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Diário das pequenas descobertas da vida.
Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006
E ou não E, eis a questão
Tenho, nas mãos, uma lata de refrigerante com esta lista de ingredientes:
água, dióxido de carbono, corante E150, emulsionantes E950, E951 e E952, acidificantes E330 e E338, conservante E211


Enquanto que «água» e «dióxido de carbono» são termos conhecidos de todos, o conjunto seguinte, E seguido de números, é geralmente desconhecido.
Quem, sobre isso, já tenha pelo menos ponderado um pouco, ficará incerto quanto ao seu significado. Provavelmente terão chegado à verosímil (mas errada) conclusão que é alguma substância química (até potencialmente tóxica em alguma concentração).

Dito de outra forma, perante o desconhecido, receia-se que seja perigoso.
A verdade é bem outra, diametralmente oposta até desta conclusão e está ligada à unificação europeia e ao sonho da construção de um espaço seguro para todos os seus 456 milhões, 953 mil e 258 habitantes (valores do ano 2006).
A letra E que usa é o E de Europa!
Esta nomenclatura foi criada e é usada na UE. A Austrália é o único país não-europeu que também a adoptou.

Desde o Império Romano que alguém sonha com uma Europa Unida, em vez da multiplicidade existente. Os mil anos do domínio romano foram, até ao século XX, o mais próximo que a Europa esteve de ser uma só e de falar a uma só voz.
Após a queda do Império, os povos germânicos ocuparam o território europeu e fundaram muitas nações diferentes. Mas, na área presentemente ocupada pela França, pela Alemanha, Áustria e Itália, formou-se um grande Reino Germânico dos Francos, que não eram mais do que uma colecção de diversos povos germânicos que se auto-intitulavam «franks» - livres.
Carlos MagnoQuando Carlos Magno e o seu irmão, Carlomano, sucederam ao seu pai, Pepino o Breve, em 768 DC, o vasto império franco foi dividido entre os dois, ficando a antiga Gália romana para Carlos Magno e a antiga Germânia para Carlomano.
Foi o pai de Carlos Magno, Pepino o Breve, quem doou, em 758 DC, à Igreja Católica, os territórios na península itálica que englobavam a cidade de Roma, levando à criação dos Estados Papais, que só terminaram em 1870. Foi por causa dos Estados Papais que morreu La Palisse, como visto em Ante mortem vivetes
O império ficou dividido em dois, o que teve profundas implicações nos séculos que se seguiriam, mais notavelmente na língua e na beligerância entre a França e a Alemanha (nações irmãs na sua origem) no século XX.
Foi também devido a esta divisão que se formou a clivagem entre as línguas francesa e alemã, apesar da sua origem «fraterna», como visto em Deutschland (Alemanha em alemão)
A região dada a Carlomano desenvolveu os seus próprios costumes e língua, vindo a formar o Sacro Império Romano do Povo Germânico, que englobava as actuais Alemanha e Áustria, que se dissolveu somente em 1806, em consequência das Guerras Napoleónicas.

NapoleãoNa História Europeia, foram estas as nações que mais território dominaram do continente europeu durante mais tempo. Mas o sonho de uma Europa unida prossegiu. Napoleão, causa da extinção do Sacro Impéro Romano, governou grande parte da Europa, da Espanha às fronteiras russas. Após a desastrosa invasão da Rússia, em 1812, o seu império foi desmoronando até à sua abdicação, em 1814.
Também Hitler, que subiu ao poder em 1933 (democraticamente eleito), conquistou grande parte da Europa, da França às fronteiras russas. Após a desastrosa invasão da Rússia, em 1941, o seu império foi desmoronando até ao seu suicídio, em 1945. Após a derrota nazi, em consequência das ocupações americana e russa da Europa, esta foi «dividida» em 2 blocos ideologicamente oponentes: a zona ocidental, capitalista e pró-americana e a zona oriental, comunista e pró-russa.

E foi na zona ocidental que nasceu um novo sonho de unificação europeia. O líder da «vitoriosa» Grã-Bretanha, Winston Churchil, deu, em 1946, na Universidade de Zurique, na neutral Suíça, um discurso em que apelava à criação dos «Estados Unidos da Europa», como forma de impedir que novas guerras devastassem o continente e o mundo.
Em 1951, foi criada a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, tendo como fundadores a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo, a Alemanha Ocidental, a França e a Itália (a Inglaterra recusou-se a fazer parte deste grupo inicial, alegando questões de soberania).
Aos poucos, novos Estados Europeus foram-se juntando a esta Comunidade Europeia, que entretanto se tornou a Comunidade Económica Europeia. Com o alargamento dos 6 países iniciais para 12 (e depois para os presentes 25) a CEE tornou-se a União Europeia, pelo Tratado de Maastricht, em 1992, tendo adoptado o Euro como a sua moeda única.

