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Diário das pequenas descobertas da vida.
Quarta-feira, 22 de Maio de 2013
Imanes acentos

   O ser humano é afligido por várias tragédias e carências. Algumas são tão subtis que não são usualmente percebidas.

Uma delas, mais comum do que seria desejável, é a incapacidade de perceber os tesouros que se tem e que, por isso, não se valorizam.

Uma das maiores riquezas que Portugal tem (e restantes países lusófonos também) é a Língua Portuguesa.

Todas as línguas têm as suas subtilezas e encantos e o Português não é exceção.

 

   O facto de o pronome «vós» estar em vias de extinção (est mea culpa etiam) é trágico, o crescente desuso da correta pronominalização é-o também.

 

   É compreensível a prevalência da Língua Inglesa nos meios culturais internacionais. Tal não se deve a características especiais ou únicas da língua, é um mero produto de circunstâncias histórias que anteriormente tornaram o Latim, na Antiguidade, a lingua franca na Europa ou o Português, no tempo dos Descobrimentos, a língua de comunicação entre povos de línguas diferentes no Sudoeste Asiático.

 

   Como anteriormente referido no artigo Franca Mente, a origem tricéfala da língua inglesa (fruto da união das raízes germânica, escandinava e francesa) concedeu-lhe algumas características que a tornam, a falantes de línguas europeias, agradável de usar.

 

   O fim da II.ª Guerra Mundial e a ocupação militar por parte dos EUA levou à necessidade da utilização de uma língua artificial com base no Inglês criada, e até então pouco valorizada, no início do século XX, pelo linguista e filósofo Charles Kay Ogden, e apresentada, em 1930, no seu livro Basic English: A General Introduction with Rules and Grammar, para ensinar Inglês de nível básico aos povos ocupados (uma criação com fins teóricos que teve importantes utilizações práticas. A Matemática tem muitos exemplos destes).

 

   Com o advento dos meios informáticos, a língua dos seus criadores (o Inglês) serviu de base às primeiras ferramentas de interação virtual e os acentos, ausentes do Inglês, não foram inicialmente incorporados nos teclados disponíveis.

A sua ausência levou ao aparecimento de algumas visões extremadas em relação à utilidade e necessidade de serem colocados acentos nas palavras de línguas que os possuem.

 

   Em diferentes linguagens, os acentos tem funções diferentes e o seu (des)uso acarreta consequências diferentes.

 

   Em Português, os acentos são utilizados para tornar clara e fácil a leitura de palavras escritas, através da identificação da sílaba tónica. Não é uma questão de pedantismo intelectual (embora possa ser erradamente utilizada como tal) a insistência na correta acentuação das palavras.

 

   Enquanto que, em Inglês, perante a ausência desta engenhosa ferramenta, apenas a prática e o extenso conhecimento da versão oral das palavras, permite saber como devem ser lidas, como por exemplo «formidable» (a primeira sílaba dita de forma mais saliente) mas que se lê «forgetable» (a segunda sílaba dita de forma mais saliente). Ambas começam e terminam com as mesmas sílabas mas apenas alguém com familiaridade com estas palavras saberá como se leem e as compreenderá quando as ouvir (e as variações regionais de qual é a sílaba tónica tornam algumas versões regionais do Inglês mais difíceis de compreender).   

 

   Mas, em Português, foi traçado um outro rumo no sentido de tornar mais lógica e clara a leitura para quem não tem familiaridade com a vertente oral da língua. Não oferece dúvidas, quanto à leitura da sílaba tónica, a palavra «formivel» já que o acento nos diz claramente que deveremos salientar a sílaba «dá» quando a falamos (ou é escutada). A generalidade das palavras portuguesas é grave (a penúltima sílaba é a que deve ser salientada na leitura), servindo os acentos para indicar quando assim não é.

 

   Há algumas exceções como as palavras terminadas em «r», «l», «z», «n»/«com til» que são, na ausência de acentos, agudas mas apenas os acentos agudo «´» e circunflexo «^» servem para marcar a sílaba tónica.

