20 fevereiro 2009

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Mentes aplanadas

Olhando o longínquo horizonte, vejo que um barco se aproxima: primeiro surgem as velas, orgulhosas na sua alvura, depois timidamente se revela o casco, como uma tímida donzela na sua noite de núpcias: só após descobrir o alvo véu se entrega à rubra paixão.

Este é um fenómeno que qualquer um, tendo a isso prestado atenção, se terá já apercebido. Primeiro avista-se o topo de objectos distantes (as velas de um barco, o cume de distantes montanhas) e só depois a sua base. Isto ocorre pelo facto de a Terra ser uma esfera (na verdade uma elipsóide, uma elipse que, ao girar ao longo de um dos seus eixos, produz uma figura tridimensional como a de uma bola de Râguebi. Particularmente, trata-se de um esferóide, um elipsóide com dois eixos de igual comprimento, como notou «Fernando Vouga» no comentário que aqui deixou). A Terra, que se não rodasse seria uma esfera, gira sobre o seu eixo, desta forma distorcendo a sua forma (devido à força centrífuga, achata-se nos pólos). Devido também a essa rotação, existe a alternância entre dias e noites. Como o eixo de rotação da Terra não é perpendicular à sua órbita em volta do Sol, a rotação faz com que a inclinação em relação aos raios solares dos diferentes hemisférios varie ao longo do ano, o hemisfério Norte e o hemisfério Sul alternando as estações (quando a Norte é Inverno no Sul é Verão).

É um fenómeno facilmente observado e que não passa despercebido a quem olhe para o horizonte. Mas é comum a ideia de que, na Idade Média, se acreditava que a Terra era plana. Será que as pessoas não olhavam à sua volta? Não olhavam para o horizonte? E o que dizer sobre o papel da Religião Católica nisto tudo?

Gravura de 1888, contida em «L'atmosphère : météorologie populaires», do Cosmógrafo francês Nicolas Camille Flammarion, a brincar com a noção de que a Terra e o Céu se tocavamBem, a verdade é que já no século IV AC (a Idade Média começou no século V DC, com a queda do Império Romano do Ocidente, à mãos de tribos germânicas fugidas às investidas hunas), filósofos naturalistas gregos (como Eudóxo de Cnides e Calipo de Cyzicus, na actual Turquia, propuseram o universo como formado por esferas, centradas na Terra; Heraclides propôs que a Terra girava sobre o seu eixo; Eratóstenes mediu a curvatura da Terra com grande precisão) tinham já afirmado que a Terra era esférica. Nesses perto de 900 anos que separam a Antiguidade Grega da Idade Média, esqueceu-se tão evidente observação? É também amplamente divulgada a história de que Colombo, contrariando a noção de que a Terra era plana, propôs a sua esfericidade e assim encontrar um caminho por Ocidente para a Ásia, diferente do caminho por Oriente depois encontrado pelos Portugueses, o que não corresponde à verdade histórica.
Ver mais sobre Eratóstenes e algumas das suas descobertas ver Campester numerus

Mas a verdade é que a visão de que a Terra era «redonda» (esférica ou elipsóide) era compreendida e aceite pela generalidade das pessoas ao longo da Idade Média. Seria até estranho que não o fosse: não só pela sua evidência ao olhar o horizonte como pelo facto de, na Idade Média, o conhecimento da Antiguidade Grega ser tida como autoridade máxima em muitas questões. Em 1945, a Associação Histórica, baseada na Inglaterra, com o propósito de apoiar o estudo e a fruição da História a todos os níveis, criando um atmosfera que promove o estudo continuado e dá resposta às necessidades emergentes das pessoas que partilham um interesse pela História) listou o mito «Colombo e a Noção da Terra Plana» como uma das concepções erradas sobre História mais populares (listada como a segunda maior entre vinte).