E é na União Europeia que nasce o famoso E dos ingredientes alimentares.
A necessidade da criação de um Mercado Único europeu exigia uma normalização das designações, das propriedades e da segurança dos aditivos alimentares (não confundir com a correntemente usada mas incorrecta palavra «adictivos», como sinónimo de «substância viciante», má e literal tradução do «addictive» inglês).
Em 1988, foi criada a Directiva 89/107, que procurava legislar as substâncias que eram adicionadas aos produtos alimentares, como os adoçantes, os conservantes, os colorantes,...

Esta directiva (apenas publicada em 1989, daí a sua designação legal) estipulava que todos os aditivos alimentares usados no espaço europeu fossem avaliados e a sua segurança estabelecida pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), que estabelece os critérios de segurança e pureza dos aditivos alimentares. Em Julho de 2006, nova legislação estabeleceu os critérios para a entrada de novos aditivos na lista dos aditivos alimentares autorizados na União Europeia.

Os aditivos considerados seguros pela Comissão Europeia recebem uma designação específica, com a letra E seguida do número de série respectivo. São substâncias de origem variada, desde a animal à vegetal à química. Os números E variam desde o número 100 (a Curcumina, um colorante amarelo com propriedades anti-oxidantes e anti-cancerígenas) até ao 1520 (o Glicol Propileno, um humidificante).

Os números E para os aditivos alimentares considerados seguros podem ser genericamente divididos em 8 grupos:
~ 100 - 199 colorantes;
~ 200 - 299 conservantes;
~ 300 - 399 anti-oxidantes e reguladores de acidez;
~ 400 - 499 espessantes e estabilizadores;
~ 500 - 599 reguladores de pH e anti-coagulantes;
~ 600 - 699 intensificadores de sabor;
~ 900 - 999 miscelâneos que não se inserem nas categorias anteriores;
~ 1100 - 1599 novas substâncias não categorizáveis;

Os números E não são perigosos, são na verdade substâncias que foram devidamente testadas e cuja segurança, para a generalidade da população, foi
assegurada pela União Europeia. Algumas das substâncias (poucas) poderão causar alergias específicas em determinadas doenças, daí a obrigatoriedade da sua inclusão nos rótulos alimentares, para que, quem possa ser alérgico a uma delas especificamente, se possa acautelar.

~ Nos colorantes há algumas vitaminas (como a riboflavina, a vitamina B2), caramelo (do 150a ao 150d), carvão vegetal (E153), o caroteno encontrado nas cenouras (160a) e cal (E170).
~ Nos conservantes há o dióxido de carbono (E290) de que se falou em O ninja das casas.
~ Nos anti-oxidantes há a vitamina C (E300), de que se falou no artigo O-zono de Morfeu pelas suas propriedades anti-oxidantes e protectoras da célula.
~ Nos espessantes há a gelatina (E441) e a celulose (E460).
~ Nos reguladores de acidez há o ácido sulfúrico (E513).
~ Nos intensificadores de sabor há o glutamato de sódio (E621), de que se falou em Sabe a mais como sendo um 5.º sabor, a juntar aos 4 mais conhecidos.
~ Nos miscelâneos há a cera de abelhas (E901), há a parafina (E905) de que se fazem as velas (ver Equus et candela que explica a quantas velas corresponde um watt de uma lâmpada), o Hélio (E929), o Azoto (E941), o Butano (E943a) e o Propano (E944) (De que se falou em O ninja das casas), o Oxigénio (E948), o Hidrogénio (E929) e os adoçantes Aspartame (E951) e o Xilitol (E967).
~ Nas substâncias não categorizáveis há o etanol (E1510), de que se falou em Espíritos sociais.

A conclusão então é que os números E nos alimentos não são tóxicos ou perigosos. Na verdade, apesar de haver alguma controvérsia sobre a inclusão de algumas (poucas) substâncias na lista de números E, é certo que a parte mais segura e testada de um produto alimentar são os seus E's!
Claramente ao contrário do que geralmente se pensa!

Estão assim explicados os ingredientes «mistérios» do refrigerante:
E150 - corante: caramelo
E211 - conservante: benzoato de sódio (que se encontra também nas maçãs)
E330 - anti-oxidante: ácido cítrico (indispensável na respiração celular)
E338 - anti-oxidante: ácido fosfórico (que dá um sabor mais ácido à bebida)
E950, E951, E952 - adoçante: aspartame


Já fico mais descansado...

Para mais informações sobre os números E dos alimentos, veja-se a interessante página Food info, que pode ser consultada em várias línguas, incluindo o Português e o Inglês.
Nela pode ser encontrada a lista exaustiva dos números E presentemente atribuídos pela UE aos aditivos alimentares e a substância a que correspondem.
Algumas dúvidas sobre alimentos e a sua segurança podem também ser aí encontrados.
Uma página que vale a pena ser explorada.


