30 agosto 2008Cogitar (4 cogitações anteriores)Doce mecânicaMuitas são as razões pelas quais o nome de um país circula pelo Mundo e geralmente procura ter uma boa reputação no palco mundial. O adjectivo «bom», subjectivo como é, pode ser interpretado de formas diferentes por pessoas diferentes. Um país militarista com armas nucleares poderá ser visto como «mau» pela generalidade das pessoas e em especial pelos seus vizinhos mas, na sua visão, será algo positivo ser visto internacionalmente como um país a recear. Alguns procuram alcançar um lugar no palco mundial realçando o seu glorioso passado, outros através do poder bélico, através das influências políticas, através do número de medalhas desportivas ganhas... Eis algo em que Portugal não é excepção: procura o seu lugar ao Sol internacional mas o seu passado é ignorado por muitos e a sua pequenez presente pode torná-lo uma mera curiosidade nalgum Atlas geográfico.
Bem podem os portugueses se exaltar quando o seu decisivo papel como país que iniciou os Descobrimentos e deu início à primeira Globalização é esquecido; discutir acaloradamente quem foi o maior português de sempre (o resultado da «auscultação» popular deu um vergonhoso resultado que revela bem como a memória das pessoas é curta e, mesmo após décadas, como uma propaganda, repetida até à exaustão; pode Mas a verdade é que não é nenhuma destas razões que coloca mais vezes o nome de Portugal nas bocas do mundo. Tal honra deve-se a um simples fruto, a mui humilde laranja.
Para desvendar esse mistério, analisemos primeiro o que é ao certo uma «laranja». Originária do Sudoeste Asiático, a Laranja terá surgido pelo cruzamento entre o Pomelo e a Tangerina. Há dois tipos de laranjas, a «laranja doce» (Citrus sinensis) e a «laranja amarga» (Citrus aurantium). A primeira a chegar, vinda da China, ao Médio Oriente, nomeadamente à Pérsia, foi a «laranja amarga» (C. aurantium). Essa variedade de laranja (amarga) ainda hoje é conhecida como «maçã chinesa» (e.g., «apfelsine», em Alemão) e é muito usada na perfumaria e na produção de compotas. Foi essa a primeira laranja a chegar à Europa, quando foi introduzida, em Itália, no século XI, vinda da Pérsia. Até que, no século XV, os portugueses chegaram à Índia e trouxeram uma outra variedade de laranjas. Estas eram doces e mais do agrado do paladar da maioria das pessoas. Ao longo das rotas marítimas, os navegadores portugueses plantaram laranjeiras, como forma de combaterem o escorbuto (doença provocada pela falta de vitamina C no organismo). Durante séculos, a principal fonte de importação das laranjas doces era Portugal (e as suas colónias). De tal forma que, em muitas línguas, Portugal passou a ser sinónimo de laranja (doce): Como é natural, em português o fruto não se chama Portugal, é «laranja». Esta palavra deriva do Sânscrito (antiga língua indiana de moderno uso religioso) «nāraṅgaḥ». Daqui derivou o persa «nārang», que deu origem ao árabe «nāranj», de onde veio o «laranja» português, «naranja» espanhol e «arancia» italiano. Não temos um nome distintivo para as laranjas amargas e para as laranjas doces, enquanto que, para os árabes, «nāranj» é a laranja-amarga» e «al-Burtuqal» é a laranja-doce. Da laranja veio também o nome para a cor. A cor, claro, não foi inventada apenas nessa altura, sempre existiu. Mas apenas quando os Europeus tiveram acesso às laranjas é que a cor que anteriormente designavam por algo como «amarelo-vermelho» passou a ter a designação do fruto com essa cor. É uma fruta que modernamente se associa à Vitamina C e ao combate às Gripes e Constipações.
«Clockwork Orange» (Laranja mecânica) é o título de um livro do escritor inglês Anthony Burgess, datado de 1962, que relata a vida de um grupo de jovens marginais inglesas que praticam crimes nas ruas de Londres. O livro deu origem a um filme com o mesmo nome, realizado por Stanley Kubrick, em 1971. Devido ao facto de a cor predominante da selecção da Nederlândia ser laranja, alguém achou engraçado fazer essa referência e a moda pegou... Cogitado por Mauro Maia às 19:39
| Cogitar (4) Cogitações anteriores
Querido Mauro:
Fiquei admiradíssima com o nome das laranjas nas diversas linguas. Li com o maior interesse o artigo e este de hoje tem o poder encantatório de um grande contador de histórias.
Beijos
Cogitado por: Maria Papoila a setembro 26, 2008 09:35 PM
Minha querida «maria Papoila», é sempre um prazer receber a tua visita. Sinto-me em falta por nao ter ainda completado o artigo sobre a Inferência Estatística (artigo no qual manifestaste interesse) mas, em termos pessoais, não deu ainda para uma imersão no mundo da Estatística para depurar os termos e construir uma artigo simultaneamente relevante e de boa absorção. Não erstá esquecido... Obrigado pelo teu constante apreço pelo Cognosco e pelos seus artigos. A questão de ser a laranja a principal razão para Portugal andar nas bocas do Mundo faz pensar se não andamos a apostar em cavalos errados quando se trata de capitalizar a nossa presença no Mundo. Isso e o facto de o Oriente português ser esquecido pelos sucessivos governos portugueses é lastimável.
Cogitado por: Mauro a setembro 27, 2008 01:01 PM
Só hoje descobri este interessante blog. Duas sugestões: - Passar a dizer 'o' grama e não 'a' grama quando se refere à medida de massa (também não se diz 'a' kilograma). - Utilizar feeds para facilitar a consulta smpre que há um novo post. Vou incluir este blog nos meus favoritos.
Cogitado por: Parafuso a outubro 16, 2008 10:54 AM
Agradeço-te, «Parafuso», a chamada de atenção. Por vezes ouvimos tantas vezes o mesmo erro que acabamos, inconscientemente, por o cometer também, ainda que saibamos que está incorrecto. Costumo estar atento a ele e, como artigo, não o cometo com frequência. Mas se em algum artigo anterior o tiver feito, será já corrigido. Vou pesquisar todos os artigos do Cognosco e emendar esse clamoroso erro. Obrigado, mais uma vez. E obrigado pelo apreço pelo Cognosco. A sugestão de incluir um serviço de Feed no blog há algum tempo que pondero. Mas tenho o Cognosco na plataforma «antiga» do Sapo (em html), por isso me permitir maior controlo sobre a sua estrutura,além de que, por autodidatismo, realizei muitas modificações que iam de encontro ao meu gosto. Mudar para a «nova» plataforma não só eliminaria todos os ajustes que anteriormente fiz como, e já tentei (tenho um blog de teste na «nova» plataforma para isso) incluir os meus ajustes nos «novos« blogs e alguns que quero mesmo ter não me são possíveis (ou seriam se soubesse como usar esta linguagem de programação). Mas procurarei scripts em html que permitem incluir um serviço de feedback no Cognosco. De qualquer modo, se assim o desejares, posso incluir o teu mail na «Lista de notificações de novos artigos» do Cognosco. A tua sugestão leva-se a pensar que o posso fazer simplesmente, bastando incluir um link para que me enviem o e-mail expressando esse desejo e o mail para onde enviar. Agradeço-te, «Parafuso», a tua visita e comentário ajudaram a reforçar o Cognosco.
Cogitado por: Mauro a outubro 16, 2008 11:44 AM
|