06 janeiro 2008Cogitar (6 cogitações anteriores)Vandalismo civilizacional
~ Maio de 2007: E os exemplos sucedem-se ininterruptamente. É uma palavra que está firmemente implantada no léxico de muitas línguas europeias, incluindo o português. Mas de onde vem este termo? A que se deve? E será justificado? Num artigo anterior, Polimáticos possidónios, verificou-se que que o uso corrente que se dá de «Possidónio» não faz jus ao grande Homem que foi o filósofo Possidónio, figura maior do Estoicismo. Uma definição, dada por um qualquer dicionário de Português, de Vândalo será:
Façamos então uma viagem pelo tempo e acompanhemos a História notável deste povo. Júlio César (100AD - 44AD) entrou na Gália (actual França) para ajudar os Gauleses contra as investidas militares dos povos Germânicos. Após repeli-los, acabou por ficar na Gália e, após longas campanhas militares, conquistou-a. Em 52AC, derrota Vercingetorix, líder gaulês, e toda a região fica controlada. Entretanto, aproveitando a ausência de César, os seus adversários políticos em Roma começam a conspirar contra ele. César regressa então à península romana, atravessando o Rio Rubicão (rio entretanto desaparecido no norte da Itália). Para isso, quebra uma lei do Senado Romano que proíbe qualquer general romano de atravessar esse rio com as suas legiões. César desobedece, pronunciando a célebre frase "Os dados estão lançados", entra na cidade com as suas legiões leais acampadas no exterior das cidades e silencia os seus opositores. Com a Gália controlada, Júlio César virou-se para as ilhas britânicas, onde fez alguns progressos. Mas, ao lado da Gália, estendia-se a vasta região conhecida pelos romanos como Germânia. Esta era habitada por um conjunto grande de povos, chamados conjuntamente de Germânicos pelos romanos. Ora os germanos tinham uma média de altura superior à dos romanos (a altura masculina de um homem adulto romano, a julgar pelos esqueletos encontrados, seria de 1,70m) e eram temidos por todos os seus vizinhos: Celtas, Gauleses É então que, no século IV DC, os Hunos, vindos da Ásia, irrompem na Europa. Os povos germânicos (Godos, Francos, Anglos, Saxões, Vândalos) atravessam o rio Reno, no séculos V DC, para escaparem aos exércitos hunos. Os Godos dividem-se em dois ramos (Ostrogodos e Visigodos), os Francos ocupam a Gália (que viria a adoptar o seu nome, vindo a ser conhecida como França), os Anglos e os Saxões ocupam a Bretanha, os Vândalos começam por ocupar a zona que é hoje a Polónia.
Prosseguiram depois, atacando as desmoralizadas legiões romanas, no rio Danúbio, instalando-se, após um tratado de paz com os Romanos, nas actuais Roménia e Hungria. Mas as pressões hunas prosseguiam e os Vândalos, em 400DC, juntamente com os seus aliados, os Alanos (vindos do actual Irão) e os Suevos (outro povo germânico) penetram mais profundamente no território romano. Os três povos chegam à Gália, dominada já pelos Francos, e encontram enorme resistência. Através de várias batalhas e terríveis devastações pelas terras por onde passavam, chegam aos Pirinéus, a cordilheira montanhosa que separa a Gália da Ibéria. No sentido de os apaziguar, os Romanos dão-lhes «permissão» para se estabelecerem na península ibérica: os Suevos ficaram com o parte do Noroeste da Península (actuais Galiza e norte de Portugal), os Alanos com a Lusitânia, os Vândalos ficaram com o sul da península, os Visigodos, que chegaram depois, estabeleceram-se no sul da Gália e nordeste da península (os Visigodos derrotaram depois os Alanos e entregaram a coroa alana ao Rei Vândalo). A região que os Vândalos ocuparam, na actual Espanha, era conhecida como Vandaluzia. Os Árabes, muitos séculos depois, chamaram à península Al Andaluz, como chamaram ao sudoeste Al Garb. De Al Andaluz (a anterior Vandaluzia sem o V) veio o nome Andalucia, nome da região espanhola e de Al Garb veio o português Algarve. Ora, o uso do termo «vândalo» surgiu historicamente como consequência da entrada dos Vândalos na cidade de Roma. Mas, se os Vândalos atravessaram a Gália e se instalaram na Península Ibérica, quando se deu esse saque que lhes valeu o uso do seu nome como sinónimo de destruição e violência?