o Rei D João II, o príncipe perfeitoA questão perante a qual Colombo se defrontou para ganhar o apoio dos Monarcas espanhóis (depois de ver recusada a sua proposta de chegar à Índia pelo Ocidente pelo grande Monarca português, D. João II, o príncipe perfeito) não foi sobre a possibilidade de chegar à Índia pelo Ocidente (obviamente possível já que a Terra era redonda) mas sim quanto às distâncias envolvidas e se elas permitiriam a uma tripulação humana lá chegar. Teve a sorte de encontrar, a meio caminho, um Continente pela maioria dos Europeus desconhecido, que viria a receber o nome de América (ver o artigo Magnus Tellus para a origem do nome dos Continentes). Até ao fim da sua vida, Colombo pensou que tinha chegado à Índia e daí os povos que lá viviam terem recebido o nome de «Índios» (modernamente opta-se pela designação «Ameríndios», para evitar confusões). Sobre Colombo há ainda que referir que ele designou, a ilha depois chamada de «Cuba», de «Isla Juana» em homenagem ao filho varão dos Reis espanhóis, Juan, príncipe das Astúrias, que morreu com 19 anos (em 1497), a caminho do casamento da sua irmã mais velha, D. Isabel, que se casou com o sucessor de D. João II, D. Manuel I, o venturoso) pelo que a ideia de que Colombo era português, nascido em Cuba, Alentejo, e por isso ter assim chamado à ilha que descobriu, cai por Terra (pode até ter nascido português mas o nome de Cuba não remete para a localidade portuguesa). O nome «Cuba» terá vindo ou de «Cubao» (onde há terra fértil abundante) ou «Coabana» (grande local), da língua dos povos que moravam na ilha quando a expedição espanhol lá chegou.
A história de um Colombo a enfrentar a ideia generalizada de que a Terra seria plana terá surgido apenas no século 19, pelas mãos do ensaísta e autor norte-americano Washington Irving, numa ficção histórica de nome «A vida e viagens de Cristóvão Colombo» (The Life and Voyages of Christopher Columbus).

No entanto, apesar da noção de que a Terra era esférica (ou elipsóide) datar dos antigos Gregos, durante séculos não existiu a Matemática que permitisse estudar convenientemente a geometria desta Terra curva. Apesar de se saber que a Terra era curva, apenas a Geometria plana era conhecida. No século 3 AC, o matemático grego Euclides de Alexandria escreveu a sua obra «Elementos» (dividida em 13 livros) e a Matemática ainda hoje se desenvolve com o espírito que Euclides usou na sua obra.
Esquecida durante vários séculos, a sua obra foi dos primeiros livros a serem publicados, em 1482) usando a prensa recém-inventada (cujo primeiro livro que imprimiu, a Bíblia, em 1452) prensa de Gutemberg. Conjectura-se que, depois da Bíblia, é o livro mais vezes foi impresso, tamanho foi o seu sucesso e importância.
(Mais sobre Gutemberg e a origem da translinearização pode ser lido em 42 regras). Nesta importante obra, que dominou o pensamento matemático até hoje, Euclides parte de 5 axiomas (um axioma é uma proposição que não carece de demonstração por ser intuitivamente evidente, como o célebre axioma de Descartes «Penso logo existo» que é obviamente verdadeiro) básicos e incontestáveis e, com base neles, construía uma série de demonstrações.
Um pouco como se, usando 5 expressões de uma Língua estrangeira, se fosse a um país onde ela era falada e, a partir das 5 expressões que se tinha, se fosse reconstruindo e aprendendo toda a Língua. Podia ser, por exemplo, «Bom dia», «Que horas são?», «Quanto é?», «Sim» e «Não». Mas como poderia entender as respostas não entendendo a Língua? Talvez fosse melhor «Não compreendo porque não falo a vossa Língua», «Pode-me mostrar o caminho para...», «Indique-me onde posso comer e dormir», «Explique com sinais de mãos o que quer dizer» e «O que acabei de dizer está correcto?». Talvez se governasse melhor com estas expressões, para poder ir aprendendo a Língua interagindo com os seus falantes. Talvez a expressão «Como se chama isto para o qual estou a apontar?» pudesse dar jeito e substituir uma das outras. Podia haver ainda outras expressões que ajudariam o pobre visitante a aprender a Língua do País que visitava. Provavelmente cada um teria a sua opinião sobre quais seriam as 5 expressões mais úteis para ajudar alguém, sem assistência, a aprender uma Língua estrangeira.

Foi de uma base semelhante que Euclides partiu para demonstrar uma série de propriedades sobre várias figuras, fundando assim a Geometria como hoje a conhecemos, de uma forma tão sólida e incontestável que perdurou até aos dias de hoje como a única forma de se fazer Matemática (as relativamente recentes tentativas de utilizar demonstrações com base em cálculos gigantes efectuados por computadores não têm sido aceites pela comunidade matemática, como foi o caso do Mapa de 4 cores). Partindo dos axiomas, demonstrava outras afirmações, usando-as também para demonstrações posteriores, uma construção de um imenso edifício com base em apenas 5 alicerces.

