16 abril 2005

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Pandora

Pandora - John William Waterhouse, 1896A maioria das pessoas já ouviu falar do mito de Pandora. Sabem que está relacionado com uma mulher de nome Pandora que, devido à sua curiosidade, abriu uma caixa contendo todos os males do Mundo. Todos se libertaram e espalharam pela Terra menos a Esperança.
Mas não serão muitos os que sabem mais pormenores além destes...
O mito de Pandora é mais ou menos o seguinte
:

Os Deuses criaram todos os animais à face da Terra, incluindo o Homem.
O Titã Epimeteu (os Titãs foram as 12 divindades originais, filhas de Urano «o céu» e de Gaia «a Terra») ficou responsável pela atribuição dos dons aos diversos animais: força para o urso, visão apurada para a águia,...
Quando chegou à vez do Homem, todos os dons já tinham sido dados. Ao Homem nenhum dom especial foi dado, daí a «explicação» mitológica para a fraqueza física do Homem face aos outros animais: não temos força de alguns, nem a velocidade de outros, nem as garras daqueles, nem a visão destes,...

Mas o Titã Prometeu, irmão de Epimeteu, achou que, tendo sido o Homem criado superior aos outros animais, devia também ter um dom especial.
Na altura apenas os Deuses possuíam e utilizavam o fogo, por isso Prometeu decidiu roubá-lo a Zeus e dá-lo aos Homens.

Nesse tempo os seres humanos eram felizes e viviam em harmonia com a natureza. Não havia fome, guerra, inveja, frio, desconforto,... E viviam agora com o presente de Prometeu, o até-então-divino fogo. Por ter cometido tal acto de traição contra os deuses, Prometeu foi agrilhoado a uma rocha e o seu fígado era comido todos os dias por águias (ou abutres, depende da versão). Como era imortal, todos os dias lhe nascia um fígado novo, todos os dias era comido e as dores eram imensas, tal era o desagrado dos deuses perante a sua atitude de conceder a meros mortais atributos divinos.
Na altura havia apenas homens, a Mulher não tinha sido ainda criada.

Zeus procurava também uma forma de castigar os mortais, por terem aceitado a dádiva de Prometeu. Para tal, reuniu os deuses no Monte Olimpo para que juntos pensassem numa forma. Decidiram então, em conjunto, criar a Mulher e depois oferecê-la a Prometeu.
Cada deus ofereceu-lhe uma dádiva divina e decidiram chamar-lhe Pandora («todos os dons» em grego):
~ Efesto (cujo equivalente romano é Vulcano), deus dos artífices e da metalurgia, moldou-a do barro e deu-lhe as sua belas formas;
~ Atena (cujo equivalente romano é Minerva), deusa da caça, da tecelagem e da guerra, deu-lhe belas roupas;
~ As Cáritas (Agleia «beleza», Eufrosina "alegria sorridente" e Tália «boa disposição», cujo equivalente romano são As Graças) deusas do charme, da beleza, da natureza, da criatividade e da fertilidade, deram-lhe belos ornamentos;
~ Afrodite (cujo equivalente romano é Vénus), deusa da beleza e da sensualidade, deu-lhe beleza;
~ Apolo, deus da medicina, da música e da poesia, deu-lhe talento musical e o dom da cura;
~ Deméter (cujo equivalente romano é Ceres), deusa da agricultura, ensinou-a a tornar belos os jardins;
~ Posídon (cujo equivalente romano é Neptuno), deus do mar, dos cavalos e dos terramotos, deu-lhe um colar de pérolas e a habilidade de nunca se afundar;
~ Zeus (cujo equivalente romano é Júpiter), deus dos trovões e dos relâmpagos, tornou-a frívola, mesquinha e inconstante (a componente da vingança de Zeus);
~ Hera (cujo equivalente romano é Juno), esposa-irmã de Zeus, deu-lhe a curiosidade (a componente essencial da personalidade de Pandora no mito);
~ Hermes (cujo equivalente romano é Mercúrio), mensageiro dos deuses, deus dos viajantes, dos pastores, dos oradores, do engenho, da literatura, dos poetas, do desporto, das medições, da invenção (foi ele que tinha inventado o fogo), do comércio, dos ladrões e dos vigaristas, deu-lhe o engenho e a coragem.

