Lepus et testudo (... sed amor non sequitur)
Uma tartaruga e uma lebre estavam num campo perto de um rio. Sempre que a lebre se afastava um pouco da tartaruga esta lançava-lhe um olhar muito frio e a lebre voltava. Poucas palavras a tartaruga dizia à lebre mas o seu olhar prendia-lhe sempre os movimentos.
Até que um dia a lebre precisou de ir até ao outro lado do rio, buscar ervas que começavam a faltar. Corajosa (porque nunca se tinha afastado mais de meio metro de ao pé da tartaruga) atirou-se ao rio e nadou. Mal conseguia nadar, por várias vezes engoliu água, mas nadou, nadou, nadou e lá chegou ao outro lado, a tiritar de frio e molhada. Mas tinha chegado tão longe... Do outro lado a tartaruga comia descontraidamente ervas. A lebre precisava de ouvir umas palavras de conforto, de ânimo, de coragem. Então a tartaruga olhou para a lebre, encheu o peito de ar ("É agora! Vai me animar e mostrar que tem confiança em mim" pensou a lebre) e disse-lhe "Não estás aí a fazer nada. No fim do dia volta para aqui."
Que desilusão, que falta de confiança tinha a tartaruga em si! Mas também que esperava? Nunca a tartaruga lhe tinha dito palavras de ânimo, de apoio ou simplesmente de afecto. Porque seria diferente agora? Talvez porque pela primeira vez estava a ser posta à prova e o que ouviu foi que não conseguiria.
Continuou a fazer o que lá tinha ido fazer. E o 1.º dia acabou e veio o 2.º. Nesse dia continuou a fazer o que tinha a fazer. Era já perto do meio-dia quando a lebre escorregou. Ouviu um grande estalo, como quando prendia uma cenoura suculenta nos dentes e puxava-a. As dores eram grandes. Precisava de ajuda, de alguém que a animasse. E olhou para a tartaruga. Esta levantou a cabeça, olhou para a lebre ("De certeza que vai atravessar o rio para ver como eu estou!"), disse-lhe "Está tudo bem, não está?!" e voltou a comer as suas ervas. "Oh, estou sozinha aqui, deixada a mim mesma! Bom, tenho de fazer o que tenho a fazer" pensou a lebre e voltou ao serviço.
Passou o 2.º dia, passou o 3.º, passou o 4.º, passou o 5.º e as dores a continuarem e as dores a aumentarem, mas tinha de continuar a fazer o que tinha de fazer. E foi-se acostumando ao outro lado do rio, a estar sozinha, a não saber o que o outro lado de um monte poderia ter. E foi ficando, e foi andando pelo campo que era agora o seu.
Ao fim do 5.º dia a tartaruga apercebeu-se de que a lebre começava a demorar, que a lebre tinha conseguido, que a lebre se tinha emancipado dela. E em vez de ficar contente por ela, de lhe desejar o melhor, de a ajudar (mesmo que pouca ajuda fosse já precisa), de a ir visitar, encheu o peito e disse-lhe bem alto "Lebre, eu gosto muito de ti, tenho saudades, volta para aqui que eu gosto muito de ti e faltam-me ervas do meu lado!"
A lebre ficou muito incomodada com estas palavras. Porque a tartaruga lhe tinha dito isso, porque parecia que só agora que tinha feito algo para si é que a tartaruga lho dizia, porque o campo da tartaruga tinha bastante erva e ela só queria mais erva, a que a lebre tinha trabalhado tanto para juntar. Não era amor, era egoísmo e receio de ficar só. "Que triste fico por tudo isto, em vez de me dar os parabéns, em vez de me mostrar como gosta de mim sem egoísmos nem exigências"
E a lebre gritou para a tartaruga "Se realmente sentes saudades minhas é a tua vez de te molhares!"
No título: A lebre e a tartaruga (... mas o amor não se segue)
Cogitado por Mauro Maia às
22:41
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