23 fevereiro 2008

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Die Wahrheit den Herzen

Hallo. Ich bin Ilona. Wie heißt du?

Eis uma frase que faria levantar algumas sobrancelhas e não apenas por não se entender o seu significado (um simples «Olá. Eu sou a Ilona. Como te chamas?»). Quando se fala em (ou no) Alemão, recebe-se respostas como «Eu não sei Alemão mas não gosto, acho uma língua muito feia, muito dura de se ouvir. E depois tem umas letras esquisitas». É claro que o Alemão é uma língua como outra qualquer, nem mais nem menos feia. Estes são critérios subjectivos, variando conforme cada um. Mas de onde terá surgido esta má vontade em relação a uma das línguas mais antigas e importantes da Europa? Língua de compositores como Mozart e Strauss (o das valsas), poetas como Goethe, cientistas como Einstein e Von Braun (que desenhou os foguetões que levou o Homem à Lua), matemáticos como Gauss? E quem fala em língua fala nos próprios Alemães.....
A frase teria soado como «Hálô. Ixe bin Ilôna. Vi áisst du?». O ß não passa de um duplo «s» e assim é lido...

A ideia de que se trata de um povo frio, calculista, que fala uma língua que se assemelhará a uma sucessão de rosnidos poderá estar ligada ao passado recente e a um indivíduo, com um complexo de inferioridade e um bigodinho ridículo que, em 12 anos de governo, conseguiu destruir e distorcer uma cultura e uma nação que foi sempre das mais humanitárias e culturais do Mundo. Mas aproveitou as circunstâncias históricas em que surgiu e soube explorar, criar e aumentar os sentimentos negativos que na altura existiam, devido à forma como foi conduzido o final da I.ª Guerra Mundial (que não foi iniciada por eles, como por vezes se pensa). Para mais sobre a I.ª Guerra Mundial ver:
~ Um século sobre as ligações do terrorismo islâmico moderno às acções britânicas e francesas após a vitória contra as Potências Centrais;
~ Deutschland (Alemanha em Alemão) sobre a razão de os Alemães chamaram ao seu país Deutscland;
~ As pontes de Königsberg sobre a ligação entre a Alemanha e a criação dos Grafos;
~ Cavaleiro de Trapp'o sobre a família que inspirou o filme «Musica no Coração (A noviça rebelde) e a sua fuga aos nazis;
~ Pacis nox sobre o mais bonito episódio de Natal e que se passou na I.ª Guerra Mundial;

E a Alemanha não se resume ao Holocausto (e é de recordar que os primeiros judeus mortos pelos nazis foram os judeus alemães, pessoas que apenas a religião distinguia dos restantes. A barbárie nazi começou por comer os próprios Alemães...) nem ao governo de 12 anos de um psicopata megalómano que, para nosso infortúnio, subiu ao poder de uma nação poderosa e respeitável como a Alemanha.

Um das críticas mais fáceis que se ouvem à língua alemã é que «tem muitos R's, é muito dura no ouvido!». Mas corresponderá isto à verdade? Será simplesmente um preconceito perpetuado pelo desconhecimento ou terá algum fundo de verdade? Analisemos a frequência com que a letra R surge em algumas línguas europeias, com base em algumas estatísticas retiradas da internet. Assim, em 1 000 letras, podemos encontrar as seguintes proporções de R:
Espanhol 7,7%; Francês 7,4%; Português 7,3%; Italiano 7,0%; Alemão 6,9%; Latim 6,8%; Inglês 6,1%.
Estas percentagens variam com a amostra de mil letras que se use. Para outras estatísticas sobre a frequência das letras entre várias línguas, ver Frequência das letras em várias línguas. O valor do tamanho das amostras é importante, já que, pela Lei dos Grandes Números, quanto maior a amostragem recolhida mais a frequência relativa se aproxima da probabilidade pretendida. E a selecção das amostras desempenha um papel importante também.

Ou seja, mesmo o Português usa mais vezes o R nas suas palavras do que o Alemão. Mas será que a forma como o R é pronunciado em Alemão é tão carregada que os R's que há são realçados e exagerados? Explicaria isso a razão pela qual poderá parecer, a alguns, que há mais R's do que há verdadeiramente? Na verdade, como em muitos (todos?) outros países, há vários dialectos de Alemão, sendo que alguns carregam mais no R do que outros. No Alemão Padrão, muitos R's são quase inaudíveis ou transformados num som semelhante a um A. Por exemplo, considere-se esta citação do fabuloso filme alemão, de Fritz Lang, de 1927, «Metrópolis», pioneiro nos efeitos especiais: «Der Mittler zwischen Hirn und Händen muss das Herz sein.» (Entre a mente e a mão deve estar o coração). Esta frase, lida em Alemão Padrão, soaria como «Déa Mítla chvíchan Hérrne unt Hénden mus dás Hertze záin». Outros dialectos, como o Alemão austríaco, pronunciam mais carregadamente o R. Mas o Alemão Padrão suaviza naturalmente o R. Ou seja, é mais a má vontade/desconhecimento do que realidade...