Por exemplo, suponhamos que tínhamos estes axiomas, referentes a uma sala com 5 crianças e 10 brinquedos:
.: 1) Cada criança tem, pelo menos, um brinquedo;
.: 2) Cada criança demora o mesmo tempo a arrumar um brinquedo;
.: 3) As crianças só podem lanchar depois de arrumarem os brinquedos;
.: 4) O Leonardo tem 4 brinquedos;
.: 5) O último a chegar come pão com manteiga e não bolachas;
Daqui poderíamos então fazer a seguinte afirmação (teorema):
O Leonardo não comerá bolachas.
Demonstração:
Há 5 crianças e, pelo axioma 4, o Leonardo tem 4 brinquedos.
Assim, as outras crianças têm necessariamente menos de 4 brinquedos.
Se outra tivesse também 4 brinquedos, então ela e o Leonardo teriam 8 brinquedos, no total. Mas assim só sobrariam 2 brinquedos para as outras 3 crianças. Mas, pelo axioma 1, cada criança tem, pelo menos um brinquedo. Assim, as outras crianças têm todas menos de 4 brinquedos e o Leonardo é o que tem mais brinquedos. Como, pelo axioma 2, cada criança demora o mesmo tempo a arrumar cada brinquedo, o Leonardo, sendo a que tem mais brinquedos, é a que demorará mais tempo a arrumá-los. Assim, como pelo axioma 3, só poderá ir lanchar depois de arrumar todos os brinquedos, sendo o último. Pelo axioma 5, isso significa que comerá pão com manteiga e não bolachas, c.q.d. (como queríamos demonstrar).
Eu pessoalmente prefiro a expressão latina q.e.d. (quod erat demonstratum) que significa o mesmo.

A diferença entre este simples exemplo de deduções lógicas (como Sherlock Holmes faria, tendo o seu autor, Arthur Conan Doyle sido, como a generalidade dos seus contemporâneos letrados, fortemente influenciado pelas demonstrações de Euclides) e os Elementos de Euclides é grande: o exemplo refere apenas uma sala com condições especiais, enquanto Euclides se refere há totalidade das figuras geométricas. Os 5 axiomas que Euclides usa para fundar toda a Geometria (plana) são:
1) Dois pontos podem ser unidos por uma recta;
2) Um segmento de recta pode ser estendido tanto quanto se deseje;
3) Em qualquer segmento de recta, uma circunferência pode ser traçada, tendo o segmento de recta como raio e o seu centro como um dos extremos do segmento;
4) Todos os ângulos rectos são iguais;
5) Se duas rectas intersectam uma terceira e um dos ângulos for menor do que a soma de dois ângulos rectos, as duas rectas intersectam-se se estendidas suficientemente.
É importante realçar que os Gregos não tinham a noção de infinito nem de indefinidamente, pelo que referiam um segmento a ser estendido tanto quanto se deseje, em vez de referirem uma recta de comprimento infinito..

De todas as suas 5 proposições, era da quinta (realçada a negrito) que Euclides e os seus contemporâneos tinham mais reticências quanto à sua evidência lógica. Este proposição, conhecida também como o Postulado das Paralelas, é equivalente a dizer que duas rectas paralelas nunca se cruzam. E, ao longo da História, muitos foram os que procuraram tornar o 5.º axioma desnecessário e provado usando os outros 4. Mas todas as tentativas foram em vão. Isso porque o 5.º axioma prende-se com uma característica própria do espaço em que se está a concretizar a Geometria. Num espaço plano (como uma folha de papel), é verdade que rectas paralelas mantêm sempre a mesma distância entre si e nunca se cruzam. O que esses Matemáticos só tiveram noção, a partir sensivelmente do século 19, era que havia outras Geometrias, em espaços que não eram planos (Geometrias não-Euclidianas). Se o espaço for côncavo (curvo para fora de si, curvatura positiva) rectas paralelas têm a distância entre si sempre a diminuir e cruzam-se em infinitos pontos enquanto que, se o espaço for convexo (curva para dentro de si, curvatura negativa), rectas paralelas têm a distância entre si sempre a aumentar e nunca se cruzam. Um exemplo bom de uma curvatura positiva é o da superfície da Terra. Nela, rectas paralelas (os meridianos) cruzam-se nos pólos (infinitas vezes, já que têm comprimento infinito) e a soma dos ângulos internos de um triângulo é maior do que 180º.

E desde Einstein e a sua Relatividade Geral (que aborda a problemática da gravidade) que sabemos que a matéria encurva o espaço-plano e que não vivemos num Mundo plano, nem mesmo num Universo plano. Apenas localmente há aproximadamente áreas aparentemente planas...

