05 abril 2009Cogitar (9 cogitações anteriores)Cadeira negra
No entanto, como recentemente vergonhosamente se notou num programa televisivo que pretendia eleger o maior Português de sempre, muitas pessoas em Portugal ainda conservam uma visão idealista e positiva desse período negro da História portuguesa na qual a inteligência nacional foi reduzida a meia dúzia de apoiantes do regime, em que a força nacional foi reduzida a trabalhos braçais, em que a população em geral foi reduzida à ignorância, ao alcoolismo e à aceitação cega das normas sociais através do medo e da desconfiança.
Analise-se os números referentes à mortalidade de uma e de outra. Como é natural, para se poder fazer uma mais correcta comparação (se é possível comparar assim tão friamente acontecimentos tão traumáticos como guerras), é necessário ter-se o mesmo sistema de referência, neste caso períodos de tempo com a mesma amplitude. Ao longo dos 13 anos de conflito, 8 289 militares portugueses perderam a sua vida e 112 205 ficaram mutilados com deficiências permanentes. As estatísticas referentes à II.ª Guerra Mundial podem-se analisar na tabela: ![]() Nunca me deixam de surpreender as baixas sofridas pela URSS nesta guerra: 23 milhões e 100 mil mortos! Dava mais de duas vezes a população portuguesa morta 2 vezes em apenas 6 anos! E só em termos de soldados, uma população inteira portuguesa pereceu. Falamos de jovens na flor da idade...
Mas, «lembram-nos» também quem irracionalmente advoga o «bem» do velho regime, economicamente Portugal estava bem: graças às poupanças desse dito «senhor», o ouro acumulou-se no Banco de Portugal. Não só não sei quantas bocas alimenta ouro num cofre como esta argumentação (mais uma manobra propagandista desse regime) ignora factos importantes: o dinheiro que Portugal recebeu indevidamente em ajudas para a reconstrução de uma guerra na qual não participou e os custos de uma guerra que exauriu os recursos nacionais.
O Plano Marshall foi estabelecido em 1947 na sequência de um discurso do Secretário de Estado George Marshall, general do exército americano, que recebeu o Prémio Nobel da Paz, em 1953, homenageando o Plano. O Plano consistia em reconstruir uma Europa devastada pela Guerra, impedindo que a miséria impelisse o surgimento de estados comunistas na Europa Ocidental. Para isso, os EUA, entrre 1949 e 1951, disponibilizaram um total de 12 milhões e 721 mil Dólares. Utilizando uma simples conversão, encontrada em Measuring Worth, permite verificar que $US 1 de 1947 equivalia a aproximadamente $US 9,64 actuais. Utilizando ainda outra conversão, de dólares para euros (à data em que escrevo o artigo), disponibilizada em Currency calculator, verificamos que $US 1 actual são 0,715717 €. Compilando tudo numa tabela obtemos os seguintes valores: ![]() fonte: Wikipedia - Marshall PlanOutros países europeus usaram o dinheiro para se desenvolveram, para benefício dos seus habitantes. Dessa forma, tornaram-se prósperos, desenvolvidos e pacifistas. Ao contrário, esse «senhor» preferiu meter o dinheiro debaixo do colchão, deixar morrer de fome e pobreza as pessoas, fomentou o alcoolismo e a histeria religiosa, reduziu a expressão cultural do país a jogos de Futebol. Portugal tornou-se mais míope, mais xenófobo, mais atrasado e mais submisso à autoridade estatal. Como medida de comparação, registe-se que Portugal, nos últimos 20 anos, recebeu um total de 48 322 milhões de euros (fonte: Jornal Mundo Lusíada.