No entanto, decidi, procurar por mim mesmo as frequências do uso do R e do T (outro possível candidato para a ideia de que o alemão é uma língua muito desagradável) nas «principais» línguas europeias (claro que este «principais» é um adjectivo de cariz estritamente pessoal). Por isso, reuni, textos com uma informação similar em 4 línguas europeias diferentes: Português, Inglês, Alemão e Francês. Para o fazer, consultei as páginas da Wikipédia em Português, Wikipedia em Inglês, Wikipedia em Alemão e a Wikipédia em Francês. O objectivo foi encontrar, em cada uma delas, textos sobre os 4 países de onde a língua é originária: Portugal, Inglaterra, Alemanha e França.

Será que encontraria uma frequência similar àquela que encontrei?
E verdade é que a minha insistência foi proveitosa: encontrei valores bastantes díspares

Os dados que encontrei e coligi podem ser encontrados aqui.

Mas isto não responde na totalidade à questão de saber se realmente o Alemão é uma língua que diz mais R's (e T's) do que as outras línguas europeias.
Com o propósito de fazer essa comparação, criarei um valor estatístico, que denominarei de Dureza da Língua em Português (a percentagem dos sons que, na língua, são ouvidos como R's e como T's para quem fala Português).
Infelizmente, há várias excepções, em todas as línguas, e nem todas podem ser avaliadas olhando apenas à forma como a palavra é escrita. Mas, mesmo tendo em conta esta característica das línguas vivas, é possível traçar tendências gerais.
É claro que este é um critério puramente subjectivo e lusocentrado, uma vez que é uma definição baseada no que alguém, cuja língua materna é o Português, ouve.

Em Português, um R lê-se carregado (no início das palavras e quando num RR). De outra forma, fala-se um R muito suave, quase nem R, como em «claro» ou em «protagonista».
Juntando os mesmos textos sobre as 4 países europeus e fazendo uma contagem, obtive, em 100 mil letras, 757 (0,757%) R's carregados (RR e R no início das palavras). Além disso, obtive um total de 4817 (4,817%) T's (que é sempre lido como T). Obtive uma percentagem de Dureza da Língua em Português (DLEP) do Português de 5,574%.
Em Alemão, geralmente um R é lido como um R carregado, com a excepção de, no final de uma palavra, de um «er», «ir», «or», «ur». A somar ao som R escrito com esta letra, há ainda que contabilizar os «ach» (árr), «och» (órr) e «uch» (úrr). Assim, num total de 220 mil caracteres num texto, há 14 mil e 443 (6,565%) R's carregados. Como, além dos T's, os Z's se lêem como «tz», há 15 mil e 520 (7,068%) T's pronunciados. Assim, o DLEP em Alemão é 13,633%.
Em Francês, os R's são ditos carregados, com excepção dos «er» no final das palavras (há excepções como «mer» -> mar). Assim, em 182 mil caracteres, encontrei 11 mil e 046 (6,069%) R's carregados e 11 mil e 026 (6,058%) T's. Assim, o DLEP em Francês é 12,127%.
Em Inglês, os R's não são lidos da forma carregada que se faz noutras línguas: o som R é feito com a língua no topo da boca (os R's suaves) e não com a garganta (os R's carregados). Os T's são lidos como T's, exceptuando-se os Th (um som que se assemelha mais a um S feito com a língua a tocar nos dentes). Assim, em 246 mil caracteres, conto 0 R's carregados e 13 mil e 332 (5,420%) T's. O DLEP do Inglês é 5,420%.

Ou seja, após esta imensa odisseia estatística, eis que encontro valores surpreendentes:
O total de R's e T's, nas 4 línguas estudadas, aproxima-as todas. Mas já a «dureza» com que um falante de Português as ouve aproxima, surpreendentemente, o Português ao Inglês e o Alemão ao Francês.

Atente-se a este exemplo da música «La foulle», em Francês, cantada por Edith Piaf, e preste-se atenção aos «R»'s da letra. O R's em Francês são bastante carregados, o que não significa que a língua não seja romântica...

Ou seja, tendo em consideração não apenas o uso das letras R e T mas também o som ouvido, o Alemão (padrão) não se sai muito pior do que uma língua, tida como romântica e agradável, como o Francês. E a nossa língua também se aproxima bastante, em termos de sonoridade menos carregada, ao Inglês. Eis duas conclusões verdadeiramente surpreendentes...

No título «A verdade do coração» em Alemão».