A mente humana é como o nosso Mundo: só localmente é que pode dar a aparência de ser plana. Mas a nossa mente é elíptica e as rectas que traça para a vida cruzam-se infinitas vezes no espaço da sua vida... E infinitamente com os meridianos dos outros...

Cogitado por Mauro Maia às 19:30 | Cogitar (11)
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O "pai da Ínclita Geração" foi D. João I e não D. João II Cogitado por: Parafuso a fevereiro 22, 2009 09:40 AM
Tens toda a razão, «Parafuso», o pai da Ínclita Geração foi D. João I (o décimo Monarca português) e não D. João II (o décimo terceiro), seu bisneto. Obrigado pela chamada de atenção e a correcção foi já efectuada. Cogitado por: Mauro a fevereiro 22, 2009 12:12 PM
Não li (ainda te lembras que não leio sempre?), ando só a ver quem ainda é vivo. Cogitado por: Maresia a março 14, 2009 07:13 PM
Olá, «Maresia», que bom te ver. Já passou algum tempo, é verdade. Eu, como vês, continuo a esbracejar como um recém-nascido curioso quanto ao Mundo que vê. Vejo que também a tua maré continua a dar à costa, o que me deixa feliz. Um beijo e é com saudades que te espero. Cogitado por: Mauro a março 15, 2009 11:01 AM
Olá Mauro: Sempre a aprender por aqui... e agradecera visita! Beijos Cogitado por: Maria Papoila a março 16, 2009 03:49 PM
Quando olhas assim o horizonte vês Matemática a correr de um lado para o outro? Cogitado por: Maresia a março 17, 2009 09:50 PM
Gn. 1:6-7-9 – Deus disse: «Haja um firmamento entre as águas para as manter separadas umas das outras». Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento. O firmamento - «raquia» em hebreu – é concebido como uma imensa placa azul, metida entre as águas. A razão é esta: o caos primordial é imaginado como uma mistura da terra com as águas eternas. Então Deus, depois de acender a luz (v. 3-5), começa o seu trabalho. O primeiro que faz é meter o firmamento entre as águas. Como a chuva cai do alto, os primitivos pensavam que, por cima do firmamento, considerado como uma placa, existia um mar de água doce. Sobre esse mar estava o palácio de Deus. Gn. 1.9 - Deus disse: «Reunam-se as águas que estão debaixo dos céus num único lugar, a fim de aparecer a terra seca». Então desconhecia-se que a terra era redonda e que o mar tinha limites. Pensava-se que a terra era um disco plano e circular a boiar sobre as águas do abismo. O mundo visto pelos Babilónicos. http://marius70.no.sapo.pt/MundoBabilonico.jpg ... Sendo que tu Galileu, filho de Vincenzo Galilei, florentino, da idade de 70 anos, foste denunciado em 1615, neste Santo Ofício, por teres como verdadeira a falsa doutrina, ensinada por alguns, de que o Sol é o centro do mundo e está imóvel, e que a terra se move... que, às objecções que então te foram feitas, tiradas das Sagradas Escrituras, respondeste glosando as ditas Escrituras à tua maneira... Em 22 de junho de 1633, ano do Senhor – e numa quarta- feira – o Sacro Tribunal da Inquisição havia portanto decidido. A Terra – que ficasse bem claro – está imóvel; ela é o centro do universo, e a Igreja de Roma – que também isto ficasse bem claro - é o centro da Terra. E o Vaticano é o centro da Igreja. Roma locuta est, causa finita est. Roma falou, a causa está terminada. Se a Terra estava parada e era o centro do Universo também para o santo ofício a mesma era plana. Todos aqueles que dissessem o contrário lá o esperavam uma fogueira para queimar tamanha afronta às Escrituras divinas. Sempre aprendendo um pouco mais contigo Mauro. Um abraço! Cogitado por: Marius70 a março 21, 2009 02:23 AM
Mauro, como abandonei a "velha" plataforma há muito tempo não me lembrei que o texto iria aparecer conforme está sem quebras de linha. Assim quem quiser ver o jpg que coloquei é melhor ler até ao fim o comentário e depois clicar no endereço do Mundo Babilónico. É que se clicarem no endereço lá se vai o resto do texto e terão que voltar de novo à página dos comentários. Mauro, admiro a tua persistência em continuares nesta plataforma. Os teus escritos merecem melhor que isto. Abraço! Cogitado por: Marius70 a março 21, 2009 02:31 AM
