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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sábado, 26 de Outubro de 2013
Vampiros exponenciais

    Nos últimos anos, têm sido populares histórias/filmes/séries televisivas envolvendo vampiros e lobisomens e demais criaturas «sobrenaturais». Não se tratando de um tema muito recente, não se perde também nas difusas memórias da História/Pré-História. No início do segundo milénio da nossa era (que começou em 1001 e terminou em 2001), em plena Idade Média europeia, os Seres Humanos tinham a mesma necessidade e interesse em perceber e explicar a realidade que os rodeava que sempre definiu o Homo Sapiens (surgido há 200 mil anos e que talvez seja o corolário da tendência evolutiva nos Primatas, surgidos há 5 milhões de anos, de desenvolvimento das capacidades intelectuais). Mas as ferramentas analíticas eram escassas e limitadas pelas ubíquas ideias religiosas da época.

 

    Uma dessas explicações ad hoc foi a noção de «vampiros», seres que se alimentavam das «almas» dos Seres Humanos, tornando-os também num quando o faziam. Vampiro vem da palavra eslava (comum a todas as línguas da Europa de Leste) «vampir» e foi daí que irradiou para o resto da Europa. Após os Descobrimentos, os Europeus tiveram conhecimento das únicas três espécies de morcegos (de entre as 1240 conhecidas e catalogadas a nível mundial) que são hematófagas (alimentam-se de sangue) e, graças à (ainda presente e errónea) ligação entre sangue/hereditariedade/«alma» rapidamente a «prova» da existência de vampiros reforçou os mitos medievais eslavos. E os morcegos ficaram injustamente associados ao vampirismo desde então (um pouco como uma família de 1240 honestos e trabalhadores membros passasse a ser rotulada de «gatuna» porque 3 (0,24%) dos seus familiares foram acusados de roubo).

 

   A «atual» noção de vampiro, com a sua vertente aristocrática, anticatólica e vulnerável ao alho, à cruz, à água «benta», à prata,… tem como base o conto de John Polidori de 1819 intitulado «The Vampyre», protagonizado por Lord Ruthven. Com base neste conto (geralmente incorretamente ao poeta inglês Lord Byron) uma miríade de «vampiros aristocráticos» surgiu (uma camuflada crítica político-social?!), culminando no Conde Drácula, criado, por Bram Stoker, em 1897, fundindo os mitos eslavos com o vampiro aristocrático de Polidori e com a figura histórica de Vlad III, príncipe da Wallachia (presentemente parte da moderna Roménia).

 

   O pai de Vlad, chamado Vlad II, passou a ser designado por Dracul após ter integrado a Ordem Religiosa Militar do Dragão. Esta foi criada e formada por reis e príncipes cristãos europeus com o intuito de combater o avanço religioso, militar e geográfico dos Otomanos (muçulmanos) no continente europeu (infrutiferamente, já que a Albânia, Bósnia, Bulgária, Croácia, Eslovénia, Grécia, Sérvia e Roménia durante alguns séculos fizeram parte do Império Otomano). Sendo filho de um membro da Ordem do Dragão, Vlad III era conhecido como «Pequeno Dragão» (Draculae em Latim), de onde Bram Stoker retirou o nome para a sua personagem. Muitas são as histórias sobre a crueldade do «Pequeno Dragão» (e que lhe valeram também a alcunha de «o Impalador») mas ainda hoje ele é lembrado e celebrado na Roménia como um herói (uma espécie de «D. Sebastião» romeno que morreu inimigo dos muçulmanos).

 

   Esta é uma das divergências entre o «Drácula» histórico e o Drácula ficcionado: Vlad «Drácula» era acérrimo inimigo dos muçulmanos, o que começou na sua infância quando foi entregue aos Otomanos como resgate pelo seu pai, tendo sido sujeito a torturas físicas e mentais que o marcaram toda a vida. Foi portanto um defensor do cristianismo e da cruz e não seu inimigo. Além de não ser Conde mas Príncipe…

O próprio conceito de «vampiro» é biologicamente pouco provável em mamíferos (só as 3 espécies de morcegos), sendo mais frequente em insetos e minhocas. Mas o conceito de «vampiro» é matematicamente impossível. Uma das principais características dos «vampiros-humanos» é o de transformarem as suas vítimas em «vampiros» (os «lobisomens» também) também depois de lhes morderem (talvez uma reminiscência dos «devoradores de alma» dos mitos eslavos». Mas esse conceito cai por terra com um simples cálculo que se pode fazer com uma calculadora simples/telemóvel. Tem a ver com o conceito de progressão geométrica e pode ser encontrada no crescimento explosivo de bactérias ou numa lenda relacionada com a criação do jogo de xadrez.