Ouça-se esta excelente música, cantada em Alemão pela banda alemã Juli (cuja vocalista se chama Eva Briegel): «Regen und Meer» (Chuva e Mar). Quem, depois de ouvir a música, pode verdadeiramente continuar a achar que o Alemão é uma língua dura? É uma língua muito bonita, é preciso é não cair em falsos pressupostos, em repetições do que se ouve e em julgamentos apressados:

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Cogitado por Mauro Maia às 20:17 | Cogitar (4)
Cogitações anteriores
Olá Mauro: "Olá Mauro, sou a Papoila e tu és o Cognosco?" Confesso que todos esses meus preconceitos (não passavam disso) em relação ao alemão foram aqui desmistificados, bem como explicaste porque o "r" e o "t" se apagaram no meu PC portátil... afinal faço mais uso deles que os próprios alemães. Beijo. Cogitado por: Maria Papoila a março 17, 2008 01:33 PM
Olá, «Papoila». É sempre uma orvalhada visita uma tua ao Cognosco, uma que é sempre bem-vinda e desejada. Até o ar se enche do aroma a um campo de papoilas depois de uma chuva de Verão... Infelizmente, é um pré-conceito muito comum, um que eu devo confessar a que não fui imune durante algum tempo há alguns anos. Fui também, lá está, vítima do desconhecimento. Mas agora estou a aprender essa que será a minha 4.ª (3.ª e meia, vá, já que o meu Francês anda pelas ruas da amargura) língua e estou, francamente, a adorar. E por isso resolvi enfrentar de frente essa ideia de que é uma língua dura e feia. E obtive resultados que não esperava, alguns que foram contra a minha ideia inicial e outros que claramente os ultrapassaram. E chamaste-me a atenção (tantas têm sido as tuas contribuições, directas e indirectas, para o Cognosco que nem encontro palavras suficientes para te agradecer) para uma outra medida, simples para o uso das letras nas línguas: o nosso teclado de computador! É um facto que a estatística mostra que o «a» é a letra mais usada em Português (curiosamente, numa estatística que fiz, mas não incluí, do Latim, era o «i»!). Esperaria ver o «a» d meu teclado bastante gasto. E assim é. A letra seguinte é o «e» e não é que o meu «e» no teclado também está bastante apagado? Mas o meu «o» e o meu «i» estão como vieram. Curiosamente o meu teclado nega a minha própria estatística: as letras mais apagadas são «a», «e», o «r» e «s». Muito ligeiramente está ainda o «d» e o «t». Ora, estatisticamente, esperaria que fosse o «a» (12,77%), o «e» (11,30%), o «o» (10%), o «i» (7,65%), o «n» (6%) e o «t» (5,42%). Curioso ainda mais porque me referes que o teu «r» e o teu «t» estão mais apagados. Pergunto-me se cada utilizador terá letras diferentes mais apagadas... Será que um adepto de Futebol terá o F mais apagado? Um Biólogo o B mais apagado? Uma Médica o M mais apagado? Interessante, muito interessante.. Cogitado por: Mauro a março 17, 2008 03:51 PM
Olá! De volta! Uff custou, mas estou cá! Bem... Que artigo! Muito bom! Mas vou começar pelo fim do teu artigo. Vi o vídeo e a música é bastante audível. Acho que acontece como os gagos... Só se consegue perceber melhor (neste caso será ouvir, pois continuo a não perceber o alemão) quando cantam! LOL Há uns anos ouvia o canal VIVA, que é um canal alemão de música. Quando dava música, tudo bem, mas quando começava o apresentador a falar... Hummmm... Não gostava! Parece que têm uma batata na boca. Coitados! Mas para mim não há línguas frias nem duras. Para mim há o português, o espanhol, o inglês e o francês. De resto é tudo chinês! Não percebo nada de nada! E digo-o de uma maneira triste porque gostava de me dar melhor com as línguas estrangeiras. Mas já há uma série de anos que fiz um divórcio, não por escrito mas pronto, com as línguas. Bufff! Agora vou ler o artigo novo, que parece estar ainda em construção. Jokas! Cogitado por: Fiju a maio 16, 2008 08:31 PM
Olá, «Fiju», que bom voltar-te a ver. Ainda bem que apreciaste o artigo. Eu aprecio bastante outras línguas, apesar de ter formação científica (digamos que tenho o pé nos dois mundos). A questão do que soa a língua é uma questão puramente subjectiva, como é óbvio, e essa noção evapora-se quando se começa a perceber o que é dito. Então, as batatas transformam-se em rosas e a beleza e musicalidade da língua (seja o português, o inglês, o alemão ou o francês) surge-nos em toda a sua glória. Conhecer é o primeiro passo para alcançarmos a beleza, quer se trate de línguas quer se trate de pessoas ou quaisquer outras situações. Daí este artigo (e outro que pretende ainda vir a escrever sobre o Alemão e a beleza que lhe encontro). Cogitado por: Mauro a maio 18, 2008 01:07 PM