Nunca há duas sílabas tónicas na mesma palavra e, como tal, apenas pode haver um acento tónico numa palavra portuguesa.

Os acentos «~» e «`» não marcam a sílaba tónica, servindo outros propósitos.

 

   O «`» surge quando se fundem dois «a» em palavras como «às» ou «àquele».

Note-se que «àquele» é um palavra greve porque o acento «`» não é tónico.

 

   O «til» surgiu como forma de encurtar a escrita de palavras terminadas em «n» numa altura em que a escrita/impressão era difícil (palavra grave terminada em «l» logo necessitando do acento em «dicil» para não se ler «dificil») e cara, escrevendo um pequeno «N» no topo da sílaba.

O processo foi tão completo em Português que, das várias centenas de milhares de palavras portuguesas, menos de 30 terminam em «n», tendo este sido substituído por um «~». Excetuando neologismos ainda não convertidos para o português padrão ou nomes próprios ou geográficos estrangeiros, ocorrem-me apenas estas 22 palavras portuguesas terminadas em «n»:

íman, abdómen, albúmen, éden, espécimen, gérmen, glúten, hífen, hímen, líquen, lúmen, pólen, sémen, árgon, cólon, crípton, éon, néon, plâncton, rádon, táxon e xénon.

As versões brasileiras da muitas destas palavras não termina em «n».    

Note-se que, como a maioria é grave (apenas uma é esdrúxula), todas levem acento para as distinguir de palavras agudas.

Apesar da quase total extinção das palavras terminadas em «n» na Língua Portuguesa, a pronúncia de muitas palavras ter minadas em «m» é inconscientemente feita lendo um «n» em vez de um «m».

Uma pequena instrospeção permite constatar que uma palavra como «enfim» não é dita como «enfiMe» mas como «enfiNe»... 

 

   Em conversa recente sobre esta questão (brácaros agredecimentos ao Aires) e já que de pronúncia se fala, é importante realçar que pronúncia ortografia são duas vertentes da língua que se influenciam desigualmente. Enquanto que a pronúncia está sempre dependente dos ditames da ortigrafia e é esta que permite esclarecer eventuais equívocos decorrentes das diferenças regionais de pronúncia, a ortografia deve manter-se independente da pronúncia, sob o risco de se gerar um caos linguístico em que qualquer lingua se esfumaça numa miríade de línguas não-intercompreensíveis. Para usar uma imagem biológica, a ortografia é a «base genética» da língua enquanto a pronúncia é a «base fisiológica» da língua: a base genética evolui mas lentamente; a base fisiológica é sujeita a acidentes individuais que não alteram a base genética. Somente em fenómenos «mutacionais» (como os Acordos Ortográficos) é que a ortografia dá saltos quantitativos na sua matriz. Geralmente, evolui lentamente. Um indivíduo de uma determinada espécie pode perder a cauda num acidente, sem que os seus descendentes (ou a própria espécie) a percam. A pronúncia não pode, assim, justificar incorreções na ortografia.

 

   Muitas vezes, o facto de a palavra com ou sem acento tónico ser alternativamente a forma verbal ou o substantivo do mesmo conceito, reforça a ilusão de que os acentos podem ser dispensados (o recente acordo ortográfico deu outra machadada com a eliminação do acento em «pára» argumentando que o contexto faz a distinção).

A diferença entre «pais» (palavra com uma só sílaba com o ditongo «ai») e «país» (palavra com duas sílabas «pa»+«ís») é unicamente um acento mas os significados são bem diferentes.

Ou «ímanes» (plural de «íman», substância que atrai metais) e «imanes» (adjetivo plural de algo muito grande, desmedido).

 

   «A Polícia policia», «a Fábrica fabrica», »a pronúncia pronuncia»...

 

   Mas:

Avó;Avô / Avo
Bebé / bebe
Côco / cocó
Íntegro / integro
Cávado / cavado
Árvore / arvore

 

 

Como o «~» não é um acento tónico, é possível (e correto) escrever a palavra «sótão». O «~» substitui o «n» final, por isso a palavra seria aguda se não se colocasse o acento...


 



Publicado por Mauro Maia às 13:57
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