Moeda do Rei Geiseric Com base no Norte de África e nas ilhas Baleares, Sicília, Córsega e Sardenha, principiaram uma era de pirataria e pilhagem no Mar Mediterrâneo. Até 453DC, ano da morte de Átila o Huno, os Romanos pouco fizeram para combater a frota vândala que pilhava as cidade costeiras do Império Romano do Oriente e do Ocidente. Mas, a partir desse ano, com a ameaça huna diminuída, os Romanos decidiram prestar mais atenção aos piratas vândalos que lhes assolavam a costa. Longe do poderio militar romano de outrora, o Imperador Valenciano III ofereceu a mão da sua filha em casamento ao filho do rei vândalo mas um usurpador de nome Petrónio Máximo assasinou o imperador romano para se apoderar do trono. A imperatriz enviou então um pedido de ajuda ao filho do rei vândalo e, como resposta ao pedido, a frota vândala aproximou-se da costa italiana e tomou a cidade de Roma, em 455DC. Partiram então, com a Imperatriz e as suas duas filhas e com inúmeros tesouros romanos, incluindo os despojos do Templo de Jerusalém e regressaram a Cartago. O clima político com o Império Romano do Oriente, único sobrevivente do império romano, situado no Mediterrânio oeste, com capital em Constantinopla (actual cidade de Istambul, na Turquia, mas não a sua capital, que é Ancara) estabilizou-se, exceptuando as tensões religiosas decorrentes do facto dos Vândalos serem Cristãos Arianos e os Bizantinos (nome porque passarem a ser conhecidos os romanos do oriente) serem Cristãos Ortodoxos.
Ou seja, apesar do termo «vandalismo» remeter para violência desmedida, o que é certo é que os Vândalos foram até bastante civilizados quando entraram em Roma a pedido da Imperatriz, apenas levaram tesouros e não há quaisquer evidências de que tenham tocado numa única casa ou monumento romanos. Na verdade, Roma foi saqueada pelo menos 7 vezes ao longo da sua História:
Verdade seja dita, a Europa foi fundada sobre alicerces latinos mas assenta sobre solo germânico. E os Vândalos foram os mais proeminentes de entre eles. Cogitado por Mauro Maia às 16:03
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Mais um artigo de história que desmistifica o uso de "vandalismo" como negativo. Temos sangue dos vândalos...ainda virei a usar uma pulseira gótica...(lol) Beijos.
Cogitado por: Maria Papoila a janeiro 30, 2008 06:17 PM
Minha querida «Papoila», é sempre um prazer receber tão orvalhada visita no Cognosco. Os Vândalos foram realmente maltratados pela História, tendo em conta a viagem épica que fizeram, da sua natal Germânia até à fundação do seu Reino no Norte de África e terem dado também origem ao nome da região espanhola Andaluzia. Que prazer é desmontar as construções erróneas da História (da escrita pelos Homens, não a escrita pela passagem do Tempo)!
Cogitado por: Mauro a janeiro 31, 2008 10:16 AM
Parabéns pelo artigo.
Cogitado por: Transbordices a fevereiro 18, 2008 11:38 PM
Obrigado, «Transbordices», pela visita e pelos «parabéns». O mérito será, sem dúvida, dos Vândalos, uma vez que a sua História é bastante interessante e a forma como são imaginados pelas (poucas) pessoas que se darão a esse trabalho é claramente injusta. Como em tudo e em todos, certamente aspectos negativos mas que não podem apagar os positivos. As contribuições para o alicerce europeu dos Vândalos e de outros povos germânicos não pode ser olvidada ou diminuída por causa de um indivíduo de bigodinho ridículo, complexo de inferioridade e assassino em série que governou a Alemanha por 12 anos. Mas infelizmente é o que acontece... Os Vândalos são um tema muito interessante mas, citando Fernando Pessoa pela pena do seu ortónimo Álvaro de Campos, «(...) o que há é poucos para perceber isso». Fico contente que tenhas apreciado também.
Cogitado por: Mauro a fevereiro 19, 2008 09:35 AM
Hummm e esta hein?
Realmente quem diria?! Não tenho a certeza, mas quase que apostava que na escola foi-me ensinado que os Vândalos tinham sido uma civilização extremamente rebelde e destruidora! Como fazem falta os teus artigos para desmistificar e chamar a atenção de palavras com significados controversos!
Tenho tido pouco tempo para andar a cuscar nos blogs... Mas por fim já comentei no teu blog!!!
Jokas!
Cogitado por: Fiju a fevereiro 20, 2008 10:59 PM
Olá, «Fiju», é bom receber-te. Sim, é um julgamento apressado que geralmente se faz sobre este povo, tendo como base uma interpretação parcial e falaciosa de um indivíduo do século XVIII. Espero que o contributo germânico para o alicerce europeu venha a ser mais profundamente entendido e estudado. Afinal, como disse anteriormente, todas as nações europeias são descendentes directas dos reinos «bárbaros» germânicos. Infelizmente, também eu estou num período profissional e pessoal que me tem deixado pouco tempo para o meu ou para outros blogs.
Cogitado por: Mauro a fevereiro 21, 2008 10:23 AM
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