10 junho 2005Cogitar (3 cogitações anteriores)Amo ergo liberto
Mesmo à minha frente, a meio da minha estrada, eis que vejo um. Não lhe consigo perceber a cor, não consigo determinar a sua definição. Está lá simplesmente, como que aguardando a minha chegada. Tem uma postura resoluta de quem nem pondera ser ignorado. Será este o sonho que há tanto tempo aguardo? - penso.
Mas começo a perceber que o meu sonho já não está bem. Agita-se dentro da palma da minha mão, emite ruídos estranhos, tem uma textura urticante. O que se passará? - penso. O meu sonho quer ser livre, quer sentir a brisa, quer ver o mundo com os seus olhos, quer aspirar as flores, ouvir os pássaros a cantar, quer ver o nascer do sol. O meu sonho continua a agitar-se na mão que eu mantenho cerrada firmemente. Talvez não queira fugir de mim, talvez só queira ser livre para me amar também, não queira ser prisioneiro do amor. - penso. Mas a sua presença é tão importante para mim, a sua existência junto ao meu coração é-me tão imprescindível. Como posso sequer arriscar abrir a mão? E se ele foge, se escapa, deixa-me para trás? O meu sonho continua a agitar-se na mão que eu mantenho cerrada firmemente. Compreendo por fim que tenho de abrir a mão. Não para que ela possa fugir mas para que ele me possa amar. Como se pode amar a nossa prisão? Relutantemente estendo o braço e lentamente abro os dedos. Lentamente afasto os dedos da palma da mão e progressivamente vejo outra vez o meu sonho. Finalmente tenho a mão plenamente aberta e o meu sonho está enroscado sobre si na minha palma. Com um olhar diz-me «Obrigado» e abre as asas. Não sei se fugirá de mim, não sei se se aninhará junto ao meu peito. Amo logo liberto Cogitado por Mauro Maia às 23:18
| Cogitar (3) Cogitações anteriores
Simplesmente sublime este teu post :) Bjs
Cogitado por: sylpha a junho 11, 2005 04:16 PM
Adorei o teu conto. Considerei magnifica a forma como trabalhaste quer os conceitos quer os valores que se pantenteiam no texto. Embora universais estes são sem dúvida alguma tão valiosos e caros para a Homem. As personificações estão coloridamente bem conseguidas, o emprego das expressões verbais e nominais são tão diversificadas e ricas que animam o texto, deixando o leitor expectante na dinâmica da teia que o vai abraçando. É assim um texto que prima pelo que é dito mas a meu ver acima de tudo pela forma como é dado a conhecer o que se quer dizer a quem lê.
Cogitado por: Fernanda a junho 13, 2005 01:37 PM
Parabéns!
Cogitado por: José lopes a junho 14, 2005 02:34 PM
|