07 julho 2005

Cogitar (2 cogitações anteriores)

Solares ambusti

Antes do involuntário blackout de duas semanas este artigo já estava na forja. No entanto e há medida que o escrevia percebi que iria ser de uma grande extensão, particularmente para explicar os pormenores relevantes. Assim este artigo tornou-se nos 3 artigos que se seguem

SolAproxima-se o Verão e começa a febre da pele bronzeada e do corpo em forma. E igualmente começa (para quem tem uma pele mais clara) as queimaduras solares.

O mecanismo pelo qual a pele se «bronzeia» é desconhecido da maioria das pessoas e facilmente se ouvem teorias do tipo «o sol queima a pele» para explicar porque fica morena a pele exposta ao Sol.

Esta errónea ideia conduz assim a situações como:
«Como é que eu tenho esta queimadura? O dia estava nublado!» ou
«Vou pôr óleo para bebés na pele em vez de protector solar, para queimar melhor a pele»
e outras ideias que causam estranheza por revelarem incompreensão do mecanismo subjacente ao «bronzeamento».

Primeiro o Sol não queima a pele quando se produz o bronzeado. Quando o Sol «queima» a pele a cor dolorosa que se obtém é vermelho, nunca o castanho.
Na verdade é a pele que produz a substância melanina (que em do grego «melanos» que significa castanho) quando se encontram presentes raios ultra-violeta.

Quando se vai à praia e se sente o calor na pele o que se está a sentir são os raios infravermelhos. É esta a radiação que a pele liberta na forma de calor e é esta radiação natural que todos os corpos quantes libertam.

Mas o corpo não tem forma de sentir o outro tipo de radiação que chega à pele: os raios ultra-violeta. Esta é uma radiação perigosa que pode provocar cancro.
Há 3 tipos de radiação ultra-violeta: os ultra-violeta A (UVA), os os ultra-violeta B (UVB) e os os ultra-violeta C (UVC).

Os três tipos de ulltra-violeta têm periculosidades diferentes, uma vez que têm energias diferentes (comprimentos de onda diferentes).
Comprimentos de onda dos 3 UV

~ Os mais energéticos são os UVC, que têm um comprimento de onda próxima dos raios-X. No entanto os UVC nunca chegam a atravessar a atmosfera da Terra devido à protecção da camada de ozono. Estes são os mais perigosos mas o ser humano na superfície da Terra não lhe fica exposto (excepto se estiver debaixo de um dos famigerados buracos do ozono);

~ Os UVB são também perigosos, sendo no entanto menos perigosos. O que os torna mais temíveis é o facto de penetrarem pela camada de ozono e atingirem a pele. Quando o fazem são potencialmente perigosos em especial após uma prolongada exposição.

~ Os UVA não são cancerígenos e são os responsáveis pelo bronzeamento da pele.

O mecanismo pelo qual a pele se bronzeia é simples. Perante os raios ultra-violeta (que os os sentidos humanos não detectam mas a que o corpo reage) é produzida na pele melanina, um pigmento escuro que absorve os raios ultra-violeta (mais facilmente os UVA do que os UVB).

Portanto estar calor não é sinónimo de bronzeamento nem um dia frio ou nublado é sinónimo de ausência de bronzeado. Na verdade, é pior um dia nublado em termos de queimaduras solares do que um dia de sol.

Não há mais raios UV num dia nublado do que num dia de céu aberto.
PraiaAcontece é que os raios infra-vermelhos não penetram através das nuvens, mas os ultra-violeta sim.
Como o corpo só sente os raios infra-vermelhos não sente nada num dia nublado (para além talvez de um pouco de frio).
Mas os ultra-violetas estão a atingir a pele e os efeitos só se sentem após o dia de praia.

Por isso, muitos chegam a casa, depois de um dia de praia nublado, com enormes queimaduras solares. Como não sentiram o calor dos infra-vermelhos, não tiverem como ter noção dos ultra-violetas (quando está Sol os dois tipos de radiação estão presentes).
Por isso, os dias nublados são mais perigosos do que os dias de Sol:
como não está calor não há a sensação de incómodo de se estar exposto ao calor. Dessa forma, as pessoas não se protegem nem saem do sol ergo solar ambusti.