É sempre, «Papoila», um prazer receber uma visita orvalhada tua neste meu pequeno jardim à beira de mim plantado. Bem, «Maresia», quando olho para o horizonte poderei ver várias coisas a correr de um lado para o outro, dependendo de como está o meu estado de espírito. Posso ver uma noiva donzela na sua noite de núpcias, ver as careavelas portuguesas a partirem rumo ao mundo que desconhecem, posso ver apenas o sol que nasce e o calor dos seus raios. Procuro geralmente ter uma perspectiva mais alargada do que me rodeia, não apenas circunscrita a uma forma de pensamento (por muito importante e abrangente que seja o da Matemática). Aliás, o Cognosco tem sido bem a manifestação disso mesmo, penso. Bem, «Marius», agradeço-te essas citações religiosas. Há, como houve, aparentemente, várias formas de pensar sobre o Mundo que nos rodeia e a Religião (Católica, mas não só) não tem sido a mais fiel e coerente delas. Que assim o tivessem escrito os antigos Babilónios (num raciocínio decalcado para a Bíblia), no século 18 o tenham referido (não eram uma civilização de marinheiros e cresceram num mundo relativa e aparentemente plano como são as terras entre o Tigre e o Eufrates, pelo que as suas experiências com o horizonte não teriam grande peso na sua cultura) é compreensível. Que pessoas que passam a vida a olhar recorrentemente para o mesmo livro, heterogéneo de ideias, fontes e cronologias, tenham nisso insistido contra as evidências dos sentidos, também é. Que os marinheiros portugueses que partiram para o mundo desconhecido sabiam da sua esfericidade (mais elipcidade) é claro pelo grau de acuidade com que registavam as suas descobertas e a elas voltavam (se pensassem que o Mundo era plano, dificilmente lá conseguiriam votlar, só por sorte). O Tratado de Tordesilhas, forçado pelo papa espanhol Alexandre VI, foi originalmente escrito descrevendo uma linha imaginária a 100 léguas dos Açores e de Cabo Verde, o que não tem qualquer lógica num mundo curvo como o nosso. Para as cabeças pouco arejadas de algumas autoridades religiosas, podia ser natirual insistir num raciocínio ilógico como o do mundo plano mas sem dúvida que as mentes práticas de quem tinha de viver no mundo real viam o mundo curvo como ele é. Acho que o Cognosco merece mais do que uma plataforma mais actual, merece uma plataforma diferente daquela em que está, já que o Sapo persistentemente desleixa quem é seu cliente há anos, na sua insistente busca de novos clientes. Na verdade, farto deles estou eu e procuro outras alternativas. Obrigado pelas visitas dos três:foram um bem-vindo raio de sol. Cogitado por: Mauro a março 22, 2009 10:53 AM
Caro amigo Mais uma vez, somos presenteados com uma bela viagem às profundezas da ciência. É bom lembrar muitas coisas que aprendemos há décadas mas que, com o tempo e falta de uso, acabamos por deixar cair no esquecimento. Porém, atrevo-me a fazer um reparo. Na minha cadeira de topografia aprendi que a Terra é um "esferóide" (corpo tridimensional) e não um elipsóide (que faz parte da geometria plana). Estou certo ou estou errado? Um abraço Cogitado por: Fernando Vouga a março 25, 2009 06:42 PM
Tenho, «Fernando Vouga», muito gosto de te receber aqui no Cognosco, como sempre. Ainda bem que apreciaste o artigo (por muito ligeiro que é, tendo em conta a profundidade do assunto). A tua pergunta é interessante. Um esferóide e uma esfera são casos particulares de elipsóides (3D), como uma circunferência é um caso particular de uma elipse (2D). Uma circunferência pode ser entendida como uma elipse em que ambos os eixos têm o mesmo comprimento; uma esfera como um elipsóide em que os três eixos têm igual comprimento; um esferóide como um elipsóide em que dois dos eixos têm o mesmo comprimento. Usei a noção generalizada para me referir à forma da Terra mas o que referes levanta-me uma interrogação interessante: particularizando terá a Terra uma forma esferóide? Para isso dois dos seus eixos teriam de ter o mesmo comprimento. o eixo «vertical» (de pólo a pólo) não tem o mesmo comprimento que os eixos «horizontais» (daí a forma achatada). Mas os eixos «horizontais», por força da mesma força centrífuga devida à rotação da Terra, têm. Portanto, terei de te dar razão: a forma da Terra, sendo uma elipsóide generalizada, é uma esferóide (a elipsóide é a figura 3D que «corresponde» à elipse 2D). Ou seja, acabamos ambos por ter razão e colocarei a tua observação pertinente no artigo. Obrigado. Cogitado por: Mauro a março 25, 2009 09:12 PM