27 abril 2005

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Ó AI meu bem...

Inteligência ArtificialRevi recentemente (vivam os DVDs!) o filme Artificial Intelligence, dirigido por Steven Spielberg
(o «Estevão Entorna-a-(Carls)berg»).

Trata-se de um filme de sci-fi que possui, muito a la Spielberg, mensagens profundas e camadas escorreitas de significado. O mínimo que posso dizer é que é uma história de amor (filial), de como esse sentimento pode mudar o Mundo (ou pelo menos transmutar em seres humanos) e da preserverança que o mesmo instila.

Basicamente, num futuro quase-daqui-a-pouco-mas-mais-um-pouco-mais-longe, um casal tem um filho que adoece e entra em coma. O homem trabalha numa fábrica de robots (do croata "robot" que significa servo) e esta precisa testar um novo robot, um com aparência infantil e programado para amar. Como tal, decide trazer para casa o menino-robot para que possa substituir o ausente filho do casal. Inicialmente, a devoção do menino-robot À sua mãe adoptiva erturba-a bastante. Mas, após os primeiros tempos, o menino-robot já está integrado na casa e o seu amor e carência emocional já não perturbam a "mãe" (ao "pai" é reservado um papel minoritário no filme...). Mas o filho verdadeiro é curado e volta. Temendo os ciúmes do menino-robot, a mãe, não querendo devolvê-lo à fábrica onde seria destruído, abandona-o na floresta (tal e qual como nos contos infantis).

Começa agora, na minha opinião, o crescendo de qualidade do filme. O menino fica desesperado, com saudades da mãe. Enquanto vagueia pela floresta, encontra um grupo de robots e é capturado, juntamente com eles, para serem levados para uma feira que se dedica à destruição de robots para um público ávido de emoções. Nessa feira, o menino conhece um robot-gigolo (falsamente acusado de assassínio), a quem se afeiçoa. Mas a aparência e emoções humanas do menino levam a multidão a exigir a sua libertação. No tumulto, o menino e o gigolo fogem. O menino só quer ver a mãe. Mas sabe que a sua mãe não o ama porque ele não é um menino de verdade. Lembrando-se da história do Pinóquio, pede a Joe (o robot gigolo) que o leve à fada azul, para que esta o transforme e a sua mãe o possa amar. Este não sabe onde ela se encontra mas leva-o a um super-computador que lhe diz que há uma fada azul em Nova Iorque (numa feira permanente que existe em Connie Island, ao largo da cidade). Mas o degelo das calotas polares está mais avançado e NY encontra-se submersa. Conseguindo roubar um veículo carro-helicóptero-submarino a um polícia, os dois vão até à cidade onde só o topo dos arranha-céus se vê (numa nota de nostalgia para os espectadores actuais é a visão do World Trade Center, uma vez que o filme foi rodado antes de 2001...). O menino deixa-se cair na água, perante o espanto de Joe (e numa bonita sequência em que se vê, reflectida na cara de Joe, a queda do menino. O reflexo ganha os contornos de uma lágrima escorrendo virtualmente no rosto humanóide do robot).
Encontra finalmente a estátua da fada-azul e posiciona-se à sua frente, pedindo com insistência para ser um menino de verdade.
Os anos, séculos (milénios?) passam e a Terra congela. O Homem está extinto e somente os descendentes dos robots caminham sobre a Terra (congelada). Numa escavação descobrem o menino congelado. A curiosidade dos robots sobre os seres humanos é imensa pois nunca conheceram algum. Os robots, apiedados pelas saudades do menino da sua mãe, recriam-na virtualmente mas apenas por um dia. E que dia magnífico tem o menino: a sua mãe ama-o, vão passear e ela é só sua. Mas o dia acaba e o menino vê-se novamente sozinho. O Fim, se não houver um segundo filme... Ora bem, deste filme retiro o seguinte:
~ o amor (quando existe) é forte e poderoso, independentemente da sua origem (os donos de animais de estimação sabem o que isso significa, mas isso não significa que sejam os únicos);
~ a meu ver, a fada madrinha concretizou TODOS os desejos do menino. É certo que o menino não viu transformados os seus circuitos em carne, mas, quando "acordou", nada havia de mais humano na Terra do que ele, nada mais tinha os sentimentos e o comportamento de um. A mãe do menino amou-o profundamente, nem que fosse por aquele único dia.
~ a qualquer um que diga "Ah e tal, mas não era amor de verdade, era um programa de computador" só posso dizer que se o que o menino sentia não era amor neste mundo não há amor de qualquer tipo. Claro que é fácil fingir amor (e quantos já não fizeram isto?), é fácil dizer palavras de amor, é fácil abraçar e beijar como se existisse amor, mas o verdadeiro amor mede-se nas acções mais pequenas, nos gestos involuntários, nas atenções abnegadas, nos sacrifícios que não se cobram, nos presentes do coração, nos beijos dados com o olhar no meio de uma multidão. Pela definição que eu tenho de amor, o menino amava profundamente a sua mãe.
Cogitado por Mauro Maia às 23:26 | Cogitar (0)
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