Os ultra-violeta não são meramente perigosos e de evitar a todo o custo.
Na verdade, desempenham um duplo papel no corpo humano: apesar de potencialmente cancerígenos, a sua ausência conduz a graves e mortais deficiências no desenvolvimento do feto em gestação. Uma quantidade mínima de ultra-violetas é necessária ao desenvolvimento do feto mas uma quantidade maior do que o necessário provoca cancro de pele. Existe uma estreita faixa de UV necessários e que determinam a quantidade de melanina na pele ou seja o tom da pele.

A ciência já determinou com precisão que o Homo Sapiens surgiu em África há 150 mil anos. (Ver o artigo Ah, a foto de família sobre a evolução humana e Sinto saudades da minha avó sobre o ADN mitocondrial que permitiu confirmar a nossa origem africana)

África é atravessada pelo equador (a linha imaginária que divide os hemisférios Norte e Sul) onde a radiação solar é intensa e os ultra-violetas abundantes. Por isso, a pele dos humanos primordiais era negra, pois a quantidade era tal que mesmo com o corpo coberto de melanina ainda suficientes UV penetravam na pele para um correcto desenvolvimento do feto.

Então o Homo Sapiens saiu de África, o seu berço.
Inclinação dos raios solaresÀ medida que colonizava terras mais a norte (e a sul), ia sendo confrontado com ambientes onde os UV eram menos energéticos (devido à inclinação da Terra esférica em relação ao Sol os UV têm de percorrer uma maior distância antes de chegaram ao solo. Assim perdem energia e chegam menos energéticos). Como tal, muitos fetos sofriam malformaçõies devido à ausência dos UV. Os que sobreviviam eram os que tinham um tom de pele menos escuro, que não bloqueava tão eficazmente os UV. Dessa forma, as populações humanas que iam permanecendo nos territórios muito acima ou abaixo do equador tinham um tom de pele mais claro. Não é uma questão de melhor adaptação sequer. Tratou-se de uma questão de vida ou morte. O ser humano podia ter-se tornado mais peludo à medida que íamos colonizando o Norte mais frio, o que não aconteceu. É que mais pêlo não era uma questão de vida ou morte. Não houve evolução para uma pele mais clara («o termo «branco» é demasiado ridículo sequer para referir). A quantidade certa de melanina já é de vida ou morte.

Filhos da mesma terraSomos verdadeiramente todos africanos. Podemos ter a pele mais clara ou mais escura mas todos somos africanos no nosso âmago. Daí qualquer pessoa (salvo raras excepções como o albinismo, que é a ausência de melanina na pele, e pessoas de qualquer etnia podem ter) apreciam o sol, sentem-se melhor nos dias de Sol do que nos dias de chuva e activamente procuram a praia nos seus dias de folga: são os genes humanos a clamarem pelo nosso regresso à casa onde nascemos e onde ainda agora o ser humano se sente melhor, a terra do Sol e do calor

No título «Queimaduras solares»

Cogitado por Mauro Maia às 21:50 | Cogitar (2)
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Oi. Penso que seria interessante deixar claro: o UVB é cancerígeno e o UVA não. No entanto, este é que causa o envelhecimento prematuro da pele e por isso o bronzeamento artificial não é isento de consequências prejudiciais. Abraço. Cogitado por: Luiz Juliano a julho 15, 2007 07:18 PM
Uma leitura, «Luiz Juliano», ligeiramente(?) mais cuidada revela os seguintes parágrafos: «~ os UVB são também perigosos[...]» e «~ Os UVA não são cancerígenos e são os responsáveis pelo bronzeamento da pele». Quanto a serem os UVA os responsáveis pelo envelhecimento, a ideia para verosímil. Mas não estou, neste momento, na psse de dados que mo confirmam. Agradeço-te, de qualquer modo, a chamada de atenção. Cogitado por: Mauro a julho 15, 2007 08:37 PM