Saturação


Eis um destino horrível: um homem que tem tanta cultura que se saturou. Um pouco como um cozinheiro, cansado da novelle cuisine.
Já tive oportunidade de comentar no bloquito sobre esta questão.
Quantos de nós já não chegaram a casa cansados de um dia de trabalho, de uma série de papeladas resolvidas, de chatices geridas e ultrapassadas e não conseguem ler o livro que tanto os estava a emocionar? Não conseguem ver o DVD daquele filme que o amigo emprestou? Não conseguem ouvir o CD que acabaram de comprar?
É que os estímulos culturais são tantos na sociedade em que vivemos que por vezes não temos tempo nem disponibilidade para procurarmos novos estímulos ou criarmos nós mesmos esses estímulos. Nesse dia não conseguimos fazer o próximo capítulo do livro que andamos a escrever, não conseguimos tocar um novo acorde para a música que estamos a escrever, não conseguimos escrever a próxima cena da peça que andamos a escrever, não conseguimos escrever um novo artigo para o blog que andamos a escrever.
E o mundo parece que desaba. "Mas quem sou eu afinal?! Sempre gostei de escrever livros/músicas/peças/blogs e agora não consigo?"
É aí que nos apercebemos que "Fui infectado com o vírus SC1 (saturação cultural)".
O diagnóstico é garantido quando nem temos força para ler os 3 novos artigos do dia do Cognosco.
Infelizmente só há um tratamento para o SC1, a estremamente dolorosa quarentena.
Eis pois o remédio do séc. XXI para a doença do séc XXI: não leiam, não conversem, não vejam filmes, não ouçam música, não usem a internet, não leiam o Cognosco e aguardem. Dependendo do vosso estado de toxico-dependência a ressaca chegará.
Quando chegar nadem em livros, vejam filmes, comentem e tudo mais com a alegria dos ditosos quinze...
Se bem que não sei se não é preferível morrer desta doença em vez da cura...

Cogitado por Mauro Maia às 16:44 | Cogitar (3)
Cogitações anteriores
Concordo plenamente contigo e é o que vou fazer este fim-de-semana. Deixei uma banda desenhada para um suposto Católico não identificado que afirmou eu ter de sair do país pelo que postava, pior: a culpa é minha. Diz-me, por que razão a Rata Zinger tem as costas largas? ;-) Cogitado por: Rata Zinger a abril 29, 2005 05:25 PM
Já se sabe que as rata(zanas) têm costas largas. Desde sempre foram as culpadas de tudo, principalmente para o mundo eclesiástico, fartos de conviver com "vocês". Até a Peste Negra vos foi injustamente imputada. É muita persistência... Cogitado por: Mauro a abril 29, 2005 06:15 PM
Abordas uma questão que me parece muito pertinente nos nossos dias. Vivemos numa sociedade cada vez mais exigente em termos profissionais e sociais. As reponsabilidades crescem desenfreadamente sem podermos dizer " basta". Olhamos pouco para nós mesmos e para os outros também. As solicitações multiplicam-se e estímulos tão diferentes competem numa corrida sem freio, sem sabermos qual deles vai ser o vencedor. Onde fica espaço e tempo para o enriquecimento pessoal? Não é certamente na famosa caixinha mágica que nos acompanha para onde quer que vamos! Dependemos dela mas ela depende ainda mais de nós - assim o traduzem a "ranking" das audiências. Mas uma coisa é certa nela apaga-se a apatia, o cansaço da correria do dia-a-dia. A cultura reclama disponibilidade física e psicológica para se poder partir em busca dos verdadeiros estímulos do espírito.O espaço da cultura só pode ser aberto por nós. Mas é necessário que as condições sociais estejam reunidas de modo a poder proporcioná-lo. Cogitado por: fm a abril 29, 2005 08:21 PM