Hermes entregou-a então a Prometeu. Este, desconfiando que nada de bom os deuses lhe poderiam dar, recusou o presente e aconselhou o seu irmão, Epimeteu, a fazer o mesmo. Mas Epimeteu tinha uma natureza mais crédula e, quando viu Pandora, exclamou "Certamente que um ser tão bonito e gentil não pode causar mal algum!" e aceitou alegremente ficar com o presente. Os primeiros dias foram maravilhosos e o seu amor despontou.

Uma noite, estando os dois a dançar no jardim, viram Hermes a passar. Os seus trajes estavam esfarrapados, os seus passos lentos e as suas costas arqueadas sob o peso de uma grande caixa. Pandora imediatamente quis saber o que tinha a caixa. Hermes evitou a questão, pedindo unicamente para deixar à sua guarda a caixa, pois já estava muito cansado. Brevemente voltaria para a levar de volta e partiu. Epimeteu voltou para dentro de casa mas Pandora ficou, sozinha com a caixa. A sua curiosidade aproximou-a da caixa, de onde saíam vozes que diziam "Pandora, doce Pandora, tem pena de nós e liberta-nos!". Pandora, ouvindo Epimeteu voltar, decidiu dar só uma breve espreitadela no interior da caixa. Acontece que Júpiter tinha colocado na caixa todas as doenças, invejas, desconfortos e defeitos que tinha afastado da Humanidade. Assim que ela abriu a caixa todos eles saíram rapidamente da caixa e espalharam a miséria e a dor pelo Mundo. Assim que Epimeteu chegou pela primeira vez eles discutiram. Mas no meio da discussão ouviram uma voz vinda da caixa que lhe pedia para a libertarem. Epimeteu, curioso, abriu pela segunda vez a caixa e dentro viu a Esperança, cuja missão era aliviar aqueles afectados pelos seus companheiros na caixa. Pandora e Epimeteu rapidamente fizeram as pazes e a Esperança saiu para o Mundo para aliviar as outras pessoas.
Ora daqui posso retirar várias considerações:

Primeiro Não deixa de ser curioso que Zeus, querendo castigar os homens, tenha engendrado a Mulher para castigar Prometeu. Talvez porque Zeus estava indirectamente a castigar a vontade humana de se equiparar aos deuses (a famosa hibrys grega) e as mulheres são a componente mais divina do Homem.
Segundo os dons dos Deuses: a vingança de Zeus na inconstância, a da sua mulher na curiosidade e o de Posídon de não se afogar (tinham os gregos já noção que as mulheres têm uma maior percentagem de gordura corporal do que os homens, o que as torna menos atreitas a afogarem-se?);
Terceiro Epimeteu aceitou a prenda destinada ao irmão. A possível lição é que não se deve aceitar prendas recusadas por outros e além disso que não nos devemos fiar em aparências.
Quarto É verdade que Pandora estava curiosa para ver o interior da caixa mas só decidiu abrir a caixa quando ouviu Epimeteu chegar, talvez para impedir que ela o fizesse. Mais uma vez constato que, por vezes, a tentativa de impedir algo é o que conduz à sua realização.
Quinto Não foi meramente a curiosidade que a levou a abrir a caixa. Foi também por consideração perante os pedidos de libertação vindos da caixa. Há aqui também um fundo de bondade num acto referido como sendo unicamente de curiosidade.
Sexto Não foi unicamente Pandora a abrir a caixa. Também Epimeteu a sentiu. Desconhecia o interior da caixa e fê-lo. Pelos vistos os supostos "defeitos" femininos são também masculinos.
Sétimo Uma vez que a Esperança estava na caixa juntamente com todos os males da Humanidade será que a Esperança é um mal que aflige a Humanidade? Bom, talvez quando as pessoas têm a tendência de se agarrar à Esperança de que tudo melhorará e não vêem que lhes cabe fazerem por mudar as coisas. A Esperança pode conduzir à inacção ou servir como desculpa para ela. Talvez a Esperança seja o Mal mais sorrateiro pois aparenta ser boa. Se o fosse realmente deveria ter saído juntamente com os males para imediatamente remediar o que fariam.
Oitavo A Humanidade foi criada feliz e realizada sem males, aflições, invejas, defeitos... Antes de ter Esperança. A Esperança foi libertada da caixa depois da criação do Homem e até Pandora surgir a Humanidade era feliz sem esperança. A esperança não é então uma condição necessária à felicidade.
Nono Por outro lado a Humanidade vivia num mundo perfeito, em que não havia males nem sofrimento. A Esperança era então desnecessária. Mas no mundo imperfeito em que vivemos talvez seja a Esperança o mal mais necessário...