Publicado por Mauro Maia às 18:56
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23 comentários:
De Maria Papoila a 21 de Outubro de 2006 às 15:59
Olá Mauro:
Que alívio saber que os E's são afinal os produtos bem estudados sob ponto de vista alimentar... Também me perguntei curiosa o seu significado. Continua a ser um prazer visitar o Cocnosco e é obrigatório conhecer a página que indicas porque há substâncias que se adicionam para conservar que podem em casos específicos não ser ingeridas.
Beijo


De Mauro a 21 de Outubro de 2006 às 18:39
Olá, «Maria Papoila», obrigado por teres osculado o Cognosco com a tua visita. Os número E são importantes e infelizmente desconhecidos. A única «opinião» que ouvi alguém ter sobre eles é que eram substâncias perigosas (acho que o facto de aparecerem como uma letra e um número precocupa as pessoas, na medida em qu o desconhecido é fonte de receio). É uma página importante a consultar, sem dúvida.


De Nox a 21 de Outubro de 2006 às 19:57
Também já havia lido que os "E's" são testados e que podem, isso sim, ser alergénios para algumas pessoas (como tantos outros compostos). Julgo ter havido alguma polémica há uns anos a propósito de um "E" que foi retirado da lista segura. Mas isso só demonstra como os aditivos são monitorizados...


De Mauro a 22 de Outubro de 2006 às 11:10
É verdade, «Nox», algumas das substâncias são controversas quanto à sua inclusão na lista E. Há algumas por possíveis efeitos alergénicos, outros pela sua possível origem animal (tornando-as impróprias para dietas vegetarianas), outras por uma possível origem em OGM's. Mas como referes, e no meu entender bem, o facto de haver uma exclusão só evidencia a sua constante verificação, análise e monitorização. Este é um sistema bastante recente, com pouco mais de 10 anos, e algumas arestas terão ainda de ser limadas. Mas é o único sistema que conheço, em Portugal, que me dá garantias quanto ao que consumo na minha alimentação.


De PN a 22 de Outubro de 2006 às 16:47
Olá Mauro. Como deves saber, escrevo para o Diário de Aveiro sobre dois temas: a língua portuguesa e os blogues de aveirenses. Achei que apesar de estares um "bocadinho" longe de Aveiro, o teu blogue continua a ter um vínculo com Aveiro por ser obra de um filho de Aveiro. Assim, dada a grande qualidade dele, não poderia deixar de lhe fazer menção. Esta semana sairá o artigo. Como não deves ter acesso ao Diário de Aveiro aí, eu envio-te depois por email uma digitalização da página.


De Mauro a 22 de Outubro de 2006 às 20:58
Obrigado, «PxN», pela menção jonalística (Seguramente a primeira que o Cognosco tem). Mas penso que estará mais Aveiro no meu coração do que eu no seu coração... Grandes senhoras, como a cidade de Aveiro, têm o coração demasiado grande para se prenderem a uma só pessoa (que nem nela nasceu, apenas cresceu e se fez homem). Obrigado e aguardarei atento a digitalização.


De carla augusto a 23 de Outubro de 2006 às 06:48
Estou encantada com o seu blog! Parabéns!


De Elsita a 23 de Outubro de 2006 às 14:48
Mauro, Mauro! Porta-te bem! O Menino é muito atento heim! Mas veja lá se não se engana heim! rssssssssssss. Eu escolho a Penha, pois os ares do campo das Gambelas são menos poluídos e isso nos meus pulmões entoxicados, provocava-me azia!:-), quanto ao teu refrigerante, ufa ...ufa... eu já volto ok!!!!!! Continua fresco e saudável, ok


De Mauro a 23 de Outubro de 2006 às 15:53
Obrigado, «Carla Augusto» pelas palavras e pelo apreço. «Elsita», haverá algo mais saudável do que a possibilidade de estudar imerso numa zona de pinhal junto ao mar? É causa de inveja, sem dúvida. Sendo a Penha em plena cidade de Faro, desconfio da sua salubridade... Mas lá está, o que a uns mata e outro revigora... É por sermos tão adaptáveis que o Homem colonizou todo o planeta...


De Fiju a 24 de Outubro de 2006 às 20:14
Lembro-me que a 1º vez que ouvi falar nestes vocábulos foi quando estava no 7ºano. Já lá vão 11 anos! (Como o tempo passa rápido!) Na altura fui informada que eram aditivos, mas alertada que alguns podiam ser até perigosos para a saúde. A professora entregou-nos umas fotocópias com os E(s) existentes. Cada número tinha a sua informação, bem como o nível de perigosidade ou não. A partir daí comecei a ver os rótulos dos alimentos de diferente forma. A questão da perigosidade foi sendo desmistificada, pelo que agora vejo só os rótulos apenas para comparar os alimentos. Para mim os alimentos mais saudáveis continuam a ser os que têm menos aditivos. Por isso prefiro sempre os sumos naturais aos refrescos. Mas tenho consciência que no mundo em que vivemos, os aditivos melhoram sem dúvida alguma, a qualidade dos produtos de mercearia.


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