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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012
Escadas ácidas

Cada vez mais se fala de engenharia genética, manipulação de genes, genoma humano, biotecnologias...

Mas, como é cada vez mais comum nesta sociedade globalizada que mistura/confunde «entretenimento» com «informação» e em que «atualidade» suplanta «rigor» na seleção noticiosa, fala-se de temas importantes sem esclarecer os conceitos básicos sem os quais não há verdadeiro entendimento. É como tentar fazer uma receita não se sabendo ao certo que cogumelos são referidos mas colocando alguns que crescem no quintal porque «deve dar tudo no mesmo». Mas nem todos os cogumelos são iguais...

 

Na base de todos estes temas «atuais» está o ADN/DNA (também o ARN/RNA, que tem como principal missão transferir a informação do ADN para a célula para gerir a sua atividade e produzir as substâncias necessárias) e os genes que são pequenas porções do ADN ligadas a uma característica específica do corpo (se bem que normalmente é necessário mais de um gene para especificar algo concreto como a cor dos olhos e não haver uma distinção clara no ADN onde acaba um gene e começa outro).

Mas quantas pessoas sabem exatamente o que é este conjunto de 3 letras? Muitos saberão que ADN é a versão em Língua Portuguesa de DNA. Alguns outros que ADN significa «Ácido Desoxirribonucleico» (ou Deoxyribonucleic acid em Inglês). Nome comprido/imponente mas o que é exatamente? É um ácido?!

 

De forma simples, o ADN é uma longa molécula existente em todos os seres vivos desde os que têm apenas uma célula até aos que têm biliões (trillions em Inglês, como visto no artigo Cardinando) e que serve como planta de construção para o corpo, para o seu funcionamento ao longo da sua vida e para se reproduzir. Foi primeiro identificado (sem que se soubesse o papel vital que tem) pelo médico suíço Friedrich Miescher em 1869. Como se encontra dentro dos núcleos celulares, chamou-le «nucleíno». Poucos anos depois, o bioquímico alemão Luwig Albrecht Kossel isolou cinco dos constituintes do ADN (as bases): Adenosina, Citosina, Guanina, Timina (no ADN) e Uracilo (no RNA). É a presença da Timina que permite ao ADN formar a Dupla Hélice tão característica em vez da forma linear do RNA que tem Uracilo em vez de Timina. 

 

A diferença entre o ARN (Ácido Ribonucleico) e o ADN (Ácido Desoxirribonucleico) não se esgota na presença da base nucleótida U em vez da T. O próprio nome refere apenas que o primeiro é Ribonucleico e o segundo Desoxirriblonucleico:

.:. ambos são «nucleicos» por se encontrarem no núcleo;

.:. ambos têm «ribose» na sua estrutura (todas as substências cujo nome termina em «-ose» são açúcares: sacarose, frutose, lactose, ribose,..) .:. mas um tem uma ribose completa e o outro uma desoxirribose. É uma desoxirRibose por não ter (des-) um átomo de oxigénio (-oxi-) que a ribose tem. Se o ADN fosse uma escada, as bases que codificam a informação (ACGT) eram os degraus e a desoxirRibose formava os braços da escada.


E agora a pergunta essencial: e é um ácido? Como podems viver com ácidos em cada uma das nossas células? O estômago tem Ácido Clorídrico para a digestão e tem de renovar constantemente as suas paredes internas para substituir o que é corroído pelo ácido usado no processo de digestão. E nem falemos no Ácido Sulfúrico a na chuca ácida que corrói as estátuas e monumentos de pedra! 

Bem, como os cogumelos, nem todos os ácidos são iguais e apenas uma característica liga todas as substâncias que se designam por ácidos e que as não-ácidas não têm.  A palavra «ácido» vem do Latim «acidus» (verdadeiramente surpreendente esta ligação!) que significa «amargo». Mas nem todos os ácidos têm um sabor amargo (e outros não convém provar para saber a que sabem) e nem todos os ácidos são líquidos (o ácido tartárico, presente no vinho e usado na culinária, surge em forma de cristais sólidos). Na forma líquida, os ácidos têm um pH inferior a 7 mas, como há acidos que não líquidos, a definição de pH não será a melhor para os caracterizar (se bem que já há formas de medir o pH de substâncias sólidas).

pH é uma medida da acidez de uma substância. O «p» refere-se ao «simétrico do logaritmo» e o H à concentração de iões H+ (ou seja, um único protão livre). Quantos mais protões livres a substância libertar na água, maior é o H, menor o pH e mais ácida é a substância. O curioso da escala pH é que o neutro é 7 e não 0! Isso é porque a água pura, à temperatura de 25ºC (a temperatura «normal» de referência) produz naturalmente tantos iões H+ como OH- (quantos mais H+ mais ácida a substência e quantos mais OH- mais básica/menos ácida é). A água tem a foma química H2O e espontaneamente dissocia alguma dessas molécuas em H+ e OH-. Por isso a escala «começa» em 7. 

 

Mas o que tem isso a ver com o ADN/ARN? Há tantas bases no ADN/ARN (as referidas A, C, G, T/U) que é estranho que seja/m ácidos. Mas mesmo no ainda no século XIX (nos últimos anos do século e pouco depois de ter sido descoberto, o patologista alemão Richard Altmann determinou a acidez do ADN, em conformidade com o ácido fosfórico do qual deriva. Apesar da existência de vários pares de bases na molécula, não há equilíbrio entre a libertação dos iões OH- e dos H+, prevalecendo estes devido aos grupos com fosfato (os que herda do ácido fosfórico) que contem.

 

Eis então porque temos ácido (desoxirribonucleico) a correr nas nosas veias...



Eis uma sugestão interessante de «.» para um página virtual que permite fazer esboços (para ilustrar uma ideia ou apenas rabiscar):Sketch.

Vem na sequência de uma conversa já antiga entre nós sobre a possibilidade de os comentários permitirem não só texto como imagens...



Publicado por Mauro Maia às 11:24
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4 comentários:
De Mauro Maia a 15 de Setembro de 2012 às 20:21
O Cognosco sempre beneficia da bem-vinda «pontual» participação. Um sincero «bom retorno» de volta.


De . a 1 de Dezembro de 2012 às 08:45
Olá Mauro. Deixo-te o URL de um site que permite, a ti e aos teus leitores, ilustrar com desenhos e diagramas as ideias que expressam:

http://sktch.in/#694006


De Mauro a 3 de Dezembro de 2012 às 10:21
Como habitual, uma «pontual» e útil sugestão. Não fica aparemtente é ativa a ligação ao endereço http://sktch.in/#
Mas se falhar, coloco-a no corpo do artigo (ou talvez na estrutura do blogue mesmo) onde ficará tão ativa como a obtenção de raíz dupla (continuo a considerar que o ditongo, nesta palavra, requere um acento para «quebrar» mas assim não o indicam os dicionários) de uma equação do segundo grau com Δ nulo...


De . a 15 de Setembro de 2012 às 08:58
O Cognosco está de volta :-) Abraço


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