O Estado português, durante a Guerra Colonial, gastou cerca de 85 mil contos com Despesas Extraordinárias nas Forças Armadas (ou seja, além do Orçamento normal de gestão do Estado). De acordo com o OE para 2008, o Ministério da Defesa teve um total de despesas de 1215,5 M€, cerca de 3% do PIB nacional desse ano. (fonte: Orçamento de Estado para 2008. Durante os anos de guerra, gastou uma média de 35,15% do Orçamento de Estado com as Forças Armadas. Ou seja, hoje teria gasto cerca 247 mil M€ na guerra. Do Plano Marshall tinha recebido o dobro desse dinheiro indevidadmente! Os polémicos estádios do Euro 2004 custaram um total de 323 M€; o TGV poderá custar mais de 7 mil M€; o novo aeroporto da Ota cerca de 3 mil M€. Qualquer uma dessas despesas é irrisória face aos custos financeiras e humanos da Guerra Colonial!
De que nos salvou esse «senhor»? Antes a pergunta Deixo aqui as palavras de um dos nossos maiores poetas, Fernando Pessoa (1988-1935), que foi contemporâneo desse «senhor» (morreu dois anos após a instauração da ditadura): SALAZAR António de Oliveira Salazar. Este senhor Salazar Oh, c'os diabos! Cogitado por Mauro Maia às 19:24
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Olá Mauro. Como antigo combatente em Angola fico-te agradecido por este teu alertar de consciências. Realmente o ditador tão elogiado pelo povo, agora, enviou uma juventude para uma guerra que à partida estava perdida. Curiosamente o povo que elegeu o ditador como o melhor português de sempre (D. Afonso Henriques deve ter dado muitas voltas na tumba) foram os mesmos que estiveram no cais de Alcântara, a partir de 1961, a acenarem com os lenços a partida dos seus filhos que iam a caminho da morte em terras de África! Relativamente aos valores tão altos da morte dos russos na 2ª guerra mundial lembrei-me do nosso Marquês de Pombal e da saga dos Távoras. Stalin deve ter englobado nas baixas os que mandou aniquilar. A soma das baixas no quadro não está correta, no total na URSS tem um milhão a mais de mortos e na Alemanha Nazi 160000. Parou o Cognosco? Um abraço!
Cogitado por: Marius70 a maio 20, 2009 05:48 PM
Olá Mauro. Desconhecia o teu blogue. Muito interessante e com referências muito bem esgalhadas. Obrigada por ainda manteres "O mistério da estrelinha Curiosa" no teu espaço. Obrigada, Leonor Lourenço.
Cogitado por: Leonor Lourenço a maio 20, 2009 09:09 PM
Sabes, «Marius70», eu sou da geração do outro lado do muro (25 de Abril). E sou também apreciador de História. E incomoda-me bastante que as gerações pós-25 de Abril ignorem um período tão negro da História de Portugal e que as gerações que o viveram agora o dourem. Fiquei atónito com a vitória desse ««senhor»» (duplas aspas mesmo!) nesse concurso. Não que me surpreendesse após a eleição, mas fiquei pesaroso que um povo, com uma história tão rica e longa como a nossa, tenha elegido o pior português de sempre como o melhor. É a lavagem cerebral do Estado Novo a alimentar-se da ignorância do povo cuja mente e futuro agrilhoou. E é inconcebível a forma como a geração inteira de jovens que nada mais fizeram do que servir o seu país seja ignorada e colocada no armário como a que fez a Guerra do Ultramar (e o 25 de Abril também, nunca esquecer disso). Por cada um dos Capitães de Abril homenageados, quantos jovens não perderam a vida, quantos não ficaram permanentemente marcados, quantos heróis não pereceram para que as gerações anteriores e posteriores se pudessem lvrar do jugo dictadorial? E ainda precisam de regatear as suas pensões mais do que merecidas, com políticos que só estão no poder porque eles lutaram para que fosse instaurada a democracia que os elegeu? Inconcebível. Eu pessoalmente votei no Infante D. Henrique (por ter sido o mentor do Período de Ouro de Portugal que foram os Descobrimentos). O que Estaline fez foi ainda pior do que isso: a somar aos milhões de mortos devido à Guerra, encabeçou um período de terror que matou outros tantos milhões de sobrevbiventes dessa mesma Guerra. Ditaduras de esquerda ou de direita são faces da mesma moeda... Os valores não estão incorrectamente somados, eu é que não incluí algumas colunas (como a das vítimas do Holocausto) na tabela. A opção prende-se apenas com a gestão do espaço disponível e com a relevância para o artigo. Mas estes são os valores como figuram na fonte, a Wikipedia (a inglesa, não a Wikipédia luso-brasileira). O Cognosco não parou, apenas não tenho tido cabeça, coração e um dia ou dias seguidos para me dedicar ao artigo. Mas continuará, quer o artigo quer o Cognosco. Vicissitudes de um blog feito apenas por uma pessoa... Um abraço e obrigado por teres por aqui passado. Ainda bem, «Leonor», que então descobriste esta minha outra faceta virtual. Espero que tenhas apreciado e o prazer é meu de manter a capa do teu livro no meu espaço. És sempre bem-vinda.
