10 junho 2005

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Expectativa e Intencionalidade

Um dia, ao balcão de um café, a empregada comentava com alguém
« (...) subir para cima (...) ».
A interlocutora retorquiu-lhe: «Se sobe é para cima, não se desce para baixo!

Qualquer um concordará com a interlocutora. Há, na expressão «Subir para cima», uma redundância de ideias desnecessária à compreensão da frase.

E, no entanto, se perante um texto literário, uma análise ao mesmo tipo de discurso não suscitaria a mesma reacção.
E.g. A análise a um poema onde se dissesse, algures num verso, «sobe para cima» interpretaria esse uso como uma figura de estilo (o pleonasmo, que reforça um ideia pela repetição de conceitos similares), o que enriqueceria o texto.

~ Porque há-de ser diferente a perspectiva sobre o mesmo tipo de discurso? Porque é que a empregada do café não estava também a enriquecer o seu discurso?

A questão das diferentes análises do uso da expressão «subir para cima» poderá não se prender necessariamente com a negação da ideia de que a empregada do café possa enriquecer também o seu discurso. Numa perspectiva imparcial e humanista tanto um autor literário como uma empregada de café podem ambos recorrer a figuras de estilo.

A questão poderá prender-se mais com a expectativa que se terá perante os dois tipos de discurso e não tanto com a expressão em si mesma.

Se o receptor (ouvinte ou leitor) antecipar, por parte do emissor, o uso de figuras de estilo como parte das ferramentas de enriquecimento do discurso, analisará a expressão como uma figura de estilo (num poema «subir para cima» contaria como um pleonasmo).
No entanto perante a expressão oral da mesma frase num outro contexto onde não se antecipa o uso de figuras de estilo como enriquecedoras do discurso analisar-se-á a frase como uma erro de exagero desnecessário à formulação do discurso.

A questão (pressupondo a imparcialidade da análise em relação ao emissor, o que infelizmente nem sempre acontece) prender-se-ia então com a expectativa em relação ao tipo de discurso.
Se a mesma empregada tivesse usado a expressão «subir para cima» mas num poema mudar-se-ia a expectativa perante o discurso e aí também a análise do seu uso.
Se um poeta mantivesse um diálogo não-poético com alguém e usasse essa expressão arriscar-se-ia a que lhe fizessem a mesma observação.

Mas a questão da classificação de expressões como erros gramaticais ou como enriquecimentos do discurso poderá ter ainda uma outra camada de análise.

A análise do uso de expressões do tipo «subir para cima» depende obviamente da intencionalidade com que é usada.

Se a intenção for a de ser usada como enriquecedora do texto será obviamente classificada como uma figura de estilo a respeitar e valorizar como tal, independentemente do seu emissor. Não havendo a intenção enriquecedora não se tratará de uma figura de estilo, tratando-se ou não de um poema ou qualquer outro discurso literário.

É claro que a intenção na produção de um texto está oculta dos seus receptores. Como então surge tão instintivamente a classificação da intenção no uso de determinado tipo de discurso? A expectativa aparece então como a única resposta a esta questão.
Ao ler um poema de Camões espera-se o abundante uso de figuras de estilo devido ao seu frequente uso.
Ao ouvir o discurso de um desconhecido, do qual se desconhece à partida o nível do discurso que deseja produzir, não se espera à partida, por força da média dos tipos de discurso empregues na oralidade, o uso de enriquecedores de texto.

Expectativa e Intencionalidade: eis as duas indissociáveis bases da classificação de um tipo de discurso como enriquecedor do texto em que é empregue.

Esta análise sobre expressões que podem ou não ser figuras de estilo aplica-se outros enriquecedores (ou não) tipos de discurso.
Um exemplo extremo (e por isso potencialmente esclarecedor) é a ausência de pontuação em livros do escritor português José Saramago. Num texto produzido por um jovem em idade escolar seria encarado como uma séria falha no discurso produzido. Em Saramago poderá (não é consensual) ser visto como um enriquecedor do texto.
Qual a diferença? Quem diz que o jovem não é um precoce futuro prémio Nobel da Literatura?
Resume-se à expectativa da intencionalidade...

Cogitado por Mauro Maia às 20:08 | Cogitar (1)
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É uma perspectiva curiosa sobre o uso de algumas expressões que passam regra geral por erros gramaticais quando proferidas ou escritas pelo mais comum dos mortais. De facto há balizas para que possamos considerar uma palavra ou expressão como erro seja ele gramatical ou sintáctico. A classificação que possa vir a ser feita é gerida a partir do que está convencionalizado e portanto é aceitável pela gramática convencional e institucionalizada. Porém nem sempre é assim. Pois a gestão e a aceitabilidade do que é dito ou escrito passa também necessariamente por quem o diz ou escreve. E Saramago, como o referes, é de facto exemplo disso. Cogitado por: fm a junho 14, 2005 03:13 PM