo, como já tinha anteriormente feito o Homo Erectus (que entretanto se extinguiu, deixando apenas um grupo que veio a dar origem aos seres humanos em África e outro grupo na Europa que veio a dar origem ao Homem de Neanderthal). Quando as civilizações «clássicas» surgiram depois, em redor do Mar Mediterrânico, como os Fenícios no Médio Oriente, os Egípcios do Norte de África, os Gregos e os Romanos na Europa, mantiveram a sua esfera de influência cultural e domínio circunscritas ao norte verdejante (na altura) do continente, mantendo o deserto do Saara como fronteira natural. E os parcos conhecimentos europeus, quando partiram à «descoberta» do que incontáveis gerações anteriores já tinham descoberto (os continentes da América pelos Ameríndios e da Oceania pelos Aborígenes australianos), foram os que herdaram dos seus antepassados fenícios (que fundaram a mítica Cartago no norte Africano), egípcios (cuja expansão imperial se dirigiu para o Médio Oriente a norte), gregos (que se expandiram pela Ásia graças às conquistas de Alexandre magno) e romanos (que conquistaram as terras à volta de todo o Mar Mediterrâneo tornando-o o «Mare Nostrum»). A vastidão do continente africano manteve-se desconhecido aos europeus assim como as suas populações e formas de vida até os Portugueses contornarem todo o continente e renomearem o Cabo das Tormentas como Cabo da Boa Esperança.

 

A proximidade geográfica e demográfica desses antigos impérios manteve constantes alguns traços fisionómicos e culturais, que viriam a ser utilizados de forma manifestamente ignorante e gananciosa para justificar a subtracção das qualidades humanas de populações inteiras com vista à sua exploração comercial. Não é possível racionalmente justificar a escravidão e usurpação de grupos a quem se atribui qualidades humanas, o que sempre se manifestou quando há guerras (vilipendiar o adversário e dotá-lo de características sub-humanas é geralmente o primeiro passo) ou a exploração de um grupo de pessoas por outro. Isto ocorreu, por exemplo, quando Portugal cegamente iniciou a Guerra Colonial, o que ainda se manifesta no absurdo racismo das pessoas que cresceram no Portugal pré-25 de Abril.

Ver Cadeira negra para mais sobre o Portugal salazarista.


Sem bases concretas para justificar otratamento das populações africanas que levavam para as suas colónias no Novo Mundo, usaram algumas

características físicas (como a hipermelanização cutânea ou feições platorrínicas) e a ignorância e pedantismo europeus em relação à História para tratarem pessoas como animais de carga e propriedade de alguns. Mas, e aqui se revela a ignorância histórica de muitos, um dos baluartes civilizacionais da cultura europeia (a civilização egípcia) foi amplamente influenciada, rivalizada e mesmo superada por um grupo demográfico e cultural de claros e distintos traços «negróides», uma civilização que fez tremer o Egipto ao longo da sua História e Pré-História, uma civilização que construiu mais Pirâmides que os egípcios, que lhes legou divindades, hábitos culturais e conhecimentos sem os quais o Egipto não teria sido o que representa ainda no imaginário «ocidental». Falo dos orgulhosos e admiráveis Núbios, nativos do actual sul do Egipto e norte do Sudão, cujos descendentes ainda lá vivem.

 

A civilização núbia dese



Publicado por Mauro Maia às 12:31
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