Cogitado por: Mauro a maio 20, 2009 09:48 PM
Gostava que visitasses o meu blog, quando tiveres tempo: http://leonorlourenco.blogspot.com ou então vais a «era uma vez, conta outra vez». Diz depois de tua justiça. Obrigada. Gostei de te reencontrar. Leonor
Cogitado por: Leonor Lourenço a maio 20, 2009 10:44 PM
O prazer, «Leonor», será todo meu. Não deixarei de ir ver ambos os espaços. Seguramente serão tão interessantes quanto a sua criadora.
Cogitado por: Mauro a maio 22, 2009 11:26 AM
Obrigada Mauro pela tua simpatia. Já tiveste tempo de ir espreitar o blog? Ainda não vi ninguém do Algarve...Brasil, India, América... mas das "tuas bandas" nada... Um dia talvez... será? Com carinho,
Leonor
Cogitado por: Leonor Lourenço a maio 25, 2009 07:06 PM
Já visitei o teu blog sim, e gostei muito. Não tive foi o tempo que uma análise e comentário mais profundo que mereces. Como vês, a minha disponibilidade anda tem sido tão pouca que até este artigo há quase dois meses aguarda ser completo. Mais uns dias e terei essa disponibilidade e fá-lo-ei. Obrigado pela visita e pelo interesse.
Cogitado por: Mauro a maio 30, 2009 09:47 PM
Oh amigo Mauro, não gostas mesmo do indivíduo e vejo que com muita oportunidade o nosso Fernando Pessoa também não. Penso muitas vezes que, sim senhor, as coisas deviam ter sido feitas de outra maneira. Sem derramamento de sangue e com a dignidade que tais situações deveriam trazer ao de cima quando se impõe que o bom senso impere. PS (continuo às voltas com o meu processo de rvcc). Um abraço.
Cogitado por: Eduardo Correia a junho 8, 2009 11:18 PM
A questão, «Eduardo», não é se gosto ou não desse «senhor». Não tive a infelicidade de nem o conhecer nem mesmo de ser seu contemporâneo. Quando nasci, já a anátema política que ele criou em 1933 se tinha ido num mar de cravos e muitas esperanças. A razão deste meu artigo foi apenas esclarecer estes enganos que são tão comuns na sociedade portuguesa. Esse «senhor» de nada nos salvou, apenas nos prejudicou. Se o querem defender, que o façam munidos de boa argumentação, não de ideias feitas e repetidas surdamente. Ainda por cima quando se ignora de forma tão irracional o sofrimento e as dificuldades de tantos soldados portugueses que pagaram com o corpo a estreiteza desse «senhor». Perante essa repetição de javões inventados pela progaganda do Estado Novo, contraponho factos. Como amante de História que sou, gostaria de ver então factos concretos que se contraponham aos meus. Não creio que os haja muito sólidos mas... Andas então às voltas para que vejas as tuas competências reconhecidas, validadas e certificadas... Infelizmente vivemos num tempo em que a imagem política é prioridade sobre a realidade. As Novas Oportunidades não lhe podriam escapar, pelos vistos. Espero que tudo se resolva celeremente.
Cogitado por: Mauro a junho 10, 2009 04:42 PM
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