 

     Imagine-se então um só «vampiro», com as características definidas desde o século XIX por Polidori. Talvez tenha surgido em 1800 e morde alguém, que se torna «vampiro» também. No dia seguinte, há 2 vampiros e, cada um, morde alguém. No dia seguinte há 2x2 = 4 «vampiros». No dia seguinte, cada um dos quatro vampiros morde alguém e passam a existir 8 «vampiros». Assim, no primeiro dia há 1 «vampiro», no segundo dia há 2 «vampiros», no terceiro dia há 4  «vampiros», no quinto dia há 8 «vampiros»: cada dia tem duas vezes mais vampiros do que no dia anterior. Com uma calculadora/telemóvel é possível fazer a contagem para os 20 dias seguintes: 1; 2; 4; 8; 16; 32; 64; 128; 256; 512; 1024; 2048; 4096; 8192; 16 384; 32 768; 65 536; 131 072; 262 144; 524 288.

   Apenas 20 dias depois já há mais de 520 mil «vampiros»! O crescimento começa lenta mas acelera rapidamente.

   Ao fim de 25 dias, há mais de 16 milhões de «vampiros» (a população portuguesa é, atualmente, menos de 11 milhões).

   Depois de 29 dias, há cerca de 270 milhões de «vampiros» (a população brasileira é, atualmente, pouco acima de 201 milhões).

   Depois de 34 dias, há perto de 8 mil e 600 milhões de «vampiros» (a população mundial, neste momento, é cerca de 7 mil e 120 milhões). É sempre importante relembrar que os «biliões» usados nos EUA correspondem aos nossos «mil milhões»)

 

   Se o «vampiro» tivesse surgido em janeiro de 1800, em Abril mais do que a atual população mundial seria «vampira». Se o «vampiro» tivesse surgido em janeiro de 2013, hoje seríamos todos «vampiros». Como qualquer um pode avaliar por si mesmo, há pelo menos uma pessoa que não é «vampira». Então ninguém é (ou não haveria sobreviventes, já que os «vampiros» não se alimentam uns dos outros. Não têm sangue para isso!)

   

Esta constatação matemática não rouba valor literário ao género «vampiresco» (tal como o facto de os cães/gatos/galos/... não terem raciocínio lógico-dedutivos não retira mérito a'«Os Bichos» de Miguel Torga), apenas enquadra estas histórias no campo estrito da ficção! 



Publicado por Mauro Maia às 13:49
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6 comentários:
De Aleff Vilas Boas a 29 de Agosto de 2014 às 22:05
achei muito interessante essa sua forma de ver a lenda vampiresca, relacionou história com matematica, depende apenas do ponto de vista de quem analisa a situaçao: para um reliogioso: um demônio, para um escritor: um conto, para um historiador uma historia veridica só que mal interpretada, para um cineasta uma forma de ganhar dinheiro.
Ainda sim muito boa a reportagem.
vlw


De Mauro Maia a 5 de Setembro de 2014 às 13:53
Obrigado, Aleff, pelo apreço pelo artigo. Exatamente por haver diversas sensibilidades à temática «vampiresca», procurei abarcar diversas disciplinas que poderão ter uma palavra a dizer sobre «vampiros». O resultado também me agradou e fico contente de saber que é um sentimento partilhado. :)


De Mauro Maia a 1 de Janeiro de 2014 às 11:31
Obrigado, Desejo um bom 2014 também.


De . a 22 de Dezembro de 2013 às 22:06
Olá, Mauro.

Desejo-te um Bom Natal e, se possível, um Ano Novo um poucochinho melhor do que este que agora chega ao fim.

.


De Mauro Maia a 3 de Dezembro de 2013 às 14:47
Obrigado, Tiago, pelo comentários adicionais ao assunto vampiresco.
Só me referi ao conceito «usual» de 1 mordida = 1 vampiro. A questão matemática teria de ser ajustada a outras formas de transmissão. Mas a raridade do «vampirismo» em mamíferos mantém-se. Claro que nem na Natureza 1 mordida = 1 vampiro.
Vampiro é filho de vampiro...
Confesso a minha ignorância quanto às histórias escritas por essa autora (e mesmo sobre a generalidade da temática «oculltista») mas onde a imaginação humana não encontra obstáculos a Natureza não deixa de os salientar...


De Tiago a 2 de Dezembro de 2013 às 11:52
Bem...na mitologia talvez, mas na ficção é possível, cada autor tem sua própria forma de transmissão do vampirismo, um tipo de mecanismo fictício de controle de espécie, por exemplo, nos livros da anne rice, só se torna vampiro depois de ser mordido e se sugar o sangue negro de outro vampiro, em outros casos, há contaminação total, mas nesses os vampiros não precisam de sangue pra viver, é só por prazer próprio, em outros casos a pessoa deve sobreviver alguns dias ou ser completamente sugada... há muitos outros exemplos...


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