Cogitado por Mauro Maia às 13:13 | Cogitar (5)
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E eu que a única "moral" que retirava do mito de Pandora era que a esperança é a última a morrer... Cogitado por: pauxana a abril 17, 2005 06:47 PM
Gostei muito dessa pesquisa... Xau. Cogitado por: Priscila Vieira a abril 19, 2007 05:12 PM
Ainda bem, «Priscila», que gostaste. É um daqueles mitos de que não se fala muito mas que contém uma enorme ligação a vários aspectos culturais. Cogitado por: Mauro a abril 19, 2007 05:45 PM
Carríssimo(a) Autor(a), gostei muito do seu artigo, e gostaria de ter sua permissão para citá-lo em todo ou em partes, numa re-leitura que estou trabalhando atualmente, sobre "os mistérios iniciáticos de Pandora", do qual seu artigo será de grande ajuda. Os direitos autorais serão respeitados juntamente com sua permissão. Desde ja agradeço pela atenção, e parabenizo-te pelo empenho e por sua visão temática, bem como pelo maravilhoso texto publicado e senso crítico apurado. Aguardo sua resposta. Grato, Cléber. Cogitado por: Cleber a março 1, 2009 03:46 PM
Agradeço eu, «Cleber», a visita e as elogiosas palavras. Fico contente de saber que este artigo despertou tanto interesse. Certamente maioritariamente pelo assunto em causa: o mito de Pandora é muito citado mas pouco conhecido (uma dicotomia cada vez mais frequente). O mérito da profundidade do mito é dos Gregos, que revestem as suas histórias de muitas camadas. Cabe a cada um ver qual ou quais as camadas que lhe tocam. E eu penso que certamente mais haveria ainda para explorar deste mito. Foram apenas estas 9 que me ocorreram quando acabei de descrever o mito. Seria talvez explorar mais o facto de haver Deuses e Deusas mas apenas o homem ter sido inicialmente criado. Também em que medida era a humanidade mais feliz sem a mulher (não concebo a felicidade sem ter um rosto feminino). Muitos dos Males que afligem a Humanidade (fome, violência, morte) são comuns a outros animais. Estariam os animais também livres desses males enquanto estavam guardados na caixa? E o que dizer do género feminino nos outros animais: já existia? E o hiato temporal entre Prometeu estar agrilhoado às rochas, com águias/abutres a comerem-lhe o fígado diariamente e estar junto do seu irmão Epimeteu para recusar a prenda dos deuses é curiosa também. Não tenho qualquer objecção ao uso do meu artigo para o projecto referido. Na mdida do possível e do razoável, se a minha assistência poder ser de ajuda, ofereço-a. Cogitado por: Mauro a março 1, 2009 05:16 PM